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10.5 Transports effect on network traffic
A discussão em torno da identidade tem assumido cada vez mais relevância nas ciências sociais atuais. Este debate não constituiu ponto central em nossa pesquisa, por isso não fizemos uma revisão da literatura sobre o tema. No entanto constitui-se como um assunto importante para esta dissertação, o que nos leva a fazer algumas contribuições apenas, a partir dos dados empíricos recolhidos, não tendo condições, portanto, de aqui articulá-las com o debate teórico geral sobre o conceito de identidade.
No caso do MAB, salta aos olhos a força da identidade de atingido por barragem, marca do Movimento e reconhecimento mútuo entre seus integrantes e a sociedade. Nos parece que num olhar superficial, característica de muitas das análises sobre movimentos sociais, poderíamos concluir que a identidade de atingido é resultado da organização coletiva no Movimento, sob o qual emergem atores sociais numa situação comum específica, que não depende necessariamente das condições materiais de vida e das relações de trabalho que estão envolvidos. De fato, geralmente a identidade é entendida do ponto de vista cultural – de gênero, etnia, religião etc., a situação de trabalho raramente aparece como formador de identidades e, quando está presente, costuma ser relativizada sobre a forma de representações. A identidade então, é construída a partir da diferença, no processo de diferenciação do “outro”, que se constrói a identidade de um grupo. Na melhor das hipóteses, as diferenças de classes aparecem como mais uma diferença, com a mesma importância que qualquer outra.
Porém, com uma base concreta composta por trabalhadores, como vimos no tópico anterior, suscita-nos uma outra compreensão para a emergência da identidade de atingido por barragem no MAB. Nossa concepção visualiza a categoria “identidade”, em movimentos sociais, como a forma que determinado grupo ou categoria, no interior de uma classe social, apresenta-se para externalizar situações específicas que do contrário, ficariam diluídas nos problemas maiores enfrentados pela classe social a que o grupo pertence como um todo. Logo, identidade se constitui como uma forma de representação, nas quais estão presentes as
características próprias do interior do grupo específico e identificados os grupos aliados geralmente pertencentes também a mesma classe social; bem como os grupos e classes antagônicas.
Num momento de confusão e de esgotamento das representações clássicas de classes sociais, como os sindicatos e partidos, os movimentos sociais passam a ser por excelência o espaço de afirmação da identidade de classe e de sua representação com ator político, para intervir na realidade de forma organizada. Segundo Moraes:
As condições históricas da afirmação de identidade de classe e de uma organização política mais ampla se desenvolvem dentro do mesmo movimento através do qual os trabalhadores se constituem em sujeitos específicos com identidades e linguagens próprias, afirmando e acentuando a sua singularidade e sua diversidade. (MORAES, 1994 p. 56).
A realidade das relações de produção exigiu a adjetivação da identidade de atingido por barragem, de modo a expressar as bases ontológicas da identidade enquanto trabalhadores que sofrem com a expropriação de seus meios de vida por conta de uma barragem. A identidade de atingido no MAB foi construída com o aprofundamento das lutas, a partir de uma nova atribuição de sentido ao significado corrente desta palavra, que passou a descrever um sujeito social e político ativo na defesa do seu território, das suas práticas sociais e do seu modo de vida; contraposto a um outro sujeito representado pelo empreendimento hidrelétrico, o papel da empresa, que interfere e interage negativamente neste espaço e em suas dinâmicas sociais. A compreensão dos significados mais profundos da identidade de atingido e suas adjetivações abre a possibilidade histórica de sua identificação com as outras lutas suscitadas pelas contradições das relações sociais vigentes, sem perder a individualidade de sua luta específica. (MORAES, 1994 p. 300). A identidade, que se apresenta em confronto com um determinado processo de expropriação orquestrado a partir do centro hegemônico e ao lado de outros movimentos de trabalhadores que sofrem processos semelhantes, foi um passo fundamental para a evolução do movimento e para a constituição do MAB na forma como ele se apresenta. Uma vez assumida a identidade de atingidos, o sentido passivo e pejorativo da palavra foi invertido para o sentido ativo e positivo de resistência não apenas contra projetos específicos de intervenção no território, mas contra uma forma de planejamento e desenvolvimento que excluía parcela significativa da população (VAINER, 1995).
Parece-nos que o reforço à idéia de fragmentação de identidades, motivada na maioria das análises sobre movimentos sociais, enquadra-se numa lógica de forças interessadas na dispersão, como forma de dificultar a constituição de uma identidade política de classe. Essa assertiva é visivelmente correta quando observamos a visão das empresas do setor elétrico frente aos atingidos, na sua dimensão da identidade como sujeito ativo e em luta. Há um claro limite no entendimento das lutas contra as barragens. O setor elétrico simplesmente não consegue compreender a resistência dos atingidos contra as barragens. No fundo, para o setor elétrico, os atingidos que se insurgem contra as hidrelétricas não passam de “irracionais”, pois resistem à racionalidade imanente do desejo de desenvolvimento embutido nas barragens. O progresso trazido por estas obras parece ser algo tão inexorável, que é inconcebível a oposição a elas. Desse modo, as hipóteses formuladas pelo setor elétrico para entender a resistência das populações ribeirinhas giram em torno da cultura, lugar da presença de um “radicalismo verde” e da aversão ao progresso: “gente que não gosta de trabalhar”, “preguiçosos”, “vândalos”, pessoas detentoras de uma cultura do atraso.
Ora, ninguém participa de um movimento nas características que possui o MAB - fazendo marchas de dezenas de quilômetros sob sol forte, dormindo em barracos de lona por semanas, sem banho e com alimentação ruim, participando de ocupações arriscadas durante a madrugada, apanhar da polícia, receber tiros de bala de borracha, cacetes, ser preso, ser tachado de baderneiro pela mídia – apenas por questões culturais. A mudança de um modo de vida para outro, mesmo que radicalmente diferente, pode ser traumático para um indivíduo ou grupo, geram resistências, mas as pessoas resistem até um ponto, se a força do agente que promove essa mudança cultural é muito grande, a adaptação acaba ocorrendo logo, sem maiores problemas.
A participação em um movimento social das características do MAB se dá também por questões culturais, mas o mais importante é observar que indivíduos integram o MAB porque vêem-se na iminência de perderem sua fonte de sustento, sua forma de trabalho, seu meio de conseguir comida para si e sua família. Isso é absolutamente concreto na vida de qualquer pessoa e é sobre essa base concreta que emerge a identidade de atingido, a partir da identificação comum dos indivíduos determinada pelas suas relações de trabalho. E mais, essa base concreta interage de forma dialética com a organização que os representa, no caso o
MAB, havendo dessa forma uma identificação entre estas duas esferas com capacidade de reforçar a identidade.
2.5– OS ATINGIDOS POR BARRAGENS E OS ATINGIDOS PELA POLÍTICA ENERGÉTICA: A LUTA