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Esta situação dos atingidos por barragens só poderia resultar em resistência, manifestando-se seja no indivíduo, frente a eminente expropriação, ou coletivamente em forma de conflito social. Historicamente o que tem garantido alguns direitos dos atingidos sintetiza-se na frase “quanto mais povo organizado, mais poder”. Estabelece-se uma correlação de força entre os atingidos e as empresas construtoras de barragens. Quanto mais resistência, quanto mais organização, menores são as chances das empresas ignorarem os atingidos e maiores são as condições para reparações e garantia de direitos. A cada conquista dos atingidos, abre-se precedentes para que outros atingidos tenham as mesmas garantias. Muitas vezes os direitos que em algumas regiões atingidas já parecem naturais, como por exemplo o direito a reassentamento (VAINER, 2003), só foram reconhecidos pelas empresas após intensa mobilização popular dos atingidos.

A resistência começou a ficar mais evidente a partir da década de 1970, quando foi intensificada no Brasil a construção de grandes barragens. O regime autoritário existente

detinha mecanismos repressivos com amplo poder de sufocar qualquer forma de organização popular em áreas de barragem, logo no seu início, dado o aparato estatal que se instalava nas regiões de projetos de hidrelétricas para efetivar a obra. No contexto da abertura política no final da década de 1970, surgem as condições para a emergência de movimentos organizados de populações atingidas por barragens. Destes, destacamos três focos principais.

O primeiro no Nordeste, quando UHE Sobradinho no Rio São Francisco deslocou mais de 70.000 pessoas, e mais tarde com a UHE Itaparica que atingiu 40 mil pessoas. A organização popular em Sobradinho foi contida pelo regime autoritário. Já Itaparica construída alguns anos mais tarde, propiciou a constituição de um movimento social articulado a partir dos sindicatos de trabalhadores rurais, que constituíram o Pólo Sindical do Sub-Médio São Francisco. Esta organização seria responsável pela realização de intensa mobilização popular, que culminou em outubro de 1985, quando cinco mil trabalhadores atingidos ocuparam e paralisaram o canteiro de obras da UHE Itaparica.

O segundo foco foi constituído na região Norte do Brasil, frente a UHE Tucuruí que inundou 2.830 km2 de florestas no Pará. Em 1981, constituiu-se Movimento dos Expropriados pela Barragem de Tucuruí. Estima-se em aproximadamente 30 mil os atingidos pela obra, embora pouco mais de cinco mil pessoas que detinham algum título de propriedade na área alagada tiveram ressarcimento, mesmo que insuficiente. Os “caboclos” que viviam na beira do Rio Tocantins foram ignorados, com o enchimento do reservatório acabaram transferindo sua moradia para o topo dos morros, que hoje formam as mais de duas mil ilhas existentes no lago artificial. A jusante da UHE Tucuruí houve colapso nos recursos pesqueiros, que levou fome às famílias que dependiam do rio Tocantins para se alimentar.

O terceiro foco de resistência foi localizado no sul do Brasil, a partir do início das obras da UHE Itaipu em 1978, e do anúncio da construção das hidrelétricas de Itá e Machadinho, planejadas dentro de um conjunto de 22 barragens para a bacia do Rio Uruguai. Destas duas últimas UHEs, emerge a Comissão Regional dos Atingidos por Barragens (Crab), principal grupo regional promotor do surgimento do MAB.

O ponto comum existente nestes três focos principais, além de outros pelo Brasil, é a luta inicial pela garantia de indenizações justas e reassentamento. Com o desenvolvimento do processo histórico, esta luta evolui para o próprio questionamento da construção da barragem.

A evidência das contradições em que estão envoltos, a dificuldade em obter qualquer conquista através de sua luta isolada leva os atingidos a perceber que além da resistência no seu rio, deveriam se confrontar com o modelo energético como um todo. O reconhecimento mútuo dos atingidos como partícipes de uma luta comum, o contato com o movimento sindical em efervescência em todo o país, a ação organizadora dos setores progressistas da Igreja Católica; são todos elementos que passam a fomentar o sentimento de uma maior organização dos atingidos por barragens no Brasil.

Em 1988, a Crab procura o Departamento Nacional de Trabalhadores Rurais da CUT com a proposta de uma articulação nacional dos movimetos de atingidos espalhados pelo Brasil. Com presença em todo o Brasil, a CUT ajuda a promover encontros regionais entre os atingidos no Pará, Amazonas, Rondônia, Pernanbuco (reunindo também atingidos do CE, AL, SE e BA), Minas Gerais (junto com RJ) e no Rio Grande do Sul (reunindo também SC e PR). Todos os encontros regionais escolhem delegados para o I Encontro Nacional de Trabalhadores Atingidos por Barragens, realizado em abril de 1989 em Goiânia / GO.

Além dos delegados, outros grupos de atingidos que não haviam participado dos encontros regionais enviaram representantes, assim como, sindicatos, pastorais sociais e organizações de apoio. No encontro houve consenso sobre o caráter das indenizações e reassentamentos, que remediam um fato consumado, não repondo os custos sociais e ambientais das barragens. Porém, abriu-se polêmica, que manifestaria-se com mais força apenas nos anos seguintes, sobre o caráter da organização dos atingidos por barragens no que tange a constituição de movimentos autônomos com identidade própria ou, se os atingidos deviam organizar-se dentro dos movimentos tradicionais da classe trabalhadora. O encontro, refletindo visão unitária naquele momento, reconhece como positivas a diversidade e especificidades regionais das formas organizacionais dos atingidos, e ressalta a experiência da Crab e do Pólo Sindical como emblemáticas. A Crab como organização autônoma, e o Pólo como integrado ao movimento sindical.

Da Carta de Goiânia6, documento final do encontro, o primeiro ponto pede a “elaboração de uma nova política para o setor elétrico com a participação da classe trabalhadora”. A constituição de uma organização forte a nível nacional é a principal decisão

dos atingidos. Uma comissão foi formada com a missão de preparar o I Congresso Nacional dos Trabalhadores Atingidos por Barragens, que se realiza em nos dias 12, 13 e 14 de março de 1991 e decide fundar oficialmente o MAB7. Do congresso em diante, podemos notar dois períodos distintos da existência do MAB como movimento popular nacional: o primeiro, da data de fundação até aproximadamente 1999, quando o MAB funciona numa estrutura semelhante a uma federação de movimentos regionais; e o segundo período, já neste século, do MAB como movimento popular efetivo a nível nacional.

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