A observação é uma das mais importantes fontes de informações em pesquisas qualitativas em educação, pois sem observação não há ciência (VIANNA, 2003). De acordo com Stake (2007), a observação dirige o pesquisador para a compreensão do contexto, com necessidade de se fazer um registro muito apurado para propiciar experiência vicária ao leitor, fornecendo uma descrição incontestável que sirva para futuras análises e para o relatório final. Para esse autor, a observação tem contribuído para o desenvolvimento do conhecimento científico, especialmente para coletar dados de natureza não verbal, como situações comportamentais. Vianna (2003) afirma que a observação, embora envolva o órgão da visão, certos dados podem ser obtidos por intermédio de outros sentidos, como a audição, o tato, o olfato, representando o uso da totalidade dos nossos sentidos para reconhecer e registrar eventos factuais.
Especialmente no campo das dificuldades escolares em crianças, se faz importante um observador mais apurado, pois, muitas vezes, as crianças não expressam seus afetos,
sentimentos e emoções por meio da fala. É importante lembrar, também, que a escola é fruto de uma organização social e, muitas vezes, expressa sua função por mecanismos não verbais, existindo no espaço escolar muitos silêncios repletos de significados.
Assim, a pesquisa privilegiou a observação direta, aberta, no ambiente escolar, das seguintes situações:
Trabalho desenvolvido pelos profissionais da EEAA: no contato com as famílias dos estudantes participantes da pesquisa; nas avaliações pedagógicas e psicológicas realizadas no contexto das salas de atendimento das Equipes e no contexto escolar de forma geral, quando esta avaliação aconteceu em outros espaços e momentos, como, por exemplo, nos intervalos e atividades extraclasse; na atuação dos profissionais das EEAA junto aos professores em coletivas, coordenações, oficinas, conselhos de classe; nas devolutivas das avaliações para a comunidade escolar e para as famílias; nas orientações à comunidade escolar e à família; no atendimento direto pelos profissionais da EEAA aos alunos participantes da pesquisa. Frisamos que, em tese, seriam realizadas observações do contato das profissionais das Equipes envolvidas na pesquisa com as professoras dos alunos escolhidos como partícipes para compreensão da queixa escolar formulada pelas mesmas, sendo esta a primeira etapa prevista pelo PAIQUE, porém isto não aconteceu. Abordaremos as justificativas mais à frente.
Reuniões institucionalizadas: coordenações, reuniões pedagógicas coletivas, conselhos de classe quando as profissionais das Equipes participaram com o objetivo de tratar de questões pedagógicas referentes aos alunos acompanhados na pesquisa.
Trabalho pedagógico das professoras em sala de aula com os estudantes participantes da pesquisa.
As observações foram realizadas de forma sistemática, registradas em um diário de campo, durante o ano letivo de 2012. As notas de campo são anotações contemporâneas realizadas no ambiente da pesquisa ou “imediatamente após sair dele, para registrar palavras, frases ou ações fundamentais de pessoas em investigação” (GIBBS, 2009, p. 46). Dessa forma, foram anotadas em cadernos, as ações dos participantes, formando uma trajetória
temporal da pesquisa, ao mesmo tempo em que eram inclusos comentários, percepções e ideias, até mesmo para a análise.
Inicialmente foi previsto observar situações que dissessem respeito aos alunos acompanhados que permanecem no processo de avaliação/intervenção realizado pelo SEAA, principalmente no ambiente das Equipes, ou seja, se estes alunos passassem ao nível (Nível 3 da Intervenção em situação de queixa escolar) do atendimento direto conforme a OP/2010 do SEAA. As observações persistiriam em todos os momentos em que o trabalho do SEAA fosse dirigido aos casos acompanhados e em situações institucionalizadas em que a situação dos alunos participantes da pesquisa estivessem em questão. Ressaltamos que os alunos acompanhados nas duas escolas não chegaram ao nível do atendimento direto, cujos motivos serão expostos mais adiante. Contudo a pesquisa se estendeu até dezembro de 2012, encerrando quando aconteceu a devolutiva do processo de avaliação e intervenção realizado pela EEAA da Escola do Ipê, segunda escola investigada. Em dezembro de 2012 ainda estive na Escola Jequitibá, para conversar com a professora da estudante acompanhada e com a EEAA desta escola para levantar dados sobre o desempenho escolar desta aluna e do Registro de Avaliação (RAV).
A princípio, as observações foram realizadas no contexto das salas de atendimento das EEAA nos contatos com as mães, antes de se iniciar o processo de avaliação/intervenção com os estudantes selecionados com a intenção de levantar dados e obter a autorização para o trabalho. Depois a observação se voltou para as atividades pedagógicas das professoras em suas salas de aula, principalmente observando-se as intervenções junto aos estudantes envolvidos na pesquisa. O contato que as profissionais das EEAA das duas escolas estabeleceram com as professoras dos estudantes investigados não pode ser observado em sua totalidade devido à própria dinamicidade do atendimento, ou seja, algumas vezes os contatos não eram marcados antecipadamente, aconteciam em diversos momentos dentro da escola; em dias que a pesquisadora não se encontrava presente. As situações em que os contatos com as professoras foram antecipadamente marcados ocorreram nas devolutivas realizadas após o término do processo de avaliação/intervenção realizado pelas duas equipes do SEAA.
Cumpridos os procedimentos iniciais de busca do entendimento da queixa escolar junto à família, passamos a observar a atuação das pedagogas e das psicólogas junto aos alunos selecionados no ambiente das salas de atendimento destas equipes. Em ambas as escolas as profissionais trabalharam de forma individualizada na aplicação de seus
instrumentos pedagógicos e psicológicos, geralmente realizando diversas sessões com os estudantes que eram atendidos sempre individualmente. Para poder acompanhar estas ações foi necessário nos adaptarmos às agendas das profissionais, com um quantitativo grande de alunos encaminhados e sempre com muitos compromissos e atribuições. Simultaneamente aos atendimentos pedagógicos e psicológicos, de ambas as equipes, aconteceram as observações do trabalho pedagógico do professor em sala de aula, em dias ou horários em que a pesquisadora não acompanhava o trabalho destas profissionais com o estudante investigado.
Devido à especificidade do trabalho desenvolvido pelas EEAA, a frequência das observações realizadas pela pesquisadora não pôde ser determinada com precisão, pois respeitou as necessidades e momentos de avaliação e intervenção com os estudantes (número de sessões determinadas pelas profissionais). Estas necessidades estavam relacionadas ao ritmo de respostas dos próprios estudantes às atividades pedagógicas aplicadas, aos testes por escolhidos pelas profissionais (que poderiam ser mais demorados ou mais rápidos para aplicar e até mesmo para responder, dependendo do ritmo de execução deste aluno), e até à frequência escolar, pois houve momentos em que não foi possível dar continuidade ao processo porque o estudante havia faltado. Além destas especificidades, associadas diretamente aos estudantes, existiam aquelas relacionadas ao trabalho destas profissionais com outros estudantes (que também deveriam ter seus ritmos respeitados) e com outros profissionais, dentro e fora das escolas de atuação. No caso da primeira equipe, as profissionais do SEAA, além de suas atribuições gerais e extraoficiais, mantinham um tempo para discussão dos casos entre si, além de atender às demandas da Orientação Educacional, cargo sem profissional nesta instituição.
Na fase de projeto de pesquisa pontuamos a possibilidade de que os estudantes dos casos selecionados pudessem superar aspectos relacionados à queixa inicial em qualquer um dos níveis do PAIQUE, inclusive no primeiro (intervenção junto ao professor e escola) encerrando assim, o processo e investigação em relação a este aluno. Este fato culminaria na aplicação do último instrumento de geração de dados da pesquisa, um questionário, a ser utilizado pela pesquisadora junto às professoras, com o objetivo de captar as percepções destas em relação: ao serviço de avaliação/intervenção prestado; a evolução da queixa; ao progresso e desempenho do aluno. Este questionário foi submetido às duas professoras somente ao final do segundo semestre de 2012. Para a professora da Escola Ipê, foi aplicado após o término do processo de avaliação/intervenção feito pela EEAA que só ocorreu no fim
do mês de novembro. Para a professora da Escola Jequitibá, o questionário não pôde ser aplicado presencialmente, pois a mesma não dispunha de tempo para tal. Dessa forma, a solução encontrada foi enviar o questionário final à professora por meio de correio eletrônico, que o respondeu por escrito e o reenviou no dia 19 de dezembro de 2012. Ele também foi aplicado ao final do semestre, após a devolutiva da EEAA desta escola à professora e à mãe da estudante participante, o que aconteceu no dia 29 de setembro. Ainda no projeto de pesquisa havíamos ressaltado que o processo de avaliação e intervenção efetuado pela EEAA poderia chegar até o Nível 3 do PAIQUE, ou seja, intervenção junto ao aluno, como foi o caso da estudante da Escola Jequitibá. Estas situações alteraram o cronograma de execução de pesquisa, alongando-a no tempo, pois estivemos em campo até meados de dezembro de 2012.
A observação atendeu a dois objetivos: à coleta de dados e à complementação de informações coletas por outras fontes. Esse procedimento de coleta de dados foi utilizado para captar formas de atuação e práticas pedagógicas utilizadas pelo professor em relação aos alunos em situação de queixa escolar; para observar a consonância da atuação da EEAA com as diretrizes da OP (GDF, 2010) e para identificar possíveis incoerências pela entrevista e análise de documentos referentes ao aluno, como por exemplo, os registros dos atendimentos aos alunos realizados pelas duas equipes do SEAA, os Relatórios de Apoio ao Docente feitos pelas profissionais do SEAA como subsídio ao trabalho pedagógico e os Registros de
Avaliação (RAV) de cada um dos estudantes da pesquisa. Destacamos que o RAV é um
relatório que deve ser produzido ao final de cada bimestre pelos professores, como subsídio ao processo de aprendizagem, mas nas duas escolas eles foram feitos apenas no fim do ano letivo.