A - Modelo de J. Soares e C. Tavares da Silva
J. Soares e C. T. da Silva foram os primeiros investigadores a proporem um modelo estruturado para o desenvolvimento do Mesolítico da Costa Sudoeste do território português. As primeiras tentativas para este modelo remontam ao início dos anos oitenta (Silva e Soares, 1981), com maior desenvolvimento em trabalhos posteriores, datados já dos anos noventa e da última década (principalmente em Silva e Soares, 1997, e Soares e Silva, 2004). Outros estudos publicados pelos autores em conjunto ou unicamente por J. Soares têm focado com mais detalhe a transição do Mesolítico para o Neolítico (p.ex. Soares, 1993, 1996 e 1997; Soares e Silva, 2003) .
Soares e Silva focam a atenção no que consideram ser, no essencial, “a evolução das formas socio-económicas de adaptação costeira” (1997, p. 102) como reacção, essencialmente, às modificações paleoambientais do Holocénico; ou seja, de que forma estas modificações no ambiente provocam alterações na captação de recursos, e consequentemente nas estratégias de subsistência, e se reflectem nos padrões de povoamento e estruturas sociais das comunidades de caçadores-recolectores do início do Holocénico da Costa Sudoeste portuguesa. O ênfase é, portanto, colocado nesta “economia costeira ou de mar” que os autores observam como denominador comum à grande maioria dos sítios datados deste período, não obstante a variabilidade observada no espectro de recursos inventariados nos sítios arqueológicos. Assim, e tendo como base a actividade da recolha de marisco, os contextos arqueológicos com depósito conquíferos ao logo do Mesolítico (sentido lato) dividem-se em dois grandes grupos:
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• Depósitos caracterizados por largo espectro faunístico, onde se observam
essencialmente invertebrados marinhos ou estuarinos, acompanhados de peixes e mamíferos. Servem de exemplo a camada inferior do Castelejo, a Samouqueira I e Fiais (ver subcapítulo 4.4 para desenvolvimento da arqueologia dos contextos mencionados neste texto).
• Depósitos caracterizados por curto espectro faunístico, onde foram
recuperados apenas restos de invertebrados marinhos ou estuarinos, normalmente com domínio de uma ou duas espécies (com concentração da exploração de um só nicho ecológico) e com presença rara de artefactos. Segundo os autores, é o caso da Pedra do Patacho e dos níveis médios do Castelejo.
Os autores consideram que esta actividade de marisqueio corresponde a um segmento do sistema económico, pois dificilmente esta subsistência seria auto ou mono sustentável; tratar-se-iam certamente de estabelecimentos temporários. Numa primeira interpretação dada a estes contextos, Soares e Silva (1997, p. 103) observam a mudança de padrões entre o que consideram Epipaleolítico e Mesolítico (ver subcapítulo anterior para a definição destes termos pelos autores), não obstante notarem a falta de dados para o primeiro:
• No Epipaleolítico o marisqueio é a principal actividade de captação de recursos
alimentares em ocupações de curto período em ambiente marinho ou de estuário, revelando um sistema de mobilidade “provavelmente residencial”. Este Epipaleolítico é, mais recentemente, dividido em dois momentos: um ainda datado do Dryas III, e assinalado somente na Pedra do Patacho; outro,
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mais recente, intitulado Epipaleolítico Pleno, que abarca contextos já datados do Holocénico (Soares e Silva, 2004).
• No Mesolítico (e, depois, no início do Neolítico) o marisqueio é apenas um
segmento económico, observável também em ocupações de curto período (intercalados por visíveis momentos de abandono), mas desta feita num regime de mobilidade que os autores consideram de “nitidamente logística”, seja por razões de recolha de recursos malacológicos, seja para obtenção de matéria- prima siliciosa (idem). Apesar de nestes locais o marisqueio ser a principal actividade económica de subsistência, existiriam em paralelo outros estabelecimentos de regime mais estável, onde seria praticada uma economia de maior espectro.
A partir destas observações, Soares e Silva (1997, pp. 103 e ss.) presumem, com alguma cautela face à falta de mais dados, que as comunidades humanas do Epipaleolítico estariam extremamente dependentes dos recursos costeiros e estuarinos locais, o que, como tal, evidencia a presença de pequenos grupos nómadas, num regime de baixa densidade populacional, de economia simples e elevada mobilidade ao longo de extensas áreas territoriais. A deslocação para o litoral estaria possivelmente relacionada com a riqueza dos recursos naquele local e seria feita de forma sazonal (os autores, com base na presença do
Paracentrotus lividus [ouriço do mar], avançam com a ideia de ocupações do final do
Inverno/inícios da Primavera; idem, p. 102), configurado um fenómeno que apelidam tentativamente de litoralização (Soares e Silva, 2004, p. 408). A partir dos dados da Pedra do Patacho (Soares e Silva, 1993) consideram também que a dependência evidenciada por tais recursos (de baixo valor calórico) “pode ser interpretada como um indicador de
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empobrecimento ou declínio de recursos alimentares de maior rendimento (caça grossa)” que tornariam a recolha de marisco uma actividade mais apelativa (Soares e Silva, 1997, p. 103). Esta interpretação é, sequentemente, defendida pela apresentação dos valores tradicionais do «Optimum Diet Model» (relação peso animal e peso das proteinas correspondentes; comparação de valores calóricos entre grandes herbívoros como o veado e moluscos; estimativas de tempo de captura entre os mesmos tipos de animais; e necessidades proteicas e calóricas dos humanos e sua satisfação mediante o consumo de moluscos). Mesmo o Castelejo, cujos níveis mais antigos revelaram uma maior variedade de recursos, parece indicar uma exploração extremamente localizada do território, na envolvente imediata do sítio, o que, segundo os autores se coaduna com um conceito de mobilidade residencial.
Esta concentração junto à costa, normalmente especializada em termos económicos, encontra um contraposto no sítio dos Palheirões do Alegra (Vierra, 1995; Raposo, 1994), onde, apesar da proximidade da costa, não foram observados restos orgânicos. Ao invés, foi ali assinalada uma grande quantidade de artefactos e indústria lítica em geral, tanto de tipologia macrolítica (normalmente em grauvaque e quartzito, pouco especializada, no que consideram ser tecnologia de tipo expedito; Soares e Silva, 2004, pp. 406-407), como de tipologia microlítica (em sílex e outras rochas siliciosas, tipologicamente especializada, de tecnologia de tipo uso-intensivo; idem). Segundo os autores, tratar-se-ia, muito provavelmente, de um acampamento de base ou um sítio de habitat de sedentarização funcional, com economia presumivelmente mais diversificada.
Após as primeiras publicações sobre a Barca do Xerês de Baixo, os autores alargaram o modelo proposto (Soares e Silva, 2004): estas economias costeiras (e normalmente especializadas na recolecção de marisco) articular-se-iam, em paralelo, com outras economias
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de subsistência, observáveis no interior do território, possivelmente junto a grandes rios, tratando-se, de modo provável, de ocupações sazonais de inverno, onde predomina a economia de caça (p. 406).
Nos contextos mais recentes datados do Atlântico (i.e., segundo os autores, ocupações do Mesolítico onde são abundantes os geométricos e ocupações do Neolítico Antigo) continua a registar-se uma preferência pelos recursos marinhos e estuarinos, com multiplicação de sítios justo à costa e rios, no que os autores consideram ser um resposta às alterações climáticas, ambientais e de linha de costa (idem). Durante este período podem-se distinguir no território da Costa Sudoeste dois tipos de sítio, conforme as suas funcionalidades (Soares e Silva, 1997 e 2004), que marcam uma estratégia de mobilidade logística ao longo de um território consolidado:
• Estabelecimentos de base: com diversidade de faunas (para lá das marinhas e
estuarinas), alta densidade de artefactos e complexificação das estruturas (que consideram indiciar a presença de práticas de armazenamento), bem como áreas de ocupação mais amplas (por vezes com funções funerárias). Os exemplos dados são os da Samouqueira I e Fiais.
• Acampamentos economicamente especializados: com lista faunística reduzida
(grande maioria contextos compostos por moluscos), baixa densidade de artefactos e área reduzida de ocupação (se bem que podem existir várias ocupações sobrepostas). A este tipo corresponderiam, por exemplo, os Montes de Baixo, o Castelejo (níveis médios) e a Armação Nova (e Rocha das Gaivotas), com ocupações sazonais.
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Diga-se, finalmente, que Soares e Silva (1997, 2003 e 2004, entre outros) defendem a transição das populações mesolíticas autóctones para o modo de vida neolítico, em que a primeira vertente é a passagem da economia de caça-recolecção para a economia caça- recolecção-armazenamento. Como factor instigador desta mudança, apontam a estabilidade dos recursos costeiros e estuarinos como causa de maior sedentarização e consequentemente crescimento demográfico (Soares e Silva, 2004, p. 415; para ideia diversa, ver Stiner, 2003). Notam, também, que este processo pode ser observado na manutenção dos padrões de localização dos habitats entre o Mesolítico e o Neolítico.
B - Modelo de Bicho e colaboradores
Os trabalhos arqueológicos realizados por N. Bicho e colaboradores no Barlavento Algarvio (principalmente no Barranco das Quebradas e na Rocha das Gaivotas) resultou numa série de novos dados que permitiram avançar com algumas propostas para explicação e caracterização do Mesolítico nesta região (Bicho 2003 e 2004; Bicho et al. 2000 e 2003b; Carvalho, 2007; Carvalho e Valente, 2005; Stiner, 2003; Stiner et al. 2003; Valente e Carvalho, no prelo). Grande parte destas propostas baseia-se na comparação entre as ocupações humanas registadas na região entre o fim do Paleolítico Superior (Vale Boi, Ponta Garcia e Praia da Galé) e o Neolítico antigo (Vale Santo, Rocha das Gaivotas, Ribeira de Alcantarilha, Padrão e Cabranosa); no entremeio, situam-se os sítios pós-glaciares de comunidades de caçadores-recolectores (Barranco das Quebradas, Rocha das Gaivotas/ Armação Nova, Castelejo e Monte do Azureque). Os critérios de comparação utilizados prendem-se, no essencial, com a localização dos sítios, o sistema de povoamento, a
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exploração de recursos líticos e animais, a tecnologia e a organização interna das ocupações (Bicho, 2004, p. 386).
Os sítios do Máximo Glaciário e do Tardioglaciar situam-se em vales abertos onde a visibilidade do território é ampla. Neles, a subsistência é marcada pela exploração acentuada dos ungulados (veado e equídeos, principalmente), com pouco recurso a animais marinhos ou estuarinos, aspecto que não é de estranhar tendo em conta que se localizariam a várias dezenas de quilómetros da costa. Contudo, é necessário termos em conta que grande parte do território costeiro então exposto se encontra actualmente submerso pela transgressão marinha (N. Bicho calcula um avanço da linha de costa de cerca de 20 km em relação à actual), pelo que certamente faltam elementos essenciais para o estabelecimento de considerações mais completas sobre o sistema de povoamento do Solutrense em diante. O registo arqueológico demonstra também que a obtenção de matéria-prima é essencialmente regional ou local, na sua maioria sílex da área de Sagres ou outros materiais rochosos (grauvaque e quartzo), com alguma rara incidência de sílex exógeno (Bicho, 2004).
O fim do Tardioglaciar e o início do Holocénico nesta área estão marcados por um hiato, onde o Magdalenense Final parece não existir (note-se que a cronologia do Magdalenense é desconhecida) e onde as ocupações pós-glaciares só se iniciam a cerca de 9.200 BP (data mais antiga para o Barranco das Quebradas 1). Entre os sítios arqueológicos desta época e os que conhecemos da época procedente as diferenças são evidentes. A primeira alteração prende-se com a implantação, que é agora em arribas altas junto à costa (Rocha das Gaivotas/Armação Nova) ou em pequenos vales encaixados que não distam muito da linha costeira (Barranco das Quebradas e Castelejo) (um padrão que, aliás, se irá prolongar pelo
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Neolítico Antigo; Bicho, 2004 e Carvalho, 2007). A matéria-prima lítica mais utilizada continua a ser o sílex e, depois, o grauvaque; todavia, não há materiais exógenos à região.
Em paralelo, a indústria lítica assume dois formatos (Bicho, 2004, p. 385): macrolítica, essencialmente feita em grauvaque local, em que a tecnologia é expedita e com cadeias operatórias semelhantes às do Paleolítico Superior; e microlítica, com uso do sílex regional, cujas cadeias operatórias variam das do período anterior e marcadas pela quase ausência de geométricos (ao contrário do que vemos durante o Mesolítico [de idade Atlântica] em outras regiões). É chamada também a atenção para a existência de estruturas de combustão de dimensão razoável, de formato normalmente circular ou oval, estruturadas com seixos ou blocos pétreos de origem local, nomeadamente na Rocha das Gaivotas, ou o elevado número de clastos fracturados termicamente (Bicho, 2004; Carvalho e Valente, 2005; Valente e Carvalho, no prelo).
Com o início do período pós-glaciar, a mudança das estratégias de subsistência é também óbvia: nos contextos ocupacionais abundam os invertebrados marinhos. As espécies animais presentes reflectem as condições geográficas locais (habitantes de substracto essencialmente rochoso) e a variável ordem de abundâncias relaciona-se provavelmente com a quantidade disponível para recolha de cada espécie nos ecossistemas ao longo do tempo ou, eventualmente, com a evolução das preferências culturais das comunidades humanas (Bicho, 2004). Raros são os contextos em que o espectro faunístico é mais amplo; os níveis inferiores do Castelejo são a mais óbvia variação, com a presença de coelho (reduzida), embora também tenham sido observados restos de vertebrado indeterminado no Barranco das Quebradas (Valente e Carvalho, no prelo; ver subcapítulo 4.2).
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A localização dos sítios, a composição dos materiais líticos e faunísticos e as características genéricas das ocupações sugerem, assim (e tal como Soares e Silva já tinham assinalado para a Costa Alentejana), que estas tenham sido curtas no tempo e de eminente carácter logístico, especializadas na recolha de marisco e, por vezes, na obtenção de sílex (esta vertente é mais tardia, já em contextos do período Atlântico). Tal realidade é, muito provavelmente, parcelar: deverão existir outros locais, actualmente não identificados, de ocupação mais extensa e de tipo residencial, em que os recursos animais explorados são também diferentes (nomeadamente com a presença de ungulados e lagomorfos). Esses sítios podem assumir contornos semelhantes ao sítios de Fiais e Vidigal, localizados mais a norte, junto ao Rio Mira (Bicho, 2004; Carvalho e Valente, 2005; Valente e Carvalho, no prelo).
Esta ausência de elementos de continuidade com o Paleolítico Superior, levou Bicho a considera que “este sistema cultural deve ser considerado como Mesolítico e não como Epipaleolítico” (2004, p. 386), não existindo até ao momento um verdadeiro Epipaleolítico no Barlavento Algarvio.
Finalmente, em relação à passagem para o Neolítico, vários dos autores (entre outros, Bicho, 2004; Bicho et al., 2003b; Carvalho, 2007; Stiner et al., 2003) têm defendido que neste processo é evidente um prolongamento do sistema de vida mesolítico (padrões locativos, estratégias de subsistência, características das indústrias líticas; Stiner [2003] advoga também, com base na estabilidade do consumo de moluscos e na malacometria ao longo do tempo, que a densidade populacional não terá sofrido alterações evidentes). Os mais antigos sítios do Neolítico Antigo identificados na região (a cerca de 6500 BP) têm apenas uma componente do chamado pacote neolítico, a cerâmica; a domesticação de plantas e
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animais terá surgido apenas mais tarde. Tal prolongamento deverá reflectir o êxito do modo de vida mesolítico na região.