2. Theoretical background
2.2 Localization theories
2.2.2 Transport costs
Conforme exposto nos três capítulos anteriores, o funcionamento da narrativa jornalística foi definido a partir de um modelo que combinava as asserções de Certeau acerca da escrita (como uma atividade que não pode ser apartada do lugar social de sua produção, bem como das práticas profissionais a partir das quais ela é exercida e das regras genéricas de escrita), com a análise da narrativa proposta por Ricoeur acerca das três mímeses (que incorporam esses elementos enquanto virtualidades que se atualizam em um texto) e dos contornos que a última fase da obra de Barthes dá ao conceito de código narrativo (como forma de materialização desses contornos narrativos).
Existem, contudo, algumas questões de ordem prática que necessitam de uma discussão mais pormenorizada no que diz respeito aos procedimentos de pesquisa.
É necessário deixar claro que o objetivo do presente trabalho não é realizar uma análise de todos os códigos padrões de narração que estão articulados nas revistas do
corpus proposto, mas sim, entender, a partir desses códigos, quais foram as
modificações que a narrativa da reportagem em revista sofreu ao longo do século XX. Nesse sentido, serão analisados apenas os códigos padrões de narração que sirvam a esse objetivo e que, portanto, mostrem rupturas, descontinuidades e diferenças no modo como os jornalistas contavam as suas estórias. São as diferentes estratégias discursivas
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que foram utilizadas ao longo do tempo no processo de semantização do acontecimento que nos interessam dentro desse quadro e que serão, portanto, exploradas.
Sob essa perspectiva é interessante notar também que a análise sistemática de todos os códigos, aliás, é um procedimento cuja viabilidade é posta em dúvida pelo próprio Barthes, uma vez que um texto é formado por um conjunto muito vasto de estruturas que se sobrepõe e cuja sistematização depende, em última análise, dos interesses e objetivos do próprio pesquisador. A sua própria análise não estava vinculada a uma tentativa de delimitação de todos os códigos narrativos presentes em
Sarrasine.
Também é necessário demarcar uma outra questão: já anunciamos que não serão os códigos padrões de narração mapeados por Barthes (proairético, hermenêutico, semas, simbólico e cultural) que servirão como base da análise para as revistas propostas. Obviamente, todos esses cinco códigos são estruturas atuantes nos textos jornalísticos, de forma que podemos ver, com bastante clareza, que toda reportagem é composta por certo conjunto de personagens que formam um sistema (código proairético), por elementos que articulam um enigma a ser resolvido e que motiva, muitas vezes, a pauta a ser noticiada (código hermenêutico) e é organizada de acordo com determinados recortes que delimitam variações dentro do texto (código simbólico). Assim como também é possível mapear, facilmente, que toda reportagem contém unidades aglomerativas de sentido (semas) que são suportadas por discursos circulantes ligados ao saber socialmente compartilhado de uma época histórica (código cultural).
Apesar da evidente aplicação desses códigos nas estórias que compõem a imprensa, eles não nos ajudam, contudo, a entender quais foram as mudanças sofridas pela forma da narrativa jornalística ao longo do tempo. É nesse sentido que é necessário buscar outros códigos padrões de narração que articulem essa problemática.
Uma vez isso posto, é necessária a estipulação dos parâmetros metodológicos, portanto, que devem ser utilizados para a demarcação desses códigos na reportagem em revista. Trata-se de códigos que não estão delimitados a priori e, portanto, é necessário que sejam explicitados o conjunto de princípios que irão nortear essa demarcação.
Para que isso possa ser feito, nós nos aproveitaremos de uma distinção entre a noção de função e o conceito de código narrativo para que possamos delimitar um conjunto de protocolos de análise que perpassará o conjunto das revistas estudadas e que nos permitirão fazer o recorte dos códigos narrativos no texto.
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Ora, apesar das inúmeras mudanças sofridas pela narrativa da reportagem em revista ao longo do tempo, o texto final que articula essas modificações sempre recebeu o mesmo nome enquanto gênero discursivo: reportagem. Existem, portanto, algumas características desse gênero do discurso que nos permite classificá-lo enquanto uma produção textual específica, uma reportagem, mesmo que o texto em si tenha se modificado de forma evidente ao longo do século XX.
Para nos referirmos a essas características invariantes da reportagem que nos permitem classificá-la enquanto tal, utilizaremos o termo funções. Nesse quadro, as funções dizem respeito a elementos textuais que, acionados a partir de diferentes estratégias discursivas, enunciam uma propriedade característica de um gênero do discurso ou de uma prática, no nosso caso, a reportagem.
Em contraste com a invariabilidade das funções, os códigos padrões de narração passam a funcionar como o modo a partir do qual essas funções se materializam, de diferentes formas, na narrativa. Em outros termos, são as variações estéticas em torno das quais uma função se articula, são as diferentes formas do sensível a partir das quais essas funções são enunciadas.
Sob esse ponto de vista, é possível entender os códigos padrões de narração como articulações e variantes que materializam, em um texto, determinadas características que se mantém ao longo do tempo a partir de diferentes formas e estratégias narrativas.
Em uma reportagem, portanto, uma mesma função pode ser engendrada a partir de diferentes códigos de narração, seja sob o ponto de vista sincrônico (os diferentes códigos de narração que se materializam no interior do próprio texto e que remetem a uma mesma função), seja sob a perspectiva diacrônica (os modos historicamente marcados a partir dos quais uma mesma função foi articulada por diferentes códigos narrativos ao longo da história da narrativa da reportagem em revista).
É justamente essa distinção entre as funções da reportagem e os seus códigos padrões de narração que servirá como parâmetro metodológico para o nosso estudo. Isso porque utilizaremos as funções (invariantes) como pontos-chave de ancoramento para a eleição dos códigos (variantes) que serão demarcados, sistematizados e analisados.
Em outros termos, o ponto metodológico nodal que estruturará o recorte dos códigos narrativos no interior de um texto estará fundado tendo como parâmetro o modo
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como diferentes códigos padrões de narração, ao longo da história do jornalismo de revista, demarcaram as mesmas funções.
Uma vez resolvido esse problema, nos deparamos imediatamente com outro: a escolha das funções que servirão como esse ponto de ancoramento para a delimitação dos códigos narrativos. De fato, são muitas as características invariantes do gênero reportagem que poderiam ser utilizadas para essa finalidade, o que inviabilizaria uma investigação de todas essas funções, implicando em uma necessidade de escolha.
Dentre as várias funções que dizem respeito às características invariantes da reportagem, elegeremos três delas como eixos principais de análise e recorte dos códigos padrões de narração:
(1) a função testemunhal; (2) a função da novidade; (3) a função de verdade.
Existem vários motivos para a articulação em torno desses três eixos. Em um primeiro sentido, pode-se dizer que essas são as funções (invariantes) cujos códigos padrões de narração articuladores mais sofreram alterações ao longo da história da revista no Brasil. Conforme estudaremos nos capítulos seguintes, diferentes códigos em diferentes épocas históricas articularam essas mesmas funções, mostrando formas diversas de semantização do acontecimento a partir da adoção desses códigos padrões. Em outras palavras, trata-se de funções que nos auxiliam na demarcação das rupturas e descontinuidades no modo como os jornalistas contaram as suas estórias ao longo do tempo, mostrando diferentes articulações do sensível.
Além disso, esses são vetores que fundam um determinado ethos da prática jornalística que se mantém desde pelo menos o início do século XX, conforme discutiremos a seguir.
A função testemunhal pode ser definida como uma estratégia discursiva da reportagem a partir da qual há uma confirmação da suposta existência de um acontecimento noticiado a partir da evocação a pessoas que assistiram ou presenciaram esse evento. A testemunha, nesses termos, portanto, serve tanto como lastro imaginário da autenticidade do acontecimento no nível discursivo quanto como estratégia de referencialidade e legitimação em torno do narrado. A importância da função
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testemunhal na reportagem pode ser atestada pelo uso, desde seus primórdios, de fotografias ou ilustrações, entrevistas, bem como técnicas de observação diversas.
Embora a função testemunhal seja uma característica definidora da reportagem jornalística (uma invariante, portanto), é possível notar que diferentes códigos padrões de narração materializaram essa função no texto de revista ao longo de sua história, conforme mostraremos nos próximos capítulos.
No que diz respeito à função da novidade, muitos autores já a definiram como um dos principais valores-notícia existentes na produção jornalística. Conforme posto por Franciscato (2003, p. 175), “por estar ligado embrionariamente à noção de novidade, o jornalismo desenvolveu modos de incorporar e operacionalizar este reconhecimento e nomeação do ‘novo’ em um processo rotineiro e padronizado”, de forma que “um aspecto fundamental a se perceber na noção de novidade no jornalismo é que ela não é um componente que ‘naturalmente’ orienta toda a produção, mas sim uma referência a que o jornalismo recorre para, num processo de fabricação, compor um objeto complexo como a notícia”. A função da novidade, portanto, funciona como uma estratégia discursiva envolvida na própria legitimação do jornalismo enquanto prática simbólica socialmente relevante59.
Assim como no que concerne à função testemunhal, contudo, é possível notar diferentes códigos padrões de narração que foram utilizados ao longo do tempo na reportagem em revista para a materialização da função da novidade no texto.
Por fim, é necessário definir o que entendemos por função de verdade. Se a ficção pode ser definida como “um discurso que ‘informa’ do real, mas não pretende representá-lo nem abonar-se nele”, o jornalismo, por contraste, faz parte dos discursos referenciais, o que significa que ele “pretende dar uma representação adequada da realidade”, fiando-se em uma suposta verdade dos acontecimentos que estariam à espera de representação (CHARTIER, 2010, p. 24). As narrativas jornalísticas, portanto, se estruturam a partir da pretensão de alusão a uma realidade extralinguística ou, nos termos adotados por Ricouer (2010, p. 139), em uma referência que se inscreve na
59 O jornalismo, ao se institucionalizar, assume determinados compromissos ou tarefas sociais que se tornam parte de sua imagem como instituição pública. Um deles é o de corresponder a uma expectativa social por novidade, mesmo que, para isso, ele precise operar certas ênfases ou privilegiar certos aspectos de um evento que possam ser afirmados como o fator 'novo' no evento e, assim, ganhar importância em relação a outros. Um exemplo disto é a forma como a qualificação de 'ineditismo' para alguma ação, situação ou objeto se torna referência que qualifica um evento como noticiável, mesmo que as demais características não contribuam para a sua noticiabilidade (FRANCISCATO, 2003, p. 176).
158 empeiría, uma vez que o seu material de trabalho são os acontecimentos que
efetivamente aconteceram.
Mesmo diante das diversas impossibilidades que cercam essa questão e que nos impedem de pensar que o jornalismo é capaz de fornecer um espelhamento narrativo dos fatos do cotidiano – aludindo a questões que foram largamente discutidas no capítulo 1 – há uma meta imaginária de verdade que perpassa a atividade de imprensa e que orienta os seus métodos de trabalho.
Esse ter acontecido que funciona como lastro da verdade no jornalismo, contudo, não pode ser apenas enunciado: ele “deve ser introduzido no próprio discurso para certificá-lo como conhecimento autêntico” (CHARTIER, 2010, p. 28). Ora, é nesse interstício que há a adição de elementos que funcionam como fiadores da verdade de um acontecimento; que se colocam como provas imaginárias da verdade do relato. É nesse espaço que se inserem as remissões às citações, documentos e referências que convocam o acontecimento na escrita a partir de uma representação validada.
Nesse sentido, Charaudeau (2006, p. 55) coloca que “as provas de verdade, ou melhor dizendo, de veracidade de uma informação são da ordem do imaginário, isto é, baseadas nas representações de um grupo social quanto ao que pode garantir o que é dito”. Além disso, “essas provas devem ser objetivas, independentes da subjetividade do sujeito falante, exteriores a ele e reconhecidas por outros”.
No que diz respeito ao jornalismo, o autor aponta três eixos a partir dos quais essas provas imaginárias de verdade são engendradas: (1) a autenticidade (ou os mecanismos discursivos que buscam assegurar a própria existência dos seres no mundo, ligados a um movimento de designação relacionado a uma prova concreta); (2) a verossimilhança (que busca reconstituir analogicamente a existência de uma situação similar no passado ou no futuro a partir de uma suposição de ordem reconstitutiva), e; (3) a explicação (relacionada à possibilidade de determinar o porquê dos fatos a partir de um processo de elucidação a partir de diversas fontes de pesquisa).
A função de verdade, portanto, diz respeito a essas provas de verdade imaginárias do discurso jornalístico que buscam garantir um valor de verdade à informação relatada. Trata-se de um mecanismo discursivo a partir do qual o dito é confirmado a partir de procedimentos técnicos adotados pelos jornalistas que funcionam como lastros imaginários para a veracidade do relato.
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Uma vez definidas essas três funções – função testemunhal, função de novidade e função de verdade –, serão elas que irão estruturar o recorte dos códigos narrativos nas revistas que serão estudadas. Os códigos padrões de narração que serão recortados na presente pesquisa, portanto, serão apenas aqueles que remetem a um desses três eixos norteadores da prática da reportagem.
Nesse quadro, os códigos padrões de narração dizem respeito às diferentes materializações e articulações a partir das quais essas funções invariantes do jornalismo foram engendradas na reportagem de revista. A busca pelos códigos que articulam essas três funções em diferentes momentos históricos da história do jornalismo tem como objetivo estabelecer padrões a partir dos quais esses códigos podem ser recortados.
A pesquisa, portanto, estará focada no modo como diferentes códigos padrões de narração articularam as funções testemunhal, de novidade e de verdade ao longo da história do jornalismo de revista no Brasil.
Uma vez isso definido, é necessário discutirmos outras questões que dizem respeito aos procedimentos de recorte dos códigos padrões de narração nos textos das revistas que compõem o corpus.
Conforme exposto no capítulo 3, o conceito de código narrativo funciona enquanto significante, ou seja, enquanto forma narrativa cuja existência independe do conteúdo que é comunicado. Nesses termos, o recorte dos códigos nas revistas estudadas não levará em consideração o conteúdo da reportagem, ou mesmo a sua inserção dentro de editorias específicas, mas sim, as formas narrativas a partir das quais esse conteúdo é exposto. Mais especificamente, serão recortados apenas os procedimentos e técnicas padrões a partir dos quais os jornalistas semantizam os acontecimentos a partir de estratégias padrões de escrita, independentemente dos assuntos ou acontecimentos a que esses processos se referem.
Também não serão levados em consideração a qualidade da reportagem publicada nem o nível de aprofundamento da apuração. Nesses termos, é bastante óbvio o fato de que algumas publicações realizavam coberturas e análises mais sofisticadas do que outras – a revista Realidade, por exemplo, possui reportagens notadamente mais aprofundadas e ricas do que a revista Fatos e Fotos. Isso, no entanto, não entrará em questão no presente trabalho. O que será avaliado são os procedimentos formais que cada uma dessas publicações utilizava para dar sentido aos fatos.
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Além disso, é necessário enfatizar que o código narrativo diz respeito a um conjunto de procedimentos de escrita e técnicas de redação socialmente compartilhado pelo grupo amplo dos jornalistas e, como tal, recorrentemente utilizado nas reportagens, posto que relacionado aos modos como os jornalistas julgam o que significa contar uma boa estória. Nesse sentido, não serão levados em consideração os estilos pessoais e específicos de cada repórter em particular; serão recortados apenas os códigos que são sistematicamente utilizados nas reportagens em cada época histórica.
Obviamente que podemos encontrar, eventualmente, em revistas mais antigas, uma reportagem ou outra que remeta a códigos que serão amplamente utilizados em períodos posteriores ou vice-versa. Serão demarcados, contudo, apenas os códigos que foram utilizados de forma sistemática nas reportagens, excluindo-se com isso eventuais aparições relacionadas ao estilo de um repórter ou a uma casualidade estilística. Nesses casos em que uma estratégia aparece isoladamente, mas não se desdobra em uma grande quantidade de textos do mesmo período, esse fenômeno será atribuído a técnicas utilizadas ocasionalmente e não a um código padrão de narração, que pressupõe constância.
De modo inverso, igualmente, é possível observar que, em alguns casos, será possível encontrar uma reportagem ou outra em que o código padrão de narração proposto para o período não seja encontrado, o que não o descaracteriza enquanto código conquanto ele seja utilizado em um grande número de outras reportagens do período.
Nesses termos, o que caracteriza um código padrão de narração é o uso sistemático de determinada estratégia narrativa em um número considerável de reportagens distintas.
São esses os parâmetros metodológicos, portanto, que irão nortear o recorte dos códigos padrões de narração nas revistas componentes do corpus de pesquisa. Uma vez isso posto, é necessário detalharmos algumas considerações acerca do modo de estruturação metodológica desses códigos padrões.