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5. Discussion

5.2 Availability of raw materials and their localization

Conforme já anunciamos, o objeto de estudo deste trabalho é, grosso modo, investigar a forma como os dados históricos, quando inseridos nas narrativas das revistas informativas interpretativas semanais, contribuem para a semantização do acontecimento jornalístico. A expressão “narrativa jornalística” parece prescindir de um

S1 S2

(SB1) A situação está realmente ruim. (SB2) A situação melhorou realmente.

(2) O povo ainda exige mudanças radicais C.L.

(PP) O povo exigia mudanças radicais (P) O povo exige mudanças radicais

C.R.

Litotes 1 Lítotes 2

43 detalhamento sobre o seu significado – seu uso corrente já absorve o que queremos dizer por isso. Se optarmos por uma definição mais circunscrita, podemos adotar a conceitualização de Sodré e Ferrari (1986: 11), quando colocam que “o desdobramento das clássicas perguntas a que a notícia pretende responder (...) constituirá de pleno direito uma narrativa, não mais regida pelo imaginário, como na literatura de ficção, mas pela realidade factual do dia a dia, pelos pontos rítmicos do cotidiano que, discursivamente trabalhados, tornam-se reportagem”.

A outra parte da sentença - “dados históricos” - no entanto, é um elemento que necessita de um pouco mais de cuidado em sua apreensão. Aparentemente, trata-se de uma tarefa simples, uma vez que temos uma experiência diária em diferenciar o que é uma informação histórica do que se configura como um dado do presente. Quando tentamos defini-los conceitualmente, no entanto, uma série de dificuldades surge, uma vez que estes dados vindos do passado são bastante heterogêneos e a própria conceituação de “história” não pode ser dada sem a explicitação de uma série de pressupostos que não raro mudam de acordo com a filiação teórica proposta.

Desta forma, o que se constitui como um dado histórico? Trata-se de qualquer informação que vem do passado? Ou apenas dos grandes eventos que normalmente imputamos um status especial em meio ao devir dos acontecimentos? E mesmo que escolhamos uma das duas opções, qual é então essa linha divisória que deveria separar tudo o que ainda é presente do que já pode ser marcado com a pecha do decorrido (um dia, uma década, um século)?

Embora diversas nuances possam ser traçadas a este respeito, parece haver um consenso de que há uma absoluta impossibilidade de se definir a história pelo seu objeto. E isso porque simplesmente “não há fatos históricos por natureza como existem fatos químicos ou demográficos” (PROST, 2008: 64). Se é que se pode definir algo que se aproxime de um fato histórico, este é sempre construído, é sempre posto por sua posição relativa a um observador.

Já Seignobos apontava para o abandono da posição de que o termo “histórico” deveria ser uma espécie de sinônimo de “algo digno de ser relatado” (tal como usamos em expressões como “um dia histórico” ou “uma palavra histórica”). “Qualquer incidente do passado faz parte da história, tanto o traje usado por um camponês do século XVIII, quanto a Tomada da Bastilha; além disso, os motivos que tornam um fato digno de menção são infinitamente variáveis” (SEIGNOBOS apud PROST, 2008: 65). E é por isso que a história abrangeria potencialmente todos os fatos do passado, tanto os políticos e econômicos, quanto os sociais ou intelectuais.

44 Isso tem implicações importantes, uma vez que, em resumo, significa que “não há fatos históricos por sua natureza, mas apenas por sua posição relativamente a um observador. Qualquer fato que já não pode ser observado diretamente, por ter deixado de existir, é histórico. Em vez de ser inerente aos fatos, o caráter histórico limita-se à maneira de conhecê-los” (SEIGNOBOS apud PROST, 2008: 65).

Embora discorde da afirmação de que a “história é a ciência do passado” – na medida em que o próprio passado, enquanto tal, não pode ser objeto da ciência – a visão de Marc Bloch não é menos geral em relação ao que deve ser objeto da história. Ele afirma que “há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores, Michelet, Fustel de Colanges, nos ensinaram a reconhecer: o objeto da história é, por natureza, o homem. Digamos melhor: os homens”. E isso porque sempre através dos grandes vestígios - ou seja, dos artefatos ou máquinas, dos escritos ou das instituições – é justamente os homens que o historiador busca capturar através dos rastros. “O historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça” (BLOCH, 2001: 54).

O princípio diferenciador da história em relação a outras ciências humanas estaria posto na formulação de que o historiador não pensa apenas o humano, mas sim, trata-se do estudo dos homens no tempo.

Trata-se de uma visão não muito diferente da de Febvre, quando este coloca que “a história é um meio de organizar o passado para impedi-lo de pesar demais sobre os ombros dos homens”. Assim, ela é uma prática que, ao contrário de restringir os objetos do passado que podem ser estudados, os expandem como uma forma de apreendê-lo melhor. Assim, a história “certamente, (...) não se resigna a ignorar, mas esforça-se em aumentar cada vez mais os acervos dos fatos históricos à disposição de nossas civilizações para que estas possam escrever a história” (FEBVRE apud PROST, 2008: 268).

Diante disso, a posição de Paul Veyne sobre este tema nos parece bastante interessante. Segundo o historiador, “é impossível decidir que um fato é histórico e que um outro é uma anedota digna de esquecimento, porque todo o fato entra numa série e só tem importância relativa na sua série” (VEYNE, 1983a: 14). Impõe-se aqui, novamente, a ideia de que este “fato histórico” é sempre uma questão construída artificialmente. Já que, a rigor, tudo é histórico, “é suficiente admitir que (...) a história não é mais do que a resposta às nossas interrogações, porque não podemos materialmente colocar todas as questões, descrever todo o devir, e por que o progresso

45 do questionário histórico se situa no tempo e é tão lento como o progresso de qualquer outra ciência” (VEYNE, 1983a: 45).

Devemos adotar como posto, portanto, o ponto de vista de que a marcação sobre o que será considerado um fato histórico em oposição a um fato jornalístico só poderá ser, necessariamente, uma divisão artificial. Diante dessa questão, a maneira de se posicionar é, portanto, com a adoção de um marco – fruto de uma escolha motivada pelas questões propostas pelo pesquisador – para delimitar o que separa a representação do decorrido das mediações sobre eventos recentes ou da atualidade.

Como primeiro procedimento de recorte de corpus, a proposta, para o presente trabalho, é adotarmos o ano de 1995 como uma fronteira demarcatória para o que será considerado como “dado histórico”. Certamente existem algumas razões para esta escolha. Ele marca o primeiro ano do mandato de Fernando Henrique Cardoso na presidência – que se tornaria, posteriormente, o primeiro governo brasileiro do século XXI. De qualquer maneira, trata-se mesmo de uma demarcação artificial e, muito embora tenhamos motivos para adotarmos este marco, a escolha de qualquer outro também não deixaria de implicar a possibilidade de adoção de demarcações distintas.

Uma vez definido o que será entendido como “dado histórico”, podemos partir para outros recortes de corpus que se fazem necessários.

Conforme já colocamos, as reportagens inicialmente selecionadas – a saber, todas aquelas que possuírem referência a eventos ocorridos antes do ano de 1995 nas quatro revistas citadas (Veja, Época, IstoÉ e Carta Capital) – serão separadas de acordo com as constantes narrativas encontradas a partir da relação entre o dado histórico e a narrativa jornalística mais ampla. Assim, elas serão divididas nas categorias: “narrativas de trajetórias pessoais”, “narrativas de ordem comparativa”, “narrativas de disjunção” e “narrativas de origem”. Os “marcadores de pressuposição” nos ajudarão, neste caso, a delimitar quais matérias figurarão em cada uma delas.

Depois desta triagem inicial, daremos preferência, para uma análise mais detida, às reportagens que foram publicadas a respeito de uma mesma pauta nas quatro revistas analisadas.

Por “texto jornalístico”, estamos nos referindo, aqui, a todas as composições textuais que ocupam mais de uma página nas revistas. Assim, serão englobados os editoriais, as colunas opinativas, as matérias e as reportagens. Somente as notas informativas não serão analisadas.

Quanto às entrevistas, será adotado o seguinte procedimento: serão analisados apenas os trechos que foram escritos pelo próprio jornalista. As falas dos entrevistados,

46 deste modo, não serão analisadas, mas sim, apenas as perguntas e demais trechos que tenham sido postos pelo entrevistador ou repórter (como perfil do entrevistado ou texto de introdução, por exemplo). Nos demais textos jornalísticos, este critério também será utilizado. Nós não analisaremos as aspas de possíveis entrevistados que citem dados históricos, bem como a citação de livros que tragam esta informação. Eles serão discriminados estatisticamente, mas não servirão como material da análise.

A partir deste recorte inicial, adotaremos como conceitos operatórios de análise, em cada uma das matérias selecionadas, as noções que foram expostas nos procedimentos metodológicos. Assim, poderemos estudar as constantes narrativas através das noções de “urdidura de enredo”; “funções cardinais”; “funções catálises” e “sequências narrativas” e os interdiscursos presentes nos textos a partir dos conceitos de “pressupostos” e “subentendidos”.

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