4. Findings
4.2. The creation of NUC messages
4.2.3. Translation and Negotiation in ELIN-‐k project
Segundo Callon (1999), a proliferação de mudanças tecnológicas tem levado ao surgimento de controvérsias e de debates em torno das mesmas com o envolvimento de não especialistas. Para alguns, isso indicaria uma crise de confiança na ciência68, com uma desconfiança, por parte dos não-
especialistas em relação aos especialistas. Esse autor discorda dessa interpretação e afirma que, se há uma crise, é a da separação entre ciência e sociedade ou, da grande divisão entre especialistas e não-especialistas. Para entender a evolução dessa crise, o autor foca na diversidade de possíveis modos de participação dos não-especialistas nos debates científicos e tecnológicos. Ele distingue três modelos com diferentes graus de envolvimento dos leigos na formulação e aplicação do conhecimento no qual decisões são baseadas: o modelo da educação pública, o modelo do debate público e o modelo da coprodução do conhecimento.
O modelo da educação pública69
é o mais difundido e que se articula
com a premissa segundo a qual apenas os cientistas seriam capazes de compreender a complexidade das questões tecnocientíficas relativas às controvérsias sócio-técnicas, não cabendo ao público (leigo) a participação direta na produção de conhecimento. Dessa forma, esse modelo conduz a uma dupla divisão de direitos de fala e dos papéis de produção dos saberes legítimos entre os cidadãos e os cientistas: aos cientistas cabe o papel de definir os problemas, determinar a constituição do coletivo de pesquisa, produzir e difundir os saberes científicos; já os leigos constituem um público deficitário de saberes pertinentes para esclarecer as questões em estudo, e dependem dos cientistas para isso. A questão essencial desse modelo é a relação de confiança dos leigos em relação aos cientistas. Caso haja
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O autor faz referência ao livro de Ulrich Beck, “Sociedade de risco”.
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desconfiança, ela é atribuída ao analfabetismo e à ignorância de um público que é presa fácil de crenças e paixões. O único antídoto para essa desconfiança em relação aos cientistas seria a educação.
O modelo do debate público está fundamentado na oposição entre o conhecimento científico e popular e no pressuposto de que nenhuma discussão é possível a não ser que superstições populares sejam erradicadas. Esse modelo propõe uma relação mais rica entre leigos e cientistas com a reestruturação dos direitos de fala entre cientistas e cidadãos que interagem em espaços públicos de discussão: referendos, enquetes, conferências cidadãs, etc. Os cidadãos podem compor grupos de interesse, formados por pessoas leigas diretamente atingidas por algum problema sócio-técnico e que se envolvem em sua solução. Por exemplo, os participantes da Associação Francesa de pacientes com miopatias (AFM) e os produtores de vinho da França, afetados pelo possível uso de suas terras para depósito de lixo nuclear, formaram grupos de interesse em busca de soluções para suas reivindicações (CALLON e RABEHARISOA, 2008; CALLON, LASCOUMES e BARTHE, 2009).
Os conhecimentos desses grupos de interesse podem enriquecer e tornar mais complexa a problematização das questões sócio-técnicas. Os fóruns de discussão ajudam a evitar o monopólio de fala dos cientistas e atrapalham as fronteiras entre especialistas e não especialistas. Entretanto, esse modelo também realiza uma atribuição assimétrica de papéis na produção de saberes científicos, que continua a ser um papel exclusivo dos cientistas.
Callon (1999) afirma que, apesar de suas diferenças, os dois primeiros modelos pecam pela demarcação, pela separação entre especialistas e leigos.
No modelo da coprodução do conhecimento os grupos de interesse participam ativamente na produção de conhecimento que diz respeito às suas demandas. Por terem experiências relevantes em relação à situação de interesse eles são suficientemente competentes para participar da definição de um problema de pesquisa e também para a produção de conhecimentos científicos coletivos. Esse modelo reduz ou supera o fosso entre leigos e especialistas.
Callon e Rabeharisoa (2008), ao abordar o caso da Associação Francesa contra as Miopatias (AFM) enfatizaram algumas características dos grupos de interesse cuja criação e trajetória envolve a relação dos próprios atores com assuntos de interesse originados pelo desenvolvimento da tecnociência. Esses grupos, quando confrontados com situações de incerteza e ignorância, fazem suas próprias investigações, como no caso da AFM, cujos membros se engajaram ativamente na pesquisa o que os levou a construir uma nova identidade. Eles promoveram arrecadação de recursos por meio de um programa de televisão chamado Le Téléthon, que financiou a própria associação e a sua possibilidade de definir os rumos da pesquisa. Se, no início desse processo, os pacientes com miopatias eram aberrações da natureza, escondidos da sociedade e condenados a uma morte terrível, com o desenvolvimento da AFM, eles se tornaram visíveis para o público em geral e progressivamente construíram uma identidade que pode ser descrita como uma montagem sócio-técnica fabricada em torno de genes e próteses. Assim, eles mudaram seu status ontológico. A AFM uniu indivíduos e os tornou conscientes de suas semelhanças e interesses comuns e fabricou a sua identidade, o que mostra que é impossível dissociar as dimensões políticas e científicas das ações dessa associação. Ela conseguiu reconfigurar o coletivo em que todos vivemos.
A história da AFM sugere que, sob certas condições, grupos de interesse são capazes de impor uma nova forma de articulação entre a investigação científica e debate político ligando diretamente as questões de conteúdo da investigação e os resultados para o seu papel no coletivo (CALLON e RABEHARISOA, 2008, p. 232).
O ativismo de pacientes com AIDS, na década de 1980, descrito por Epstein, (199570, citado por PAPADOPOULOS, 2011) é outro exemplo da
atuação desses grupos de interesse. Os ativistas se organizaram e se tornaram especialistas no assunto, contribuindo para modelar a pesquisa. Eles se tornaram poderosos o suficiente para participar em comitês de testes de drogas em instituições como o US Food and Drug Administration (FDA), mudar os
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EPSTEIN, S. The construction of lay expertise: AIDS activism and the forging of credibility in the reform of clinical trials. Science Technology and Human Values, v.20, n.4, p. 408–437. 1995.
rumos da pesquisa, dos testes clínicos e da distribuição de medicamentos. Eles se reinterpretaram como uma forma de constituinte político.
Outros exemplos da atuação desses grupos de interesse são discutidos em Callon, Lascoumes e Barthe (2009), e mostram que, em algumas situações, a participação de leigos pode enriquecer a pesquisa científica e evitar a tomada de decisões definitivas que poderão se mostrar inadequadas no futuro. Esses trabalhos vêm ao encontro de outras propostas para a reformulação das relações entre tecnociência e poder e de democratização das escolhas tecnocientíficas. Em uma democracia delegativa não há nenhum espaço para esses grupos de interesse acompanharem os “transbordamentos”71 das tecnociências. Nessas situações, os políticos não podem se apoiar nas certezas dos especialistas para tomar as decisões e existe uma forte resistência por parte dos cientistas, inquietos pela irracionalidade de opinião pública. Assim, os grupos de interesse não são acolhidos nas instituições e são tratados como se estivessem errados de se envolver nessas questões. Os autores propõem que pesquisadores e grupos de interesse trabalhem juntos no processo de pesquisa, usando, por exemplo, os fóruns híbridos como instância de discussão e troca de conhecimentos. Callon, Lascoumes e Barthe (2009) definem os fóruns híbridos como fóruns nos quais são discutidas a direção das pesquisas e o modo de aplicação de seus resultados. As incertezas predominam e todos podem contribuir com informação e conhecimento que enriqueça a discussão. São importantes para a experimentação e aprendizagem coletiva.