4. Findings
4.1. Presentation of actors
4.1.5. Local setting and actors
A Teoria Ator-Rede tem sido utilizada também em estudos sobre a materialidade na formação de professores. O trabalho de Coutinho et al.(2015), baseado em narrativas escritas de professores em formação, salienta que as práticas formativas não devem ser consideradas apenas como sociais e sim como sócio-materiais, pois envolvem a relação entre humanos e não humanos, e há a necessidade de mostrar como as coisas atuam:
“No seu cotidiano, o professor em formação, e também os em exercício, não se relaciona simplesmente com conceitos ou conhecimentos proposicionais e com pessoas. Aliado a isso, relaciona-se com móveis, espaços, trânsito, armas, merenda, drogas, tecnologias e multimídia e uma série de outros elementos que contribuem para sua experiência e moldam sua ação (COUTINHO et al. 2015, p.164).
Nesse caso, o espaço da escola foi considerado um actante importante devido à sua precariedade: os móveis inadequados, o barulho da quadra esportiva e o ruído produzido pela chuva sobre o toldo da quadra comprometiam a qualidade das aulas. Nesse mesmo trabalho, os licenciandos consideram que ao trabalhar com a horta, questões relacionadas à nutrição, à política e à reciclagem são abordadas. Assim, o espaço “horta” é um actante que mobiliza questões ambientais e propicia a ação política dos estudantes quanto à sustentabilidade (COUTINHO et al. 2015).
Ainda sobre a materialidade, Costa (2015b), utilizando a ANT como referencial teórico, procurou descrever o papel dos objetos no cotidiano escolar. A pesquisadora buscou compreender a importância dos objetos na aprendizagem, pois, segundo ela, aprendemos não apenas com o intelecto, mas com nossa inserção no mundo formado de humanos e não-humanos.
Zanon, Almeida e Queiroz (2007) analisaram as contribuições da leitura de um capítulo do livro “Vida de Laboratório” (LATOUR e WOOLGAR, 1997), para a formação de estudantes de Química de uma universidade pública brasileira. Seus resultados mostraram que os estudantes mudaram sua forma de ver o trabalho do cientista: antes da leitura do texto eles consideravam que ser um cientista era estar em um laboratório e após a leitura perceberam as
limitações de seus conhecimentos sobre outras atividades do cientista, como a escrita de artigos científicos. Os estudantes também não conheciam as questões socioeconômicas ligadas à produção do conhecimento científico.
Em uma pesquisa ligada à educação ambiental, Vieira (2014) utilizou a Teoria Ator-Rede e a exploração de mundos possíveis para analisar as ações dos integrantes do Núcleo Manuelzão João Gomes Cardoso que atua na bacia hidrográfica do córrego João Gomes Cardoso, localizado no município de Contagem, Minas Gerais. Ela analisou seis anos de atuação do grupo. Foram realizados o levantamento, organização, análise e categorização de documentos, entrevistas, inventário de atores, a exploração de mundos realizados e possíveis e, por fim a análise comparativa da performance do núcleo. Buscou-se identificar quais cenários futuros o grupo projetou (os mundos possíveis), e avaliar o cenário vivenciado (mundos realizados) pelo Núcleo e suas modificações. Uma das conclusões é que o Núcleo Manuelzão João Gomes Cardoso desenvolveu uma educação ambiental performativa, isto é, não havia uma concepção prévia a respeito e suas ações foram desenvolvidas sem elaboração e execução de um projeto específico, mas definindo ações de educação ambiental ao longo de sua atuação com o objetivo de construir os mundos possíveis. Segundo a autora, as ações educativas foram decididas a partir do mundo possível vislumbrado pelo grupo, bem como o mundo realizado que vivenciam.
Ainda sobre educação ambiental, o trabalho de Salles et al. (2015), buscou utilizar a Teoria Ator-rede na redefinição dos papéis do indivíduo e sociedade na Educação Ambiental, considerando que o meio ambiente também age sobre o indivíduo e ambos interagem, construindo outras perspectivas relacionais. Costa (2015a) descreveu a rede sócio-técnica da produção de objetos audiovisuais, construída na prática da Educação Ambiental no licenciamento de petróleo, relacionada ao Programa de Educação Ambiental “Humanomar” realizado pela consultoria Abaeté Socioambiental e financiado pela Devon Energy.
A pesquisa realizada por Faria (2014) utilizou a cartografia de controvérsias para mapear a disputa em torno da instalação do projeto Apolo, da mineradora Vale S.A., que pretende se instalar sobre os aquíferos da Serra
do Gandarela, localizada na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. A pesquisadora mapeou os atores mobilizados ao longo dessa controvérsia, que ainda está em curso: os cidadãos leigos, os especialistas, os políticos, os empresários, a água, os animais e plantas ameaçados de extinção, as ONGs, empresas, dentre outros). Foi observado que os movimentos populares ambientalistas reconheceram e utilizaram a ciência e a tecnologia como ferramenta política, conectando conhecimento técnico- científico à participação cidadã. Além disso, ao tornar explícitos os atores envolvidos no projeto, o diagrama de translações produzido na pesquisa permitiu a politização de atores não humanos, a visualização da formação de diferentes grupos de interesse (partidários do projeto Apolo e partidários da conservação) e os diferentes cosmos envolvidos. Também permitiu notar que os interesses econômicos de Estado e de empresas têm prioridade em relação à avaliação dos especialistas, os quais sugerem cautela em relação à mineração na área. Segundo a pesquisadora, é essencial o abandono da ideia de que as controvérsias possam ser resolvidas se as pessoas adquirem conhecimentos, habilidades e valores sobre ciência e tecnologia. Para eles, essas disputas são guerras de mundos, de diferentes cosmos. (FARIA, 2014; FARIA e COUTINHO, 2015).
Os trabalhos seguintes utilizaram a ANT em estudos de laboratórios escolares. Oliveira (2008) realizou um estudo etnográfico em um laboratório de Química de uma escola do Ensino Médio em São Leopoldo, RS. Por meio de uma análise dos eventos ocorridos no laboratório, procurou compreender como os atores (alunos, professores, instrumentos, reagentes, manuais) se estabelecem e se reconhecem dentro de um laboratório didático de ciências. Rezzadori e Oliveira (2011) descreveram a rede sócio-técnica de um laboratório de Química do Ensino Médio de uma escola de Londrina, Paraná. Os pesquisadores observaram que o processo de materialização do laboratório depende de várias translações de interesses realizadas pelos atores e concluíram que sua permanência e sucesso não são garantidos, pois todo o processo de mobilização coletiva pode se desfazer em algum ponto.
Por fim, outro exemplo de aplicação da ANT no campo da educação em ciências é o estudo realizado por Bencze, Carter e Krstovic (2014). Por meio de
discussões para introduzir os estudantes à CTSA e a apresentação de alguns princípios da Teoria Ator-Rede, os pesquisadores introduziram os estudantes a actantes potencialmente problemáticos, associados ao telefone celular, como os metais pesados e outras substâncias tóxicas, além das condições de trabalho dos envolvidos na cadeia de produção do aparelho celular. Esses autores discutem como a escola, ao difundir uma visão imparcial da ciência, contribui para a aceitação e consumo de produtos perigosos (ou cavalos de Tróia), como é o caso do telefone celular:
Ciclos de identidades utópicas mascaram realidades distópicas. Imagens de comunidade, sexualidade e poder, por exemplo, podem distrair os usuários de ‘smart’ phone [smartphones] dos perigos das toxinas (por exemplo, bromina, clorina, mercúrio e cádmio) contidas neles; bem como a justiça social no que diz respeito aos trabalhadores associados à mineração e manufatura. Tal consumismo, com sua ênfase em ciclos de aceitação de cavalos de Tróia, parece ser facilitado pela ciência escolar. Campos da ciência são, por exemplo, retratados como demasiadamente sistemáticos, imparciais e não problemáticos enquanto, suas práticas profissionais podem ser comprometidas por meio de parcerias e influências capitalistas – alianças que frequentemente parecem contribuir para muitas questões sócio-técnicas. Ao mesmo tempo, os alunos podem se tornar alienados das oportunidades para se autodeterminar agentes importantes para eles e suas comunidades (BENCZE, CARTER e KRSTOVIC, 2014, p.1).
Os estudantes foram incentivados a construir redes de actantes, que permitiram compreender os perigos ocultos ou “cavalos de Tróia” do telefone celular (FIGURA 7). Segundo os autores, esse tipo de conduta permite trazer mais democracia para o engajamento de estudantes em questões controversas, pois abre a possibilidade de se perceber como os diferentes atores participam dessa rede.
Figura 7: Modelo de rede de atores relacionados ao telefone celular construído por um estudante. O modelo mostra diversos actantes humanos e não-humanos relacionados ao telefone celular e a rede de conexões entre eles (extraído de BENCZE, CARTER e KRSTOVIC, 2014).
O trabalho de Bencze e colaboradores chama a atenção para as relações entre ciência e democracia, e essa questão será aprofundada no capítulo seguinte. Discutiremos de que forma foi construída a imagem do cientista como representante autorizado da natureza, como essa imagem predomina ainda hoje e dificulta a legitimação da participação do leigo na gestão de questões controversas. Discutiremos também como as ideias oriundas dos Science Studies e do campo da política têm contribuído para a compreensão da importância da participação do leigo na discussão dessas controvérsias científicas.