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Desde os anos 1920 a União dos Trabalhadores Gráficos lutava e reivindicava por melhorias nas condições de trabalho, tais como a jornada de trabalho de 8 horas, o descanso semanal com remuneração e a proibição do trabalho noturno para menores e mulheres.198 No caso da U.T.G., identificamos a forte influência de duas correntes ideológicas: a anarquista e a comunista. A primeira teria predominado na União desde a sua refundação em 1919 até a greve de 1923 cujos ideais anarco-sindicalistas eram uma constante no cotidiano gráfico; já a segunda foi, paulatinamente, ganhando espaço após 1923 graças à fundação do Partido Comunista Brasileiro um ano antes. A conversão de importantes militantes anarquistas ao comunismo e o momento histórico favorável, à implantação da legislação trabalhista, colocava os comunistas como os principais interlocutores com o operariado.199

Ao mesmo tempo que em 1928 os gráficos estavam debatendo a Lei de Férias aprovada pelo então presidente Artur Bernardes em 1925, lançaram a campanha pelo salário mínimo, fato que preocupou os patrões e gerou maior repressão por parte da polícia. Nesse momento, a cúpula da U.T.G. já estava redigindo um documento com as principais reivindicações dos trabalhadores gráficos aos patrões. Entregue em fevereiro de 1929, esse documento foi integralmente recusado pela maioria dos patrões, fato que deu início à famosa e mais longa greve da história no setor gráfico: foram setenta e dois dias, com inicio em 22 de março de 1929.200

[…]Nós pleiteamos: os 15 das de férias annuaes;

O que queremos nós? Exigimos acaso algum absurdo? Não. O que pedimos é um descanso para o corpo desses trabalhadores lutam durante inteiros anos nas officinas.

E nos baseamos na própria lei elaborada pelos legisladores brasileiros, que acharam justo ter o trabalhador direito a 15 dias de férias.

198 Ver FERREIRA, Maria Nazareth. A Imprensa Operária no Brasil 1880-1920. Petrópolis: Vozes, 1978, p 137.

BLASS. Leila Maria da Silva. Imprimindo a Própria História. O movimento dos trabalhadores gráficos de São

Paulo no final dos anos 20. São Paulo: Edições Loyola, 1986, p. 61-63.

199 Ver MUNAKATA, Kasumi. A Legislação Trabalhista no Brasil. São Paulo: Brasiliense, Coleção Tudo é

História, 1981.

É o cumprimento dessa lei que nós pedimos. E essa lei não foi por nós elaborada. Por tanto, Vs. Ss. Podem verificar quão justas são as nossas pretenções.201

A greve de 1929 foi um marco, pois pela primeira vez houve o confronto direto do operariado com as forças repressoras do Estado. Ainda que essa greve não tenha conquistado as reivindicações, mostrava ao Estado e aos industriais que o meio operário estava se organizando, realidade que preocupava o governo e os patrões. Com a chegada de Getulio Vargas ao poder em 1930, a situação foi contornada com a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e, posteriormente, com a implantação de uma legislação social e trabalhista.

A contrapartida dessa interferência dos trabalhadores gráficos no meio operário paulista através da imprensa proletária e de seu sindicato, chegou no formato de intensa vigilância e repressão empreendida pela Polícia Política, que a partir da década de 1930, intensificou sua atenção aos sindicatos. Após 1931, com o decreto da Lei de Sindicalização, os sindicatos foram, de certa forma, esvaziados ficando desarticulados do movimento operário. A U.T.G. buscou permanecer o quanto foi possível como um sindicato autônomo, mas a União passava por uma grave crise financeira agravada pela inadimplência dos associados. Tal inadimplência foi justificada pelo O Trabalhador Graphico, de 25 de maio de 1932, pois “45% dos companheiros registrados se acham desempregados e, portanto isentos de mensalidades.”202 O número de sócios

existentes estava calculado – de acordo com o mesmo jornal – em 2486, mas “sendo o número de gráficos calculados em 6000, urge, portanto, a mais activa propaganda dos companheiros. Representantes, director, auxiliares da Commissão Executiva, a fim de trazermos para a U.T.G. a totalidade dos graphicos que labutam na Paulicéa.”203

201 Memorial aos Industriais Gráficos, São Paulo, 16 de março de 1929, doc. 1, fl. 1. Pront. n. 577, União dos

Trabalhadores Gráficos. Deops/SP. Apesp.

202 O Trabalhador Gráfico, 25 de maio de 1932, p. 4. Cedem/Unesp. 203 Ibidem.

Apresentação das informações sobre os associados da U.T.G.

Tal situação permaneceu até 1935 quando a UTG foi reconhecida pelo Ministério do Trabalho como o único sindicato oficial que representava os trabalhadores gráficos, passando a se chamar Sindicato dos Trabalhadores Gráficos de São Paulo (S.I.T.G.). Muito embora o sindicato dos gráficos procurasse manter a sua tradicional postura de oposição ao governo, a partir da sindicalização oficial sua autonomia foi pouco a pouco desaparecendo, ainda que oobjetivo maior era de manter a sua legitimidade.

As leis trabalhistas agiram no sentido de “calar” e “domesticar”204 o proletariado, uma vez

que estes, em grande parte, desejavam melhores condições de trabalho e de vida, sendo relegadas a segundo plano as questões político-ideológicas. Pautado nesse aspecto, o Estado atuava como “guardião” dos trabalhadores, controlando-os através das leis sociais e da repressão. A resistência, por outro lado, sobrevivia nos subterrâneos do sistema driblando a vigilância policial e a censura, buscando, muitas vezes, os meios mais criativos para a propagação de suas idéias. Era, nesse contexto, que o trabalhador gráfico se achava inserido, consciente do seu papel na sociedade e da importância das suas investidas por dias melhores. Tal mentalidade, no entanto não surge de repente: era fruto de muitos anos de luta e resistência.

204 SILVA, Zélia Lopes da. A Domesticação dos Trabalhadores nos Anos 30. São Paulo: Marco Zero, 1990, p. 50-