ou espírito mudos) mostra a recusa do dualismo ou binarismo como incessante dominação do invisível inaudível em relação à subordinação do visível audível.
O nono aparecimento da relação entre invisível e inaudível está presente no quinto parágrafo do primeiro capítulo, “Arqueologia e história das ideias”, da quarta parte, “A descrição arqueológica”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a crítica da história das ideias como análise histórica que privilegia os temas da gênese, da continuidade e da totalização (ver AS, p. 158-9).
A história das ideias é caracterizada da seguinte forma: “Gênese, continuidade, totalização: eis os grandes temas da história das ideias, através dos quais ela se liga a uma certa forma, hoje [1969] tradicional, de análise histórica.” (AS, p. 158) Esta análise histórica mostra a dominação do invisível (cegueira) inaudível (surdez) em relação à subordinação do visível (aparência):
Ela [história das ideias] é a análise dos nascimentos surdos [gênese], das correspondências longínquas, das permanências que se obstinam sob mudanças aparentes, das lentas formações que se beneficiam de um sem- número de cumplicidades cegas [continuidade], dessas figuras globais que se ligam pouco a pouco e, de repente, se condensam na agudeza da obra [totalização]. (AS, p. 158, grifo nosso)
O décimo aparecimento da relação entre invisível e inaudível está localizado no vigésimo parágrafo da “Conclusão” de A arqueologia do saber. Seu contexto é a análise da função crítica do livro (ver AS, p. 238-9)79.
A “ingratidão” das pesquisas anteriores de Foucault, notadamente História da
loucura, Nascimento da clínica e As palavras e as coisas, faz com que A arqueologia do saber seja um livro de “afastamento de dificuldades preliminares”80: “Sei o que pode haver de árido no fato de tratar os discursos não a partir da doce, muda e íntima consciência que aí se exprime, mas de um obscuro conjunto de regras anônimas.” (AS, p. 238, grifo nosso) Há uma crítica ao visível audível (os discursos) subordinado devido à dominação do invisível inaudível (muda e íntima consciência)81.
Relação entre invisível e audível
79 Ver infra comparativamente o décimo-sétimo aparecimento da relação entre visível e audível.
80 Este “afastamento de dificuldades preliminares” tem caráter metodológico e é um componente da estratégia de
guerra de A arqueologia do saber próximo da “marcação da singularidade pela exterioridade das vizinhanças”. Neste sentido, ver, comparativamente, o vigésimo-terceiro parágrafo da “Introdução” e este vigésimo parágrafo da “Conclusão”: AS, p. 19-20, p. 238-9, respectivamente.
Os dois aparecimentos da relação entre invisível e audível que destacaremos mostram um contato como conflito em relação ao visível inaudível: há uma dominação da aliança entre invisível e audível em relação à subordinação da união entre visível e inaudível como constante remissão do segundo ao primeiro82.
O primeiro aparecimento da relação entre invisível e audível está localizado no sexto e no sétimo parágrafos da “Introdução” de A arqueologia do saber. Seu contexto é a descrição crítica do documento em sua forma tradicional e da história como memória (ver AS, p. 7-8).
O documento, como rastro decifrável, remete o visível inaudível ao invisível audível:
(...) claro que, desde que existe uma disciplina como a História, temo-nos servido de documentos, interrogamo-los, interrogamo-nos a seu respeito; indagamos-lhes não apenas o que eles queriam dizer, mas se eles diziam a verdade, e com que direito podiam pretendê-lo, se eram sinceros ou falsificadores, bem informados ou ignorantes, autênticos ou alterados. Mas cada uma dessas questões e toda essa grande inquietude crítica apontavam para um mesmo fim: reconstituir, a partir do que dizem estes documentos – às vezes com meias-palavras -, o passado de onde emanam e que se dilui, agora, bem distante deles; o documento sempre era tratado como a linguagem de uma voz agora reduzida ao silêncio: seu rastro frágil mas, por sorte, decifrável. (AS, p. 7, grifo nosso)
A história como memória é a lembrança desta audição originária: “... a de uma memória milenar e coletiva que se servia de documentos materiais para reencontrar o frescor de suas lembranças...” (AS, p. 7-8) Ou ainda: “... a história, em sua forma tradicional, se dispunha a ‘memorizar’ os monumentos do passado, transformá-los em documentos e fazer falarem estes rastros que, por si mesmos, raramente são verbais, ou que dizem em silêncio coisa diversa do que dizem...” (AS, p. 8)83 A visão (do documento) é comandada pela busca da audição (como origem): o documento seria a tradução incerta de sua origem perdida, mas recuperável pela volta à fala esquecida. O visível inaudível (documento silencioso) deve remeter ao invisível audível (memória de uma voz).
O segundo aparecimento da relação entre invisível e audível está situado no sexto parágrafo do primeiro capítulo, “As unidades do discurso”, da segunda parte, “As regularidades discursivas”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a crítica ao uso dos temas do já-dito jamais-dito e da origem secreta como busca da continuidade para a análise do discurso (ver AS, p. 27-8).
O invisível aparece como a origem secreta: “... além de qualquer começo aparente, há sempre uma origem secreta – tão secreta e tão originária que dela jamais poderemos nos reapoderar inteiramente.” (AS, p. 28, grifo nosso) O audível surge como sopro:
82 Ver também infra o décimo-quinto e o décimo-sétimo aparecimento da relação entre visível e audível.
83 Sobre a diferença entre monumento e documento, ver especialmente o sétimo parágrafo da “Introdução”: AS,
A esse tema [da origem secreta] se liga um outro, segundo o qual todo discurso manifesto repousaria secretamente sobre um já-dito; e que este já- dito não seria simplesmente uma frase já pronunciada, um texto já escrito, mas um “jamais-dito”, um discurso sem corpo, uma voz tão silenciosa quanto um sopro, uma escrita que não é senão o vazio de seu próprio rastro. (AS, p. 28, grifo nosso)
A aliança de invisível e audível é a escuta do não-dito:
O primeiro motivo [origem secreta] condena a análise histórica do discurso a ser busca e repetição de uma origem que escapa a toda determinação histórica; o outro [já-dito jamais-dito] a destina a ser interpretação ou escuta de um já-dito que seria, ao mesmo tempo, um não-dito. (AS, p. 28, grifo nosso)
E a tarefa do invisível audível é a busca da continuidade do discurso: “É preciso renunciar a todos esses temas que têm por função garantir a infinita continuidade do discurso e sua secreta presença no jogo de uma ausência sempre reconduzida.” (AS, p. 28, grifo nosso) Existe a dominação do invisível audível (ausência como escuta do secreto) em relação à subordinação do visível inaudível (presença do discurso manifesto como escrita aparente).