5.2 Om brukerens sårbarhet og styrke
5.2.3 Brukerens styrke i endringsprosessen
A relação entre visível e audível é a mais importante, recorrente e complexa das possibilidades de relação entre audição e visão, justamente porque está na maior proximidade do ideal epistemológico-perceptivo da visão solitária e soberana. De maneira esquemática e propedêutica, poderíamos afirmar que existe um conjunto relacionado de distintos contatos
86 A descrição das figuras globais implica o restabelecimento das “solidariedades esquecidas”. Ver AS, p. 161-2. 87 Para uma diferença de estatuto do visível inaudível, de negativo (relação com o visível audível) para positivo
(relação com o invisível audível), ver o confronto, como dominação e subordinação, entre o visível inaudível (como discurso mudo) e o invisível audível (como memória de uma voz ou voz secreta), através dos dois aparecimentos da relação entre invisível e audível. Ver supra “Relação entre invisível e audível”.
que permite compreender o jogo entre visível e audível: há uma relação de harmonia, como desigualdade, quando ocorre um processo de preservação das especificidades e das diferenças, e como igualdade, quando acontece um processo de indistinção ou de indiferenciação; e a passagem da primeira à segunda mostra o caminho em direção à relação de confronto, como hierarquia que funciona mediante jogo de dominação (do visível) e de subordinação (do audível); e justamente através deste “resgate” da desigualdade surge o governo ou comando como possibilidade de exclusão, o ideal epistemológico-perceptivo da visão solitária e soberana.
É preciso um esclarecimento preliminar mediante duas observações relevantes. Primeiro, como a relação entre invisível e inaudível aparece vinculada ao conflito, como dominação e subordinação, com o visível audível, é necessário rever o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, o oitavo e o décimo aparecimento da relação entre invisível e inaudível para compreender a relação entre visível e audível. Segundo, como a relação entre visível e inaudível está associada ao conflito, como dominação e subordinação, com o visível audível, ao contrário do que uma análise meramente lógica poderia supor, em que o único adversário seria o invisível audível, é necessário reler os quatro aparecimentos da relação entre visível e inaudível para entender a relação entre visível e audível.
O primeiro aparecimento da relação entre visível e audível está localizado no nono parágrafo do primeiro capítulo, “As unidades do discurso”, da segunda parte, “As regularidades discursivas”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a apresentação do projeto de descrição dos acontecimentos discursivos (ver AS, p. 30-1).
Após a suspensão das formas imediatas de continuidade, surge a liberação de um domínio para o projeto de descrição dos acontecimentos discursivos: “Trata-se de um domínio imenso, mas que se pode definir: é constituído pelo conjunto de todos os enunciados efetivos (quer tenham sido falados ou escritos), em sua dispersão de acontecimentos e na instância própria de cada um.” (AS, p. 30, grifo nosso) Há uma indistinção ou indiferenciação entre o visível (enunciados efetivos escritos) e o audível (enunciados efetivos falados), já que ambos são existentes (efetividade). Esta relação de harmonia, como igualdade, tem uma razão de ser: a possibilidade de remissão do audível ao visível, ou o governo da visão. Se o audível não fosse governado pelo visível, então não haveria a crítica da relação entre invisível e audível88.
88 Desenvolveremos algumas relações entre o invisível inaudível, o invisível audível, o visível inaudível e o
visível audível especialmente no final deste capítulo. Ver infra “Axiologia da hierarquia e estratégia de guerra”. De qualquer forma, ver também supra “Relação entre invisível e audível”.
O segundo aparecimento da relação entre o visível e o audível está situado no décimo- primeiro parágrafo do primeiro capítulo, “As unidades do discurso”, da segunda parte, “As regularidades discursivas”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a apresentação da primeira utilidade da supressão ou da suspensão sistemática de todas as unidades inteiramente aceitas ou admitidas, a restituição da singularidade de acontecimento e da descontinuidade temporal do enunciado (ver AS, p. 32).
Após a suspensão sistemática das unidades admitidas com evidência, aparece o enunciado como acontecimento estranho, dada sua singularidade e sua descontinuidade:
(...) inicialmente porque está ligado, de um lado, a um gesto de escrita ou à articulação de uma palavra, mas, por outro lado, abre para si mesmo uma existência remanescente no campo de uma memória, ou na materialidade dos manuscritos, dos livros e de qualquer forma de registro (...) (AS, p. 32, grifo nosso)
Existe uma preservação das especificidades do visível (gesto de escrita89: materialidade visual) e do audível (articulação de uma palavra: memória auditiva). Entretanto, esta relação de harmonia, como desigualdade, implica uma indiferenciação ou indistinção, já que visível e audível são “existências remanescentes”. Mas esta relação de harmonia, como igualdade, existe sob a condição da remissão do audível ao visível, porque o invisível audível (memória desvinculada da materialidade) seria fruto de crítica em nome justamente da visibilidade do audível (existência da memória).
O terceiro aparecimento da relação entre visível e audível está presente no décimo- nono parágrafo do terceiro capítulo, “A formação dos objetos”, da segunda parte, “As regularidades discursivas”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a crítica à análise do aquém e do além do discurso (ver AS, p. 55-6).
A crítica ao aquém (recurso à plenitude viva da experiência: coisas) e ao além (descrição de um vocabulário: palavras) do discurso valoriza sua descrição imanente como prática:
(...) gostaria de mostrar que os “discursos”, tais como podemos ouvi-los, tais como podemos lê-los sob a forma de um texto, não são, como se poderia esperar, um puro e simples entrecruzamento de coisas e de palavras (...); gostaria de mostrar, por meio de exemplos precisos, que, analisando os próprios discursos, vemos se desfazerem os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas, e destacar-se um conjunto de regras, próprias da prática discursiva. (AS, p. 55-6, grifo nosso)
Há uma indistinção ou indiferenciação entre o visível (ler o texto) e o audível (ouvir o texto), já que ambos remetem à visibilidade (discurso como prática). Da relação de harmonia, como
89 Notemos que o tato (gesto de escrita) aparece vinculado à visão com ambiguidade: é uma harmonia servil, já
que a visão governa a relação, quer dizer, no ordenamento que especifica as diferentes funções, o comando hierárquico corresponde à visão.
igualdade (leitura ou escuta do mesmo texto), à relação de governo, como desigualdade (escuta porque há leitura do texto que é visto), existe uma recusa do visível inaudível (como não-discurso)90, já que o visível (discurso) é sempre possibilidade de auditibilidade, mesmo quando provisoriamente inaudível91.
O quarto aparecimento da relação entre visível e audível está localizado no nono parágrafo do primeiro capítulo, “Definir o enunciado”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a tentativa de identificação do enunciado e do ato de formulação mediante a definição do ato ilocutório (ver AS, p. 93-4).
A definição do ato ilocutório começa com um esclarecimento negativo: “É claro que não se visa com isso o ato material que consiste em falar (em voz alta ou baixa) e em escrever (à mão ou à máquina)...” (AS, p. 94, grifo nosso) Existem dois processos aparentemente contraditórios, mas perfeitamente coerentes: a preservação das especificidades do visível (escrita à mão ou à máquina92) e do audível (fala em voz alta ou baixa) e também a indistinção ou indiferenciação entre o visível e o audível (ato material da fala ou da escrita). As relações de harmonia, respectivamente como desigualdade e como igualdade, remetem, por sua vez, à possibilidade da subordinação do audível ao visível, ou ao governo ou comando da visão.
O quinto aparecimento da relação entre visível e audível está situado no nono parágrafo do primeiro capítulo, “Definir o enunciado”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a definição do ato ilocutório como crítica à relação entre causa e efeito (ver AS, p. 93-4).
A definição do ato ilocutório é a afirmação da singularidade da formulação (ou do enunciado93) versus o jogo do dualismo ou do binarismo da relação entre causa e efeito:
(...) não se designa (...) o resultado eventual do que ele [o indivíduo que fala] disse (se convenceu ou suscitou desconfiança; se foi ouvido e se suas ordens foram cumpridas; se sua prece foi compreendida); descreve-se a operação que foi efetuada pela própria fórmula, em sua emergência: promessa, ordem, decreto, contrato, compromisso, constatação. O ato ilocutório (...) não é o que se pôde produzir, depois do próprio enunciado, no sulco que deixou atrás de si e nas consequências que provocou; mas sim o que se produziu pelo próprio fato de ter sido enunciado – e precisamente esse enunciado (e nenhum outro) em circunstâncias bem determinadas. (AS, p. 94, grifo nosso)
Há uma dissociação entre o audível, e o jogo da condição de auditibilidade (falar/dizer e ouvir ou escutar) – relação entre causa e efeito -, e o visível – emergência singular. Esta relação de
90 Ver supra o segundo aparecimento da relação entre visível e inaudível. 91 Ver supra o primeiro aparecimento da relação entre invisível e audível.
92 Notemos que o tato é comandado pela visão, já que o ato da escrita serve à visibilidade.
93 Trata-se da tentativa de identificação entre o ato de formulação e o enunciado. Ver supra o quarto
confronto mostra que o ideal epistemológico-perceptivo é a visão solitária e soberana, já que somente através da condição de visibilidade é possível valorizar a singularidade, porque a condição de auditibilidade, desvinculada do visível, permitiria a relação de conflito entre falar/dizer e ouvir/escutar.
O sexto aparecimento da relação entre visível e audível está presente no décimo- terceiro parágrafo do primeiro capítulo, “Definir o enunciado”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a descrição da possibilidade da análise do enunciado como existência material (ver AS, p. 96-7).
Após a diferenciação entre língua e enunciado94, surge o questionamento do estatuto do enunciado como materialidade:
Mas basta, então, que os signos de uma língua constituam um enunciado, uma vez que foram produzidos (articulados, delineados, fabricados, traçados) de um modo ou de outro, uma vez que apareceram em um momento do tempo e em um ponto do espaço, uma vez que a voz que os pronunciou ou o gesto que os moldou lhes deram as dimensões de uma existência material? (...) será que esses signos, expostos, visíveis, manipuláveis, podem ser razoavelmente considerados como enunciados? (AS, p. 97, grifo nosso)
Há um processo de indistinção ou de indiferenciação entre o visível (produção de signos mediante gesto que os molda95) e o audível (produção de signos através da voz que os pronuncia) que conduz à remissão do audível ao visível (visibilidade da existência material). A relação de harmonia, como igualdade, leva ao governo ou ao comando da visão.
O sétimo aparecimento da relação entre visível e audível está localizado no décimo- quinto parágrafo do primeiro capítulo, “Definir o enunciado”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a definição do enunciado como função de existência (ver AS, p. 98-9).
Na definição do enunciado como função de existência aparece a indistinção ou indiferenciação entre visível e audível:
O enunciado (...) é uma função de existência que pertence, exclusivamente, aos signos, e a partir da qual se pode decidir, em seguida, pela análise ou pela intuição, se eles “fazem sentido” ou não, segundo que regra se sucedem ou se justapõem, de que são signos, e que espécie de ato se encontra realizado por sua formulação (oral ou escrita). (AS, p. 98-9, grifo nosso)
A relação de harmonia como igualdade (indistinção ou indiferenciação) respeita a desigualdade (especificidade) na medida em que é possível remeter o audível ao visível (relação de confronto como dominação e subordinação).
94 Ver o início deste décimo-terceiro parágrafo: AS, p. 96-7. 95 Notemos que o tato está subordinado ao comando da visão.
O oitavo aparecimento da relação entre visível e audível está presente no décimo- quarto parágrafo do segundo capítulo, “A função enunciativa”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a análise da dissociação substancial e funcional entre o sujeito do enunciado e o autor da formulação (ver AS, p. 109)96.
O sujeito do enunciado é diferente do autor da formulação: “Ele não é, na verdade, causa, origem ou ponto de partida do fenômeno da articulação escrita ou oral de uma frase...” (AS, p. 109, grifo nosso) Há uma indistinção ou indiferenciação entre visível (articulação escrita) e audível (articulação oral) que mostra a relação de harmonia como igualdade, possível devido à remissão ao governo da visão.
O nono aparecimento da relação entre visível e audível está presente no décimo-quinto parágrafo do segundo capítulo, “A função enunciativa”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a apresentação da terceira característica da função enunciativa, a existência de um domínio associado (ver AS, p. 109-10).
Um esclarecimento preliminar faz surgir a relação entre visível e audível: “Isso [a existência de um domínio associado] faz do enunciado algo diferente e mais que um simples agregado de signos que precisaria, para existir, apenas de um suporte material – superfície de inscrição, substância sonora, matéria moldável, incisão vazia de um traço.” (AS, p. 109-10, grifo nosso) Há relação de harmonia, como igualdade, quer dizer, indistinção ou indiferenciação – o visível, superfície de inscrição97, e o audível, substância sonora, são perceptíveis como materialidade, suporte material – e existe relação de confronto, como hierarquia e desigualdade, dominação da visão – a materialidade, suporte material, remete à visibilidade.
O décimo aparecimento da relação entre visível e audível está localizado no vigésimo- segundo parágrafo do segundo capítulo, “A função enunciativa”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a análise da quarta condição para que uma sequência de elementos linguísticos possa ser considerada como um enunciado, a existência material (ver AS, p. 115).
O enunciado é sempre materialidade: “O enunciado é sempre apresentado através de uma espessura material, mesmo dissimulada, mesmo se, apenas surgida, estiver condenada a se desvanecer.” (AS, p. 115) Daí a relação entre visível e audível:
96 Ver supra comparativamente o sexto aparecimento da relação entre invisível e inaudível.
97 Notemos que o tato, como gesto de escrita, inscrição na superfície, é comandado pela visão – na verdade, não
Poderíamos falar de enunciado se uma voz não o tivesse enunciado, se uma superfície não registrasse seus signos, se ele não tivesse tomado corpo em um elemento sensível e se não tivesse deixado marca – apenas alguns instantes – em uma memória ou em um espaço? Poderíamos falar de um enunciado como de uma figura ideal e silenciosa? (AS, p. 115, grifo nosso)
A relação de harmonia, como igualdade, através da indistinção ou indiferenciação – o visível, espaço da superfície de registro98, e o audível, memória da enunciação da voz, como percepção sensível -, combate o invisível (figura ideal) inaudível (figura silenciosa). Entretanto, a identidade material do enunciado é variável: “As coordenadas e o status material do enunciado fazem parte de seus caracteres intrínsecos.” (AS, p. 115) Daí a relação entre visível e audível como preservação das especificidades:
Composta das mesmas palavras, carregada exatamente do mesmo sentido, mantida em sua identidade sintática e semântica, uma frase não constitui o mesmo enunciado se for articulada por alguém durante uma conversa, ou impressa em um romance; se foi escrita um dia, há séculos, e se reaparece agora em uma formulação oral. (AS, p. 115, grifo nosso)
A relação de harmonia como desigualdade, mediante a especificidade, não é oposta à relação de harmonia como igualdade, já que existe a possibilidade da remissão do audível ao visível, como dominação da visão99.
O décimo-primeiro aparecimento da relação entre visível e audível está situado no vigésimo-quinto parágrafo do segundo capítulo, “A função enunciativa”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a análise da materialidade repetível do enunciado. Basta rever o único aparecimento da relação entre audição, tato e visão100.
O décimo-segundo aparecimento da relação entre visível e audível está presente no vigésimo-sexto parágrafo do segundo capítulo, “A função enunciativa”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a análise do regime de materialidade dos enunciados (ver AS, p. 118-9).
A materialidade do enunciado é mais institucional do que espaço-temporal: “O regime de materialidade a que obedecem necessariamente os enunciados é, pois, mais da ordem da instituição do que da localização espaço-temporal...” (AS, p. 118) Daí a relação entre visível e audível respectivamente como indistinção ou indiferenciação e como preservação da especificidade e da diferença:
98 Notemos que o tato está subordinado à visão.
99 De qualquer forma, é necessário notar que a relação de harmonia como igualdade aparece vinculada à
constatação da materialidade do enunciado, em contraposição à sua imaterialidade, e a relação de harmonia como desigualdade está associada à análise da identidade material variável do enunciado. Ver AS, p. 115.
Um enunciado pode ser o mesmo, manuscrito em uma folha de papel ou publicado em um livro; pode ser o mesmo pronunciado oralmente, impresso em um cartaz, reproduzido por um gravador; em compensação, quando um romancista pronuncia uma frase qualquer na vida cotidiana, visto que a coloca tal qual no manuscrito que redige, atribuindo-a a um personagem, ou mesmo deixando-a ser pronunciada pela voz anônima que representa a do autor, não se pode dizer que se trate, nos dois casos, do mesmo enunciado. (AS, p. 118, grifo nosso)101
Há relação de harmonia como igualdade, ligada à manutenção da identidade do enunciado, e há relação de harmonia como desigualdade, associada à mudança ou à perda da identidade do enunciado; nos dois casos, a dominação da visão é uma possibilidade fundamental.
O décimo-terceiro aparecimento da relação entre visível e audível está localizado no sexto parágrafo do terceiro capítulo, “A descrição dos enunciados”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a análise do enunciado como não oculto (ver AS, p. 126).
O enunciado é não oculto: “Não oculto, por definição, já que caracteriza as modalidades de existência próprias de um conjunto de signos efetivamente produzidos.” (AS, p. 126) A descrição dos enunciados mostra a relação entre visível e audível: “A análise enunciativa só pode se referir a coisas ditas, a frases que foram realmente pronunciadas ou escritas, a elementos significantes que foram traçados ou articulados...” (AS, p. 126, grifo nosso) Há uma relação de harmonia, como desigualdade, já que são preservadas as especificidades ou as diferenças entre visível (escrita traçada)102 e audível (pronúncia articulada); há uma relação de harmonia, como igualdade, já que visível e audível são indiferenciados através do “dito”; e há uma relação de confronto, como hierarquia ou desigualdade, jogo de dominação e de subordinação, visto que o audível remete ao comando ou governo do visível.
O décimo-quarto aparecimento da relação entre visível e audível está situado no décimo-terceiro parágrafo do terceiro capítulo, “A descrição dos enunciados”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a análise do enunciado como nem visível nem oculto (ver AS, p. 130-1)103.
O enunciado, nem visível, nem oculto, aparece no domínio de exercício de uma função enunciativa como presença:
(...) entre a linguagem, tal como a lemos e ouvimos, mas também como a falamos, e a ausência de qualquer formulação, não há o formigamento de todas as coisas pouco ditas, de todas as frases em suspenso, de todos os pensamentos semiverbalizados, do monólogo infinito do qual emergem
101 Notemos que o tato aparece subordinado à dominação da visão.
102 Notemos que o tato (traço da escrita) está subordinado à dominação da visão (visibilidade do traço da escrita). 103 Ver supra, também, comparativamente, o sétimo aparecimento da relação entre invisível e inaudível.
apenas alguns fragmentos; mas, antes de tudo – ou, pelo menos, antes dela (pois dela depende) – as condições segundo as quais se efetua a função enunciativa. (AS, p. 130, grifo nosso)
Há relação de harmonia, como desigualdade: existe a preservação das especificidades e das diferenças entre visível (leitura que remete à escrita) e audível (fala). Há também relação de harmonia, como igualdade: existe indistinção e indiferenciação entre visível e audível como presença. E há relação de confronto, como hierarquia através de dominação e subordinação: a presença (do visível e do audível) remete à visibilidade (governo ou comando da visão). Notemos que entre a leitura e a escuta (condição de auditibilidade) não existe problema, justamente porque a escrita (visão) é a fonte da presença; já a fala, sem a presença da escrita, pode, de qualquer forma, remeter a ela (como visão).
O décimo-quinto aparecimento da relação entre visível e audível está presente no décimo-quarto parágrafo do quarto capítulo, “Raridade, exterioridade, acúmulo”, da terceira parte, “O enunciado e o arquivo”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a análise dos enunciados no jogo de uma exterioridade como nível do “diz-se” (ver AS, p. 141-2).
O jogo da exterioridade é o nível do “diz-se”:
Ela [a análise dos enunciados] situa-se, de fato, no nível do “diz-se” – e isso não deve ser entendido como uma espécie de opinião comum, de representação coletiva que se imporia a todo indivíduo, nem como uma grande voz anônima que falaria necessariamente através dos discursos de cada um; mas como o conjunto das coisas ditas, as relações, as regularidades e as transformações que podem aí ser observadas, o domínio do qual certas figuras e certos entrecruzamentos indicam o lugar singular de um sujeito