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TRANSPENUMBRA Tempestade que passasse

deixando intactas as pétalas você passou por mim

as tuas asas abertas passou mas sinto ainda uma dor no ponto exato do corpo onde tua sombra tocou que raio de dor é essa que quanto mais dói mais sai sol? (LVC, p. 50)

Objetivando analisar mais detidamente alguns aspectos de “TRANSPENUMBRA”, separamos o poema em quatro blocos. No primeiro deles, constituído pelos quatro versos iniciais – “Tempestade/ que passasse/ deixando intactas as pétalas/ você passou por mim” –, notamos a potência de um elemento externo, você, passando como se fosse uma tempestade, possivelmente branda, já que deixa pétalas intactas. O segundo conjunto de nossa análise – “as tuas asas abertas/ passou” – contém a ideia de movimento, de força, de deslocamento e de agilidade. O terceiro bloco – “mas sinto ainda uma dor/ no ponto exato do corpo/ onde tua sombra tocou” – expressa um lado sombrio atrelado à tempestade. A quarta e última parte é formada pelos três versos finais do poema – “que raio de dor é essa/ que quanto mais dói/ mais sai sol?” – e mostra um eu lírico hesitante e que se questiona sobre a dor, sua profundidade reveladora, sua força e capacidade de iluminação. Pergunta-se: que dor é essa que quanto mais machuca, mais é capaz de anunciar, produzir vida e energia?

Temos no poema, portanto, quatro blocos de versos associados a ideias fundamentais à nossa análise: 1) força do desejo e da imagem atrelada a ele; 2) movimento de deslocamento e agilidade; 3) dor e sombra; e 4) questionamentos sobre a natureza da dor e sobre o sofrimento. Como o movimento às cegas parece ser a tônica em “TRANSPENUMBRA”, título que anuncia uma passagem em direção à mudança de uma situação de baixa visibilidade, nossa

79 análise fantasia acerca de um certo objeto de desejo. A imagem de algo/alguém que se deseja gera, no eu lírico, impactos e elementos para um movimento de transformação.

Percebemos que o poema constrói uma imagem grandiosa e reveladora de um outro que provoca desejo e incômodo. O eu lírico parece descrever uma mudança repentina e repleta de fantasia na forma de ver esse outro. A dor e a penumbra decorrem desse movimento que se impõe. Notamos, em “TRANSPENUMBRA”, um movimento fantasioso em que o eu lírico se identifica com o objeto de seu desejo e cria um mecanismo turvo de visão. Interpretação que se ratifica na imagem que o poema constrói de uma sombra (imagem, projeção) capaz de lhe tocar.

Assim, a transformação que o poema propõe é dupla: existe uma imagem que se esvai e outra que se define, registradas por meio de dois movimentos concomitantes na travessia dessa penumbra que assombra o texto desde o título. O movimento de abandono sentido pelo eu lírico gera crise e catástrofe; gera um impasse, uma “transpenumbra”: atravessá-la é também enfrentar a tempestade. Por outro lado, surge a possibilidade da visão clara quando o enamorado parece ver coisas que antes não via: “que raio de dor é essa/ que quanto mais dói/ mais sai sol?”. Coexistem, portanto, a sombra da dor e a luz da transformação do olhar.

Sobre a fuga do amado e a sombra que se instaura com a dor do abandono, trazemos alguns elementos que ajudam a corroborar a hipótese de um eu lírico enfrentando a sensação de catástrofe. Segundo os relatos de Toninho Vaz (2001), Leminski chamou atenção para uma nova geração de poetas promissores em 1987, entre eles Josely Vianna, “[...] aquela para quem, declaradamente, ele arrastava as asinhas” (p. 265). Ao lado da nova poeta, Leminski teria traduzido alguns poemas. “Quando Josely se afastou de sua vida, motivada, sobretudo, pelo excesso de álcool e pelas constantes crises de saúde que vinha atravessando, Leminski sentiria o golpe, registrado no poema que chamou de „Transpenumbra‟” (VAZ, 2001, p. 265). É possível, portanto, que o poema esteja abordando a ideia de uma fantasia amorosa se elevando e, ao mesmo tempo, se esvaindo. A ideia de ter de se afastar desse ser grandioso (desse ser de asas abertas e capaz de cobrir com sombras) geraria a sensação de catástrofe e tragédia.

80 A experiência de transformação no poema representa, então, a situação limite que se relaciona ao fragmento catástrofe de Roland Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso. Diante da rejeição e de um eventual desentendimento, o enamorado tenderia a se destruir, a se aniquilar, a se entregar a uma dor imaginária e catastrófica. A sensação descrita por Barthes (1991) é a de um corpo apaixonado que se revira e se contorce de dor: “Vejo, num relâmpago cortante e frio, a destruição a qual estou condenado” (p. 34). Para Roland Barthes, a catástrofe é resultado dessa fantasia que o enamorado faz da relação com seu suposto amado e que, ao se abalar, parece gerar a sensação de perda irreversível, “para sempre” (BARTHES, 1991, p. 35).

Em “TRANSPENUMBRA”, a visão de algo “cortante e frio”, das asas abertas e da dor gerada pela passagem de uma sombra se relaciona à ideia de catástrofe trabalhada por Roland Barthes. Nada ao sujeito apaixonado parece simples quando da abordagem de sua paixão. A designação de catástrofe parece bastante adequada à intensidade daquele que está apaixonado: a dor da perda é, de fato, cortante e fria.

Ao enamorado típico de Roland Barthes (1991) e ao eu lírico fantasioso em estado de transpenumbra de Leminski, a catástrofe é digna de uma linguagem relacionada às sombras, aos raios, ao frio e à dor insuportável. “[...] [as catástrofes] são situações sem resto, sem troco: me projetei no outro com tal força que, quando ele me falta, não posso me retomar, me recuperar: estou perdido para sempre” (p. 34).

O pesar da sombra, no entanto, parece ser recompensado, ao final do poema, como o presente da transformação. A luz de pensamento e a presença de um sol evidenciam a hipótese de que o eu lírico tenha produzido exageradamente suas catástrofes.

Ao retomarmos os quatro blocos que designamos para fins de análise no início deste item, percebemos algumas evidências de que o eu lírico fantasioso seja, surpreendentemente, consciente de seu exagero. Percebemos que a dor (“mas sinto ainda”) em “TRANSPENUMBRA” é colocada em seu sentido brando e passageiro, como se o eu lírico já tivesse vivido a experiência daquela situação. Ainda capaz de impor mudanças, a tempestade deixa “intactas as pétalas”; voa, mas não se pereniza: “você passou”. Também notamos a imagem de catástrofe sendo amenizada na ideia de um toque que se realiza pela sombra: indício de uma situação superestimada, exagerada. Por fim, o conjunto dos últimos versos e

81 do título do poema, juntos, indicam que a condição de catástrofe está repleta de contradições, e que é possível atravessar a penumbra e recuperar a visão, ainda que para isso seja preciso muita fantasia.