A presente dissertação de mestrado envolve várias tipologias do turismo, principalmente o que se designa por turismo cultural mas também o religioso, o solidário e o natural, pois estas poderão constituir fortes atrações para o desenvolvimento do turismo do Centro e Norte de Moçambique. Acrescenta-se, ainda, o turismo de negócios, que julgamos poder vir a ter alguma importância no contexto dos casos de estudo. Atendendo a estes motivos entendemos necessário dissertar sobre estas cinco tipologias em pormenor.
Turismo cultural tem sido definido como montra do que é único e especial em relação a um lugar duma forma que seja agradável aos residentes (Calwell, 1996).
Entende-se cultura aqui numa definição mais sociológica (práticas e estilos de vida) e mais etnológica (grupos étnicos e entidades coletivas), e menos clássica (Amirou, 2000, in Barros, 2004), e isso influenciou aquilo que as políticas de património e turismo focam. Assim, “a sensibilidade turística desloca-se cada vez mais para o interesse pelas culturas vernaculares, os modos de vida e as tradições locais” (Amirou, 2000, in Barros, 2004: 124). Desta forma, a proteção e atração patrimonial partiram da conservação dos monumentos históricos e culminaram na noção de património imaterial e sua preservação (Barros, 2004), pelo que o turismo arqueológico e patrimonial, a gastronomia e vinhos e o turismo religioso são encarados como subcategorias do turismo cultural.
As atrações patrimoniais em geral servem vários propósitos, podendo providenciar um conjunto de experiências de lazer agradáveis, um foco de identidade comunitária, fontes para educação e meios de geração económica. O interesse público em relação a estas atrações surge internacionalmente nos anos 60 do século XX associado ao interesse pelo passado; à consciencialização pública em relação à substituição do património antigo por novas infraestruturas; a consciência por parte das organizações privadas e públicas do valor e dos benefícios do património e ao desenvolvimento tecnológico que facilita a informação sobre o património (Drummond e Yeoman, 2001).
As atrações patrimoniais podem entreter, educar, ajudar a manter ou reintroduzir cultura e tradições, promover o orgulho de uma nação e conservar o ambiente, entre outros. As atrações podem fazer tudo isto coletivamente ou exclusivamente para uma variedade de segmentos de mercado e as oportunidades para o crescimento do turismo patrimonial são enormes. Onde este é rápido pode haver preocupações quanto à autenticidade e exploração do património mas, onde
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a qualidade é a maior consideração no desenvolvimento e operação das atrações, há um maior cuidado com esses elementos (Drummond e Yeoman, 2001).
Silva (2011: 50) classifica o turismo religioso como “um fenómeno que concilia religião e a atividade turística, não se verificando diferenças na utilização do termo para as deslocações motivadas unicamente por motivos religiosos e aquelas que o não são em exclusivo.” Jackowski (2000, in Silva, 2011) refere que a origem do turismo religioso está na evolução da peregrinação e na mistura entre religiosos e seculares na procura de locais de peregrinação, provocada pela melhoria dos transportes e aumento das viagens organizadas.
Silva (2011) aborda as diferenças entre as definições de vários autores, que coincidem num ponto fundamental: a motivação religiosa, única ou não, é que define a deslocação turística como religiosa. Para autores como Vukonić (1996, in Silva, 2011), o turismo religioso e a peregrinação são separados pelo facto do primeiro ter mais do que uma motivação, enquanto o segundo não. Jackowski (2000, in Silva, 2011) enfatiza a ideia de que para ser considerada como turismo religioso, uma viagem deverá ter como objetivo principal a religiosidade ou a espiritualidade e ter como destino principal um local sagrado.
Outro ponto, evocado por Ostrowski (2000, in Silva, 2011), é de que o turismo religioso, apesar de conter motivações de índole religiosa, está associado aos conceitos de férias e de lazer. Aliás, segundo Rinshede (1999, in Silva, 2011), o turismo religioso apresenta as mesmas características em relação a outros tipos de turismo, diferenciando-se na motivação, o qual deverá ter por base a religiosidade. De destacar, ainda, a ligação deste tipo de turismo ao turismo cultural quando as deslocações se fazem a lugares religiosos, mas encontram-se integradas noutros tipos de turismo. É neste sentido que autores como Talec (1993, in Silva, 2011) e organizações como Officce de Nouvelles Internacionelles chamam a atenção para o facto de que na busca dos locais sagrados pode estar tanto a motivação espiritual e religiosa como a motivação cultural patrimonial.
Vukonić (1996, in Silva, 2011) considera, ainda, que o conceito de turismo religioso engloba as várias atividades turísticas que apresentam características religiosas, sejam peregrinações ou visitas a lugares religiosos. Cunha (1997, in Silva, 2011) divide estas manifestações turístico- religiosas entre o turismo pontual e disperso, associado a festas e romarias, e as correntes turísticas direcionadas para a peregrinação a lugares santos.
Com o aumento da oferta ligada aos locais religiosos e a crescente difusão da informação, emergem novos segmentos da procura rumo a novas fronteiras da espiritualidade, onde,
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segundo Solla et al. (2008, in Silva, 2011), sobressai a experiência espiritual como resultado do desejo de novas sensações.
Por fim, pode-se apontar como é difícil definir o grau de motivação espiritual e religiosa no turismo religioso. Ainda assim, muitos produtos religiosos, como os caminhos de Santiago e os santuários de Fátima e de Santiago de Compostela, são produtos turísticos em crescimento, independentemente da motivação individual da viagem, e importantes como fatores de “desenvolvimento regional, promovendo a indústria turística e proporcionando um conjunto de oportunidades aos atores locais e regionais.” (Solla et al., in Silva, 2011: 52)
Nas últimas décadas este turismo espiritual tem sido expandido numa gama de produtos e pacotes turísticos que envolvem espaços ideais para retiros e vigílias, alguns de luxo, outros nem tanto, privilegiando a concentração espiritual. No outro espectro está a transformação dos lugares religiosos em atrações vulgares, com a venda de acessórios e tours, concluindo-se ser necessário formar guias especializados e atender adequadamente os peregrinos (Ruschamnn, 1997).
O conceito tradicional de turismo de voluntariado ou de solidário é marcado por um “certo paternalismo, característico da ajuda Norte-Sul”. Este define
“solidariedade do ponto de vista do viajante internacional que procura participar no desenvolvimento das comunidades que visita, seja através da colaboração direta em acções de desenvolvimento, seja através da canalização de uma parte do preço da viagem para o financiamento de um projeto.” (Marques, 2009: 85)
Aqui apresenta-se outra definição, difundida pela UNAT (Union Nationale de Associations de Tourisme):
“O turismo solidário agrupa todas as formas de turismo alternativo que colocam no centro da viagem o homem e o encontro e que se inscrevem numa lógica de desenvolvimento dos territórios. Os fundamentos deste tipo de turismo são: o envolvimento das populações locais nas diferentes fases do projecto turístico; o respeito pelas pessoas, pelas culturas e pela natureza; e uma distribuição mais justa dos recursos gerados.” (UNAT, 2002, in Marques, 2009: 85).
Um caso de estudo de turismo solidário é o apresentado por Nora Rizzo (2009) e realizado na Escola de Artes e Ofícios de Diogo Vaz, em São Tomé. Aqui, o turismo solidário define-se como:
“uma modalidade sem fins lucrativos em que o visitante se integra nas actividades quotidianas da Escola e combina o ócio criativo com as acções solidárias que podem ou não incorporar formação sistematizada, dependendo de alguns factores como as características do visitante, a língua, a idade, o tempo de permanência na Escola. Assim o visitante contribui com o seu esforço, as suas ideias e os seus conhecimentos, melhorando as condições de vida dos intervenientes neste processo. Esta participação
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activa na Escola e na comunidade promove a solidariedade entre os alunos e os visitantes e favorece o seu intercâmbio cultural.” (Rizzo, 2009: 336 e 337).
O turismo de voluntariado abrange um conjunto diversificado de experiências e cenários que envolvem turistas que não recebem compensação financeira enquanto desempenham várias formas de trabalho organizado de cariz social e/ou ambiental no destino (Wearing, 2001, in Weaver, 2008). É explicitamente associado com o aumento da importância da sustentabilidade, não só da perspetiva do destino mas também quanto ao desenvolvimento pessoal do turista participante. Outra característica distintiva é a associação do turismo de voluntariado a instituições como as Organizações Não Governamentais (ONGs) sem fins lucrativos, com objetivos de caráter ambiental, religioso e social baseados nas necessidades das principais regiões onde operam.
Os benefícios do turismo convencional são normalmente quantificados quanto às receitas turísticas diretas que poderão levar ao desenvolvimento económico e social de um destino. Já o turismo de voluntariado define-se por uma ligação mais direta entre atividade turística (neste caso, trabalho voluntário) e benefícios tangíveis para a comunidade local (exemplo de melhoramento de habitações, da educação e dos cuidados médicos) ou para o ambiente (Weaver, 2008).
McGehee (2002 in Weaver, 2008) cita provas de uma amostra de voluntários do Earthwatch Institute envolvidos no estabelecimento de cinco áreas protegidas em todo o mundo. Segundo o autor, estes voluntários, ao participarem em atividades de proteção ambiental, estimularam a sua vontade de envolvimento social e ambiental e reforçaram as reivindicações por parte desta organização que fomenta o espírito de cidadania global entre os participantes.
Neste tipo de turismo há que salientar a existência de interesses egoístas por parte dos turistas que podem melindrar a atividade voluntária (como o desejo de aventura ou de melhoramento do currículo) ou até mesmo interesses e parcialidades velados por parte das organizações que organizam os projetos de voluntariado (Weaver, 2008). Existe ainda o problema relacionado com a noção de que as várias formas de turismo alternativo nos países de terceiro mundo podem ser mais uma expressão de elitismo eurocentrista ou ocidentalista ao poderem implicar imposições aos residentes locais de práticas contrárias à sua cultura e mentalidade (Weaver, 2008).
O turismo de base natural é uma das áreas de pesquisa em turismo mais significativas atualmente e inclui turismo em ambientes naturais (como o turismo de aventura), turismo que foca elementos específicos do ambiente natural (exemplo do safari, do turismo da vida selvagem,
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turismo da natureza e turismo marinho), e o turismo desenvolvido para proteger e conservar áreas naturais (como o ecoturismo e o realizado em parques naturais) (Hall e Boyd, 2005).
O ambiente natural e o turismo são indissociáveis. Na última década do século XX, o ambiente era cada vez mais visto como o recurso chave do turismo. Assim, assegurar que o ambiente não é sobreexplorado, não sofre danos irreversíveis ou não se torna excessivamente poluído por causa do turismo constituirão algumas das maiores tarefas para planeadores e gestores de turismo no século XXI (Mason, 2009).
A consciência dos impactos ambientais negativos das ações da indústria do turismo e do turista sobre o meio levaram a várias mudanças no turismo. Uma delas é a adoção de regras e comportamentos mais adequados por parte dos dois elementos. Outra é o crescimento da busca pelo contacto responsável com a natureza. O turismo com esses objetivos é designado genericamente de ecoturismo.
Esta forma de turismo surgiu há relativamente pouco tempo, podendo ser datada nos finais de 1980, inícios da década seguinte, em que se deu a Cimeira da Terra do Rio de Janeiro (1992), que manifestamente apelava à sustentabilidade, incluindo no turismo. Ganhou importância rapidamente no meio do chamado turismo alternativo. É um turismo sustentável, na medida em que aposta no reduzido impacto sobre os recursos naturais do destino e contribui para a conservação das áreas naturais e para a manutenção dos modos de vida tradicional (Mason, 2009).
Segue-se uma súmula das principais vantagens do ecoturismo em relação aos outros tipos de turismo: cria mais empregos localmente; estimula a criação de mais indústrias domésticas, na área do alojamento, restauração, transportes, artesanato e serviços de guia; introduz mais capital na economia local; diversifica a economia local; promove a intervenção determinante da comunidade local no sistema turístico; privilegia o planeamento e a delimitação da ação turística, assegurando a sustentabilidade dos recursos; estimula o desenvolvimento das infraestruturas locais; promove a construção de espaços recreativos que podem ser usados tanto pelos locais como pelos visitantes; promove e investe na preservação dos espaços naturais e histórico- arqueológicos; gere e monitoriza os impactos negativos do turismo praticado, introduzindo fórmulas para contrabalançar com aspetos positivos.
A relativa falta de demarcação do conceito e a atratividade da marca ecoturismo leva ao seu uso indevido por parte de muitas entidades turísticas. Este é um dos maiores problemas que
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acompanha o fenómeno. Além disso, os impactos negativos só são reduzidos mas nunca eliminados (Mason, 2009).
O turismo de negócios é um conceito pouco consensual, já que há autores (Barreto, 1999, in Almeida, 2011) que defendem que o turismo não deve incluir atividades lucrativas por parte do turista. Outros autores (Lage e Milone, 2000, in Almeida, 2011) defendem que basta que serviços como alojamento, restauração e entretenimento sejam usados para que se considere que o viajante é um turista. E é esse o foco que faz Andrade (2000, in Almeida, 2011) afirmar que o turismo de negócios compreende
“o conjunto de atividades de viagens, de hospedagem, de alimentação e de lazer praticado por quem viaja a negócios referentes aos diversos setores da atividade comercial ou industrial ou para conhecer mercados, estabelecer contactos, firmar convénios, treinar novas tecnologias, vender ou comprar bens e serviços”. (Almeida, 2011:65 e 66).
Já a Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco (SaeR) (Confederação do Turismo Português, 2005, in Almeida, 2011) considera que abrange visitantes que se deslocam por razões profissionais ou motivo de negócios (numa permanência inferior a um ano), não exercendo qualquer atividade remunerada no local visitado e podendo compreender as atividades de incentive travel (visitas de familiarização, viagens de incentivo/prémio pagas parcial ou totalmente pelo empregador para compensação /prémio do nível de desempenho dos colaboradores), congressos e conferências, feiras e exposições para profissionais e negócios (em que negócios se deverá entender viagens de executivos/executive travel). Marques (s.d., in Almeida, 2011) inclui nesta tipologia de turismo todas as deslocações com o fim de trocar informações ou falar de negócios, sejam comerciais ou não (Almeida, 2011).
Podemos dizer que é um turismo relacionado com negócios, desenvolvido sobretudo em grandes cidades que o promovem e não se trata de um turismo de massas, apesar de estar em desenvolvimento. Em 2012, 14% das entradas turísticas mundiais tiveram motivos de negócios e profissionais(World Tourism Organization, 2013).
Entre as vantagens deste tipo de turismo está a
”sua contribuição para gerar emprego e receitas numa região; a criação de investimento na infraestrutura turística/recreativa; a criação de relações entre empresas; o favorecimento do interesse nacional na cooperação internacional; o apoio à formação e as oportunidades de educação; a facilitação do intercâmbio de novas ideias e tecnologia; o estabelecimento de contactos valiosos em termos científicos, negociais profissionais; e a promoção do país ou região para o turismo de lazer.” (Dwyer e Forsyth 1997, in Almeida, 2011:67 e 68).
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