5. Experiments and results
5.2 Training and Results
5.2.2 Experiments on dataset2
5.2.2.2 Training with downsampling images
O propósito inicial de Foucault no projeto sobre a história da sexualidade era falar da sexualidade como uma experiência historicamente singular. Esse discurso teria três eixos constitutivos: a formação dos saberes que a ela se refere, os sistemas de poder que regulam sua prática, e as formas pelas quais os indivíduos podem e devem se reconhecer como sujeitos dessa sexualidade.104 Entretanto, com as modificações em seu projeto inicial, algumas são as mudanças trazidas pela obra O uso dos prazeres, a começar pelo foco: em vez da modernidade, passa a ser a antiguidade. Essa inversão da época levou-o a uma questão muito simples e geral: “por que o comportamento sexual, as atividades e os prazeres a ele relacionados são objeto de uma preocupação moral?”105 O retorno à antiguidade também serviu para mostrar, “de que maneira, na
antiguidade, a atividade e os prazeres sexuais foram problematizados através de práticas de si pondo em jogo os critérios de uma estética da existência.”106
Em relação à genealogia das práticas de si, Foucault afirma a necessidade de se precisar o que se pode entender por prática de si, como também foi levado a substituir uma história dos sistemas de moral, feitas a partir das interdições, por uma história das problematizações éticas, feitas a partir das práticas de si.107
A diferenciação entre moral e práticas de si vai além do fato de, na modernidade, o comportamento ser orientado por interdições morais e, na antiguidade, por práticas de si. Convém fazer uma distinção em relação ao significado que esses termos têm em Foucault a partir do texto “Moral e prática de si”, terceira parte da Introdução da obra O uso dos prazeres. Partindo da ambiguidade da palavra moral é afirmado: “Por moral entende-se um conjunto de
104 FOUCAULT, Michel. História da sexualidade II: o uso dos prazeres, 8. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1997, p. 10.
105 Ibidem, p. 14.
106
Ibidem, p. 16.
valores e regras de ação propostas aos indivíduos e aos grupos por intermédio de aparelhos prescritivos diversos, como podem ser a família, as instituições educativas, as igrejas, etc.”108
Entretanto, considerando que muitas dessas regras são explicitamente formuladas em doutrinas, outras vezes são transmitidas de forma difusa e, longe de formarem um conjunto sistemático, acabam por constituir um jogo de elementos que se compensam, se anulam e se corrigem em certos pontos, permitindo tantos compromissos, como possibilidades de escapatórias. Assim, é melhor denominar de código moral o conjunto prescritivo, e, por moral, o comportamento real dos indivíduos em relação às regras e valores propostos. Foucault não se interessou tanto pela moral prescritiva e sim por um nível de fenômenos denominado de “moralidade dos comportamentos”. Resumidamente:
Com efeito, uma coisa é uma regra de conduta; outra, a conduta que se pode medir a essa regra. Mas, outra coisa ainda é a maneira pela qual é necessário “conduzir-se” – isto é, a maneira pela qual se deve constituir a si mesmo como sujeito moral, agindo em referência aos elementos prescritivos que constituem o código.109
Nos termos de Foucault, diante de um código de ação existem diferentes maneiras de se conduzir moralmente. Essas diferentes maneiras divergem em relação a vários pontos. Primeiro, elas concernem ao que se poderia chamar de substância ética, isto significa a maneira pela qual o indivíduo deve constituir tal parte dele mesmo como matéria principal de sua conduta moral.110 Um segundo conjunto de diferenças dizem respeito ao modo de sujeição, significa a maneira pela
108 Cf. Foucault (1997, p. 26).
109
Ibidem, p. 27.
qual o indivíduo estabelece sua relação com essa regra e se reconhece como ligado à obrigação de pô-la em prática. O terceiro grupo de diferenças possíveis diz respeito às formas da elaboração do trabalho ético que se efetua sobre si mesmo, não somente para tornar seu próprio comportamento conforme uma regra dada, mas para tentar se transformar a si mesmo em sujeito moral de sua própria conduta.111
E, finalmente, as diferenças podem se referir ao que se denominaria teleologia do sujeito moral, significando que uma ação não é moral em si mesma na sua singularidade, ela o é também na sua inserção e no lugar que ocupa no conjunto de uma conduta, e pode marcar uma etapa em sua duração, como progresso eventual de sua continuidade.112 Em suma, Foucault enfatiza que:
Não existe ação moral particular que não se refira á uma unidade de conduta moral; nem conduta moral que não implique a constituição de si mesmo como sujeito moral; nem tampouco constituição de sujeito moral sem “modos de subjetivação”, sem uma “ascética” ou sem “práticas de si” que as apoiem. A ação moral é indissociável dessas formas de atividades sobre si, formas essas que não são menos diferentes de uma moral a outra do que os sistemas de valores, de regras e de interdições.113
Em sentido amplo, toda moral comporta esses dois aspectos indicados, ou seja, os códigos de comportamento e as formas de subjetivação. Todavia, podem-se conceber morais cujo elemento forte e dinâmico deve ser procurado do lado das formas de subjetivação e das práticas de si. Esse parece ser o caso da antiguidade, em que a ênfase é colocada na relação consigo, nas práticas de si e na constituição do sujeito
111 Ibidem, p. 27-28.
112 Idem.
ético. Sobre esse aspecto, uma afirmação na Introdução de “Uso dos prazeres” merece destaque:
Ora, parece, pelo menos numa primeira abordagem, que as reflexões morais na antiguidade grega ou greco-romana foram muito mais orientadas para as práticas de si, e para questão das askesis, do que para as codificações das condutas e para definição estrita do permitido e do proibido.114
Com efeito, Foucault, em suas obras finais, se interessa menos por uma moral dos códigos prescritiva e mais por uma moral das práticas de si que levam à constituição do ser humano como sujeito ético. Assim, faz uma opção de método que implica em “manter em mente a distinção entre elementos de um código moral e os elementos de ascese; não esquecendo sua coexistência, suas relações, e sua relativa autonomia.”115