5. Experiments and results
5.2 Training and Results
5.2.1 Experiments on dataset1
5.2.1.2 Training of 3D U-net and its variants
É de conhecimento dos estudiosos de Foucault que, apesar de o interesse preponderante ser a política nos anos 70, isso não o torna um teórico político, no sentido convencional do termo, como aquele que estuda teorias do Estado. Não obstante falar de razão de Estado em suas análises, suas pesquisas incidem sobre as técnicas do poder, como o poder funciona historicamente em termos de dominação e obediência, não em termos de sua legitimidade, seus limites, sua origem – como as teorias clássicas do poder normalmente fazem. A partir do curso de 1978, O olhar de Foucault está voltado para escrever a história da governamentalidade, todavia, ao lado dessa experiência moderna que põe em prática um modo de exercer o poder sobre a população em seu conjunto, demonstrando uma preocupação política, encontramos em Foucault uma preocupação com a natureza e função das resistências nas relações de poder. Preocupação que é mais ética, uma vez que aposta em resistências individuais nos processos de subjetivação como modo de resistência à governamentalidade e ao biopoder.
Na visão de Guilherme Castelo Branco, no artigo “Considerações sobre ética e política”77, a perspectiva foucautiana privilegia o campo das resistências que
levantam a questão do estatuto dos indivíduos, isto é, lutas contra o assujeitamento, contra as diversas formas de subjetividade e submissão, “estas lutas, do ponto de vista estratégico, têm mais possibilidades de êxito na atualidade, em função da multiplicidade de formas possíveis que a resistência contra o assujeitamento comporta.”78 Encontramos em Foucault ênfase a uma resistência no plano individual,
no plano ético. Esse pensamento é confirmado pelo pensador francês em um artigo de 1982, O sujeito e o poder, em que aparece a articulação entre o ético e o político, além da ênfase a uma certa atitude de modernidade, ponto de partida da presente tese.
Em O sujeito e o poder, salienta-se a questão das relações de poder tendo como foco as formas de resistência presentes nessas relações, mais especificamente, nas lutas contemporâneas, que são batalhas contra o governo de individualização e giram em torno da questão quem somos nós? Ainda, a recusa de que uma investigação administrativa ou científica tenha o poder de determinar quem somos.
Em suma, o principal objetivo destas lutas é atacar, não tanto “tal ou tal” instituição de poder ou grupo ou elite ou classe, mas antes uma técnica, uma forma de poder. Esta forma de poder aplica-se à vida cotidiana imediata que categoriza o indivíduo, marca-o com sua própria individualidade, liga-o à sua própria identidade, impõe-lhe uma lei de verdade, que devemos reconhecer e que os outros devem reconhecer nele. É uma forma de poder que faz dos indivíduos
77
CASTELO BRANCO, Guilherme. Retratos de Foucault. Rio de Janeiro: Nau, 2000.
sujeitos. Há dois significados para a palavra sujeito: sujeito a alguém pelo controle e dependência, e preso à sua identidade por uma consciência e autoconhecimento. Ambos sugerem uma forma de poder que subjuga e torna sujeito a.79
Essas lutas são todas as lutas que possam se desenvolver mesmo na esfera individual contra a sujeição nos processos de subjetivação. São formas de resistências cotidianas, tais quais as estratégias de poder atingem os indivíduos naquilo que deveria ser mais pessoal e particular, a constituição de sua identidade. A resistência a esta condição de sujeito a, seja uma verdade científica ou estratégia de controle, se dá mais na esfera da ética, porém, com consequências políticas em nível mais geral.
Foucault declara que, no século XIX, a luta contra a exploração surgiu em primeiro plano. Atualmente, a luta contra as formas de sujeição e a submissão da subjetividade estão se tornando cada vez mais importantes, embora, é claro, as lutas contra as formas de dominação e exploração não terem desaparecido.80 Foucault sustenta a tese de que os mecanismos de sujeição mantêm ralações com os mecanismos de dominação e exploração, “porém, não constituem apenas o “terminal” de mecanismos mais fundamentais. Eles mantêm relações complexas e circulares com outras formas.81
A razão dessa independência dos mecanismos de sujeição deve-se ao fato de o poder do Estado ser uma forma de poder tanto individualizante como totalizadora, porquanto existe uma astuciosa combinação das técnicas de individualização e dos procedimentos de totalização. Isto só foi possível devido ao
79 FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poder. In: DREYFUSS, H. RABINOW, P. Uma trajetória filosófica. Para
além do estruturalismo e da hermenêutica. Forense, p. 235. 80
Cf. Foucault (p. 236).
Estado moderno ter integrado o poder pastoral como tecnologia de individualização. Ressalta-se que essa forma muito específica de poder “não pode ser exercida sem o conhecimento da mente das pessoas, sem explorar suas almas, sem fazer-lhes revelar os seus segredos mais íntimos. Implica um saber da consciência e a capacidade de dirigi-la”.82
É válido salientar que esta forma de poder pastoral faz parte da história, se não desapareceu, pelo menos perdeu sua força desde o século XVIII. Entretanto, sua função se ampliou e se multiplicou fora das instituições eclesiásticas, surgiu uma nova distribuição e organização do poder individualizante, uma nova forma de poder pastoral, ampliando-se por todo o corpo social e obtendo apoio de multiplicidades de instituições.
Podemos identificar uma penetração efetiva e eficiente desse novo poder na vida individual, a tal ponto que, como diz Foucault:
Talvez, o objetivo hoje em dia não seja descobrir o que somos, mas recusar o que somos. Temos que imaginar e construir o que poderíamos ser para nos livrarmos deste duplo constrangimento político, que é a simultânea individualização própria às estruturas do poder moderno.83
Logo na sequência, Foucault conclui sua argumentação enfatizando o que poderá ser entendido como a grande questão ética e política da atualidade, a promoção de novas formas de subjetividades diante das estratégias das formas atuais de poder individualizante.
82
Cf. Foucault (p. 337).
A conclusão seria que o problema político, ético, social e filosófico de nossos dias não consiste em liberar o indivíduo do Estado, nem das instituições do Estado, porém, nos liberarmos tanto do Estado quanto do tipo de individualização que a ele se liga. Temos que promover novas formas de subjetividade através da recusa deste tipo de individualidade que nos foi imposto há vários séculos.84