A modernização da vida nas grandes cidades na metade do século XX, caracterizada pela mudança no mundo do trabalho, pela urbanização, pela industrialização, superpopulação, massificação dos meios de comunicação, foi acompanhada por uma adoção de um ideário individualista, marca do avanço das idéias liberais. Segundo
ualistas provocou uma mudança nos valores, afetaram fortemente os sistemas hierarquizantes que privilegiavam o contato com o outro e a reciprocidade entre os seres humanos, mesmo que estas trocas revelassem relações de opressão.
Na vivência do cotidiano, os valores éticos de respeito ao próximo, sobretudo no Brasil, foram perde
lo XX, as relações entre as classes sociais eram marcadas pela tensão e pelo conflito ao mesmo tempo em que, de certa forma, previam negociação e troca com o objetivo de que as diferenças fossem minimizadas, pois as políticas públicas revelavam
um clientelismo e paternalismo. No entanto, hoje, vemos o avanço de sistemas de pensamento individualistas ganhar espaço. E quanto mais estes se solidificam, a violência assume um caráter mais severo, passando a se constituir como marca do cotidiano, a ponto de a violência se transformar em código de comunicação e filiação social. A violência física foi se rotinizando.
Segundo Mancebo (2002), na forma neoliberal de governo característica da metade do século XX, o que se privilegia nas relações humanas é o utilitarismo. O valor mercad
iduais, no sentido de luta pelo reconhecimento de uma categoria, são o que definem os interesses
coletiv liberdade
individ
olvimento pessoal e coletiv
ológico se torna, de maneira mais aguda, ponto de mediação das trocas pessoais. As atitudes do cotidiano são marcadas pelo interesse próprio, os valores do indivíduo devem reger a vida em detrimento dos da coletividade. Coincidências indiv
os. A felicidade própria deve ser buscada a qualquer custo pelo uso da
ual, não importando as conseqüências, pois os teóricos neoliberais postulam que a busca pessoal pela satisfação é natural e conduz a um equilíbrio social e individual.
As ações coletivas, que serviam de garantia de vida para população, características de Estado de Bem-Estar, do Estado Provedor, também passam, no estilo neoliberal, a perder força. O Estado passa a regular as políticas sociais a partir dos índices econômicos. A competição imposta pelo neoliberalismo estabelece que o cidadão é o único responsável pela sua condição de vida, sem se preocupar com as condições necessárias para o exercício da liberdade e para o desenv
o.
O sentido dado à liberdade no neoliberalismo, pautado no utilitarismo, ao invés de fortalecer a igualdade, promove o seu rebaixamento. Nos países periféricos do capitalismo, nesta forma global de funcionar, tendem a se intensificar a pobreza e as diferenças sociais, minando os espaços de expressão sócio-política. As diferenças
provocadas pelas ações individuais são necessárias para o desenvolvimento, segundo as idéias liberais, pois acreditam que a diferença produz. Na realidade, o que está por trás deste discurso é a exploração, haja vista que as diferenças são necessárias para se estabelecer e manter uma relação dominador-dominado. Trata-se da naturalização da diferença a partir de um ideário que impõe uma exploração.
de burgue
caótica em tempos de globalização, tem contribuído para extinção das interaç
A ênfase para cada indivíduo passa ser a diferença. O que possa lhe dar singularidade. As questões que articulam os indivíduos e dão um sentido de pertencimento a um território, as produções culturais coletivas, perdem força no plano da modernidade. É uma busca esvaziada de sentido pela própria individualidade, pois as civilizações crescem e se desenvolvem a partir do contato, dos escambos com os vizinhos, na vivência, mesmo que tensa, em comunidade (Ianni,1999). A constituição individual se dá no contato.
A valorização da interioridade, do desenvolvimento pessoal, é uma característica forte neoliberal. O cultivo das potencialidades individuais é marca da socieda
sa intimizada e é absorvido pelo mercado, fazendo com que os indivíduos foquem o auto-desenvolvimento. Desta maneira, acaba-se produzindo um indivíduo desinteressado perante as questões coletivas, um ser despolitizado. O que acaba se configurando como uma estratégia sutil de controle, pois enfraquecidas ficam as manifestações e as mobilizações populares (Mancebo, 2002).
O mergulho em formas individualistas, construídas a partir de uma concepção liberalista
ões sociais, propiciando um maior distanciamento do outro. Neste processo, os homens já não passam a se reconhecerem, construindo uma visão coisificadora do outro; tendem a se tornarem objetos descartáveis a serem consumidos.
Esta adoção individualista é materializada na constituição das cidades. Percebemos como a paisagem das cidades tem se transformado, assumindo formas de controle e de enclausuramento. Os condomínios fechados começaram a se tornar mais comuns, os muros e as grades estão cada vez mais altos e os sistemas eletrônicos e de segurança particular começaram a ganhar espaço no mercado, cerceando a vida até dos que ado
es, de acordo com Zamora (1999), também têm adotado estas es
nto, minando a sociabilidade baseada na solidariedade e no diálogo.
tam este tipo de estratégia de proteção. Isso tudo, na realidade, não minimiza o problema a violência, pois dificulta o contato com o outro, as trocas e os diálogos para resolução das tensões existentes. O controle urbano é um traço forte da modernidade e sempre definiu onde deveriam ficar alocadas a riqueza, a pobreza, o caos e o que deve ser expurgado, acirrando as contradições e tensões entre os diferentes grupos sociais (Vergne, 2002).
As camadas popular
tratégias de autoproteção. O contato e a vivência com episódios violentos fazem com que os moradores de comunidades pobres passem a maior parte do tempo de sua vida no espaço doméstico, vivendo uma vida privada de quase confinamento, abandonando os espaços públicos onde são cultivadas as relações de reciprocidade e de produção subjetiva e cultural. Desta forma, o enclausuramento doméstico demanda novas formas de sociabilidade e dificulta a articulação dos valores e das tradições produzidas nas comunidades.
O confinamento doméstico se constitui também como estratégia de controle, como uma prática disciplinar que exclui a todos, independentemente do grupo que se faça parte. Como a convivência pública vem perdendo espaço e o encontro com o outro está cada vez mais escasso e vazio de sentido, os referentes culturais perdem espaço e as relações passam a entrar no campo do medo e do estranhame
No que diz respeito à questão da criança e do jovem, as redes sociais de apoio e de segurança estão mais escassas. Os pais, devido à redução da circulação na vida pública, contam com poucas pessoas, inclusive familiares, na tarefa de criação dos seus filhos. Os referentes parentais e culturais, assim, estão cada vez menores e com pouco alcance. As estratégias de solidariedade estão reduzidas e, principalmente, o jovem não encontra espaço para subjetivação e onde se sentir seguro para compartilhar de valores e referenciais de coletividade.