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7. Laster

7.5 Trafikklast

das verdades ambientais

Como visto, no capítulo sobre biopolítica, a racionalidade liberal foi substituída pela racionalidade neoliberal. O capitalismo teve que se reinventar para sobreviver depois da Segunda Guerra Mundial. A partir da mudança de paradigma imposta pelos movimentos ambientais, o capitalismo se reinventou novamente, agora, para acompanhar a ascensão de um componente novo, o meio ambiente.

A partir dos anos 70, o discurso desenvolvimentista revelou seus limites através de uma crise, que embora tivesse maior visibilidade ambiental era também social, econômica e ético-cultural (LIMA, 2003). Essa crise ambiental trouxe o meio ambiente para o centro das grandes discussões internacionais. Era necessário remodelar o capitalismo, uma vez que o crescimento acelerado e a cultura do consumismo não eram mais tão sólidos como parecia há quatro décadas.

Os recursos naturais não pareciam mais ser ilimitados, o capitalismo mostrava sua fraqueza uma vez que estava ancorado na extração e transformação de bens naturais para o consumo. Foi justamente nessa esteira de acontecimentos, embora os germes desse discurso possam ser identificados em contextos históricos remotos, que surge o discurso do desenvolvimento sustentável.

Lima (2003, p. 103) ressalta que:

Vale a pena lembrar que toda essa reorientação da ideia de desenvolvimento se deu no contexto de crise do próprio capitalismo e de consolidação de uma hegemonia de pensamento e de políticas neoliberais, postas em prática a partir dos anos 80, como parte da estratégia global de reestruturação sistêmica.

O desenvolvimento sustentável tratava-se em primeiro lugar de gerenciar a produção econômica do capitalismo ante os efeitos da degradação ambiental, tanto do ponto de vista da oferta de recursos naturais necessários ao sistema produtor de mercadorias, quanto da perspectiva de produção e acondicionamento de resíduos e da poluição geradas por eles (LIMA, 2003). Implicava também responder sobre os limites do crescimento, intensamente discutidos a partir de 1970 em todos os fóruns relacionados ao desenvolvimento.

manutenção do crescimento econômico, correlacionando a ele a redução da degradação ambiental e ganhos sociais. Esse discurso, como visto anteriormente, coaduna muito bem com o capitalismo. Não é despretensiosamente afirmar que ele tem dado a tônica das discussões mais recentes, em âmbito internacional, sobre o meio ambiente.

Passetti (2013) ressalta ainda que tem o desenvolvimento sustentável um discursos que agrega diversidades em muitos níveis. Dentro do capitalismo do desenvolvimento sustentável, segundo esse autor, tanto os neoliberais como os partidos de esquerda, que propugnavam pelo Estado do bem estar social, se unem em defesa do desenvolvimento sustentável, ou do que Passetti (2013) denomina, ecologia como humanização e estratégia política. Ambos os lados se inscrevem como forças atuantes na formação da ecopolítica atual, como renovadores da economia política e da crítica da economia política. “[...] neoliberais e marxistas parecem ter se encontrado no mesmo fluxo, ainda que, no plano ideológico, articulem discursos de reviravolta imediatos [...]” (PASSETTI, 2013, p. 90).

Nessa mesma linha, Lima (2003, p.104) afirma que o discurso do desenvolvimento sustentável “Possibilitava, ainda que vagamente, a construção de um campo comum que, se não promovia o consenso entre as diversas concepções e grupos divergentes, permitia amortecer ou camuflar os conflitos que os dividiam”. Esse autor afirma ainda que o campo da sustentabilidade “permitiu aproximar capitalistas e socialistas, conservacionistas e ecologistas, antropocênctricos e biocêntricos, empresários e ambientalistas, Ongs, movimentos sociais e agências governamentais” (LIMA, 2003, p.104).

Essa adesão de tantos atores com ideários e interesses diversos se deve ao fato que o discurso do desenvolvimento sustentável conseguiu demonstrar que a tutela do meio ambiente promove o crescimento da economia. Logo, foi além de defender a convivência desses valores antes antagônicos, acabou, na verdade, demonstrando que fusão de interesses está adstrita à restrição de acesso da população aos recursos naturais, ou seja, está na limitação ao direito de propriedade.

Passetti (2013), Lima (2003), Malette (2011), Carvalho (1989, 2006), Rutherford (1999a, 1999b, 2000), Darier (1999), Moreira (2004), entre outros autores citados neste trabalho, concordam que o foco no meio ambiente e as práticas que se

desenvolveram a partir desse novo componente foram forjados através de discursos, utilizados pelo capitalismo para de alguma forma se reinventar, se manter vivo.

Mas como o capitalismo pôde se reinventar diante da restrição de acesso aos recursos naturais?

Os recursos podem ser utilizados desde que atendidos os requisitos impostos pela lei e pelas autoridades administrativas, o que garante o atendimento ao modelo capitalista de produção e ao mesmo tempo o protecionista propugnado pelo discurso do meio ambiente ecologicamente equilibrado. Percebe-se aqui um claro instrumento de controle, dado que as normas e as autoridades administrativas é que passam a gerir os recursos do planeta. O acesso aos recursos naturais é limitado, porém, possível. E como o regime é o do capitalismo, essa restrição não pode ser de conteúdo e extensão tal que impeça esse modelo econômico-social de continuar funcionado.

Do objetivo de se desenvolver de forma sustentável, percebe-se mais o ímpeto de produzir de forma sustentável do que de reduzir o consumo, pelo contrário o desenvolvimento sustentável acabou criando novos mercados. Com ele surge uma infinita gama de novos produtos a serem consumidos.

As empresas que funcionam dentro do paradigma desenvolvimentista, com consumo exacerbado de energia e com produção de lixo exagerado se reinventam ou são substituídas por aquelas capazes de incorporar as variáveis do paradigma do desenvolvimento sustentável. Abrem-se novos mercados para produtos com embalagens biodegradáveis, amigos da natureza, produtos verdes e tantos outros rótulos que são acrescidos aos velhos e aos novos produtos que inundam o mercado.

Diante do exposto, não há como não concordar com Passetti (2013) quando esse autor afirma que o capitalismo se mostra em plena forma dentro do paradigma do desenvolvimento sustentável. Com ele o capitalismo teve seu fôlego renovado. Da mesma forma, não há como negar a afirmação de Rutherford (2000) de que é necessário lançar as luzes de Foucault sobre os mecanismos e técnicas de intervenção no meio ambiente. Especialmente em relação às normas ambientais e aos atores políticos e econômicos que têm maior influência em sua criação. Simplesmente, porque dos mesmos dispositivos de governamentalidade fazem uso os atores da política e da economia do desenvolvimento sustentável.

Os dispositivos de ecogovernamentalidade, como ao final ficará consolidado, são todos os instrumentos de governo dos viventes pela regulação da vida e de seu meio, ou seja, de tudo o que é necessário para a manutenção do

corpo são e do modelo do Capitalismo Sustentável.

4.4. CONSTITUIÇÃO DE SABERES E DE VERDADES NESSE NOVO