Como método, vislumbramos uma proposta que valorizasse uma pesquisa qualitativa com itinerários das histórias de vida dos participantes. Tal predileção pela pesquisa qualitativa e, especialmente pelo o uso do método de história de vida, caracteriza, a nosso ver, um fazer científico enquanto práxis social. Escolhemos a história de vida enquanto método de pesquisa e utilizamos a técnica da entrevista no registro das narrativas (pela própria voz dos protagonistas), das experiências humanas.
Este método é em grande parte utilizado pelas pesquisas desenvolvidas no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Identidade como Metamorfose (NEPIM) do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da PUC-SP, sob orientação do Prof. Dr. Antonio da Costa Ciampa, do qual fazemos parte. Sendo assim, a escolha pela narrativa de história de vida como elemento empírico da pesquisa era evidente.
Para as análises realizadas, pautamo-nos no referencial teórico-metodológico do autor Antonio da Costa Ciampa90 (1987), psicólogo social, guiando-nos por seus
89Pudemos fazer esta constatação no trabalho desenvolvido com meninos e meninas com vivência
de rua, citado no livro: Contar histórias: um recurso arteterapêutico de transformação e cura (2007).
90 Grande parte das ideias apresentadas aqui remete a um texto de Ciampa, de 2005, sobre os
“fundamentos teóricos” de sua Linha de Pesquisa sobre Identidade Social como Metamorfose Humana, e demais produções do autor, muitas delas sem publicação, compartilhadas em reuniões do núcleo.
conceitos de identidade-metamorfose-emanciapão. O autor desenvolveu sua concepção de identidade humana a partir da Estória de Severino e a História da Severina (1987). Duas histórias: a estória de ficção contada pelo poeta João Cabral de Melo Neto, que fala sobre a nossa realidade, sobre o nosso tempo e, outra, a história real de uma Severina que é um pouco cada um de nós. “Ela falou de nossa sociedade, de nossa época: falou de nós falando dela” (1987, p.125). O singular materializando o universal, na voz de Ciampa. O autor considera que, na narrativa de história de vida, método por ele adotado nas pesquisas de identidade “o singular materializa o universal na unidade do particular” (idem, p. 125), como observou na história de Severina.
A proposta de Ciampa está inserida na psicologia social com base na chamada teoria crítica que considera o fenômeno estudado com suas determinações histórico-sociais e orientação para a emancipação humana. Por abarcar aspectos subjetivos, intersubjetivos, objetivos e normativos é que tal conceito de identidade pode ser considerado, dentro na Psicologia Social, como uma categoria analítica útil para a compreensão psicossocial do ser humano e dos processos sociais. A tese concebida por Ciampa efetiva-se em uma teoria que pode ser localizada como uma categoria de análise, da psicologia social, cuja linha de pensamento converge com os pressupostos teóricos encontrados principalmente em Berger e Luckmann, Marx, Mead, Hegel e Habermas. Utilizaremos, portanto, a tese de Ciampa de que Identidade é metamorfose e metamorfose é vida.
3.3.1 Da seleção dos colaboradores
A pesquisa teve início com o trabalho de observação pela pesquisadora em sala de aulas, sobre o envolvimento individual dos alunos, frente aos contos narrados, bem como das atividades propostas. Em três semestres (sendo quinze alunos por semestre) participaram quarenta e cinco alunos, homens e mulheres, adultos com nível universitário. Entrevistamos os quarenta e cinco alunos e de todos obtivemos informações sobre a influência dos contos (trabalhados em sala de aula) em suas vidas. Influências percebidas no sentido de notarem algum tipo de movimento que pudesse ser considerado como possibilidade de emancipação.
Dados os nossos limites de tempo e seguindo as considerações de Ciampa quanto a sujeitos emblemáticos, decidimos entrevistar apenas nove deles. Dos nove alunos retiramos um, considerando-o como o nosso caso emblemático.
Os critérios para a escolha dos nove alunos por meio de observações foram: realização das tarefas em sala de aula (construção de imagens para os contos- desenho); realização das tarefas de casa solicitadas; envolvimento em pesquisas sobre o plano simbólico dos contos, leituras sugeridas; discussão em sala de aula, assim como correlações de suas histórias de vida com as temáticas dos contos.
Convém mencionar que a escolha dos entrevistados não foi tarefa fácil tendo em vista que todos os participantes ofereciam condições para contribuir para o nosso trabalho, referindo-se especialmente à “força” de mobilização dos contos em suas vidas. Apresentaremos oportunamente, para não anteciparmos considerações, os recortes dessas entrevistas.
3.3.2 Das entrevistas
Definida a metodologia e o grupo de participantes, convidamos os alunos para as entrevistas; os dias e horários foram acertados e previmos em torno de duas horas para a primeira entrevista. Caso fosse necessário marcaríamos outros encontros.
Antes das entrevistas foram todos avisados sobre a possibilidade de falarem sobre sua história de vida, do modo que quisessem e que partiríamos da pergunta: Quem é você? Iniciada a gravação teriam liberdade para começar por onde quisessem. Todos iniciaram dizendo o seu nome e, em seguida, a ordem de abordagem variou entre os entrevistados.
As entrevistas aconteceram de forma descontraída e em clima agradável. A duração variou entre uma hora e meia e duas horas. Entendemos que as nossas considerações sobre os ensinamentos de Ecléa Bosi (1999) no trato com as pesquisas empíricas, nos ajudou como um guia. Ela diz:
(...) Uma pesquisa é um compromisso afetivo, um trabalho ombro a ombro com o sujeito da pesquisa. E ela será tanto mais válida se o observador não fizer excursões saltuárias na situação do observado, mas participar de sua vida. A expressão “observador participante” pode dar origem a interpretações apressadas. Não basta a simpatia (sentimento fácil) pelo objeto da pesquisa, é preciso que nasça uma compreensão sedimentada no trabalho comum, na convivência, nas condições muito semelhantes. (1999, p. 38).
Ecléa Bosi (1999) é clara quando diz: “Esse vínculo não traduz apenas um simpatia espontânea que se foi desenvolvendo durante a pesquisa, mas resulta de um amadurecimento de quem deseja compreender a própria vida revelada do sujeito” (idem, p. 37-38). O segundo ponto diz respeito à questão da observação participante. Da mesma forma, seguimos as pegadas de Malinowski (1978), responsável pela introdução do conceito de observação participante e criador da antropologia social, quando fala da questão do imponderável da vida real, em suas palavras:
(...) há uma série de fenômenos de suma importância que de forma alguma podem ser registrados apenas com o auxílio de questionários ou documentos estatístico, mas devem ser observados em sua plena realidade. A esses fenômenos podemos dar o nome de os imponderáveis da vida real (...). Todos esses fatos podem e devem ser formulados cientificamente e registrados; entretanto, é preciso que isso não se transforme numa simples anotação superficial de detalhes, como usualmente é feito por observadores comuns, mas seja acompanhado de um esforço para atingir a atitude mental que neles se expressa. É esse o motivo porque o trabalho de observadores cientificamente treinados, aplicado ao estudo consciencioso dessa categoria de fatos, poderá, acredito, trazer resultados de inestimável valor. (...), com efeito, se nos lembrarmos de que estes fatos imponderáveis, porém importantíssimos, da vida real são parte integrante da vida grupal, se nos lembrarmos de que neles estão entrelaçados os numerosos fios que vinculam a família, o clã, a aldeia e a tribo, sua importância se torna evidente. (1978, p. 29-30).
Após as entrevistas vieram as respectivas considerações, obedecendo ao nosso foco de pesquisa, especialmente quanto ao conceito de metamorfose com vias para emancipação. Pudemos constatar em todas as entrevistas metamorfoses claramente reconhecidas pelos entrevistados com vieses de emancipação. Por isso, decidimos optar pelo aprofundamento da análise de uma história de vida, seguindo os pressupostos de Antonio Ciampa quanto às considerações de que o singular
materializa o universal na unidade do particular. Um dos participantes foi, portanto, escolhido. Trata-se de uma mulher de 39 anos, branca, com união estável há sete anos, formada em ciências sociais, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, profissão atriz, atualmente desempregada.
Consideramos ainda importante apresentar recortes das entrevistas dos nossos colaboradores, a título de sustentação das nossas comprovações.