“O ser humano também Se transforma, inevitavelmente.”
A. Ciampa
A abordagem teórico-metodológica de Ciampa (1987) mostra que identidade é metamorfose humana em busca de emancipação, ou seja, a identidade do sujeito está em constante metamorfose, como processo histórico e social que ocorre desde o nascimento até a morte. A palavra metamorfose vem do grego e é utilizada pela biologia para indicar as mutações das espécies. Contudo, Ciampa faz uso do termo, como analogia à mutação, para explicar as transformações dos seres humanos ao longo de suas histórias. Quando inicialmente fala de identidade como processo de metamorfose, compreende que a questão da emancipação já está implícita neste processo. Processo que se dá por meio da individuação e envolve a compreensão de como os indivíduos se desenvolvem até se construírem como sujeitos capazes de afirmar a própria identidade.
Como já afirmamos na compreensão dos pressupostos do sintagma identidade-metamorfose-emancipação, a temática da emancipação ocupa um lugar de destaque no presente trabalho de pesquisa. Mais do que uma simples junção de palavras, cada termo conduz a uma revelação de significados que, se aplicados aos estudos sobre identidade, nos permitem compreender tal fenômeno em toda a complexidade de fatores que envolvem o cognitivo, o estético, o afetivo, o moral, o
corpóreo, o motor etc. Em outras palavras, considera-se como pressuposto que o indivíduo à medida que vai adquirindo a capacidade de agir e de falar, passa a se reconhecer e ser reconhecido de forma processual onde a subjetividade do individuo é vista sempre articulada com a objetividade da natureza, a normatividade da sociedade e a intersubjetividade da linguagem. A construção, portanto, do sintagma identidade-metamorfose-emancipação admite o termo “emancipação” a partir da responsabilidade de observação de tais complexidades em toda a sua abrangência, o que, sobretudo, interessa a este trabalho.
De maneira bastante clara, Ciampa se refere a nossa sociedade de classes –, “onde somos todos explorados e violentados: principalmente somos, por ver barradas possibilidades de concretizar nossa humanidade” (1987, p. 127) –, e nos ensina a localizar tais observações no bojo do cotidiano da vida particular dos sujeitos, pois considera a unidade do singular, como espelho revelador do universal e olha para esta questão observando-a do particular para o universal, como o fez na análise da Estória do Severino e a História da Severina de onde conclui,, a partir de observações empíricas (sistemáticas e assistemáticas) que identidade é metamorfose e metamorfose é vida. (1986). Aborda, portanto, o fenômeno da identidade como uma questão social e política, ele diz:
No seu conjunto, as identidades constituem a sociedade, ao mesmo tempo em que são constituídas, cada uma por ela. A questão da identidade, assim, deve ser vista não como questão apenas científica, nem meramente acadêmica: é sobretudo uma questão social, um questão política. Como tal diz respeito a todos nós. (1987, p. 127-128).
O autor considerou fundamentalmente três categorias importantes para estudar o homem, são elas: atividade, consciência e identidade. Destacando a categoria de identidade, indica que pode ser orientada pelas perguntas: “Quem sou eu?”, “Quem é você?”, “Quem é ele?”. Perguntas, pertinentes ao campo da psicologia social – que se dedica ao estudo dos fenômenos psicológicos suscitados pela interação entre as pessoas – refletem a necessidade de compreensão da existência do indivíduo, e, servem como instrumento de validação das atividades praticadas nas redes que constituem a rotina de suas vidas. Contudo, segundo o
autor, identidade não significa apenas “o que eu sou”, mas “quem sou” situado no tempo e nos espaço sociais. Identidade, então se constitui como uma experiência cultural, onde a presença do outro é condição de possibilidades para a constituição e afirmação da identidade enquanto singularidade. Logo, a identidade não é inata. Deve ser entendida como uma forma sócio-histórica de individualidade. Isto significa que os contextos sociais são responsáveis pelo fornecimento das condições mais variadas para alternativas de compressão da identidade humana.
Para explicar como se dá a apresentação da identidade, enquanto metamorfose, Ciampa emprega elementos da dramaturgia, tais como papéis e personagens. Afirma que a identidade se constitui de uma multiplicidade de papéis. Nas atividades praticadas pelo sujeito trabalha-se com as noções de papel, personagem e autor. Atentemos, pois, para questões identitárias compreendidas por meio de personagens, ou seja: a identidade humana só é passível de ser estudada em sua aparência e no jogo de representação entre as diferentes personagens que o sujeito desempenha. Isto quer dizer que somos personagens de uma história que nós mesmos criamos, fazendo-nos autores e atores ao mesmo tempo. Fica claro que a personagem se refere à identidade empírica que é a forma pela qual a identidade se expressa no mundo e implica sempre na presença de um ator desempenhando um papel social. Contudo, a personagem ao mesmo tempo se confunde e se diferencia do papel, isso porque o homem não absorve passivamente o mundo social, mas apropria-se dele de maneira ativa porque somos coautores de nossas histórias. Enquanto autores, participamos da criação do papel. Enquanto atores, encarnamos o papel – dentro dos limites do papel criamos o personagem como forma pessoal (idiossincrática). Este jogo, sem dúvida, nos leva a ver a implicância de uma multiplicidade de papéis com um universo de personagens sempre existindo e ainda por existir.
A esse respeito, Ciampa esclarece que papéis são predicações; ao refletirmos sobre nós, adotamos novas formas de predicações como papéis específicos e conhecidos - idiossincráticos. É como no teatro quando um determinado papel exige um personagem. Por meio dessa analogia o autor escolhe a forma personagem como a melhor maneira de expressar a generalidade do ser diante do palco social onde a articulação dessas personagens irá compor a
identidade do indivíduo. Nas considerações do autor, temos por papel social aquilo que a sociedade espera do indivíduo; os padrões de conduta que lhe são exigidos. Já a questão da personagem, constitui-se pelo modo particular, como diz Ciampa (1987), Miranda (2011) e também Zumthor, pelo toque pessoal que cada indivíduo oferece ao desempenhar o seu personagem, este último referindo-se à questão da performance do contador de histórias, tratada no primeiro capítulo desta tese.
A identidade para Ciampa é, então, “história”, pois não há personagem fora da história: “a identidade precisa ser representada”, diz Ciampa (2001, p. 158). É, portanto compreendida como uma interioridade que somente é vista quando exteriorizada e reconhecida, como já vimos, isto implica no jogo de representação, que vale dizer, está entre as diferentes personagens que exercitamos cotidianamente.
A questão da identidade, então, é dinâmica, “a identidade se constitui no produto de um permanente processo” (CIAMPA, 1987, p. 171), onde a tendência é a personagem se modificar progressivamente, em uma articulação entre objetividade e subjetividade. É complexa. É múltipla, um constante devir. É uma rede intrincada de representações em que cada personagem se articula com os demais. O próprio autor explica: “podemos dizer que as personagens são momentos da identidade, degraus que se sucedem, círculos que se voltam sobre si, em um movimento, ao mesmo tempo de progressão e de regressão” (1987, p. 198). Então, identidade é a expressão de várias personagens e a articulação dessas personagens é, por fim, a expressão do eu.
Para entender com mais profundidade a questão, conforme as proposições do autor é preciso entender o processo de sua produção. Esse é um trabalho que nos obriga a observar cada momento da existência do indivíduo, em que se manifestam partes como desdobramentos das múltiplas determinações a que o indivíduo está sujeito, embora seja ele uma totalidade, como diz o próprio autor.
O processo de identidade é, portanto, permanentemente construído e reconstruído nas e pelas trocas simbólicas que o indivíduo tem na sociedade. É ainda Ciampa, quem insiste em oferecer uma visão onde cada indivíduo encarna as
relações sociais, configurando uma identidade pessoal, uma história de vida, um projeto de vida; mas uma vida que nem sempre é vivida, no bojo do emaranhado das relações sociais.
Isto tudo nos leva a crer que quando se pensa no homem e na construção de sentidos para a sua vida, jamais se levam em consideração sujeitos isolados, pois que isso afeta sensivelmente a vida humana, sob o risco da perda de sentidos para a sua existência. É importante destacar que as práticas sociais nos propiciam experiências de tal ordem que nos ajudam a assumir a nossa condição humana e, como diz Ciampa, nos humanizam. De acordo com o autor, o ser humano não nasce humano, mas humanizável, através de um processo que se dá por meio da socialização. Para Ciampa “ser humano é integração de natureza e cultura”. Esta humanização, afirma, é um fenômeno social, segundo o qual o protagonismo está para a comunidade – todo ser humano nasce em um ambiente - onde há uma trama complexa de histórias individuais e vínculos geracionais com experiências compartilhadas – pelas atividades que expressam um significado subjetivo – perpetuadas por gerações (ANDOLFI, 1984), De maneira que, a atenção volta-se, para a realidade da vida: “que os homens “conhecem” como “realidade” em sua vida cotidiana, vida não teórica, ou pré-teórica (BERGER, PETER L, 1976, p. 31)”. Entendemos, pois, que são os acontecimentos de senso-comum aos grupos, que marcam de tal forma que a memória pode transmiti-los, ao longo dos tempos, com altíssimo grau de identificação. “É precisamente este “conhecimento” que constitui o tecido de significados sem o qual nenhuma sociedade poderia existir (idem, p. 31)”. Sem dúvida, o homem cria, por isso, um sentido para o mundo em que vive a partir da sua cotidianidade.
Berger e Luckmann91(2004) enquanto sociólogos se ocuparam da construção
social da realidade comungando da obra de Alfred Schutz92 (1932-1998) que
concentrou seus estudos sobre a estrutura do mundo do sentido comum da vida
91 Este enfoque da Sociologia do Conhecimento tem sua origem nos trabalhos do filósofo Husserl que
desenvolveu a fenomenologia. A aproximação com a sociologia se deu através do trabalho de Alfred Schutz. Este observou a forma como os indivíduos comuns da sociedade construíam e reconstruíam o mundo em que viviam o "mundo da vida". Schütz tinha em vista, claramente, que para entender os indivíduos, era necessário compreender como estes apreendiam o mundo.
92 A principal contribuição de Schütz foi desenvolver a filosofia fenomenológica de Husserl como a
base de uma filosofia das ciências sociais, particularmente para a teorização formulada por Max Weber.
cotidiana, ou seja, o mundo da vida cotidiana. Nos ditos dos autores:
A vida cotidiana apresenta-se como uma realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles, na medida em que forma um mundo coerente. (...) O mundo da vida cotidiana não somente é tomado como uma realidade certa pelos membros ordinários da sociedade na conduta subjetivamente dotada de sentido que imprimem a suas vidas, mas é um mundo que se origina no pensamento e na ação dos homens comuns, sendo afirmado como real por eles. (BERGER e LUCKMANN, 2004, p. 35-36).
Também para Ciampa o desenvolvimento do ser humano inclui a significativa oportunidade da subjetividade, que aparece na linguagem, entretecida na normatividade do social, onde contato e afetividade são realidades cruciais. Trata- se, pois, da vida como um todo o que significa considerar ações do exercício da articulação entre passado e presente em que:
[...] abre-se aos brancos do pensamento, aos buracos, ao esquecido e ao recalcado, para dizer, com hesitações, solavancos, incompletudes, aquilo que não teve direito nem à lembrança nem às palavras. A rememoração também significa uma atenção precisa ao presente, em particular a estas estranhas ressurgências do passado no presente, pois não se trata somente de não esquecer o passado, mas também de agir sobre o presente. A fidelidade ao passado, não sendo um fim em si, visa à transformação do presente (GAGNEBI 2006, p. 55).
“As estranhas ressurgências do passado no presente”, como diz a autora, são fundamentais na construção da história do homem onde as personagens estão sempre relacionadas a um papel social. Assim, é no desenvolvimento das atividades desempenhadas que o homem vai construindo sua história. Assim, confirma-se o entendimento de que a personagem está relacionada a um papel social, e este representa uma identidade coletiva, abstrata e genérica; associada, construída e mediada pelas relações sociais. De maneira que os homens são ao mesmo tempo autores e coautores, pois precisam do outro para se concretizar.
Para entendermos melhor esse paradoxo Ciampa apresenta, ainda, dois atributos importantes para a complementação do entendimento sobre a questão da
identidade. São movimentos de impedimento ou não, da emancipação humana. O movimento da identidade para o impedimento da emancipação é o que Ciampa chama de mesmice. Isto significa que a identidade é reposta, constantemente, nas relações sociais do indivíduo, isto é: uma mesmice de si, através da permanência da personagem desempenhada pelo indivíduo em seu cotidiano. Uma estagnação. Este é um fenômeno que se dá pelo que o autor chama de “reposição”. Esta reposição tanto pode ser positiva quanto negativa, com movimentos emancipatórios ou não. O autor diz:
(...) as personagens são vividas pelos atores que as encarnam e que se transformam à medida que vivem suas personagens; quando novas não são possíveis, repetimos as mesmas; quando se tornam impossíveis tanto novas quanto velhas personagens, o ator caminha para a morte, simbólica ou biológica (CIAMPA, 1987, p. 157).
Nesse sentido, quando há uma compulsão à repetição, ocorre algo que dificulta a articulação com outras personagens que nos habitam. Explica o conceito como um fenômeno quase impeditivo da possibilidade do individuo atingir a condição de “ser para si”. Às vezes a mesmice torna-se o mundo da não superação das contradições, fazendo com que a atividade do sujeito, que deve servir de base, para a personagem, deixe de ser desempenhada. Em seu livro Ciampa (1987) exemplifica: “Severino é lavrador, mas já não lavra” o autor chama a isso de “fetichismo da personagem”. Outras vezes a mesmice pode refletir uma consciente busca de estabilidade, como resistência a outras condições de agressão ou exploração.
Já no segundo movimento da identidade, o autor refere-se à mesmidade que é a superação da personagem vivida pelo indivíduo; possibilidade para formulação de projetos de identidade. Quanto a isto Ciampa explica:
A negação da negação (...) permite a expressão do outro que também sou eu: isso consiste na alterização de minha identidade, na eliminação da minha identidade pressuposta (que deixa de ser re-posta) e no desenvolvimento de uma identidade posta como metamorfose constante, em que toda a humanidade contida em mim se concretiza. Isto permite-me representar (...) sempre como diferente de mim mesmo (deixar de presentificar uma representação de mim que foi cristalizada em momentos anteriores, deixar de repor a identidade pressuposta) (1987, p. 181).
O conceito de mesmidade refere-se à superação vivida pelo indivíduo. Deve ser compreendido como o outro “outro”, como diz o autor, que também sou eu. Isso se torna possível a partir da realidade de formular projetos de identidade, cujos conteúdos não estejam prévia ou autoritariamente definidos, o que implica em “aprendizagens de novos valores, novas normas, produzidas no próprio processo em que a identidade está sendo produzida, como mesmidade de aprender (pensar) e ser (agir)” (CIAMPA, 1997, p. 241). Ainda segundo o autor, “ser-para-si é buscar autodeterminação. Procurar a unidade da subjetividade e da objetividade, que faz do agir uma atividade finalizada, relacionando desejo e finalidade, pela prática transformadora de si e do mundo” (idem, p. 242). Isto implica em autodeterminação o que nos leva a sair do movimento de reposição e buscar o outro “outro” que somos ou que queremos ser. Desta forma para se chegar a “ser-para-si” e não o “ser-feito-pelo-outro” é necessário que a identidade do outro “outro” que queremos ser, tenha reconhecimento social. Isto, também implica em última análise, dizer que a ideia de ser o autor da própria vida, conforme Ciampa explica, é também reconhecer a própria vida como sendo de coautoria coletiva, porque “eu – como qualquer ser humano – participo de uma substância humana, que se realiza como história e como sociedade, nunca como indivíduo isolado, sempre como humanidade (CIAMPA, 1987, p.172)”.
Com as considerações acima apresentadas, acreditamos que, no caso dos contadores de histórias, podemos fixar que cada qual tem sua forma particular de incorporar o seu personagem narrador. Usando a fala de Zumthor, tem sua própria performance, em que a diferença ou a singularidade do indivíduo é realizada pela conquista do reconhecimento como sujeito portador de peculiaridades, de forma que ele passa de indefinido e genérico para o definido e singular quando do reconhecimento de sua performance.
Miranda em suas observações sobre a autoria dos processos identitários pronuncia-se igualmente a Ciampa. Afirma que:
Cada indivíduo ao desempenhar diferentes papéis sociais à sua maneira confirma a autoria do próprio processo identitário, dando corpo e significado às várias personagens de maneira particular. Deste modo, o processo identitário ocorre através da objetivação de múltiplos personagens, caracterizado na atividade social (MIRANDA, 2011, p. 53).
De posse da compreensão dos conceitos ciampianos, vamos agora observar os movimentos dos contos de tradição oral e suas influências para a vida dos nossos colaboradores, especialmente do nosso sujeito emblemático. Nossa questão central é então, observar as questões identitárias enquanto metamorfoses que levam para possibilidades emancipatórias, oferecidas por esses contos no curso em tela.