Segundo Abreu (2006) uma das grandes particularidades dos folhetos brasileiros é a temática da vida cotidiana dos nordestinos inspirando tais produções. No entanto, com base no que discutimos até aqui, muitos folhetos também se inspiraram nos imaginários herdados do colonizador ibérico, dentre os quais destacamos o cavaleiresco medieval.
Em nosso estudo, a atenção se centra neste imaginário configurado em torno da matéria da França, como o que aparece nos versos: “Os cavalheiros pararam/ e tiveram muita alegria/ em medir as suas armas/ com o poder da Turquia/ desembainharam as espadas/ a ver o que parecia”(ATHAYDE, 1960, p. 11).
Ao analisar o ciclo carolíngio, um dos temas compartilhado por ambas as literaturas cotejas, podemos de fato compreender como este processo de apropriação se dar no universo do conto popular. Além do mais, o conjunto de folhetos inspirados por esse ciclo ajuda na compreensão de como os poetas populares constroem o seu repertório. Este resulta das
“brechas” culturais que se formam a partir do intercâmbio de culturas heterogêneas (CHARTIER, 2009).
Dentro de uma perspectiva de continuidade cultural, as histórias carolíngias recriadas no Brasil são um exemplo de como a literatura popular brasileira é rica e complexa, sobrepondo gêneros textuais diversos, a fim de reintegrar, amalgamar e comportar a “massa literária” trazida pelo colonizador europeu ao novo contexto sociocultural: o sertão nordestino (CASCUDO, 1953).
Aliás, a total compreensão do fenômeno de hibridização cultural nos ajuda analisar como acontece a composição dos folhetos brasileiros a partir de suas engrenagens primícias; com o propósito de entender como os recursos exógenos de outras culturas não foram capazes de interferir na natureza autóctone de suas narrativas, tampouco na qualidade estética dos folhetos.
Muito pelo contrário, dotaram-na de um cabedal antiguíssimo da milenar cultura europeia, enriquecendo-a culturalmente e, graças ao qual, a tradição literária brasileira ascende a histórias como às do Imperador Carlos Magno e aos seus lendários cavaleiros medievais, que datam do século VIII, por exemplo, como se lê nos versos: “Os 12 pares encontraram/ o general Almendrol/ trazia vinte mil homens/ tudo soldado espanhol/ então travou-se combate/ tremendo os raios do sol” (ATHAYDE, 1960, p. 5).
Sabe-se que o ciclo carolíngio presente nos folhetos brasileiros permanece no universo sertanejo por questões do imaginário, através da linguagem e, sobretudo, por meio de suas figuras arquetípicas pautadas em ideais de valentia e destemor que, através dos mecanismos adaptativos, elaborados pelos poetas populares, recriaram-nas acomodadas ao contexto sociocultural do povo nordestino que delas se apropriou.
Durante séculos, o homem do sertão enfrentou sempre lutas violentas. Primeiro, contra os índios e as grandes intempéries naturais; segundo, pela posse da terra e contra adversários políticos. Por isso que, o sertanejo aprendeu a admirar o homem destemido e valente. Daí a figura do herói ser construída sob a “[...] coragem pessoal, o desassombro, o arrojo e a intrepidez de enfrentar um ou vários adversários sem hesitação.” (SIQUEIRA, 2007b, p. 270). Isto é uma constante na matéria carolíngia, como aparece refletido nos versos: “Os valentes paladinos/ vendo todas lanças armadas/ avançaram nos cem homens/ com suas cortantes espadas/ mataram então todos os cem/ logo em poucas cutiladas” (ATHAYDE, 1960, p. 11).
De acordo com Ferreira (1993) os folhetos nordestinos gerados a partir das façanhas de Carlos Magno e das aventuras de sua hoste possuem tendências pré-modernas e arcaizantes
enquanto um grande texto que se estrutura através dos mesmos códigos sem, contudo, desconsiderar as suas variações, conforme ilustram os versos: “Então chegou a polícia/ a
guarnição investiu/ uniu-se logo a Roldão/ Ricarte da Normandia/ eles só dois paladinos/ lutando com a Turquia” (ATHAYDE, 1960, p. 22, grifos nossos).
A presença da polícia lutando com os paladinos, por exemplo, fazem como os textos recriados se individualizam através de um processo de adaptação, cujas soluções encontradas pelo poeta popular não o desligam de uma memória narrativa precedente; tampouco desconsidera a sua sociedade de origem, bem como o público para qual dever direcioná-la doravante (FERREIRA, 1993).
O imaginário que realimenta a matéria da França tem sua origem histórica. Porém, a partir do século XII, converte-se em matéria literária. Segundo Siqueira (2009) o mito carolíngio se origina numa antiga tradição oral francesa inspirada em um fato histórico: a batalha de Roncesvales. Essa contenda foi tratava entre a tropa de elite de Carlos Magno e o exército do rei serraceno Marcilio, de Saragossa, em 15 de agosto de 778, na região de Navarra, situada entre a Espanha e a França. Nessa fatídica batalha perecem os Doze Pares de França, conforme descreve os documentos históricos.
Correia (1993) aponta com fontes documentais da respectiva altercação duas obras contemporâneas: Vita Caroli Magni, uma biografia escrita por Eginhardo por volta de 830; e os Anais Reais, texto histórico sobre o Império Carolíngio. Embora conste nos relatos oficiais que a hoste guerreira de Carlos Magno morre numa emboscada de guerreiros bascos, o poema épico La Chanson de Roland (2004) escrito entre 1087 e 1090, reelabora o mito carolíngio e o transforma em matéria literária.
Este poema narra à respectiva luta no desfiladeiro de Roncesvales, na qual Roland, líder dos cavaleiros e sobrinho dileto do Imperador perece, juntamente com Olivier, o arcebispo de Turpin, Ricarte, Guy de Borgonha e os demais paladinos. Porém, adiciona um elemento novo à matéria: não são os bascos os autores da emboscada à hoste carolíngia, senão os mouros mulçumanos. Desse modo, alteram os dados históricos registrados oficialmente nas duas obras mencionadas e reescrevem a lenda carolíngia sob a visão dos cronistas que estavam a serviço dos reis cristãos (SIQUEIRA, 2009).
Assim, literariamente o “universo configuracional carolíngio” é modificado e redirecionado, polarizando, por sua vez, a luta dos cristãos contra os mouros (CORREIA, 1993). Conforme o poema, Carlos Magno não consegue evitar a tragédia. Chega tarde demais. Porém, mata todos os inimigos mulçumanos, mostrando clemência apenas àqueles que
quiseram se batizar, como foi o caso da esposa do rei Marcilio e de alguns mouros sobreviventes.
Logo, a batalha de Roncesvales, que aconteceu no século VIII, foi alvo de recriações ao longo da Idade Média por parte de poetas e jograis. O fato do ataque aos francos ser realizado pelos mouros e não pelos bascos, como aponta a história oficial, denuncia que histórias de Carlos Magno foram escritas e transmitidas em plena época da Reconquista e das Cruzadas.
Sobre o tema das modificações da lenda carolíngia pela Igreja, Siqueira (2009, p. 6) postula:
Somente no final do século XII, com a atuação dos monges de Cluny e de Cister, que difundiram a matéria carolíngia e a associaram a retomada do túmulo de Santiago de Compostela, essa visão passa a mudar lentamente até chegar ao ponto em que os heróis da famosa batalha de Roncesvales constarem em cancioneiros, romances e crônicas ibéricas. Já no século XV, verifica-se na Península, uma enorme profusão de novelas e romances de cavalaria sobre o tema.
O poema épico La chanson de Roland (2004) recria no imaginário popular um dos grandes cavaleiros Roland e imortaliza a hoste carolíngia. Ademais, esse personagem carismático e seus companheiros são convertidos em mártires do Cristianismo; potencializando, por assim dizer, o status mítico da matéria carolíngia ao morreram defendendo a causa cristã.
Em razão disso, essa narrativa foi a grande responsável pela propagação do mito carolíngio entremeado de preceitos da Cristianismo medieval na Península Ibérica, lugar onde estas lutas político-religiosas foram mais intensas. Por conseguinte, foi esse imaginário que chegou ao Novo Mundo mantendo uma relação direta com a literatura de folhetos brasileira, conforme ilustram os versos abaixo:
Vitoriosa campanha contra os árabes da Espanha que terminou com a morte de Rolando sem fasanha em Ronces Valles foi mesmo de tira manha. Esta guerra foi a maior que Carlos Magno enfrentou foi incalculável
quantos ele matou
sua espada respeitada muitas cabeças cortou.
Guerreiro hábil e político do poder extraordinário
tinha uma força oculta quando era necessário mas por ter fé em Deus
não temia o contrário (FREIRE, [19--], p. 2, grifo nosso).
Retomado a temática narrada no poema épico La Chanson de Roland (2004), os versos retirados do folheto A história de Carlos Magno e dos doze pares de F rança, do poeta popular João Freire Lopes, refletem o imaginário que foi construído a partir da batalha de Roncesvales, recriado-a no sertão nordestino.
As rivalidades seculares entre estes dois povos e suas divergentes crenças religiosas passaram a ser o pano de fundo das inúmeras novelas e romances cavaleirescos que se inspiraram na matéria carolíngia. Esta temática foi apropriada por muitos países e diferentes continentes, e, por conseguinte as alterações eram inevitáveis. Porquanto deviam ser adaptadas a novos contextos socioculturais.
A título de exemplo do que acabamos de discutir, escolhemos dois fragmentos do folheto A prisão de Oliveiros, nos quais Ferrabraz, filho do Almirante Balão, suplica ao pai para que ele se convertesse ao Cristianismo:
Ali Ferrabraz
aos seus pés se ajoelhou banhado em pranto rogou não adorar ídolos mais dizendo: é satanaz que o vive perseguindo meu pai está se iludindo quando o Eterno o chamar o senhor ha de chorar o demônio entra sorrindo. Se o meu pai fosse cristão como Carlos Magno é se lutasse pela fé tivesse religião não indo contra a razão como um rei cristão não vai pois da lei de Deus não sai se em Deus tivesse esperança nem dez mil pares de França
não venceriam o meu pai (SILVA, 1958a, p. 42-43).
Como base nos versos, observamos como o seu imaginário bélico-cristão era propagado no sertão, lugar em que foi bem acolhido. Sobretudo porque, no Nordeste brasileiro, a estrutura social rural e patriarcal contribuiu para uma maior aceitação dos ideais e valores que estes cavaleiros cristianizados representavam.
A saber, os paladinos se afinaram com herói popular sertanejo, uma vez que são personagens-símbolos, representando anseios coletivos, ao passo que também desenvolviam uma função social na sociedade nordestina. (PELOSO, 1996).
Estes cavaleiros eram a imagem ideal dos que lutavam por uma causa maior, a ponto de darem suas vidas em prol daquilo que acreditavam e, no caso, era a fé cristã. Mas não somente isso, eles representavam o Bem, enquanto os mouros personificam o Mal que precisava ser extirpado, tal como refletem os versos: “Ali Roldão respondeu/ se ainda não conhecia/ o carrasco da Turquia/ repare bem quem sou eu/ braço que nunca torceu/ milhões de turcos armados/ grandes guerreiros falados/ vassalos velhos escolhidos/ por mim já foram abatidos/ - estão no livro de finados” (SILVA, 1958a, p. 24).
Daí o conflito chegava ao nível da mentalidade ao simbolizar o maniqueísmo presente em toda a história da humanidade: a luta do Bem contra o Mal, no qual o “[...] mouro ou turco vai assumir o papel de permanente antagonista, de pretexto à conversão como proposta de uma moralidade cristã, que implica sempre mudança.” (FERREIRA, 1993, p. 3). Conforme se lê nos versos: “Eu venho comissão/ do meu tio imperador/ que manda dizer ao senhor/ que se fizesse cristão/ do contrário em sua mão/ havia de se acabar/ ele havia de botar/ deixando exemplo ou mostra/ o senhor dê-me resposta/ que é necessário levar” (SILVA, 1958a, p. 45, grifo nosso).
Além disso, não era muito difícil identificar os cangaceiros como os personagens das novelas e romances cavaleirescos, a partir de uma imagem idealizada de herói considerando o contexto sociocultural violento em que o sertanejo estava inserido, assim como exemplificam os versos de abertura do folheto Encontro de Lampião com Antonio Silvino: “Para quem gosta de ler/ história de valentão/ que sangra o outro na guela/ e apara o sangue na mão/ eu vou versar o encontro/ de Silvino e Lampeão” (LEITE, [19--], p. 1).
Afinal, esses tipos de “heróis do mal” (SIQUEIRA, 2007a) por meios de suas ações, expressavam os desejos mais íntimos do sertanejo, almejando justiça e hombridade ante as atrocidades acometidas pelos grandes latifundiários, reproduzindo, por sua vez, a luta do Bem contra o Mal. Assim como os que aparecem nos versos do já citado folheto: “Então Silvino tornou-se/ num terrível cangaceiro/ respeitado no sertão/ e no dedo era ligeiro/ de vez em quando ele estava/ visitando um fazendeiro” (LEITE, [19--], p. 4, grifo nosso).
Deste modo, os valores e os sentimentos que os personagens carolíngios agregam serem tão cultuados na tradição popular, quanto irradiados a outros personagens que, através de um bom combate, defendem a justiça:
Os sentimentos de valor e de honra, que estão na base dessa representação popular, explicam também a extraordinária fortuna, nessa como em tantas outras literaturas populares, do ciclo épico ligado a figura de Carlos Magno e dos Doze Pares de
França, que celebra no bandido o paladino do povo. (PELOSO, 1996, p. 105).
Segundo o autor, esse ideal de herói destemido, associando o bandido ao justiceiro, cultuado pela cultura popular, justifica uma fortuna literária em que estes personagens representados como os “paladinos do povo”, para usar um termo do autor. Conforme refletem os versos abaixo:
Arranjou um bacamarte e matou primeiramente o que matara seu pai e ficou de sangue quente daquele dia em diante começou a matar gente. [...]
não podia trabalhar aonde ganhando vinha dinheiro para comprar carne, feijão e farinha agarrou o bacamarte
a foi tomar de quem já tinha (LEITE, [19--], p. 3).
Estreitam-se, desse modo, os laços entre imaginários diferentes no tempo e no espaço, estabelecendo uma ponte dialógica entre as culturas do Nordeste brasileiro contemporâneo e a da Europa medieval através de questões de mentalidade (FRANCO JÚNIOR, 1991).
Em síntese, a matéria carolíngia e os seus cavaleiros arquetípicos de bravura e destemor amalgamaram-se aos da cultura local. Em vista disso, realimentaram os arquétipos dos heróis populares sertanejos, tais como: os vaqueiros, cabras e cangaceiros.
Todos estes eram idealizados com base nos sentimentos de destemor e valentia que estes simbolizavam, tal como se lê nos versos: “Lampeão era disposto/ muito ligeiro e sagaz/ trocava vida por morte/ era perverso de mais/ e Antonio Silvino era/ pior que Satanáz” (LEITE, [19--], p. 1).
O ideal de morrer defendendo a fé cristã potencializa sentimento do destemor que sempre se sobressai aos atos de violência que estes tipos possam cometer. Algo que parece antagônico em um primeiro momento, dentro do contexto em que é circunscrito, torna-se perfeitamente explicado e coerente. Assim como se lê nos versos: “O almirante Balão/ vendo-se ali indefeso/ ao imperador cristão/ esse de bom coração/ como um amigo o recebeu/
pedindo-lhe esclareceu/ que aos ídolos não adorasse/ disse que se batisasse/ qu’entregava o que era seu” (SILVA, 1958a, p. 42).
Portanto, deparamo-nos com outro fator que possivelmente tenha contribuído para esta grande aceitação da matéria carolíngia no Nordeste brasileiro: a religiosidade do sertanejo. Ora, Carlos Magno trabalhava para Deus, sua coragem era dada pela Divina Providência, tendo o poder de morte sob os ateus, bem como de clemência para com aqueles que quisessem se batizar, conforme comprovam as sextilhas a seguir:
Carlos Magno prontificou a trabalhar para Deus
mostrando sua coragem combatendo os ateus por isto era inspirado para a defesa dos seus.
Luta contra os pagãos que em Deus não acreditava
e seu poder tão fecundo cada dia aumentava
ele só queria com ele quem primeiro se batizava. Ele era um enviado do divino espírito santo para defender a Igreja
nada lhe fazia espanto sua coragem era luz e a espada era o manto. Nunca temi inimigo nem também a sua potencia
sua força era invisível dada pela providência em defesa dos errados
a Deus pedia clemência (FREIRE, [19--], p.5-6, grifo nosso).
Deste modo, aliando-se aos ideais da Cristandade, da qual eram portadores, aos sentimentos de valor e destemor tão apreciados pelos sertanejos, as histórias de Carlos Magno e de seus paladinos encontraram na cultura popular nordestina um ambiente propício para florescerem.
No entanto, embora a fama do ciclo carolíngio tenha se difundido na tradição popular, a que se propagou no Brasil tinha a sua origem impressa e culta. Com relação ao tema, Cascudo (2001) esclarece que,
Mas, curiosamente, essa fama ilustre que se tornou tradição popular no Brasil não teve fonte oral e sim origem impressa, perfeitamente identificável [...] Os versos registrados por Leonardo Mota no Ceará e a função belicosa dos doze pares de
França no território “contestado” de Paraná-Santa Catarina, no Sul do Brasil,
dos Doze Pares de F rança, nas edições de Lisboa, 1723, 1728, 1789, tradução de Jerônimo Moreira de Carvalho, físico-mor de Algarve, e que representam recapitulações e edições dos vários livros sucessivos, antes da forma definitiva que alcançou nos princípios do século XIX. Já em 1820 editava-se na Bahia, in-octavo, nas três partes, e as reimpressões portuguesas e brasileiras foram determinantes
informadoras dessa “cantoria” sertaneja ainda em nossos dias. (CASCUDO, 2001,
p.44- 45).
Segundo o autor, no Nordeste o texto fonte que inspira os folhetos é a História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França (1863), de Jerônimo Moreira de Carvalho. Atribuem a sua origem à versão espanhola Historia del Emperador Carlomagno y de los Doce Pares de Francia: e de la cruda batalla que hubo Oliveiras com Ferabrás, Rey de Alexandria, hijo del grande Almirante Balan (1525), editada em Sevilha por um alemão chamado Jacob Cromberger; entretanto, essa versão já era uma tradução francesa de Nicolas de Piamonte; tratava-se de uma edição de 1478 escrita sob o nome de Fierrabrás.
O fato é que essa história francesa sofreu diversas alterações e acréscimos do século XIII ao século XVIII17. No entanto, a tradução portuguesa de Jerônimo Moreira de carvalho “[...] acelerou o ritmo circulatório [...] com passagens mais tumultuosas e cativantes do gosto popular.” (CASCUDO, 2001, p. 45).
Entretanto, vale salientar que a literatura popular deixou suas marcas de forma mais contundente, tento em vista que o ciclo carolíngio foi transmitido pelo romance cortês o que, na opinião de Ferreira (1993), consta no romanceiro ibérico e, por conseguinte, chega ao solo brasileiro por intermédio do conto popular.
Na opinião de Cascudo (1953, p. 30) a permanência das obras cavaleirescas ao longo dos séculos justifica-se pelo fato de que “[...] traziam elas para o povo os sentimentos vivos de sua predileção espiritual. Reviviam nas páginas pobres o encanto da virtude e o castigo dos vícios detestados.” Tais elementos estavam no plano psicológico e estabeleciam uma identidade emocional com os seus leitores.
17Vale ressaltar que das inúmeras alterações e acréscimos em Portugal temos: “Vida do Façanhoso Roldão, Lisboa, 1780, com 211 quadrinhas. E há em Senhora das Neves, concelho de Viana do Castelo, o Auto de Floripes (Cláudio Basto, Silva Etnográfica, Porto, 1939), onde o ‘Partido Cristão’ é chefiado por Carlos
Magno e o ‘Partido Turco’ pelo Almirante Balão, e seu filho Ferrabrás que é vencido por Oliveiros. A princesa
Floripes, filha do Almirante Balão, apaixona-se pelo cavaleiro Guido de Borgonha, com que termina casando. É assunto do livro II, Parte I do Carlos Magno de Moreira de Carvalho. Era o motivo emocional da canção de gesta francesa do século XII, Fierabrás, pertencente a uma outra anterior e perdida, La Destrucción de Roma . O Fierabrás resistiu nas impressões da Bibliothèque Bleue em França, distante e lógico provocador do Carlos Magno na Espanha e Portugal, o primeiro desde o século XVI e o segundo no século XVIII. No Brasil o Carlos Magno foi motivo de inspiração popular em muitos episódios que apareceram versificados, cantados, constituindo folhetos de ampla divulgação, como a Batalha de Ferrabrás, A Prisão de Oliveiros, A morte dos Doze Pares, pelos poetas Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athaíde, José Bernardo da Silva, Marcos Sampaio, editados na Paraíba, Pernambuco e Ceará, com infalível mercado consumidor entre o povo e perfeita ignorância dos letrados.” (CASCUDO, 2001, p. 45-46).
As aventuras protagonizadas por estes paladinos e seus companheiros são elementos básicos da cultura popular brasileira (CANTEL, 1968). Estes tinham tanta notoriedade no imaginário popular, que muitas vezes conseguiam ultrapassar os limites da ficção. Por isso, era difícil encontrar outra literatura para rivalizar com estas produções, uma vez que tais produções conseguiam traduzir o pensamento literário dos seus leitores, de forma simples e natural. Isto aparece refletido no folheto de Cripiano Batista de Sena, intitulado O assassinato de João Caetano e a vingança de seu filho.