Conforme discutimos até aqui, há uma ponte dialógica que conecta o Nordeste brasileiro e o Portugal medieval através da literatura popular. Com relação ao tema, Siqueira (2007b, p. 265, grifo nosso) comenta:
No Nordeste, como no Portugal medieval, a literatura popular constitui um canal de perpetuação de longínquas histórias e também um instrumento para narrar o acontecido. Como o sertanejo, durante séculos, lutou contra o índio, a natureza adversa e os inimigos vizinhos, aprendeu a admirar o homem valente. A justiça distante, substituída pelas armas e bandos, que cada proprietário podia manter, propiciou lutas ferozes das quais nasceram as gestas anônimas de valentia e
destemor violentos. Tal contexto possibilitou que os cavaleiros das histórias
medievais fossem identificados, no sertão, aos cangaceiros.
O cavaleiro dos romances era idealizado pela literatura cavaleiresca ao longo dos séculos XII e XIII, acentuando-se no século XIV quando as epopeias se apropriam do elemento romanesco. Estes não estavam presentes nas primeiras canções de gestas e, dessa forma, as virtudes guerreiras passaram a ser o leitmotiv destas obras em todas as épocas.
Esse modelo de comportamento humano surge quando a cavalaria “[...] adquire a dimensão de uma instituição, de um modelo cultural, de uma ideologia.” (FLORI, 2005, p.
158). A partir de então, o ideal cavaleiresco se prolonga pela Idade Media, chegando à Era Contemporânea.
E como relação à matéria carolíngia, sabe-se da importância de La chanson de Roland (2004) para a sua popularização. Nesta antiga canção de gesta, cujo pano de fundo é luta contra os “infiéis”, do ponto de vista da moral cristã, tal guerra era justificada, inclusive, nos seus excessos de a violência.
Por isso encontramos tantas cenas de barbárie sem qualquer condenação explícita nos textos carolíngios, tal como se lê nos versos em que se narra o destino dos quinze guerreiros, vassalos do Almirante Balão, no passo das Águas Mortas: “Ali todos se montaram/ armados heroicamente/ levando como presente/ as cabeças que tiraram/ em seus alfoges botaram/ não deram satisfação/ segui na frente Roldão/ a pessoa encarregada/ de entregar a embaixada/ ao almirante Balão” (SILVA, 1958a, p. 16).
De acordo com Siqueira (2007b) estes arquétipos dos cavaleiros medievais puderam ser irradiados aos cangaceiros, mesmo porque o cenário sociocultural nordestino, eivado de substratos medievais, favoreceu a aproximação desses dois imaginários.
Dado que a violência explícita configura o universo do cangaço nos folhetos brasileiros, exaltando suas destrezas bélicas, ligadas à valentia. Justificavam, por sua vez, as ações de atrozes dos bandidos, de modo que suas atitudes criminosas, assim, como a dos cavaleiros medievais, ganhassem uma aura épica. Isto está refletido nos versos abaixo, extraídos do folheto Façanhas de Lampião:
Acontece que um dia o grupo foi atacado e no combate sangrento Porcino foi baleado conhecendo que morria chamou os cabras ao lado. Disse a seus cangaceiros sei que vou me acabar e quero a um de vocês o meu bando entregar porém quero escolher um para assumir o meu lugar. Pois reconheço que ele
é corajoso e valente
não desfazendo dos outros que estão aqui presente porque para este fim ele é mais competente. Logo chamou Virgulino disse: quero lhe entregar
o meu lugar de chefiar responda se aceita ou não o cargo de comandar. Virgulino respondeu: aceito perfeitamente
eu sinto sede de sangue só poderei saciá-la
bebendo sangue de gente (SANTOS, [19--] b, p. 10-11, grifo nosso).
De acordo com os versos, Virgulino se destaca por ser corajoso e valente, bem como cruel, tal como ilustra a última estrofe e os versos assinalados. Além da fala do cangaceiro na qual explicita querer beber sangue de gente, as suas atitudes confirmam o seu instinto sanguinário:
Nisto um dos cangaceiros saltou uma gargalhada fitou para Virgulino e disse por debochada te enganaste Porcino este aí no é de nada. Virgulino respondeu: mas agora eu quero ser e se é de mais adiante você desobedecer portanto neste momento se prepare pra morrer. E foi obecando o cabra como um alucinado sacando logo da cinta um punhal bem despontado meteu-lhe em cima do peito
que saiu do outro lado (SANTOS, [19--]b, p.11).
Segundo Queiroz (1992) as histórias de Carlos Magno e de seus pares inspiraram as histórias do ciclo cangaço, porquanto cada bando de cangaceiro lembrava o lendário Imperador e os seus paladinos. Assim, como se lê nos versos: “Ele disse: então agora/ eu sou o chefe do bando/ e não quero cabra frouxo/ andando no meu comando/ quero homem de coragem/ embora morra lutando” (SANTOS, [19--]b p. 12).
Este conjunto de imagens formado por tais versos pode ser remetido a Carlos Magno e sua hoste destemida: “Carlos Magno também/ tinha 12 cavalheiros/ como outros iguais guerreiros/ o mundo hoje não tem/ nunca temeram ninguém/ segundo diz a história/ tinham as espadas a gloria/ nunca torceram perigo/ nunca foram ao inimigo/ - que não contasse vitória!” (SILVA, 1958b, p. 3).
Na concepção de Franco Júnior (2010, p. 75), “A imagem sozinha pouco comunica, cada uma tende a se aproximar de outras, constituindo imaginários.” Com base no imbricado processo que se opera nos interstícios resultantes das intercessões culturais, ele destaca:
Os sentimentos veiculados escapam ao seu autor, ultrapassam ao indivíduo. Se amor, desejo, esperança, angústia, medo, qualquer estado afetivo, são
transtemporais e transpessoais, suas modalidades de exteriorização são datadas,
contextuais e coletivas [...] (FRANCO JÚNIOR, 2010, p. 75, grifo nosso).
Na opinião do autor, as questões “transtemporais” e “transpessoais” interligadas às experiências coletivas corroboram afinidades de sentimentos e valores intemporais, tais como: coragem, força, o destemor, dentre outros, conectando sistemas de imagens longínquos no tempo e no espaço.
Além do mais, a luta se dava no nível simbólico entre o Bem e Mal. Desse modo, cangaceiros como Lampião, por exemplo, para ser convertido em herói precisava ter suas maldades justificadas, conforme ilustram as sextilhas a seguir:
Serei agora um herói quero lutar fortemente pois sou um injustiçado e propositadamente quero fuzilar “macacos” e beber o sangue quente. Foi assim que Virgulino entregou-se ao banditismo por causa da injustiça do despeito carrancismo porque a lei nesse tempo
era o mesmo despotismo (SANTOS, [19--]b, p.12).
Estes versos sintetizam como no imaginário sertanejo “[...] a função criminosa era acidental”. (SIQUEIRA, 2007b, p. 270). E nesta poética de exaltação guerreira, faz como que o homem do sertão não diferencie o homem valente do cangaceiro sanguinário. Sobretudo porque dentro de um contexto sócio-econômico-cultural extremamente violento, o bandido podia ser identificado ao cavaleiro:
[...] cada um se via na situação de um desbravador, como um cavaleiro destemido e
valente que deveria lutar para defender seu ‘reino’- que corresponderia, nesse
contexto, à sua propriedade ou a propriedade do seu protetor ou a sua própria honra. (SIQUEIRA, 2007b, p. 271).
Além de ter suas maldades justificadas pela injustiça sofrida, algumas atitudes de seu bando como, por exemplo, atacar fazendeiros proporcionava uma forte exaltação popular,
convertendo-os numa espécie de “paladinos do povo”, para usar uma expressão de Peloso (1996). Assim como se lê nestes versos: “Continuou Lampião/ junto com seus bandoleiros/ para melhor triunfar/ contratou mais cangaceiros/ e começou atacar/ os ricassos fazendeiros”(SANTOS, [19--]b, p. 13).
A partir desses versos, nota-se como a imagem do cangaceiro é construída ora como a de um bandido cruel e inescrupuloso, ora como um justiceiro que se insurge contra os grandes fazendeiros ou chefes políticos locais.
O fato que a exaltação da violência, subsidiada pelo destemor é o que provavelmente pôde estreitar os laços entre as duas culturas cotejadas, tal como demonstram as sextilhas de Luis da Costa Pinheiro a baixo:
Roberto não sentou praça por ser muito inteligente toda manobra de guerra conhecia perfeitamente e para vencê-lo em luta nunca encontrou valente. Com toda arma de guerra ele sabia lutar
tinha coragem de sobra quando queria lutar do fio de sua espada ninguém podia escapar. Nas armas era um perigo mas bravo que um leão ainda era mais perito
que Oliveiros e Roldão
quando atacava o inimigo
não havia compaixão (PINHEIRO, 1957, p. 4, grifo nosso).
Roberto, o personagem em destaque, tinha uma coragem descomunal, além do mais, era um exímio guerreiro, sem compaixão dos seus inimigos. Com base em suas atitudes, ele foi comparado aos pares mais populares entre os sertanejos: Roldão e Oliveiros.
Conforme Franco Júnior (2010), podemos intuir que havia algo no imaginário popular brasileiro que possibilitou tal conexão entre estes dois universos em pauta - o carolíngio medieval e o sertanejo do Nordeste brasileiro. Caso contrário, não haveria qualquer ilação entre ambos. Ou seja, no nível de mentalidade, o que compartilhamos independe do tempo e do espaço, pois forma parte de uma identidade coletiva, portanto: “[...] ao expressar valores coletivos, os imaginários dão ao homem a sensação de pertencer não apenas ao seu momento, mas de fazer parte de uma história.” (FRANCO JÚNIOR, 2010, p. 82).
Deste modo, com base nesses pressupostos, o cavaleiresco medieval pode ser refletido entremeado no sistema imagético recriado na literatura de folhetos do Nordeste brasileiro. Daí, nestas produções, surge um conjunto de imagens no qual o cangaceiro toma forma de cavaleiro medieval reformulado com a sua indumentária de couro, seu cavalo, seu bando, seu espírito itinerante e sua coragem colossal, transformando-se, portanto, em um herói do sertão aos moldes da cavalaria andante.
Assim, como nos mostra os versos do poeta popular Leite Costa ao descrever as andanças de Lampião e seu bando pelo sertão:
Já tinha 62 cabras o bando de lampeão dêsses que bebia sangue e pegava onça de mão e não corria da luta sem ver o fim da questão E lampeão, no sertão andava desassombrado com sua linda mulher e o seu grupo de malvados todo êle em pontaria era bamba e respeitado. Todo cangaceiro era de valente a mais valente Lampeão com seu bando
topava qualquer “batente”
viva pelo sertão
bebendo sangue de gente (LEITE, [19--]., p. 7).
Nos versos, a coragem do cangaceiro é enaltecida, mesmo estes indivíduos sendo capazes de cometer as maiores atrocidades, como explicitam os versos expostos: “bando de malvados e viviam pelo sertão/ bebendo sangue de gente” (LEITE, [19--], p. 7). Lampião e seu bando podiam andar “desassombrando”, porque eram respeitados por serem destemidos. Percebe-se que o destemor do cangaceiro afina-se com a valentia dos paladinos carolíngios.
Tal processo se justifica pelo diálogo que se efetua entre as duas culturas, visto que “[...] na maior parte das vezes, as imagens são produtos de sua própria intertextualidade.” (FRANCO JÚNIOR, 2010, p. 72). Diante disso, alguns elementos da matéria da França foram capazes de estabelecer elos com o imaginário sertanejo, a partir das emoções promovidas na alma daqueles que tiveram contato com suas histórias.
Pois, além do lado humano que os seus protagonistas ensejam aos textos literários de que são matérias, tais composições estão refertas de valores simbólicos, como: coragem,
força, valentia, resignação, fé, dentre outros; consolidando, assim, uma consciência coletiva unindo todos a nível mental.
Tal visão é fruto de um contexto, de um período, tal como de experiências coletivas. Por exemplo, o imaginário medieval foi “criado e modelado pela Idade Média” (LE GOFF, 2011a, p. 21). Sendo assim, esta perspectiva é estendida ao imaginário sertanejo, criado e moldado pelo povo nordestino, a partir de suas vivências, consideradas experiências únicas dessa sociedade que herdou um enorme contingente de traços do medievo ibérico no momento por ter sido a primeira região brasileira a ser colonizada.
Quanto a alguns desses imaginários criados pelo medievo europeu e que se irradiaram para outras civilizações, destacamos os valentes cavaleiros do século XIV e a ordem da cavalaria como protótipos expressivos desse período, assumindo uma parte do status de intemporalidade que todo ser humano congrega: “[...] mais do que isso, apesar das especificidades das imagens construídas e consumidas pelo homem medieval (ou antigo, ou moderno, ou ocidental, ou oriental) é possível por intermédio delas visualizar algo do homem intemporal.” (FRANCO JÚNIOR, 2010, p. 71-72, grifo do autor).
Por inúmeras conjeturas sócio-histórico-culturais estes guerreiros, de uma maneira bastante idealizada, transformaram-se em heróis de feitos gloriosos marcando, sobremaneira, a memória coletiva não só do povo europeu na Idade Média. Em vista disto, converteram-se em verdadeiros simulacros de substratos mentais do medievo, transladados além-mar. Daí a sua capacidade de se remodelar em outros tempos, como por exemplo, no sertão brasileiro do século XX.
Por tudo isso, somos capazes de compreender o porquê do “universo carolíngio” (CORREIA, 1993) e de todo imaginário cavaleiresco que este aporta, ser suscetível a remodelar-se em outras culturas. Daí ser Roldão esta figura capaz de materializar a coragem contemporaneamente:
Roland, o brasileiro e o português Roldão, não está no conto popular, na história tradicional. É infalível na cantoria, nos versos do desafio [...] Onze séculos não o afastaram da citação sertaneja do Nordeste do Brasil, como no Brasil do centro e do sul. (CASCUDO, 2001, p. 43).
Em pleno sertão nordestino, temos tais paladinos travestidos de heróis populares, realimentado figuras como o vaqueiro valentão ou o sanguinário cangaceiro. Recriados, assim, com as cores locais. Assim como ilustram os versos do poeta Paulo Nunes Baptista a seguir:
Roldão foi um sertanejo Respeitador da verdade Que praticava a justiça E combatia a maldade; Não temia cangaceiro
- Topava qualquer “pampeiro” Se houvesse necessidade. Quem quizesse pisar nele Podia cova fazer
Porque Roldão castigava Quem o quizesse ofender: Não procurava barulho
Mas entrando “num embrulho”
Fazia a coisa feder... (BAPTISTA, [19--], p. 6).
Estas duas septilhas nos apresentam um Roldão sertanejo. Tal personagem é construído a partir do arquétipo do paladino carolíngio, utilizando pelo menos três sentimentos básicos sempre associados a ele: a intrepidez, a honra e o destemor. Portanto, adaptado ao imaginário sertanejo, recriado na figura do vaqueiro.
No entanto, os versos a seguir exemplificam ainda melhor este amalgama de imaginários, no qual Roldão é o vaqueiro, caboclo, “nordestinizado”, aclimatado ao ambiente do sertão nos versos do poeta popular. Reforçando, deste modo, o hibridismo cultural na cultura popular brasileira (AYALA, 1997). Assim como os que são refletidos nos versos: Com sete anos de idade/ Roldão “já estava no fio” / Aprendendo com seu pai/ A domar potro bravio/ Foi vaqueiro muito cedo/- Era caboclo sem medo/Desempenado e sadio (BAPTISTA, [19--], p. 7).
De todo modo, é inegável a constância da matéria de frança, cujo onze séculos não foram suficientes para suplantar o “universo configuracional carolíngio” (CORREIA, 1993) retroalimentado por esta. Assim sendo, alguns de seus elementos mais notáveis tornam-se intemporais e inesquecíveis em quaisquer civilizações que deles se apropriem. Citando caso análogo ao que aconteceu na literatura de folhetos brasileira, como exemplificam os versos expostos anteriormente.
No sertão brasileiro, por exemplo, eles inspiram versos de valentia e bravura, para usar uma expressão de Cascudo (2001, p.4) construídos com base no arquétipo do “homem- sem-medo”. Este pode ser personificado na figura de Roldão e de seus companheiros. Nos versos abaixo, esse arquétipo de que nos fala Cascudo é enfatizado pelas metáforas “leões da igreja” e “endiabrados” usadas pelo poeta: “Todos eram conhecidos/ pelos leões da igreja/ pois nunca foram a peleja/ que nela fossem vencidos/ eram por turcos temidos/ pela igreja estimados/ porque quando estavam armados/ suas espadas luziam/ e os inimigos diziam:/ - esses são endiabrados!”(ATHAYDE, 1976, p. 1).
O trânsito da matéria literária do ciclo carolíngio perpassa as “brechas” (CHARTIER, 2009) resultantes dos intercâmbios culturais acontecidos entre Portugal e Brasil. Tal processo estabelece um diálogo cultural riquíssimo entre essas duas sociedades, como bem expressam as respectivas produções literárias.