Nesta seção, apresentamos os aspectos pedagógicos gerais da instituição escolar.
Tabela 2: Síntese das categorias dos aspectos pedagógicos Tabela-síntese de categorias Tema: 4.1 O Contexto Institucional
Categorias Subcategorias 4.1.2 Aspectos pedagógicos gerais 4.1.2.1 O projeto político-pedagógico
4.1.2.2 A rotina escolar
4.1.2.3 O relacionamento dos funcionários e professores da escola com a pesquisadora
4.1.2.4 O currículo oficial
4.1.2.5 Os eventos escolares
4.1.2.6 O conselho de classe
4.1.2.7 O reforço escolar
4.1.2.8 As avaliações
4.1.2.9 A reunião de Pais e Mestres
4.1.2.1 O projeto político-pedagógico
A escola não possui plano de gestão ou projeto político-pedagógico próprio. Há um projeto pedagógico comum elaborado pela Secretaria Municipal para todas as escolas municipais.
Indagada se poderia disponibilizar a documentação escolar e o projeto político- pedagógico, posteriormente, para análise da pesquisadora, a diretora explicou que disponibilizaria tudo de que precisasse, mas infelizmente a escola não possuía um projeto político-pedagógico, nem um plano de gestão, porque havia um projeto único para todas as escolas municipais. Questionada sobre o porquê disso, ela respondeu que sabe da importância do projeto pedagógico, tanto que já está construindo o seu, de certa forma, pois registra todas as atas de reuniões e Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC), mas segue as regras da Secretaria Municipal.
4.1.2.2 A rotina escolar
No período da tarde, a aula iniciava às 12h 30min. Os professores chegavam à instituição e assinavam o livro-ponto na sala dos professores. Uma garrafa de café era deixada sobre a mesa dos professores para que se servissem. Geralmente, eles tomavam café, conversavam brevemente e se dirigiam às salas de aula.
A diretora não costumava estar presente no início das aulas, à tarde, pois trabalhava em outras instituições de ensino. Os problemas de falta de professores eram solucionados pela coordenadora, e na sua ausência, pela monitora.
A inspetora permanecia no portão principal observando a entrada dos alunos. O porteiro tomava conta da fachada da escola, enquanto os policiais da ronda escolar também acompanhavam o movimento na entrada da escola.
Algumas mães e avós acompanhavam os alunos até a escola, mas a maioria chegava sozinha. A entrada dos alunos era tranquila, não havia tumulto, ou barulho, pois eles não se aglomeravam no pátio, dirigindo-se diretamente para as salas de aula, desviando-se do percurso apenas para beber água ou usar o sanitário.
Os professores aguardavam os alunos na sala de aula e iniciavam as atividades assim que a maioria estivesse presente. Os alunos costumavam chegar no horário estipulado para o início das aulas. Às 12h e 45 min o portão principal era fechado, e os alunos que chegassem depois desse horário entravam pela portaria da secretaria e dirigiam-se às salas de aula.
O recreio era dividido em dois períodos. O primeiro, às 15h, destinava-se aos alunos de 1ª a 2ª séries. Já o segundo, às 15h 15min, destinava-se aos alunos de 3ª a 4ª séries. No recreio era servida comida preparada na escola pelas cozinheiras, a partir de um cardápio previamente elaborado pela nutricionista da Prefeitura Municipal. A maioria dos alunos comia na escola. Os professores tinham preferência e serviam-se antes dos alunos. Os alunos formavam a fila, pegavam os pratos e os talheres, sobre uma mesa, e, uma das cozinheiras servia a comida no prato de cada um. Sentavam-se para comer às mesas do refeitório. Após comerem, os alunos levavam os pratos até uma bacia e jogavam os restos de comida numa lixeira, que ficava ao lado. Aos poucos, eles juntavam-se ao pequeno grupo de alunos que levava lanche de casa. Alguns alunos ficavam de castigo no horário do recreio. No início das observações, os alunos de castigo deveriam comer e se dirigir à biblioteca, sob os cuidados da diretora ou da monitora. Contudo, no decorrer do ano letivo, observamos diversas ocasiões em que os alunos permaneciam de castigo, sentados no chão do corredor da secretaria e, às
vezes, comiam ali mesmo. A inspetora olhava os alunos no pátio. Muitas vezes, ela gritava e, em alguns casos, puxava-os pelo braço e arrastava-os até a diretoria. Após o sinal, os professores posicionavam-se no meio do corredor e esperavam que se formassem as duas filas, de meninas e meninos. Depois, eles seguiam para a sala de aula. O pátio costumava ficar repleto de lixo, tais como: papéis de bala, embalagens de bolacha e salgadinhos, garrafas de refrigerante, restos de comida e água espalhada pelo chão. O pessoal da limpeza logo surgia com vassouras, rodos, lixeiras e panos. Havia quatro mulheres e um homem. As mulheres recolhiam o lixo e varriam o chão. O homem limpava as mesas e colocava os bancos sobre elas, virados de pernas para o ar. As cozinheiras recolhiam os pratos e talheres deixados pelos alunos na bacia, guardaram as panelas e limpavam a cozinha.
Os alunos podiam utilizar o espaço do pátio aberto e gramado. Porém eram advertidos ao correrem ou subirem nas muretas. Os contatos corporais se limitavam às brigas, entre os meninos, que eram interrompidas pela inspetora e acabavam na diretoria. Houve uma tentativa de se colocar música evangélica durante o recreio para deixar os alunos mais calmos. Contudo este projeto não teve continuidade. Nos dias chuvosos os alunos eram obrigados a se amontoar no refeitório e não podiam utilizar a quadra coberta para brincar.
Após o recreio, as atividades voltavam a acontecer no interior das salas de aula, até a saída, às 17h 30min. Antes de soar o sinal, os professores de 1ª a 2ª séries posicionavam seus alunos sentados em círculo, em frente ao portão, aguardando a chegada dos pais e/ou responsáveis. Somente os alunos com irmãos mais velhos, ou permissão para saírem sozinhos, eram liberados. Após o sinal, os professores despediam-se e deixavam os alunos sob o cuidado da inspetora. Os alunos mais velhos, de 3ª a 4ª séries eram liberados, na sala de aula, após soar o sinal. Os professores organizavam as salas, apagavam as luzes e saíam. Geralmente, eles apenas passavam pela sala dos professores, mas saíam em seguida, e alguns deles possuíam compromissos, em outras instituições.
4.1.2.3 O relacionamento dos funcionários e professores da escola com a pesquisadora
De modo geral, os professores das outras classes não mantinham contato com a pesquisadora, exceto os professores Tomás e Janaina que ministravam aulas para outras 4ª séries, no mesmo bloco da professora Maria. Mantivemos uma postura de abertura e neutralidade, facilitando quaisquer aproximações espontâneas por parte do corpo docente,
porém, respeitamos o distanciamento, quando eles não manifestavam desejo de aproximação com a pesquisadora.
A mesma postura foi adotada perante os funcionários, de modo que, os contatos da pesquisadora foram mais próximos à diretora. A secretária permanecia dentro da secretaria, e os contatos entre ela e a pesquisadora aconteceram pelo balcão e limitaram-se a cumprimentos e informações solicitadas pela pesquisadora. A monitora e a inspetora também a cumprimentavam simpaticamente e, às vezes, teciam conversas fortuitas. O porteiro também foi muito simpático com a pesquisadora, durante o período em que trabalhou na escola. Já a coordenadora, que assumiu a função no decorrer do primeiro bimestre, demonstrava atitudes antipáticas à pesquisadora e, ao longo do ano letivo, nunca lhe dirigiu a palavra, limitando-se a responder secamente algumas perguntas. O relacionamento entre a professora e a coordenadora foi tumultuado e repleto de ressentimentos, suscitando queixas frequentes nos desabafos que a professora fazia à pesquisadora em sala de aula. Esse fato pode ter contribuído para o distanciamento da coordenadora. Uma conversa informal aconteceu entre a pesquisadora e a bibliotecária que nos procurou espontaneamente durante um dos recreios e nos contou vários fatos sobre sua vida. As cozinheiras e a dentista foram vistas apenas trabalhando e não houve diálogo com a pesquisadora. Já a equipe de limpeza chegava com os materiais, baldes, vassouras, mangueira e cumpria seu trabalho sem quaisquer manifestações. Em determinada ocasião, a pesquisadora encontrava-se na sala dos professores, trabalhando na análise dos livros-pontos, quando a equipe de limpeza chegou e começou a jogar água nos seus pés, sem sequer pedir licença. A pesquisadora desculpou-se e retirou-se do local, aguardando a finalização da limpeza para retornar à sua atividade.
Outro fato observado foi a presença da família na escola, que não se limitava às reuniões de pais e mestres. Frequentemente, mães e, geralmente avós, procuravam a escola para obter informações sobre os alunos, no início ou final das aulas. Os pais também costumavam telefonar para saber sobre os filhos. A escola também tinha a postura de chamar os pais e/ou responsáveis sempre que havia problemas com os alunos na escola.
4.1.2.4 O currículo oficial
O currículo do nível básico, de 1ª a 4ª séries, compreendia as disciplinas: Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Ciências e Artes, ministradas por professores
polivalentes, graduados em Pedagogia. Somente as aulas de Educação Física eram ministradas por professor com formação específica nesta área.
O currículo oficial, do nível básico, de 5ª a 8ª séries, compreendia as disciplinas: Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Ciências, Educação Física e Artes, ministradas por professores com formação específica para cada área.
A todas essas disciplinas eram atribuídas notas e frequência pelos professores.
4.1.2.5 Os eventos escolares
No decorrer do ano letivo, houve na escola os seguintes eventos programados: 1. Comemoração dos 10 anos da escola, em abril;
2. Festa Junina, em junho, e
3. Festa de Natal e encerramento do ano letivo, em dezembro.
A comemoração dos 10 anos da escola contou com a presença do prefeito, de vereadores e do secretário de educação municipal. Foi um evento realizado pela direção e coordenação escolar para alunos e professores. Houve jogos e apresentação de uma banda para os alunos.
A Festa Junina teve a participação dos professores no ensaio das coreografias. A escola não foi enfeitada, apenas algumas bandeirinhas foram colocadas na quadra esportiva para a apresentação das danças. O evento aconteceu no período de aula, na quadra esportiva, e contou com a presença dos pais.
Participaram da festa de Natal e do encerramento do ano letivo apenas os alunos e os professores. Duas professoras prepararam os alunos da 3ª série para se apresentarem. Houve apresentação de coral e uma coreografia, ambas com canções religiosas. Os demais alunos, de 1ª a 4ª séries, e professores assistiram às apresentações. Em seguida, a direção escolar liberou- os para as comemorações em sala de aula. Cada turma poderia, se quisesse, fazer uma festinha com refrigerantes, salgados e amigo-secreto, mas nem todas as salas festejaram, pois muitos alunos não possuíam condições financeiras para contribuírem com a festa. Competia ao professor decidir o quê e como fazer o encerramento e a despedida com a sua turma.
4.1.2.6 O Conselho de Classe
As reuniões de Conselho de Classe deveriam realizar-se entre professores, a coordenação e a direção pedagógica ao final de cada bimestre. Sua função era discutir os problemas e as dificuldades dos alunos.
Segundo a professora Maria, no ano de 2008, houve um Conselho de Classe a cada bimestre, mas no ano letivo de 2009, não houve Conselho de Classe.
4.1.2.7 Reforço escolar
A partir do segundo bimestre, a escola contou com a presença de uma professora para trabalhar nas atividades de reforço escolar com os alunos.
A professora contratada para o reforço escolar passou de sala em sala, apresentando-se e solicitando aos professores que encaminhassem os alunos com dificuldades de aprendizagem.
O reforço escolar foi realizado no período de aula, de modo que os alunos deixavam as salas de aula para comparecer ao reforço.
4.1.2.8 As avaliações
A escola trabalhava em regime bimestral. A cada bimestre os alunos faziam duas avaliações, uma mensal e outra bimestral, de cada disciplina ministrada pelos professores: Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia e Ciências. Às disciplinas de Artes e Educação Física também eram atribuídas notas, porém não se faziam avaliações específicas.
Ao final do bimestre, os alunos que tivessem notas abaixo de 5.0 deveriam fazer recuperação bimestral.
As notas deveriam ser entregues aos pais em reunião pedagógica com a professora da classe.
No final do ano letivo, o aluno deveria atingir uma média ponderada dos quatro bimestres, igual ou maior do que 5.0, em cada disciplina, para ser automaticamente aprovado. Caso o aluno não atingisse a média estipulada, era submetido à avaliação do Conselho de Classe.
4.1.2.9 As reuniões de pais e mestres
As reuniões de pais e mestres deveriam acontecer ao final de cada bimestre para entrega de notas e troca de informações entre os pais e a escola. Foram realizadas duas reuniões de pais, contudo, foi observada apenas uma reunião, que aconteceu no final do primeiro bimestre, devido à disponibilidade de horários da pesquisadora.
O formato das reuniões era estabelecido pela instituição escolar. No dia estipulado pela direção, as aulas eram suspensas, e os professores permaneciam em sala de aula à disposição dos pais que compareciam no horário mais adequado para eles. Cada pai ou responsável era atendido individualmente e, além de receber o boletim com as notas do aluno, recebia um feedback do professor sobre o desempenho do aluno em sala de aula, suas dificuldades e seu desenvolvimento, além de orientações específicas para auxiliar o aluno em casa. Os pais também solicitavam a orientação do professor para diversos tipos de dúvidas e problemas (econômicos, psicológicos, sociais, pessoais).
Aos pais que não compareciam à reunião, os professores eram orientados a enviar o boletim pelos alunos, para que aqueles assinassem. Era também solicitado que procurassem o professor no horário que melhor lhes conviesse, para conversarem sobre o aluno.