Não é por ação direta e pessoal sobre o
espírito do escravo que lhe podemos fazer algum bem. É com os livres que nos devemos entender; é como estes que devemos pleitear a causa daquele. A lei eterna obriga-nos a tomar a parte do oprimido, e essa lei torna-se muito mais obrigatória desde que nós lhe proibimos levantar o braço em defesa própria.
(W. Channing)
Como em todo início de capítulo, as citações são bem escolhidas e aparecem como parte integrante de sua estratégia de argumentação. Parece-nos que o orador está raciocinando. Palavras-chaves surgem, como nas demais citações. Assim, livres, lei,
criteriosa, valer-se de todos os recursos possíveis, provas extrínsecas, intrínsecas, referências ao pathos, logos, ethos, etc., persuadir seu interlocutor, torná-lo mais um adepto de seus objetivos e a comungar os mesmos pensamentos.
O orador destaca, ainda com fulcro na citação de Channing, o quão complexa é essa relação escravo / senhor, sobremaneira quando representa uma realidade social emostra
...a natureza e as dificuldades de uma campanha abolicionista onde quer que seja ela travada. É uma luta que tem [...] dois grandes embaraços: o primeiro o estarem as pessoas que queremos salvar nas mãos dos adversários, como reféns; o segundo, se acharem os senhores praticamente, à mercê dos escravos. (17)
Há aqui um jogo de raciocínio, um histórico para que o leitor se situe e acompanhe a narrativa. No Brasil, pondera, há uma situação conflituosa, de um lado, o fato de o escravo estar em mãos de adversários, sendo-lhes reféns; do outro, o que parece um contra-senso, é o senhor que “está à mercê dos escravos.” Eles possuem uma reciprocidade de papéis. Há, entre eles, uma dependência mútua, pois um não sobrevive sem o outro, apesar de em campos antagônicos. São elementos que se somam a já complexidade representada por uma campanha de tamanha abrangência.
Por isso também os abolicionistas, que querem conciliar todas as classes, e não indispor umas contra as outras; que não pedem a emancipação no interesse tão- somente do escravo, mas do próprio senhor, e da sociedade toda; não podem querer instilar no coração do oprimido um ódio que ele não sente, e muito menos fazer apelo a paixões[...] que não se resume na reabilitação da raça negra [...] mas à reconstituição completa do país. (17)
Antes de outro pretexto, o orador reforça a missão do partido em pregar a concórdia entre as classes em conflito. Assim, surge um novo argumento – prova intrínseca - o de que cabe ao abolicionismo, o grande papel, o de estabelecer, entre opressores e oprimidos, uma política de aproximação e harmonia, em que prevaleça o espírito de conciliação e crie expectativas para o escravo, na luta pela emancipação, sem, contudo, prejudicar os interesses dos senhores ou ferir-lhes o ânimo. Instala-se o pathos.
É importante, nesta causa, que se evite instilar o ódio no coração dos oprimidos, que se respeite a posição dos senhores e que se coloque como escopo maior a restauração da dignidade do país. Há que se respeitar as peculiaridades de cada grupo, sem exigir comportamentos que não condizem com a índole do cidadão, num momento de conflitos em que os espíritos podem exaltar-se. O logos surge para socorrer situações de desequilíbrio e recolocar os parâmetros no nível que lhe compete, na argumentação.
A propaganda abolicionista, com efeito, não se dirige aos escravos. Seria uma covardia, inepta e criminosa, e, além disso, um suicídio político para o partido abolicionista incitar à insurreição, ou a o crime, homens sem defesa... (17)
Está clara a intenção do partido, de atingir, de forma igualitária, ambas as classes, a dos senhores e dos escravos, mesmo porque os últimos não têm qualquer poder de reação, indefesos que são. Uma opção equivocada poderia gerar uma insurreição, certamente esmagada pela “lei de Lynch”, prova extrínseca. A pregação do abolicionismo é elaborada tendo em vista toda a sociedade brasileira, todas as classes, visando a reconstituição efetiva do país e não apenas o escravo brasileiro, pois seria covardia, inépcia, suicídio político e crime. A seguir, o orador detalha, com precisão, o alcance de cada vocábulo acima e demonstra porque isso seria uma calamidade.
Covardia, porque seria expor outros a perigos que o provocador não correria com eles; inépcia, porque todos os fatos dessa natureza dariam como único resultado para o escravo a agravação do seu cativeiro; crime, porque seria fazer os inocentes sofrerem pelos culpados... suicídio político porque... (17)
Há uma conexão de critérios em que o logos aparece para entrelaçar os argumentos, numa exposição criteriosa, pedagógica mesmo, no fechamento do raciocínio, sem quebrar a harmonia e a logicidade. Uma situação criada a partir da violência não teria o respaldo da sociedade. Há uma gradação em covardia, inépcia, crime, suicídio político...
Por inúmeros motivos a sociedade rejeitaria tal insensatez, pois isto “seria o sinal de morte do abolicionismo de Wilberforce, Lamartine e Garrison, que é o nosso, e do começo do abolicionismo de Catilina ou de Espártacus, ou de John Brown.” (18)
Um gesto dessa natureza, intempestivo, equivaleria à falência do movimento que tem ilustres nomes em suas fileiras, à morte do abolicionismo que tem em seus quadros modelos de luta, prova extrínseca, que se identificam com o movimento abolicionista brasileiro. Essa referência aos heróis, defensores da liberdade, é, também, uma forma de despertar no leitor interesses por essa saga cujos ideais ainda não se realizaram totalmente, haja vista o regime escravocrata brasileiro. Há a presença do pathos
O orador sugere como deve ser suprimida a escravidão em nosso país. O logos permeia essa deliberação: “... não há de ser, suprimida no Brasil por uma guerra civil, muito menos insurreições e ou atentados locais. Não deve sê-lo, tampouco, por uma guerra civil, como o foi nos Estados Unidos...” (18) - prova extrínseca - nem por meio de uma revolução como aconteceu na França e nem através de um decreto majestático da coroa como na Rússia. Novas referências e provas extrínsecas sucedem-se.
Após destacar que tais medidas não se coadunam com nossa realidade, esclarece que tais alternativas não passam pela cabeça dos abolicionistas e aponta outros caminhos para a emancipação. Cria argumentos, ensina que o processo de libertação deve ser conduzido sem traumas e violências.
A emancipação há de ser feita, entre nós, por uma lei que tenha os requisitos, externos e internos de todas as outras. É, assim, no Parlamento e não em fazendas ou quilombos do interior, nem nas ruas e praças [...] que se há de ganhar, ou perder, a causa da liberdade [...] a violência o crime o desencadeamento de ódios acalentados, só pode ser prejudicial ao lado que tem por si o direito, a justiça, a procuração dos oprimidos e os votos da humanidade toda.(18)
É a razão que precede o caminho do bom senso, com respeito aos arcabouços jurídicos, sem ódios acalentados uma vez que isso seria prejudicial a uma causa que prega a paz social e a concórdia entre as castas. A opção pela norma legal, como saída
para o regime da escravidão, surge como prova extrínseca e o logos faz a devida conexão, para não dissociar a unidade da argumentação.
Surgem antíteses que outorgam força argumentativa (ganhar ou perder a causa da liberdade); há a presença da gradação (violência, crime, ódios acalentados e fazendas, praças, quilombos). As figuras proliferam no texto e, se não damos maior ênfase, é por termos escolhido outro caminho para nosso estudo, mas elas também se encaixam, o que não invalida a opção eventual por elas, pois, realçam a argumentação e podem ser fator de convencimento do leitor, além de um ornato inquestionável.
“A escravidão é um estado violento de compressão da natureza humana no qual não pode deixar de haver, de vez em quando, uma forte explosão.” (18)
O orador mostra-nos que a escravidão sintetiza um inalterável estado de pressão psicológica que expõe o senhor diante do escravo, cria um constante quadro de tensão cujo desfecho é inimaginável, e, não raro, deságua no caminho do crime e da violência.
... o número de escravos que saem do cativeiro pelo suicídio deve aproximar-se do número dos que se vingam do destino da raça na pessoa que mais os atormenta, de ordinário, o feitor.A vida do berço ao túmulo, literalmente, debaixo do chicote é uma constante provocação dirigida ao animal humano, e à qual cada um de nós preferiria, às vezes, a morte.(18)
O dia-a-dia, num estado de constante alerta, acirra os ânimos e, talvez seja preferível - prova intrínseca, ethos -, em caso extremo, a opção pela morte.
A estatística que apresenta, entre a vingança contra o capataz e o limite da desgraça ao abdicar da própria vida é dramática. A referência ao extermínio da vida entre os escravos, encaminha-se para o âmago do conflito, toca na paixão do leitor, comove, desperta a indignação e a revolta. Aborda um assunto muito controvertido e chocante, o do suicídio. O quadro é alarmante. É, porém, semelhante ao número de homicídios cometidos pelos escravos, nas vinganças contra os feitores. A figura do feitor, realmente, causa repugnância, é vil e odiada. Mais uma vez o pathos. O orador argumenta, procura impressionar seu interlocutor com imagens e dados que chocam o bom senso. Há uma sede de vingança.
As palavras dizem tudo e são colocadas com a necessária técnica. Realmente, diante da escala de sofrimentos pela qual passa o cativo, com o açoite de um lado, e, do outro, a morte que o espreita, a opção, pela última, é, muitas vezes, o melhor caminho.
Para quem não possui um resto de esperança para mudar de vida, para quem não vê algo positivo diante de si, nenhum horizonte, nenhuma luz que o estimule a viver, só lhe resta a opção pelo suicídio, resultado limite do desespero e da desilusão. Daí, o argumento - logos - de que o abolicionismo surge como uma esperança para a vítima, como um caminho para diminuir esse estado de tensão que acompanha o negro e habita as senzalas, diuturnamente.
O orador apresenta uma questão polêmica, um dilema que convive com a condição humana desde sua gênese, o suicídio. Essa é também uma realidade extremamente complexa no quotidiano das senzalas. O orador questiona seu interlocutor, mostra a ferida com sua indagação filosófico-existencial. Convida-o para a delicada discussão. É a marca do pathos, a prova intrínseca.
O orador relata uma passagem, prova extrínseca, de um parlamentar, Ferreira Viana, que assume a tribuna para dizer que seria uma atitude perversa colocar esperança no coração do escravo, já que a ele, por sua condição e natureza, não se pode dar qualquer esperança de liberdade.
Reveja bem o ilustre orador a lista dos que assim proscreve e nela há de achar os fundadores de todas as religiões [...] os vultos do catolicismo -, os mártires de todas as idéias, todas as minorias esmagadas, os vencidos das grandes causas. (19)
A partir deste fato vem um contra-argumento, mas numa proporção mais contundente. O orador aconselha ao parlamentar que reveja sua posição, alega que todos os grandes pregadores de todas as religiões, todos os grandes vultos, os mártires, pregam a esperança para os oprimidos da humanidade e coloca em oposição esses argumentos.
Para ele (o Sr. Viana), pregador leigo da religião católica, perverso não é quem oprime, viola o direito, prostitui o Evangelho, ultraja a pátria, diminui a humanidade: mas sim o que diz ao oprimido, neste caso o escravo: Não desanimes, o teu cativeiro não há de ser perpétuo, o direito há de vencer a força, a natureza humana há de reagir, em teu favor, nos próprios que a mutilam em ti; a pátria há de alargar suas fronteiras morais até te abranger. (19)
Um argumento a ser considerado. A prova intrínseca na hora aprazada. O orador apresenta um fato real e, a partir daí, extrai suas conclusões e as deposita perante o interlocutor para que ele faça o mesmo. A citação tem um endereço, o coração, o sentimento. O texto encerra um jogo argumentativo visível. Há, implicitamente, um intenso jogo de idéias, rico em suas entrelinhas.
“...perverso não é quem oprime, viola o direito, prostitui o Evangelho, ultraja a pátria, diminui a humanidade...” Impossível não destacar essa seqüência de verbos, uma gradação, de singular expressividade. Esse jogo de palavras elaborado com propriedade certamente desperta no leitor, o pathos, a emoção, sensibilizado pela força que os argumentos traduzem, pelo prazer causado pela estética, pelas figuras que dão vida e força ao texto. O orador rejeita o imobilismo, a conformação com o estado das coisas esperando que um milagre aconteça, caracterizado por “não desanimes...”
A aceitação pura e simples é incompatível com a pregação abolicionista. O uso de expressões em voga como “o direito há de vencer a força,” não pode servir de parâmetro para quem tem como objetivo a luta constante. Apesar das referências a valores morais, é uma forma de consolo equivocada. A liberdade só se consegue com desafios constantes. O ethos está presente, na posição do orador, contrário ao conformismo, à aceitação dos fatos como estão, sem uma tomada de posição sem a mobilização da sociedade, bandeira do movimento abolicionista.
“Este, sim, é perverso, chamasse ele em vez de Rebouças, Joaquim Serra, Luís Gama ou outro qualquer nome de abolicionista brasileiro, Granville Sharpe, Buxton, Whittier ou Longfellow.”
Relaciona o orador, novas prova extrínsecas, cita nomes de peso da causa abolicionista, nacionais e estrangeiros, argumento que visa a dar mais credibilidade e fortalecer sua mensagem e pregação.
Quando mesmo essa esperança nos parecesse irrealizável, não seria perversidade fazer penetrar no cárcere do escravo, onde reina noite perpétua, um raio de luz que o ajudasse a ser bom e viver. Mas a esperança não nos parece irrealizável, graças a Deus, e nós não a afagamos só pelo escravo, afagamo-la por nós mesmos também, porque o mesmo dia que der liberdade àquele[...] há de dar- nos uma dignidade, que hoje não o é – a de cidadão brasileiro. (19)
O orador reitera que a esperança não é irrealizável, mas algo plausível e na qual ele crê. O ethos está presente, o locutor confunde-se com o leitor. O orador identifica-se, envolve-se, como parte de tais circunstâncias. Sentimentos de esperança, de viver, alicerçam e fortalecem as iniciativas de proporcionar ao cativo uma condição no mínimo mais humana.O orador abre as portas das senzalas e mostra as feridas representadas pela solidão, a noite do desespero, a falta de um réstia de luz...
Há, subjacente, uma prece para que se deixe entrar nos porões da crueldade um pequeno raio de luz que traga esperanças para o cativo. Percebemos a presença da prova intrínseca, o orador associando-se aos sofrimentos do escravo, dizendo que ele, no mínimo, merece uma réstia de esperança. O orador tem consciência de que apenas no dia em que os escravos se tornarem livres é que todos gozarão do privilégio de poder sentir definitivamente a dignidade de serem cidadãos brasileiros. Por isso ele diz, “afagamo-la por nós mesmos...”. Enquanto houver um escravo o cidadão não pode dizer-se livre, pois a nação é um todo e a liberdade deve ser usufruto de toda a comunidade brasileira. Pouco importa estar no país ou fora dele,
...porque traçamos as fronteiras da nacionalidade além da lei escrita, de forma a compreender esse povo que não é nem estrangeiro nem nacional e, perante o Direito das gentes, não tem pátria.... (19)
Notamos, com freqüência, o uso de palavras da área do direito pelo locutor, fruto de sua formação acadêmica, mas de pertinência contextual. O escravo, na verdade é um cidadão sem pátria, está excluído da legislação como pessoa. O orador explora todos os
elementos possíveis exerce sua criatividade para caracterizar o estado de penúria e abandono do cidadão escravizado.
“Que crime seria perante um tribunal do qual Jesus Cristo e São Francisco de Assis fossem juízes...?”(19)
Uma pergunta retórica introduz personagens muito caros aos africanos, geralmente místicos, apegados sempre a alguma crença, maneira amena de contornar os sofrimentos. É a inserção do aspecto psicológico, místico, religioso...
“...tendo nascido brasileiros, não fazem parte da comunhão, mas pertencem a ela [...] e estão escritos, não nos alistamentos militares, mas na matrícula das coisas sobre as quais o Estado cobra impostos.?”(20)
Elabora o orador algumas considerações sobre o contra-senso que existe em relação ao escravo que nasce no Brasil e, pois brasileiro, faz parte da comunidade, pertence a ela, mas apenas está relacionado na lista das coisas sobre as quais o Estado cobra impostos. O logos, pathos e o ethos irmanados conferem maior expressão ao conteúdo.
São comparações, quadros que o orador coloca diante do leitor para que julgue a possível incoerência dos fatos. É uma seqüência de equívocos em que prevalecem dois pesos e duas medidas. Quando nascem, todos são brasileiros, há uma presunção de igualdade subjacente, mas na hora de gozar dos benefícios, uns o fazem, e aos outros só lhes cabe a parte negativa, o ônus dos encargos. Não se conforma o orador e imagina que não deve aceitar tal equívoco, o seu leitor. Não é, pois, ao acaso, que surge essa indagação.
Os escravos, em geral não sabem ler, não precisam, porém, soletrar a palavra liberdade para sentir a dureza da sua condição A consciência neles pode estar adormecida, o coração resignado, a esperança morta: eles podem beijar os ferros que lhes apertam os pulsos: exaltar-se na sua triste e tocante degradação com a posição a fortuna e o luxo do seu senhor; recusar a alforria que se lhes ofereçam para não terem que se separar da casa onde foram crias; chamar-se quando libertos pelo nome dos seus patronos; esquecer-se de si mesmos...(20)
A prova intrínseca alia-se ao pathos. Mesmo analfabeto, o escravo, ainda qduje o escravo não conheça as normas elementares de letramento, a intuição não lhe está ausente, e, certamente, percebe a diferença de castas que prevalecem a seu redor. Está ciente de que não lhe assiste o direto de ser livre. Está apenas, entorpecido, resignado, impotente em face das aberrações humanas que o cercam.
Em outras considerações, o orador coloca em evidência, uma reflexão sobre o lado humano do escravo - prevalência do pathos - que dá mostras de gratidão, apega-se à senzala onde nasceu, chega a beijar os pés de seu patrão e a recusar a alforria para não ter que abandonar o lar onde foi cria e que lhe desperta um sentimento de nostalgia. Chamamos atenção para a metáfora cria de muita expressividade no contexto. Cria é referência comum aos animais, e, que são os escravos?...Cria diz tudo.
É demasiado forte no escravo, malgrado sua condição de abandono, o apego ao lugar onde nasceu. Orgulha-se, mesmo liberto, de ser chamado pelo nome de seus patronos. Há, pois, no escravo os mais puros sentimentos de gratidão e apreço pelo patrão, por pequenos cuidados, apesar de “sua triste e tocante degradação em contraste com a fortuna, o luxo de seu senhor.” (20)
Talvez tenha a consciência adormecida, a esperança morta... Vejamos o limite a que chegam: esquecem-se de si mesmos... Estão prontos para dar tudo o que têm, a defender seus patronos e sacrificar-se por eles. A presença do ethos / pathos é marcante. Com tudo isso pretende provar o orador que, na verdade, o escravo tem a índole pacífica, possui sentimentos, é grato, apega-se às coisa que lhe são caras, tem pouca ou nenhuma ambição, contenta-se com o mínimo, e, sobretudo, apega-se ao lugar onde foi cria, onde nasceu, passou a infância e onde as lembranças afloram. Mas falta-lhe a reciprocidade e o reconhecimento, salvo raras exceções. Falta respeito por sua dignidade pessoal.
... como pode o abolicionismo [...] uma explosão de simpatia e de interesse pela sorte do escravo, azedar a alma deste, quando trezentos anos de escravidão não o conseguiram? Por que há de a esperança provocar tragédias como o desespero não teve que registrar? Por que hoje, que a sua causa está afeta ao tribunal da consciência pública, por advogados que se identificaram com ela [...] fazendo o que nunca fizeram [...] espectadores indiferentes ao seu suplício? (20)
Uma nova indagação ou pergunta retórica ao leitor que entrar em contato com as páginas d’O Abolicionismo. O orador usa os recursos argumentativos disponíveis, procura tocar em aspectos da vida da senzala, mergulhar na realidade trágica do escravo que, apesar dos trezentos anos de escravidão, não se deixou levar por ódios, não permitiu que os anos de cativeiro azedassem sua alma. Ele quer apenas ter a chance de ajudar a construir seu país na condição de cidadão, bafejado pela liberdade. Pathos.
As perguntas são contundentes. Alertam o leitor para que reflita sobre o outro lado da questão. Tudo lhes (aos escravos) é desfavorável, e ainda assim, submissos, subjugados ajudam a construir o país e nada pedem em troca. O abolicionismo está alerta. Não lhe passa despercebida a realidade em que está mergulhado o cativo. É nesse