6. EMPIRICAL RESULTS
6.2 Results
6.2.2 Trade-‐Off Model
Segundo o Ministério da Saúde (2002) o paciente com diagnóstico de TB bacilífera, necessita realizar um tratamento que garanta sua cura; este tratamento deve ser quimioterápico e adequado, com o fornecimento ininterrupto e gratuito dos medicamentos.
Torna-se necessário ressaltar que apesar da tuberculose ser uma doença curável que possui tratamento gratuito, deve-se oferecer todas as orientações em relação ao uso das medicações, enfatizando também que a ingestão de bebidas alcoólicas aumenta o risco para o desenvolvimento de efeitos colaterais (ANDRADE; VILLA; PILLON, 2005). Como pode ser observado no relato do colaborador 2:
[...] Deixei de me tratar porque o remédio subia pra cabeça, eu misturava com a bebida e não dava certo não, eu ficava doidinho [...] Mas agora, que voltei a tomar [os medicamentos], [...] deixo o efeito passar e durante o dia eu posso tomar umazinha, uma caninha [bebida]. Ainda tomo, não vou mentir. C2 Nessa concepção deve-se refletir que apenas a distribuição de medicamentos e práticas estritamente voltadas ao âmbito morfofuncional não são as únicas estratégias que levarão o doente a cura. Rocha (2009) afirma que o tratamento, apesar de ser fundamental para cura da doença, quebrando assim a cadeia de transmissão, também tem se mostrado um verdadeiro obstáculo para os programas de controle da tuberculose e para os próprios pacientes, pois se trata de um tratamento prolongado, com muitas drogas e vários efeitos desagradáveis. O Ministério da Saúde (2002) afirma que dentre os efeitos mais frequentemente descritos estão as manifestações gástricas. O que pode ser observado no discurso que se segue:
[...] esses remédios são muito fortes [...] Dá problema no estômago. C6 Destaca-se aqui que nenhum dos colaboradores que referiram sentir algum efeito colateral dos medicamentos, narraram em suas falas a pré-existência de orientações quanto a essas possíveis reações. Assim, enfatiza-se a extrema relevância da educação em saúde no sentido de que os pacientes deveriam ser informados sobre os possíveis efeitos colaterais que poderão surgir durante o tratamento, desse modo não seriam pegos de surpresa. Nesse sentido também devem ser considerados fatores relacionados com os serviços de saúde que contribuem para o
abandono, como falhas nas orientações dadas aos pacientes. No discurso do colaborador 7 essa falha fica bem evidente:
[...] não aquentei fazer o tratamento porque os remédios são fortes demais, dão dor de cabeça e tontura, e eu não sabia que dava isso não. C7 Oliveira et al (2000) referem que os diversos efeitos colaterais às drogas usuais comprometem o tratamento da TB, em alguns casos esses efeitos são tão intensos que forçam o doente a abandonar as medicações, podem aparecer episódios de vômitos, processos alérgicos, artrite, entre outros. Além dessas reações, ainda existe a possibilidade da ocorrência da hepatotoxicidade devido à utilização dos antituberculostáticos. Pereira et al (2000) comprovaram o efeito hepatotóxico dessas drogas em lactente que apresentou hepatite tóxica e insuficiência hepática.
Atualmente muito se discute sobre o tratamento da TB e o surgimento de cepas de bacilos resistentes. Muitos pesquisadores questionam o porquê de ainda não ter sido estudado um tratamento com menor tempo de duração e efeitos menos desagradáveis (JAMAL; MOHERDAUI, 2007).
É importante ressaltar que também existe pacientes que são submetidos ao tratamento da TB e consegue concluí-lo sem sentir qualquer efeito colateral, no entanto, outros fatores podem estar relacionados com o abandono ou interrupção do tratamento, como o número de doses e horários de administração da medicação (BRASIL, 2002). Esses fatos podem ser observados nas narrativas abaixo:
[...] eu passo o dia fora, não dá pra tomar todos esses remédios [...] Eu é que não ia andar com um “monte” de remédio pra cima e pra baixo [...]. C5 [...] Eu tomei os remédios por uns meses, por um tempo, depois quis mesmo parar de tomar, é muito complicado tomar esses remédios, é muito remédio, eu não sinto nada quando eu tomo, mas é remédio demais, é dois de manhã, mais quatro de tarde e mais três de noite. C1 [...] Mas agora, que voltei a tomar [os medicamentos], eu tomo na hora que eu quero, os cinco de uma vez só, os dois vermelhos e os três azuis, de duas ou três horas da madrugada, quando o galo canta [...] C2 O maior número de medicamentos prescritos e o esquema terapêutico, também estão associados à não adesão mesmo quando o medicamento é fornecido gratuitamente. Esse é um dos principais fatores relacionados ao medicamento que interferem na adesão, pois os esquemas
terapêuticos normalmente são complexos para os doentes e exigem um grande empenho por parte deles, que precisam adaptar sua alimentação, horários e ritmo diário para cumprir o tratamento (NEMES et al, 2000; JORDAN et al., 2000).
Rocha (2008) comenta sobre o aumento de sensibilidade com relação ao medo de ingerir muitos comprimidos, pois é natural que a pessoa tema efeitos desagradáveis quando se vê obrigado a tomar muitos remédios de uma única vez.
Ayres (2004) afirma que a utilização de parâmetros diagnósticos, drogas, doses e combinações deveriam seguir critérios mais singularizados, distintos do padrão convencional, sempre que o manejo prático da situação particular demonstrar positivamente sua variação em relação a comportamentos esperados por meio de médias (como doses farmacologicamente ativas, efeitos benéficos ou adversos efetivamente produzidos etc). É imperativo não deixar que a experiência que se transformou em tecnologia não se cristalize como tal. Como diz Mehry (2000), as tecnologias leves, isto é, a dimensão em que operam as interações humanas no trabalho em ato na saúde, devem ser permeáveis à mudança, ao novo, a reconstrução.
Diante do exposto conclui-se que o tratamento da tuberculose ainda é um desafio para os programas de controle, pois além do número de comprimidos, o medicamento pode trazer consigo sinais físicos desagradáveis, levando o doente a não relacioná-lo com a cura e o reestabelecimento da saúde. Fatos esses, que poderiam ser modificados se os profissionais da saúde considerassem que “cada caso é um caso” e estivessem sensíveis à possíveis interferências da sabedoria prática.