As conexões entre os movimentos de mulheres e os movimentos ecológicos estão em pauta no ocidente pelo menos desde a década de 1960, período em que eclodiram os movimentos da contracultura na Europa e nos Estados Unidos, questionando não apenas os grandes modelos políticos e econômicos – capitalismo e socialismo – mas o conjunto das instituições sociais, as ideologias, os valores que regulavam os comportamentos dos indivíduos. Assim como se denunciavam as relações opressivas entre os países – o imperialismo, a política armamentista, as guerras – politizavam-se as relações pessoais, colocando-se em evidência os mecanismos de poder que estavam por trás do racismo, do sexismo e da postura irresponsável da humanidade para com o meio ambiente, por exemplo. Questionava-se um modelo civilizatório.
Nos anos pós-guerra assistiu-se nos países centrais a um período de crescimento econômico e de bem-estar social simbolizado pelo acesso de amplas camadas da população a bens de consumo duráveis, tais como automóveis e eletrodomésticos. Esse oásis de otimismo convivia com a sombra da Guerra Fria e da corrida armamentista; e passou a ser ameaçado também pelos sinais da crise ecológica decorrente do industrialismo e da urbanização: poluição atmosférica, contaminação da água e dos solos, aparecimento de novas doenças, desmatamento, destruição de paisagens, desaparição de espécies.
Um dos primeiros alertas massivos sobre os riscos ambientais e para a saúde humana do uso das tecnologias modernas havia sido feito em 1962 pela bióloga norte-americana Rachel Carson, com a publicação do livro Silent Spring. Neste livro, Carson analisava o caso de um organoclorado, o DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano), desenvolvido durante a segunda guerra mundial para combater mosquitos, posteriormente utilizado como inseticida agrícola. Ela relacionou o seu uso com o desaparecimento de espécies (particularmente pássaros) e com o surgimento de doenças tais como o câncer. Questionava a lógica de utilização em grande escala de produtos sintéticos sobre o quais não se tinham informações suficientes, provocando uma reflexão dos movimentos ambientalistas nascentes sobre a necessidade de construção de mecanismos de regulação pública na área ambiental. Até
então, os movimentos conservacionistas nos Estados Unidos trabalhavam somente com a idéia de criação de "ilhas de preservação da natureza".15
As crises de abastecimento do petróleo em escala mundial, aliadas à ocorrência de desastres ecológicos de grandes proporções (o derramamento de óleo de grandes cargueiros, a contaminação por mercúrio em Minamata, entre outros) contribuíram para criar desconfianças sobre a sustentabilidade de um sistema baseado no progresso tecnológico, no uso irrestrito dos recursos naturais, e em pesadas políticas de defesa, cujos riscos o uso bélico da energia nuclear tinha deixado evidente.
No final dos anos sessenta, diversos movimentos sociais e políticos se mobilizaram contra esse modelo civilizatório: os estudantes de maio de 1968, o movimento hippie, os movimentos de direitos civis nos Estados Unidos, os grupos pacifistas e antienergia nuclear, as feministas. Seus métodos incluíam grandes ações de massa, ocupações, boicotes, assim como organizações de comunidades alternativas, entre outras manifestações de sensibilização da opinião pública e de pressão sobre os governos.
Dentro dos movimentos feministas, esse período correspondeu à sua "segunda onda", na qual se diferenciaram grupos liberais, radicais e socialistas, que, como foi apontado no capítulo anterior, tinham desenvolvido estratégias e prioridades diferentes no enfrentamento das questões de opressão das mulheres e do conjunto das lutas sociais. Alguns setores do feminismo radical – as ecofeministas – se dedicaram especialmente aos problemas ecológicos, preocupando-se com a premência da crise que se avizinhava. Para essas militantes, as causas da crise teriam que ser buscadas nos pressupostos antropocêntricos e androcêntricos que organizavam as sociedades patriarcais, e somente com a sua superação poderia ser construída uma sociedade igualitária e não destruidora (PULEO, 2000, p. 181).
Como aponta esta autora, desde a origem desses movimentos, as ecofeministas levaram em conta os grandes problemas que ameaçavam a sobrevivência na espécie humana no planeta: o crescimento populacional, as novas doenças, o temor a um conflito nuclear em escala mundial, as guerras, a postura utilitarista que orientava as relações dos seres humanos com os animais e o ambiente natural em geral. A preocupação das ecofeministas era mostrar, por um lado, os impactos específicos que esses fenômenos tinham sobre a vida das mulheres; e, por outro, como esses problemas estavam interligados entre si. Elas apontavam que havia "uma relação clara e profunda entre militarismo,
15 Sobre as motivações que levaram Carson a publicar esse inquietante livro e as interpretações do vínculo mulher-natureza no seu trabalho, ver Palmero (2003).
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degradação ambiental e sexismo", nas palavras de Petra Kelly, uma das fundadoras do
Partido Verde alemão (KELLY, 1997 apud PULEO, 2005, p.125).
Uma das primeiras interfaces entre ecologismo e feminismo foi a discussão sobre o aumento populacional e os direitos reprodutivos das mulheres. Enquanto para uma parte dos ecologistas havia um consenso sobre a necessidade de diminuir as taxas de crescimento da população mundial para se adequar à "capacidade de carga" do planeta, para as ecofeministas, a questão era outra: era necessário modificar as premissas do sistema de produção e consumo, ao mesmo tempo em que se garantisse o direito de escolha das mulheres com relação à procriação.
Limitar o crescimento da população como uma resposta às crises ambientais era uma questão que estava posta em discussão pelo menos desde 1968, com a publicação do livro
The population bomb, dos cientistas norte-americanos Paul e Anne Ehrlich. Este estudo
apresentava uma perspectiva neomalthusiana, relacionando as causas da pobreza no mundo com o número de pessoas existentes e a quantidade de recursos naturais necessária para o seu sustento. Embora admitisse que novas tecnologias pudessem aumentar a produtividade no uso desses recursos, apresentava o controle do crescimento da população como recomendação principal para a crise ambiental e para o combate à pobreza.
Esse discurso foi reforçado pela publicação, em 1972, pelo Clube de Roma, do estudo chamado Limits to Growth, no qual se faziam simulações, utilizando programas de computador, sobre as interações entre os sistemas humanos e a capacidade do planeta de sustentá-los, com conclusões igualmente neomalthusianas. Difundiram-se temores sobre uma possível "explosão demográfica", que era materializada em imagens de crescimento desordenado das cidades do terceiro mundo, localizando-se nesses países os principais focos do problema.
O controle da população tinha se tornado então uma questão de segurança internacional. Agências e instituições multilaterais e governos de países hegemônicos ocidentais desenvolveram os "programas de planejamento familiar" – muitos deles impingidos às populações pobres dos países periféricos por meios coercitivos – contando com o apoio de organizações não governamentais ambientalistas conservacionistas, que
acreditavam igualmente que os problemas ambientais eram decorrentes não do modelo de
desenvolvimento dos países ricos, mas do excesso de população nos países pobres16.
Esses argumentos serão denunciados pelas ecofeministas como manipulatórios da opinião pública e maniqueístas. O direito ao acesso a métodos contraceptivos era uma reivindicação das mulheres e dos movimentos feministas, pelo menos, desde o início do século XX, como forma de exercer livremente sua sexualidade sem a obrigatoriedade de terem filhos17. Porém, da forma como essas políticas estavam sendo implementadas, não
atendiam às demandas das mulheres, porque não respeitavam o seu poder de decisão.
No centro desse debate aparecerá, como lembra Alicia Puleo, o primeiro texto em que se defende uma proposta claramente feminista para os problemas ambientais, dando-lhe o nome de "Ecofeminismo". Será o texto Le Feminisme ou la mort, da francesa Françoise
D'Eaubonne, em 1974 (PULEO, 2004, p. 23; 2005, p. 128) 18. Para D'Eaubonne, o controle
da natalidade era só uma parte da equação, sendo a outra o modelo econômico produtivista excludente, dominado pelos homens, que orientava os países industrializados (tanto capitalistas como socialistas) e que estava levando à humanidade ao colapso, numa clara relação entre superpopulação, devastação da natureza e dominação masculina (PULEO, 2004, p. 23).
Para aquela autora, as mulheres eram as maiores interessadas no controle da reprodução, em função do seu próprio bem-estar; e se essa possibilidade estivesse em suas mãos, não haveria problemas de superpopulação. Seria o começo de um caminho não consumista, ecologista e feminista para a sociedade. No entanto, as contradições desse modelo se mostravam exatamente no tocante ao poder de controlar a fecundidade feminina: os homens reconheciam que essa ação era necessária, mas se recusavam a entregar esse
16 Embora ainda hoje o crescimento populacional seja considerado um problema ecológico relevante, esse
argumento tem perdido a força ao longo dos anos. Além da necessidade de considerar os diferentes níveis de consumo entre os seres humanos baseado no seu acesso ao poder, se admite que o crescimento populacional nem sempre afeta negativamente o meio ambiente. Camponeses e pequenos agricultores, por exemplo, quando realizam boas práticas de melhoramento ambiental muitas vezes contribuem para a preservação da biodiversidade, contrabalançando os efeitos do aumento da população (HARTMANN, 2006).
17 Ver, por exemplo, as discussões propostas por Emma Goldman, Margaret Sander e outras feministas que
defendiam a contracepção legal nos Estados Unidos em publicações como a Revista Mother Earth, que circulou entre 1906 e 1917.
18 Propostas feministas e preocupadas com questões ambientais podem ser encontradas em textos de diversas
autoras anteriores ao período aqui estudado. Alicia Puleo lembra que muitas das sufragistas eram vegetarianas, defensoras dos direitos dos animais e contrárias à vivisseção, temas que serão caros ao ecofeminismo (PULEO, 2005:126). Entre elas, uma médica inglesa, Anna Kingsford se destacou por sua dedicação ao estudo da teosofia no final do século XIX (http://www.anna-kingsford.com); já no século XX, podem ser encontrados indícios de "ecofeminismo" nos textos da sueca Elin Wägner, uma escritora feminista, pacifista e ecologista, que publicou Alarm Clock em 1941 (ver a esse respeito, LEPPÄNEN, 2003). No entanto, o termo “ecofeminismo” somente será associado aos movimentos organizados na Europa e nos Estados Unidos no final dos anos sessenta, após a publicação do texto de D'Eaubonne.
71 poder às mulheres (haja vista as proibições ao aborto e a outras demandas de controle das mulheres sobre o próprio corpo).
D'Eaubonne mostrava como as mulheres, ao longo dos séculos, tinham se submetido a métodos perigosos, ou mesmo recorrido a superstições, com esse fim; e que a história, ao contrário, só registrava os conhecidos "mitos da fecundidade", reforçando a ideologia de que havia um desejo profundo e poderoso em toda a mulher de "ser mãe", considerando as que "fugiam" a essa norma como seres egoístas, patológicos ou anormais. Os interesses das mulheres "enquanto sexo" coincidiam, portanto, com os interesses de toda a humanidade; enquanto os interesses individuais dos homens, não (D'EAUBONNE, 1998, p. 42, 49).
D'Eaubonne criticava também o caráter consumista do modelo econômico, que levava ao desperdício de matéria-prima e energia para produção de objetos inúteis, esgotava os recursos e contaminava o planeta. Denunciava ainda o caráter imperialista das políticas de controle da natalidade que estavam em discussão: enquanto o consumo de recursos naturais de uma pessoa de um país desenvolvido era estimado em 25 vezes o consumo de um terceiro-mundista, era justamente sobre esses países que se impunham, e sem passar pela decisão das mulheres, as políticas de "planejamento familiar" (D'EAUBONNE, 1998, p. 35). Essas críticas continuaram a ser levantadas por muitos grupos feministas ao longo dos anos, uma vez que a implantação de políticas de controle da natalidade opressivas sobre as mulheres, e racistas com relação aos países do sul, foi uma realidade na maioria dos países
nas décadas de 1980 e seguintes 19.
Segundo Alicia Puleo (2000, p. 170) foi a publicação do livro Is female to male as
nature is to culture? da norte-americana Sherry Ortner em 1974, no mesmo ano do livro de
D'Eaubonne, que aproximou o feminismo radical da ecologia. Este livro retomará questões já apontadas por Simone de Beauvoir em O segundo sexo: o fato de que, de maneira geral, em todas as sociedades as mulheres encontram-se subordinadas aos homens, e que esta situação está relacionada à distinção mantida, nessas sociedades, entre os atributos da natureza e os da cultura.
19 São conhecidos os casos de esterilização em massa ocorridos na Índia, por exemplo. No Brasil as denúncias
de distribuição indiscriminadas de contraceptivos orais às populações pobres remontam à década de 1960, quando atuava no país a Aliança para o Progresso, sob auspícios do governo norte-americano; nos anos 1980, houve inúmeras denúncias sobre cirurgias para esterilização de mulheres realizadas em troca de votos, nos períodos eleitorais, especialmente na região nordeste. Ver a esse respeito também as análises do Committee on Women, Population, & the Environment (CWPE), em: http://www.cwpe.org, entre outras. O CWPE é uma organização não governamental com base nos Estados Unidos, fundada em 1991, que assessora movimentos de mulheres sobre os temas do controle populacional, migrações, biotecnologias, pobreza e meio ambiente, da qual fazem parte feministas conhecidas como Betsy Hartmann e Ynestra King.
Considerando natureza e cultura como categorias conceituais e relacionais, Ortner afirmará que a distinção entre ambas estará no fato de que a cultura se estrutura com base no poder de transcendência sobre as condições naturais para transformá-las segundo os propósitos humanos. Assim a cultura não seria apenas distinta da natureza (onde se situariam os atributos da existência natural), mas seria superior a ela em sua capacidade de transformá-la e transcendê-la através da simbologia e da tecnologia, construindo assim os processos de socialização e aculturação.
Nesses processos, as mulheres passam a ser identificadas como estando mais
próximas da natureza do que da cultura, por conta da sua fisiologia (seu corpo); de seu
papel social ligado à maternidade; e por sua estrutura psicológica, dados o seu corpo e o seu papel social. No entanto, as mulheres são reconhecidas como seres humanos, participantes "potenciais" da transcendência, e dotadas de consciência, tendo inclusive a consciência da própria desvalorização. Ao serem as primeiras responsáveis pelos processos de socialização das crianças, por exemplo, e, portanto, não sendo vistas pura e simplesmente como parte da natureza, elas seriam consideradas como mediadoras entre a natureza e a cultura; mas isto, de qualquer maneira, lhes emprestaria um status inferior. Ortner defendia que, além de ser necessário que as mulheres participassem mais intensamente do mundo público, os seres humanos como um todo, através da cultura, passassem a valorizar mais as atividades reprodutivas das mulheres, atribuindo-lhes outro
sentido que não fosse de inferiorização (ORTNER, 1979, p. 102 et seq.) 20.
Como veremos a seguir, as primeiras ecofeministas tomarão este texto (e o de Simone de Beauvoir) em outra direção, procederão a um re-exame do dualismo natureza/cultura e mulher/homem, mas não mais reivindicando o pertencimento das mulheres à cultura – que será rechaçada como sendo androcêntrica – e sim, afirmando a superioridade da mulher e da natureza. Será uma tentativa de recuperar a relação mulher-natureza, invertendo os valores que inferiorizavam ambas, sustentando a superioridade da natureza sobre a cultura21.
Uma segunda questão que, desde o início, esteve no centro da preocupação das ecofeministas foi a relação entre as mudanças ambientais e seu impacto sobre a saúde das
20 Alicia Puleo lembra que posteriormente os estudos de Ortner foram contestados por não serem universalizáveis, sendo suas observações válidas apenas para certas culturas ocidentais. Em outras culturas, pode existir mesmo uma valorização oposta, da natureza em relação à cultura (PULEO, 2000:171).
21 Estes primeiros ecofeminismos receberão várias críticas, por seu caráter "essencialista" (atribuição às
mulheres de certas características derivadas do simples fato de terem nascido mulheres); de aceitação acrítica dos dualismos combatidos historicamente pelo feminismo; e de "demonização" dos homens. Essas críticas serão discutidas na terceira seção deste capítulo.
73 mulheres. Nos Estados Unidos, naquele período, o movimento feminista organizava-se por meio de grupos de reflexão e autoconhecimento; uma parte desses grupos passou a se interessar pelo funcionamento do corpo feminino, e passou a criticar a forma como as mulheres eram enfocadas pelos tratamentos médicos conhecidos (unicamente como seres voltados para a reprodução). Recuperaram práticas tradicionais de saúde que eram usadas historicamente por mulheres, e passaram a criticar a desvalorização dessas práticas pelos sistemas institucionais como parte da postura patriarcal de desvalorizar os conhecimentos das mulheres.
Um dos grupos pioneiros nesse sentido foi o Boston Women's Health Book Collective (Coletivo de Mulheres de Boston), que iniciou suas atividades em 1969, nos Estados Unidos, exatamente como um pequeno grupo de reflexão. Deste grupo surgiu uma publicação em 1970, Women and Their Bodies (que posteriormente passou a chamar-se
Our Bodies, Ourselves), um manual de ginecologia alternativa para as mulheres, que até os
dias de hoje é uma referência para os movimentos feministas de todo o mundo no que se refere à saúde das mulheres.
Esta organização vem publicando sistematicamente atualizações daquele primeiro manual e prestando assessoria a grupos de base, na perspectiva de pressionar os serviços públicos de saúde para atender a essas demandas específicas. Seus temas de trabalho são: o conhecimento das mulheres sobre os seus corpos; a denúncia da excessiva "medicalização" das fases da vida de uma mulher (nascimento, menarca, vida reprodutiva, menopausa, envelhecimento); o direito de todos os pacientes a conhecerem as controvérsias sobre os tratamentos propostos; e o resgate de conhecimentos e práticas tradicionais em saúde22.
Uma importante discussão trazida por este Coletivo foi sobre a visão androcêntrica que presidiu a opção massiva por uso de métodos contraceptivos invasivos aos corpos das mulheres e que atendiam aos interesses dos grandes laboratórios, embora se apresentassem inicialmente como uma conquista da revolução sexual. Métodos como o diafragma, mais baratos, seguros para a saúde e sob controle das mulheres, assim como os preservativos, foram preteridos em relação à pílula anticoncepcional e aos dispositivos intra- uterinos, ambos potencialmente mais arriscados para as mulheres por seus efeitos hormonais. Da mesma forma, continuam denunciando sobre o uso indiscriminado de terapias de reposição hormonal para a menopausa, que não têm levado em conta
22
suficientemente o aumento dos riscos de câncer de mama e de útero, atendendo mais uma vez aos interesses dos laboratórios e não aos da saúde das mulheres (PULEO, 2007, p. 236).
Esse Centro realiza também pesquisas sobre problemas de saúde relacionados com a contaminação ambiental, mostrando, por exemplo, que o acúmulo de substâncias tóxicas provocadoras de síndromes de hipersensibilidade é maior no corpo das mulheres do que nos homens, devido a particularidades hormonais e ao conteúdo de gorduras, entre outros
estudos (PULEO, 2005, p. 127)23.
No contexto deste debate inicial sobre saúde das mulheres e ambiente surgiu uma das obras mais radicais desse período, o livro Gyn/Ecology: The Metaethics of Radical Feminism de 1978, de autoria de Mary Daly. Este livro pertence ao chamado feminismo cultural, que como foi comentado no capítulo anterior, se constitui como uma corrente dentro do feminismo da diferença que defenderá a necessidade de criar uma cultura específica de mulheres. Assim como outras obras do período, em particular Women and nature: the
roaring inside her, de Susan Griffin (1978) e The Spiral Dance: A Rebirth of the Ancient Religion of the Great Goddess (1979), de Starhawk, se centrará na discussão sobre a
religião. Griffin faz uma prosa poética em que defende a necessidade de conexão das mulheres com uma espiritualidade fundada na sua natureza interior, uma conexão com a “Deusa-Mãe-Terra”; Starhawk propõe a recriação de certas práticas místicas com esse mesmo propósito. Daly, no entanto, se ocupa de desmistificar como as religiões ocidentais justamente se empenharam em destruir esses laços, onde eles existiam. Essas posições constituirão uma das vertentes espiritualistas do ecofeminismo (PULEO, 2003, p. 24).
Mary Daly desenvolveu uma teoria com relação às naturezas diferenciadas do erotismo dos homens e do erotismo das mulheres, na qual relacionava a natureza masculina com a agressividade, a competitividade e a destruição; enquanto a natureza feminina seria fértil, maternal, dedicada ao cuidado da vida. Tecnologias que envenenam o ar, a terra, a água e que servem a propósitos bélicos seriam explicadas pelo "ódio à vida", relacionado,