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3. Evaluation Criteria

3.2. Inherent Language Properties

3.2.1. Traceability

Ao trazer um contexto em análise como um território em estudo, o conceito que fundamenta a reflexão está marcado na ideia de territorialidade, em que há o reconhecimento de vidas numa relação social, política e histórica, na qual se tem o desenvolvimento por parte dos sujeitos do sentimento de pertencimento, assim, como apresentou Milton Santos que “por território entende-se geralmente a extensão apropriada e usada. Mas o sentido da palavra territorialidade como sinônimo de pertencer àquilo que nos pertence”. (SANTOS, 2011, p.17).

Com essa compreensão de território em convivência humana, a análise de patrimônio nesse trabalho, se faz sob o ângulo histórico-sócio-político. (WANDERLEY, 2010, p.26). Nesse sentido tem-se uma observação de um contexto urbano na região do ABC, um local que tem um percurso histórico e nos tempos atuais passa por grandes reorganizações políticas e produtivas, evidenciando rápidas transformações.

Essa realidade não é um fato isolado, mas reflete um processo de organização de vida urbana, que em análise cosmopolitana, passou por contextos históricos onde grupos sociais, com forte poder político, marcaram um perfil cultural hegemônico que

deixou marcos para evidenciar suas memórias, afirmando suas representações por patrimônios históricos.

O modelo de desenvolvimento de São Bernardo do Campo não recua da contextualização internacional, em referência ao pensamento cientifico, político, histórico de patrimônio cultural, visto que nesse território teve uma construção de vida e de memória pautada por um perfil de desenvolvimento, diferenciando espaço central de produção e contexto periférico. Essa organização produtiva pautou a organização de vida das pessoas e conforme a acumulação de riqueza tem-se as representações de grupos em patrimônio material e imaterial.

Uma cultura compõe-se de significados, ideias e concepções, acompanhando o dinamismo da própria vida. Esses significados se expressam através de práticas sociais, através do discurso e das manifestações artísticas de um povo, levanto essas questões em um estudo de caso. Desta forma, é lançada uma análise sobre o caso específico da cidade de São Bernardo do Campo, situada na Grande São Paulo, na região do ABC Paulista, que é considerada o principal polo industrial e automotivo do Brasil e uma referência internacional no setor.

Nessa parte da pesquisa tem-se a necessidade de fazer um referencial histórico e de descrição dessa realidade, para que se entenda como foi esse processo e para que se entenda a força industrial nessa cidade. E dentre os fatores, é possível citar alguns que envolvem a presença de mão-de-obra no local, a logística proveitosa da localização da cidade proporcionada pela via de ligação entre São Paulo e Santos, incentivos fiscais oferecidos pela administração local, entre outras questões. Muitas empresas multinacionais se favoreceram dessas vantagens e criaram suas sedes em São Bernardo do Campo. E dentre tantas empresas, se concentraram na cidade as principais indústrias de automóvel do mundo, além de tantas outras que se relacionam com a indústria automobilística, como as fábricas de autopeças, transformando a

cidade, entre as décadas de 1950 e 1970, além de um dos principais polos industriais do país também a capital nacional do automóvel4.

Ocorre a atração de um imenso contingente migratório para a cidade, que passa a servir de mão-de-obra para essas indústrias. Há um acelerado processo de crescimento urbano que transforma essa localidade que antes era uma pequena e bucólica cidade no início do século XX para uma metrópole, visível em seu crescimento populacional, que passa de 29 mil habitantes em 1950, para 425 mil em 1980, sendo mais da metade (292 mil) imigrantes.

Novos aglomerados são criados em lugares que antes eram pacatos núcleos coloniais. Sítios, chácaras e um cenário de uma cidade rural vão sendo transformados por uma ocupação urbana, tanto de forma regulamentada ou não, por casas e ocupações Como resultado da expansão populacional, as chácaras e a paisagem bucólica passou a dar lugar a novos loteamentos urbanos, regulares ou irregulares, e o crescimento populacional é rápido e irreversível.

Junto com essa imensa transformação de cenário da cidade, resultado da ação direta desse crescimento de poder industrial, surge um novo sindicalismo, que se mostra extremamente organizado e com imensa força de ação pela reivindicação, que transforma a cidade em um referencial nacional, para, em meio a momentos de crises econômicas, servir de cenário a um dos mais belos exemplos de movimento grevista que já ocorreu.

Foi em uma manhã de maio de 1978, que mais de 2.500 trabalhadores da Saab- Scania do Brasil entraram para trabalhar, bateram seus cartões de ponto, vestiram seus habituais macacões, ocuparam seus postos de trabalho e diante das máquinas que permaneceram desligadas, cruzaram seus braços dando início a uma greve branca que veio como uma afronta, tanto à indústria metalúrgica como também ao governo

4 No final da década de 1970, a Região do ABC representava cerca de 80% da produção nacional de veículos.

Além da General Motors, que já estava no ABC desde o final da década de 1920 (montando veículos que chegavam desmontados pelo porto), dez montadoras instalaram fábricas na Região do ABC entre meados da década de 1950 e final da década de 1960: Willys Overland (1954, sendo em 1969 adquirida pela Ford), Mercedes-Benz (1956), Volkswagen (1957), Simca (1958), depois adquirida em 1969 pela Chrysler que, por sua vez, foi comprada pela Volkswagem em 1981, International Harvester (1959), vendida à Chrysler em 1966, Karmann-Guia (1960), Scania Vabis (1962) e Toyota (1962). (CONCEIÇÃO, 2008, p.72)

militar vigente. Uma atitude que deu início a uma história de lutas, com vitórias e derrotas, mas com o reconhecimento de todo um país e do mundo.

Foi uma greve que ocorreu de forma a surpreender, comparada com o histórico de lutas trabalhistas até então, já que, de forma inesperada, os trabalhadores ocuparam as dependências internas da fábrica, inabilitando os instrumentos de repressão, que não puderam agir para conter as ações grevistas. A própria diretoria da fábrica não soube como reagir ao ato de luta. A greve branca veio como uma elaborada engenharia de ações para que pudesse concretizar de forma eficaz as ações de mobilização.

Essa elaboração é fruto do “novo sindicalismo”, que passa a dar uma maior representação e autonomia aos líderes operários, agrega aos movimentos lideranças de movimentos sociais, sendo muitas ligadas aos movimentos operários católicos. Também é característica dessa nova forma de organização sindical, discursos e manifestações que faziam um atrelamento entre as condições vividas pelos operários em suas realidades na fábrica, com a situação econômica e social que o país vivia. Essa formação para a realidade e que contestava as situações limites vividas pelos trabalhadores, servia como forma de criar uma maior consciência crítica diante da causa grevista. Isso foi possível graças à reestruturação das comissões de fábrica e da organização de um sistema de comunicação próprio.

Emir Sader (1988) destaca a autonomia com uma das mais importantes características desse novo modo de sindicalismo, surgido ao final da década de 1970.

Novo sindicalismo, que se pretendeu independente do Estado e dos partidos, eram os “novos movimentos de bairro”, que se constituíram num processo de auto-organização, reivindicando direitos e não trocando favores como os do passado; era o surgimento de uma nova sociabilidade em ações comunitárias onde a sociabilidade e autoajuda se contrapunham aos valores da sociedade, inclusive, eram os novos movimentos sociais que politizavam espaços antes silenciados na esfera privada. (SADER, 1988, p.35-36).

Era uma nova forma de agir de um sindicato, que se pauta em um modelo sindical livre e não mais mantida uma estrutura sindical atrelada. Como ressalta Sader

(1988, p. 167) “organizações partidárias foram debilitando cada grupo e deixando sempre resíduos de militantes que não aderiam a nenhuma das facções”; uma forma de organização que se desliga e cria uma maior independência com relação ao Estado e um movimento de lutas desvinculado aos partidos políticos, principalmente o PCB (Partido Comunista Brasileiro), que tradicionalmente sempre esteve envolvido com as lutas dos trabalhadores.

A partir dessa primeira greve, que lutava com o objetivo de negociar melhores condições salariais, da necessidade de serem reconhecidas as comissões de fábrica, pela garantia na manutenção dos empregos, e também, ou até mais ainda, pelo direito a liberdade de expressão, negociação e reinvindicação, sucederam-se outras nos anos seguintes que sempre tiveram uma repercussão nacional por meio dos órgãos de imprensa, das forças do governo e da opinião pública. Elas influenciaram ações também em outros setores produtivos, fazendo com que trabalhadores de outras categorias também se organizassem nesse novo modelo de luta.

No ano de 1980, muitos sindicalistas e representantes da sociedade civil, de movimentos populares e intelectuais foram responsáveis pela fundação do Partido dos Trabalhadores, com a vontade de fazer chegar ao poder um governo representativo da classe trabalhadora.

Não ousaria afirmar que o país São Bernardo possa anexar o país Brasil. Mas cabem dúvidas de que o tempo tende a tornar o Brasil mais parecido com São Bernardo. (CARTA, 1981).

São Bernardo do Campo, com a década de 1990, sofreucom as consequências das políticas neoliberais do mercado internacional. Em consequência disso, o setor industrial, tão importante para a economia local, passou por transformações relevantes tanto em sua organização, como em seus processos produtivos, além da reestruturação do próprio mercado de trabalho. Esse setor veio a perder um importante espaço abrindo a economia da cidade a alternativas setoriais, como o de serviços, além da crescente realidade do mercado informal.

As heranças culturais que são guardadas do período de força industrial e da ação ativa dos metalúrgicos são representadas por meio de ações específicas e de bens materiais nos tempos atuais do que sobrou desse período específico de crescimento e ápice da indústria, e a necessidade de sua valorização é também a necessidade de sua preservação como material e imaterial.

Nessa condição histórica, em que as diferentes classes sociais estiveram presentes, São Bernardo do Campo ainda sente a necessidade de dar visibilidade a uma classe operária por meio de suas histórias de luta e de construção de suas conquistas, o que é constatado por seu orgulho de fazer parte dessa categoria de trabalhadores.

Uma cidade em que as expressões dessa classe de trabalhadores que se apresenta em todo o território, não há de ordem oficial o reconhecimento das suas forças de lutas e resistências. Isso não significa que as comunidades não guardam seus patrimônios culturais, em que por forças de expressões, sem reconhecimentos oficiais, não determinam suas produções como patrimônios culturais comunitários.

Em trajetos de grande circulação, os patrimônios comunitários vão cedendo seus espaços às grandes construções e chamadas dos interesses econômicos. Essa situação é fruto da ausência de mais espaços de reflexões sobre a importância das memórias de diferentes povos. Em análise geral, essa leitura de poucos espaços com representações sociais diversas é fruto de uma história que tentou preservar um processo imigratório de italianos, negando assim, a memórias dos diferentes povos que vem constituindo essa cidade.

Com a leitura de contextualização, São Bernardo do Campo passa por tempos diferenciados, em que por condição de resistências existem diálogos, perspectivas e indicativos para evocar as memórias de uma cidade de muitos sujeitos e uma identidade que se sente necessária a se consolidar.

Com esse breve histórico é inegável a relação direta da formação da cidade e do que ela é na contemporaneidade com seus trabalhadores. São Bernardo do Campo

é uma cidade operária. É nela que, nos tempos mais sombrios da história recente do Brasil, se fez ecoar a voz de milhões de trabalhadores que questionavam suas condições de trabalho e de vida.

Como pode uma cidade com uma relevante memória industrial não ser representada por meio de seus bens tombados? Como é possível sua grande população metalúrgica não se identificar com seus espaços de memória? De que forma, o Conselho Municipal que trata do Patrimônio Cultural, se posiciona e age diante dessa fatia pequena de representação?