5. Discussion
5.2. Concentration of trace elements in soil and forages
5.2.2 Trace elements
O objeto a é uma verdadeira invenção que Lacan traz à cena para dar conta de algumas questões que se apresentavam, tanto na teoria, quanto na experiência analítica. Há sinais de sua presença no escrito Subversão do sujeito e dialética do desejo de 1960 e, posteriormente, em uma maior formalização, no Seminário 10, A angústia. Sua teorização é retomada em outros Seminários, como o Seminário 11, Os quatros conceitos fundamentais da Psicanálise, e o Seminário 16, de um Outro ao outro, Seminário 17, O avesso da psicanálise, entre outros. Para Miller (2006), é especialmente no Seminário 10 que o objeto a é apresentado com um brilho especial, pois é ali que ele é tomado por Lacan em suas cinco formas – o oral, o anal, o fálico, o escópico e o vocal –, sendo cada uma delas letras soletradas no
corpo. Assim, “o objeto a não aparece como o produto de uma estrutura articulada, mas sim como o produto de um corpo despedaçado” (MILLER, 2006c, p. 32).
Na pegada deste Lacan que aborda o objeto a em sua referência ao corpo – ou melhor, aos seus pedaços, peças avulsas chamadas por Freud de zonas erógenas – fomos habituados a tomar o objeto a não como um significante, mas como aquilo que porta uma heterogeneidade em relação à articulação própria frente ao significante. Se podemos afirmar que é por se colocar em oposição a um outro (significante) que o significante constitui uma cadeia com esse outro, já não podemos dizer o mesmo em relação ao objeto a. Se o significante é o fundamento da dimensão do simbólico, razão pela qual faz Lacan se interessar pela linguística que parte de Saussure, o objeto a, por seu turno, seria aquilo que escapa à ordem simbólica. Para Lacan, o objeto a é o resto que escapa na dialética do sujeito com o Outro. Como em uma equação de divisão, o objeto a é o que sobra como aquilo que não pôde ser significantizável.
Nesse contexto, o objeto a é o contraponto fundamental do sujeito. Ele é, inclusive, o fator da subversão do sujeito na dialética do desejo, “a libra de carne paga pela vida”. Sujeito e objeto: um não pode ser pensado sem o outro, com a ressalva de que cada um tem um estatuto que lhe é próprio. De acordo com Vieira (2009), o sujeito é fugidio, podendo ser figurado com um ponto de interrogação (?), ao passo em que o objeto é presença imperativa, cuja figuração seria a exclamação (!). Nas palavras desse autor:
No fundo, sujeito e objeto são duas apresentações do real, mas do real na estrutura. Afinal, tomá-los fora da articulação S1 – S2, para além da linguagem, flertaria perigosamente, com o místico, exatamente, o que evita Lacan quando promove com esses quatro elementos, S1, S2, a, $ – sua teoria dos discursos (VIEIRA, 2009, p. 337).
É preciso lembrarmos que, na teoria dos quatro discursos de Lacan, tal como apresentada no Seminário 17, o objeto a não é pensado como heterogeneidade mas, como aponta Vieira, ele é um dos elementos ao lado do S1, S2 e $: significante mestre, saber do Outro e sujeito barrado, respectivamente. Nessa perspectiva, o objeto a, como uma das apresentações do real na estrutura, é uma invenção de um Lacan ainda marcado, profundamente, pela linguagem como estrutura. Não há, pois, como deixar de fora essas considerações em torno de um conceito que permitiu, a
Lacan, pensar o trajeto da pulsão em busca de satisfação, esta vinculada à estrutura de linguagem do inconsciente.
O próprio Freud já insinuava que a pulsão é gramatical. Em seu texto de 1925, Die Verneinung, A Negativa (como foi traduzido), Freud não deixa de surpreender ao traduzir, em termos de linguagem, o que ele chama de “moções pulsionais”. Essa problemática é abordada no contexto de uma discussão entre o símbolo da negativa (Verneinung) e do recalque (Verdrangung) implicada, nesse processo, a “função do julgamento intelectual” e sua “origem psicológica”. Essa função está às voltas com duas espécies de decisões: uma que acontece no tempo da atribuição e, outra, no da existência. O primeiro tempo, atribuir ou negar uma qualidade a uma coisa – se ela é boa ou má, útil ou prejudicial – é tempo em que o juízo está enlaçado à língua pulsional. Nas palavras de Freud:
Expresso na linguagem dos mais antigos impulsos instituais [moções pulsionais] – os orais – o julgamento é: “Gostaria de comer isso”, ou “gostaria de cuspi-lo fora”, ou, colocando de modo mais geral, “gostaria de botar isso para dentro de mim e manter aquilo fora”. Isso equivale a dizer: “Estará dentro de mim” ou “estará fora de mim”. Como demonstrei em outro lugar, o ego-prazer original deseja introjetar para dentro de si tudo quanto é bom, e ejetar de si tudo quanto é mau. Aquilo que é mau, que é estranho ao ego, e aquilo que é externo são, para começar, idênticos (FREUD, 1976 [1925], p. 297).
Com isso, podemos dizer que Freud propõe a primeira partição de uma topologia subjetiva, “em mim”/ ”fora de mim”, fundada no trabalho da pulsão. A introjeção da qual fala Freud é a marca do que se inscreve. O “dentro”, inscrito no simbólico, porta a propriedade do bom. Como resto dessa operação de inscrição, há a expulsão radical: o que é estranho ao eu é lançado para fora.
A outra decisão que diz respeito à existência real de uma coisa representada, é um interesse do “Eu-realidade” definitivo, que se desenvolve com base no “Eu- prazer inicial”, aquele que se guia pelas mais antigas moções pulsionais orais. Nesse tempo da existência, Freud localiza o teste da realidade, cujo objetivo “é não encontrar na percepção real o objeto que corresponda ao representado, mas reencontrar tal objeto, convencer-se de que ele está lá” (FREUD, 1976 [1925], p.298) . A função do teste de realidade visa, nesse sentido, a assegurar a existência de uma falta que funda o campo da representação. Pois, segundo Freud, “uma precondição para o estabelecimento do teste de realidade consiste em que objetos,
que outrora trouxeram satisfação real, tenham sido perdidos” (FREUD, 1976 [1925], p.298).
O âmbito deste trabalho não comporta extrair as inúmeras consequências dos ensinamentos freudianos de sua Die Verneinung, texto extremamente conciso, mas de uma extraordinária riqueza. A referência a ele, nesta tese, visou a sinalizar que está no próprio Freud o germe da concepção de Lacan segundo a qual a pulsão é constituída no campo da linguagem. Como se tem visto, Lacan constrói o seu objeto a para transportar a estrutura de linguagem para algo que parece difícil de ser captado pela articulação: a pulsão acéfala e silenciosa, em termos freudianos, ou o gozo, em termos lacanianos.
Nessa perspectiva, podemos dizer, com Miller (2011), que, com o seu objeto a Lacan faz da pulsão uma cadeia significante, assinalando, então, a dupla consequência da cadeia significante: de um lado, ela tem um efeito de sentido e, de outro, um produto de gozo. Concluímos, então, que nesse momento do ensino de Lacan, o objeto a traz “a marca da subordinação do gozo à estrutura da linguagem” (MILER, 2011, p. 224). O seu grafo do desejo foi feito para ilustrar isso:
Figura 2: Grafo do desejo Fonte: (LACAN, 1998a [1960], p. 831)
Na construção deste grafo, Lacan é influenciado não só por Saussure, mas também por Shannon, um teórico da comunicação dos anos pós-guerra. Sob a influência deste último, Lacan se utiliza de alguns termos: destinatário; mensagem;
leitura e pontuação. O grafo do desejo é elaborado ao longo de dois seminários: As formações do Inconsciente (1957-1958) e O Desejo e sua Interpretação (1958- 1959). É no escrito de 1960, Subversão do sujeito e dialética do desejo, que Lacan retoma suas elaborações sobre o grafo, onde interroga sobre a dialética do desejo a partir do inconsciente freudiano estruturado em termos de linguagem.
Do grafo, destaquemos o que se julga, nesta tese, acerca do que é relevante na discussão: ele se constitui em dois andares, sendo o primeiro, de baixo para cima, o nível onde Lacan localiza o “tesouro da língua” e, o segundo, onde ele situa a pulsão. É interessante notar que Lacan aborda a pulsão por meio do conceito da demanda, afirmando que “ela [a pulsão] é o que advém da demanda quando o sujeito aí desvanece” (LACAN, 1998 [1960] p. 831). Cunha o matema da pulsão, $ D (sujeito barrado punção D), esclarecendo que essa notação denuncia a estrutura diacrônica, isto é, o que acontece, ao nível da pulsão, tem a ver com a história das demandas do sujeito. Sua temporalidade é a da retroação, o que quer dizer que a significação se produz no “só depois”, com o último termo, como ensina Lacan (1998 [1960], p. 20).
Com esse grafo é importante destacarmos o que, nele, Lacan vem situar: “a pulsão como tesouro dos significantes”. Não se pode esquecer que a expressão “tesouro do significante” é usada por Lacan para referirmos ao Outro. Para Miller, “sob essa sigla bizarra”, Lacan tenta situar o equivalente desse Outro ao nível da pulsão; trata-se, pois, de uma “construção por homologia”. (MILLER, 2011, p. 151).
No texto de 64, Do ‘Trieb’ de Freud, Lacan afirma que “as pulsões são nossos mitos. [...], aquilo que produz o desejo, reproduzindo nele a relação do sujeito com o objeto perdido.” (LACAN, 1998 [1964], p. 867). O desejo só se sustenta pela relação desconhecida que o sujeito tem com o objeto que for causa de sua divisão; e isso é o que revela a estrutura da fantasia4. Lembremos que, para Freud, a fantasia é a realidade psíquica do sujeito, ao que Lacan retoma, assegurando que a fantasia é a tela, a janela, por onde o sujeito constitui sua relação com o mundo.
A cada vez que o sujeito se depara com a estranheza do seu desejo, há o alerta de que houve a incidência da pulsão. E, como afirma Lacan, “esse drama não é o acidente que se supõe. É da ordem da essência: porque o desejo vem do Outro, e o gozo está do lado da Coisa” (LACAN, 1998 [1964], p. 867). Então, se o desejo
4 A fantasia é definida como a estrutura que determina todas as relações possíveis do sujeito com o
sustentado pela fantasia vem do Outro, a ponto de o sujeito desejar o que o Outro deseja, escondendo-se da sua realidade pulsional, isso não acontece com o gozo, que vem da Coisa, esse resto irredutível à colonização do Outro.
Concluímos, então, que Lacan com o seu objeto a, temática que tem a ver com a pulsão, tenta inscrever, em termos significantes, a relação do sujeito com o gozo. Considerado como o objeto-causa de desejo, causa da divisão do sujeito, o objeto a será, depois, tomado por Lacan, como condensador de gozo e, nesse aspecto, Lacan vem nomeá-lo com a expressão mais de gozo ou mais-de-gozar, em uma forte referência à mais-valia marxista. Miller forja a expressão “ambíguo linguístico-libidinal” para definir o objeto a. Nesse sentido, ele assinala que “o objeto a é um amboceptor entre desejo e gozo. Para mostrá-lo, nada melhor que essas duas definições5 trazidas por Lacan ao longo do tempo: ele o define tanto como mais-gozar quanto como causa do desejo” (MILLER, 2011, p. 195).
Pelo exposto, podemos dizer que, desde a construção do objeto a, Lacan tenta conectar o gozo à cadeia significante, fazendo-o manejável. Mas é preciso acrescentarmos que o objeto a remete à abordagem do gozo pensado a partir do inconsciente tido como articulação de significantes. No tópico seguinte será abordado que lalíngua é uma noção que permite pensar o inconsciente a partir do gozo. Para tanto, outros conceitos se somarão, como o de sinthoma que, em alguma medida, não deixar de ter parentesco com o objeto a, mas com diferenças bem precisas.