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ao tomar seus equívocos no sentido mais anagramático do termo. É nesse ponto da linguagem que um Saussure se colocava a questão de saber se nos versos saturninos, onde ele encontrava as mais estranhas pontuações de escrita, isto era intencional ou não. É aí que Saussure espera por Freud. E é aí que se renova a questão do saber (LACAN, 1985b, p. 129).

Se Saussure espera por Freud para que a questão do saber seja renovada, é Lacan quem vem dar um novo estatuto a esse saber, vinculando-o a lalíngua. As “estranhas pontuações de escrita”, encontradas nos versos saturninos, que tanto intrigaram Saussure, e que Lacan compara ao rébus do sonho, são, para nós, um dos índices que circunscreve o impossível da língua. Acrescentemos, ainda, que o que se destaca nessas composições poética dos latinos é a relação do sujeito com lalíngua, e, como veremos, isso é inseparável da função da letra. Nesse sentido, concordaremos com a afirmação de Carvalho23:

Ora, é justamente a função da letra o que se ressalta nas palavras sob as palavras onde se lêem os anagramas. É aí que reaparece, em Saussure, a questão do sujeito em sua relação com a língua: ele é suposto nesse corte literal onde emergem essas pontuações que Saussure mantém no campo do indescidível. Retroativamente, diremos que ele emerge também no Curso como efeito do recorte exigido na massa indistinta dos sons onde se elocubra um saber sobre alíngua.

Partindo dessa citação de Carvalho, podemos dizer que os anagramas tocam a função da letra, a qual não está desvinculada da questão do sujeito. Retomaremos, mais adiante, o que vem a ser a noção de letra em Lacan, mas, desde já, adiantamos que a letra, distinta da articulação significante, escreve a experiência de um sujeito para além da significação. Com Milner, adiantamos que “[...] o fundamental é, pois, que Saussure tenha posto em termos de saber subjetivável o ponto onde a lalíngua faz nó com a língua” (MILNER, 1987, p. 59). É nessa dobradiça que podemos localizar o ponto onde brota a poesia e de onde o sujeito enlaça seu desejo.

2.3 CONSIDERAÇÕES PARCIAIS

23 Esta citação encontra-se no texto Letra, linguística e linguísteria, disponível em

Este primeiro capítulo teve como desafio introduzir os primeiros passos de um percurso investigativo que tenta explicitar a formulação de que há na língua um real que não se deixa apreender pelo discernível, pela lógica da universalidade do todo, sendo antes, localizado do lado do não-todo, se tomarmos como referência os quantificadores propostos por Lacan, todo e não-todo. Assim, quando a língua se alinha sob a bandeira do não-todo, isso não quer dizer que estamos desconsiderando o todo da língua, pois se assim o fizéssemos, cairíamos no erro que Lacan tenta evitar ao subverter a lógica clássica aristotélica. A língua é, nela mesma, não-toda, formulemos assim.

Sob essa perspectiva, nos propusemos a pensar o não-todo da língua a partir da contribuição que Lacan dá com a noção de lalíngua. Percorremos um caminho preliminar em Lacan, no qual destacamos a importância dada por ele à estrutura da linguagem, como também ao declínio dessa influência quando ele vem por, na partida, a noção de lalíngua.

Geralmente, o diálogo entre a obra de Saussure e a de Lacan tem se dado em torno do seu primeiro ensino, tempo da supremacia do simbólico, do seu retorno ao texto freudiano à luz da linguística estrutural. Lalíngua é uma noção que aparece no momento final da obra de Lacan em que já não é possível creditar o poder da palavra na experiência analítica. Surge, com toda força, a supremacia do gozo, que deixa ruir por terra a garantia até então dada à articulação significante, que tem, como efeito, a produção de um sujeito.

Neste primeiro capítulo não foi possível aprofundar a mudança radical ocorrida na obra de Lacan a partir do privilégio dado ao gozo, questão que retomaremos no segundo capítulo, e que, como veremos, nos remete, diretamente, à lalíngua.

Além de tentar responder à questão do irrepresentável da língua em Lacan, tentamos buscar, em Saussure, o linguista que se ocupou do estudo da língua, pistas que pudessem nos ajudar a formular o que seria a dimensão de não-todo da língua ou, noutra formulação, o que é da alçada do impossível da língua, isso que, com Lacan, chamamos de real. Vimos que Saussure, muitas vezes, se deparou com o que escapa ao todo do sistema da língua, surpreendendo-se.

Guiando-nos pela possibilidade de pensar o sistema da língua saussuriana em uma dialética que se sustenta na tensão do todo do sistema e naquilo que lhe escapa, mas que também o constitui, recuperamos algumas “dicotomias” saussurianas e nos surpreendemos como o genebrino não abre mão de apresentar um ponto de vista que define que um termo não vai sem o outro. Assim, não há sincronia, sem levar em conta o que aí lhe excede, a diacronia; não é possível pensar as relações sintagmáticas, sem considerar o que aí se define in absentia, e que faz parte do tesouro interior que constitui a língua de cada sujeito; não há como pensar a língua sem a fala, pois seria fazer, daquela, um instrumento ficticiamente homogêneo. Assim, se estabelecemos certa sintonia que há entre os termos “língua, sincronia, regularidade”, não podemos esquecer que eles não acontecem sem o que lhe faz excesso, “fala, diacronia, acidental”. O que se acrescenta, pois, ao realce que tentamos dar às dicotomias saussurianas, é que podemos pensar a língua a partir disso que a afeta em sua dimensão de excesso, transbordamento, como alguns fatos linguísticos sugerem.

Vimos que, quando Saussure insiste em falar do caráter “incorpóreo” do significante, é para distanciar o substancial e realçar a forma, o relacional entre os termos. Sabemos que Lacan se serve da máxima saussuriana de que tudo na língua se baseia em relações quando postula que o significante é sempre relativo a um outro significante e, como tal, não é uma substância que possa ser concebida por si mesma. Não podemos assegurar que quando pensamos a língua a partir de lalíngua as coisas não se invertam, isto é, a língua passa a ser pensada a partir do seu aspecto substancial. Por conseguinte, o que é abalado é o domínio das articulações, do relacional entre os termos. Para Milner (1987), pensar a língua do lado da substância é remetê-la à dimensão do “não-idêntico a si”, e nesse sentido, ela é, indefinidamente, sobrecarregada de acidentes diversos. Nessa direção, Milner (1987) faz valer que, em toda locução, há uma dimensão do não-idêntico, que suporta o duplo sentido e o dizer em meias-palavras. Assim, lalíngua é o registro que se abre ao equivoco; nutre-se do mal-entendido, daquilo que não se escreve como relação unívoca entre significado e significante.

Outro ponto a destacar, ainda, mas em forma de questionamento: Se no estudo sobre o signo linguístico, Saussure tenta assegurar que o signo é regrado pelo diferencial, perguntaríamos se, com os anagramas, esse diferencial não seria desfeito. Quanto a isso, destacamos a reflexão de Milner para quem, no anagrama,

o nome “[...] tem uma identidade própria, um em Si, que ele não vai buscar na rede de oposições onde a linguística o apreenderia” (MILNER, 1987, p. 55).

A rigor, não podemos afirmar que Saussure antecipa a lalíngua lacaniana, mas ousamos, ao menos, dizer que se o genebrino apostou que a língua é um sistema que tem um funcionamento que é próprio, por outro lado, foi arrebatado pelas surpresas que esse sistema lhe reservou. O importante disso é perceber que, independentemente do que pode ou não ter percebido Saussure encontramos, em suas reflexões, índices desse irrepresentável. Assim, se usarmos como balizadores os quantificadores universais propostos por Lacan – o todo e não-todo – para pensar a língua, podemos dizer que, quando tomada pelo todo, a língua está no conjunto do discernível, desconhece o real em jogo, isto é, que algo não se escreve no conjunto. Mas, se tomarmos a língua na vertente do não-todo, podemos dizer que aí o conjunto se desfaz.

Assim, em uma construção que segue a lógica do après coup24, revisitamos Saussure interpelados pela psicanálise lacaniana, e ousamos buscar, em Saussure, alguns indicadores que pudessem nos apontar os tropeços do todo, reenviando à língua a sua dimensão de não-todo. Vimos que essa presença se traduziu de várias formas na reflexão saussuriana, tanto no CLG, quanto, de maneira soberana, em suas incursões na poesia latina.

Vimos que na própria regularidade do sistema, Saussure se depara com algumas manifestações situadas à margem, mas que são remendos feitos pelo próprio tecido da língua em sua relação com o impossível. Com seu arbitrário absoluto, Saussure já nos apresentava uma dimensão “caótica” como base do sistema linguístico. Podemos, ainda, acrescentar que Lacan toma a língua não da perspectiva da regularidade da sincronia, mas da diacronia, com tudo o que ela comporta quanto a acidentes diversos. O que é do “acidental e do particular” da fala para Saussure pode, para Lacan, ser o que é da invenção e do singular, das criações linguísticas de cada um; é precisamente isso que lalíngua vem comportar.

O ilimitado das ações das mudanças fonéticas nos conduziu a pensar em certas formações, “combinações sem futuro”, que não têm vínculo com o significado, mas uma estreita afinidade com a homofonia. É a qualidade arbitrária do signo

24 Expressão fran

cesa que significa “depois do golpe”, sendo usada por nós, neste contexto, para dizer que estamos fazendo uma leitura do antes a partir do depois, ou, em termos freudianos, uma leitura que se dá, retroativamente, em um tempo “a posteriori”.

linguístico que nos permite conceber, na língua, experiências criativas como essas que ensinam que, na renovação, há algo que se mantém como revelação da máxima de que “a língua não cessa de interpretar” (SAUSSURE, 2006, p. 197).

Nessa perspectiva, podemos afirmar que há um saber na língua que excede a dimensão do todo da língua; trata-se de algo que não se escreve, e que se localiza na dimensão do não-todo. Saussure se deparou com fenômenos dessa ordem que atestam um impossível de dizer, o que constitui um enigma para ele. Comprometido com o discernível da língua, não deixou de ficar siderado com suas descobertas. Tentou arranjar-se com elas, dando-lhes um lugar para além de meras perturbações fonéticas ou gramaticais ou, ainda, largando-as no meio do caminho, como o fez com suas pesquisas acerca dos anagramas. Deixa-nos pistas para formularmos a ideia de que temos acesso à lalíngua pelo que, da língua, foge à regularidade, isto é, onde o todo está em suspenso. Nessa dimensão, a língua é outra para ela mesma. Curioso que seja nos equívocos sonoros da poesia latina ou nas modificações fonéticas que Saussure se depara com certo ilimitado do sistema.

É, exatamente, no som, que Lacan vai situar lalangue. Surpreende-nos, também, quando Saussure se depara com algo da mesma ordem do ilimitado no universo infantil. Lacan recolhe sua lalangue, de modo bem particular, dos sons emitidos pelas crianças, o que costumamos chamar de lalação, que são os sons semi-articulados emitidos por crianças que ainda não falam.

Por fim, podemos dizer que há uma tensão que deve ser mantida na vertente do todo que comporta a língua e na sua vertente de não-todo, nomeado por nós, a partir de Lacan, de lalíngua. Arriscaríamos dizer que, se pensarmos a língua da perspectiva do todo, o que se destaca é: a função de liame social; a forma; a lei sincrônica e o princípio de regularidade. Se pensarmos a língua a partir do não-todo de lalíngua, o que se sobressai é: a ruptura com o laço social; a substância; o acidental e particular; a dimensão diacrônica.

Tudo isso nos faz crer que Lacan, ao construir sua noção de lalíngua, serve- se do emana do real da língua, o que não quer dizer, necessariamente, servir-se da linguística considerada como ciência. Assim, a relação língua e lalíngua é irredutível à linguística.

3 NAS GALÁXIAS DE LALÍNGUA

A LÍNGUA MÃE Não sinto o mesmo gosto nas palavras: Oiseau e pássaro. Embora elas tenham o mesmo sentido. Será pelo gosto que vem de mãe? de língua mãe? Seria porque eu não tenha amor pela língua de Flaubert? Mas eu tenho. (Faço este registro porque tenho a estupefação de não sentir a mesma riqueza as palavras oiseau e pássaro) Penso que seja porque a palavra pássaro em mim repercute a infância. E oiseau não repercute. Penso que a palavra pássaro carrega até hoje nela o menino que ia de tarde pra debaixo das árvores a ouvir os pássaros. Nas folhas daquelas árvores não tinham oiseaux Só tinha pássaros. É o que me ocorre sobre língua mãe. (BARROS, 2010) O título deste capítulo, Nas Galáxias de Lalíngua, inspira-se no texto de Haroldo de Campos, O afreudisíaco Lacan na galáxia de lalíngua (Freud, Lacan e a escritura). Galáxias, que também é título de uma de suas obras, é metáfora cosmológica usada pelo autor que serve para definir uma estrutura em expansão e recriação contínua. Foram as palavras haroldianas, ao definirem suas Galáxias que, em última instância, nos instigou :

As Galáxias são um texto de prazer, na acepção barthesiana do termo. Um texto de desejo e de gozo. Pedem simplesmente um leitor de olhos novos e de escuta aberta. Um coração cosmonauta. Nada de orelhas varicosas. (CAMPOS, 2006, p. 277).

Dando continuidade ao escopo de investigar como a lalíngua é uma noção lacaniana que se presta a pensar o real irrepresentável da língua, nesse capítulo teremos a oportunidade de aprofundamento desta noção a partir das contribuições dadas por Lacan no último período de sua obra. Partimos do pressuposto de que

lalíngua é, em última instância, uma “língua de gozo”. Essa questão foi tangencialmente apresentada no primeiro capítulo de modo que, só agora, de fato, será precisamente, abordada.

A noção de gozo na doutrina de Lacan, tal como utilizada nos instantes finais de sua obra, vem promover uma reviravolta no seio de sua produção teórica que chega a redefinir conceitos e postular novos desdobramentos para se conceber a direção de um tratamento analítico, bem como o seu final. O que, até então, parecia estar muito bem arranjado a partir da estrutura de linguagem, momento de forte influência da linguística estrutural, passa a ser contestado como autonomia. Uma nova primazia, a do gozo, reposiciona não apenas a relação de Lacan com a linguística, mas com sua própria doutrina.

Sob essa perspectiva, discutiremos que, na época do surgimento da noção de lalíngua no ensino de Lacan, o que estava em cena era o gozo concebido como substância que dá vida ao corpo. Tentaremos demonstrar que Lacan está às voltas com outra função do significante, que não a significação. A letra e a noção de sintoma em uma nova formulação que não freudiana, serão fundamentais para entendermos o que está em jogo na dimensão de gozo que comporta lalíngua.

Inicialmente serão tecidas algumas considerações em torno do que se constitui a grande invenção lacaniana, a saber, o objeto a. Não há como não retomar, minimamente, o que foi essa invenção propriamente, lacaniana, para daí perceber que esse objeto, certo irredutível, designado apenas por uma letra, é a porta de entrada para uma grande reviravolta efetuada por Lacan na psicanálise, reviravolta essa que, sem dúvida, começou com seu retorno a Freud a partir da linguística. É, precisamente, esse conceito que irá abrir para o que é pulsional no inconsciente estruturado como uma linguagem. Porém, veremos que o sinthoma passa a ser a grande invenção que Lacan faz chegar à psicanálise a partir do encontro com a obra de James Joyce.

O caminho que a ser seguido terá os seguintes balizadores: o gozo como uma questão farol para a presente investigação; a invenção do objeto a, o traumatismo de lalíngua, a noção de letra e, por fim, a formulação do sinthoma. Concluiremos que, de uma maneira ou de outra, são partes que dialogam entre si, mesmo quando uma vem em superação à outra. Falar de lalíngua, tema discutido nesta tese, exige que se sirva de toda uma montagem de conceitos implicados nessa noção.