A consideração de Fairclough (2001, p. 91) acerca do discurso como prática social implica considerá-lo como uma forma de ação sobre o mundo e as pessoas, em relação dialética com a estrutura, pois o "discurso é uma prática, não apenas de representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo e construindo o mundo em significado". Constroem identidade e posições de sujeito, relações sociais e sistemas de conhecimento e de crenças. São funções da linguagem que o autor denominou ―identitária‖, ―relacional‖, ―ideacional‖.
O método analítico de Fairclough (2001) oferece uma reflexão importante para a pesquisa da relação entre contexto, história de vida, criação e transformação dos sentidos pelo sujeito na constituição de sua identidade. O autor considera na sua análise de discurso não apenas as reproduções sociais presentes no discurso, mas também a relação entre as mudanças discursivas e as mudanças sociais e culturais como um processo dialético no qual o sujeito cria e ressignifica os sentidos, organizando-os de forma a representar sua organização imaginária e simbólica do mundo e da sociedade.
Na análise deste corpus foram utilizadas as categorias sintetizadas por Resende e Ramalho (2006) e se dividem em: acional, representacional e identificacional.
Acional - Na análise textual, Fairclough (2001) enfatiza: a gramática, analisando como as orações se combinam para construir identidades, relações sociais, conhecimentos e crenças e também como o vocabulário possui significação específica para cada grupo de pessoas diferentes; coesão, que compreende a arquitetura do texto e os modos de racionalidades, assim como suas modificações; e a estrutura textual, analisando a maneira e a ordem como são combinados os
episódios, convenções e sistemas compartilhados. Além disso, na análise da prática discursiva são considerados aspectos formais como a 'força' dos enunciados, isto é, os tipos de atos de fala (ideais, crenças, princípios, etc.) constituídos pelo artista; a 'coerência' dos textos (unidade da produção artística e da reflexibilidade do artista); e a 'intertextualidade' dos textos (verbal e visual). Em 2003, Fairclough (2003) define três principais modos de interação: acional, representacional e identificacional. O acional corresponde à análise textual por considerar no texto o foco da análise das interrelações entre eventos sociais, considerando a perspectiva multifuncional na análise do discurso para compreensão da ―linguagem como prática social dialeticamente interconectada aos demais momentos dessas práticas‖ (RESENDE; RAMALHO, 2006, p. 61), incluímos aqui a produção artística como prática social relevante para ser compreendida na articulação com outras linguagens.
Representacional - O discurso é um espaço de transformação, de criação e expressão da reflexibilidade, que ao incorporar diferentes ordens discursivas, cria espaços de inovação e produção de sentidos que impactam no outro. O método de análise de discurso, com ênfase na mudança e na reprodução discursiva, proposto por Fairclough (2001), oferece tanto a análise textual quanto a análise da prática discursiva verbal e não-verbal para estudar as possibilidades de mudança social e cultural e as resistências e repetições produzidas pela ideologia e pelas formações discursivas impostas ao sujeito pelo discurso do grupo.
Identificacional - O estudo da prática discursiva envolve a análise dos: a) processos de produção: quem é o autor do discurso e como ele o produz, que papel exerce, quais as relações que estabelece, significado interpessoal, o efeito do contexto no qual ele fala, sua força e coerência, assim como seu status no grupo e posição de sujeito; b) processos de distribuição: é simples quando é produzido no mesmo momento que é distribuído, pertence ao contexto no qual é produzido, como uma conversa, mas pode ser complexa quando envolve recursos diversos e se o sujeito tem recursos para a distribuição; c) processos de consumo textual: o processo de produção e de interpretação compreendem a força e a coerência, a força pode ser direta ou indireta e a coerência é produzida por quem interpreta, por quem dá sentido à fala do outro.
Segundo o autor, a coerência depende mais da interpretação do que do processo de produção da linguagem. Muitas vezes a fala faz sentido porque ao relatar ele constrói
metadiscursos, inferindo relações de sentidos e explicitando sentidos que antes estavam latentes (FAIRCLOUGH, 2001). Essas inferências podem estar apoiadas em novas articulações entre pressupostos ideológicos, filosóficos e sociais como podem fazer diferentes leituras de diferentes textos. Este aspecto diz respeito à 'intertextualidade', pois os textos visuais possuem fragmentos de relatos e pensamentos, explicitamente ou implicitamente, de forma complementar ou contraditória. E a interdiscursividade se produz nesta heterogeneidade de elementos das ordens de discurso, que pode ser articulada na análise do discurso dos elementos visuais na linguagem plástica e dos elementos semânticos no relato verbal. E é nesta interdiscursividade que aparece a relação entre os elementos da linguagem visual e verbal na ordem discursiva de cada formação discursiva e dos elementos do discurso.
Assim, a linguagem visual e verbal pode ser analisada como práticas sociais que se complementam e se conflitam, explicitando as lacunas e também potenciais de criação artística. Assim, a produção artística pode ser analisada tanto no seu aspecto de reprodução das relações de poder e de ideologias quanto no processo de transformação das relações sociais a partir da construção de novos sentidos e elementos que compõem a estrutura da linguagem organizada pelo sujeito para expressar esta tensão.
A partir da análise de Fairclough (2001) nos perguntamos qual é o papel da linguagem na transformação das relações de poder? Como os elementos estruturais da linguagem plástica podem estar mobilizando novos sentidos para a experiência social?
Esta é uma questão colocada por Fairclough (2001, p. 22): "como diferentes discursos se combinam em condições sociais particulares para produzir um novo e complexo discurso?" A relação entre discurso verbal e visual parece se apresentar como algo ainda indefinido, mas uma relação que, ao ser analisada, pode trazer a tona os diferentes elementos que pertencem a estas duas modalidades discursivas, possibilitando a discriminação dos elementos estruturais das diferentes modalidades de linguagem e a explicitação de sentidos e processo social latente ou implícito no discurso visual e verbal.
Acredita-se que a análise de um discurso pode facilitar a compreensão de elementos implícitos presentes em outro discurso, assim as linguagens verbal e visual se complementam e possibilitam a explicitação de sentidos a partir de uma forma de estruturação dos elementos linguísticos de cada modo de expressão: o relato da história de vida e a produção da obra artística.
A heterogeneidade de sentidos presentes no discurso é um elemento importante para analisar as diferentes identidades e representações assumidas no relato e na produção artística, que compõe o processo de produção do artista. As diferentes molduras identitárias e a busca
de integração em uma identidade coesa geram na prática discursiva, tanto verbal quanto visual, uma heterogeneidade do discurso que Fairclough (2001) discutirá como sendo a 'intertextualidade' e a 'interdiscursividade'. Compreender as formas de organização discursivas na linguagem visual que mantém ou que transformam os sentidos pode auxiliar na compreensão desses processos em outras linguagens e relações sociais.
3.5 PONTOS DE CONTATO ENTRE A COMUNICAÇÃO VISUAL E A LINGUAGEM