• No results found

Toxicity

In document 60-2010-mka-ADA-2.pdf (1.188Mb) (sider 16-19)

e o destinador social

A MULHER “FANTÁSTICA” DE RETRRETRET ATO FALADORR

Em Retrato Falado, a mulher protagonista mostra-se como uma pes- soa comum, ordinária, que vive o seu dia-a-dia como todas as pessoas, os telespec- tadores. São mulheres que trabalham, estudam, tomam conta dos filhos, do marido, cuidam da casa. Mas o que faz as suas histórias serem diferentes é ter a regularidade do seu cotidiano rompida por algum acontecimento. E é esta ruptura da cotidiani- dade que ganha espaço e visibilidade na televisão.

O cotidiano em sua rotina, sua regularidade, a sua mesmice muitas vezes levam as pessoas ao tédio, a uma perda de sentido da vida, a própria insignifi- cância1. O que quebra esta continuidade que faz sentido e, por isso, ganha evidência

na tevê. Em Retrato Falado, a continuidade da vida cotidiana é “ordinária, comum”, e o que se opõe a isso, a descontinuidade, é “extraordinário, fantástico”. O próprio dia de domingo em que o quadro é exibido assume o caráter de descontinuidade do cotidiano, da quebra da rotina dos afazeres da semana. Além disso, o próprio programa de televisão no qual é exibido se autodenomina “fantástico”.

No episódio “Marias Cecílias”, por exemplo, o fato apresentado é o da senhora Shenca ter entrado na casa errada ao invés da casa da sobrinha. Na continuidade do cotidiano de Shenca, ela vai com a família visitar uma sobrinha; fato rotineiro na vida de famílias brasileiras. O rompimento desta continuidade se dá

1 Cf. E. Landowski, Les interactions risquées, pp. 53-71.

6

através de um acidente2: a programação da tia era ir visitar a sobrinha Maria Cecília

em sua casa, entretanto confunde-se e entra na casa da vizinha também chamada Maria Cecília. A quebra da rotina de Shenca chama atenção e faz o enunciador re- cobrir o esquema narrativo com os procedimentos da semântica discursiva, fazendo- nos ver a ruptura da continuidade como um acidente cômico.

No episódio da dona-de-casa Nadja, ela se sente provocada pelo ma- rido por ele achar que ela não faz nada em casa. O rompimento do cotidiano se dá a partir da decisão de Nadja de não realizar os afazeres domésticos. Ela manipula o sujeito marido por provocação para entrar em conjunção com o objeto-valor que é ter seu trabalho doméstico reconhecido pelo marido. Neste caso, a ruptura da continuidade se dá por um querer fazer que leva a uma manipulação. O esquema narrativo é recoberto ricamente pela semântica discursiva.

No episódio “Baixaria nas alturas”, o rompimento do cotidiano de Ruth se dá pelo seu medo em voar de avião. Ao ser promovida no trabalho, deve cumprir suas atividades em diversas cidades do país e, para isso, precisará voar de avião. O seu estado passional faz com que ela cumpra com muito sofrimento a pro- gramação definida pela empresa em que trabalha, o seu destinador. Ruth passa a tentar de diferentes modos superar o seu medo. São estas “tentativas” que ganham espaço de visibilidade na televisão. A ruptura da regularidade do dia-a-dia de Ruth está ligada ao seu estado passional e este medo é tematizado e figurativizado de diversas maneiras, produzindo um discurso da ironia.

Cada episódio de Retrato Falado tem esta mesma estrutura narrativa que é recoberta pelo enunciador através dos procedimentos da semântica discursiva para causar o riso no telespectador. O discurso produzido nos faz ver o rompimento de uma continuidade. É a descontinuidade do cotidiano que interessa a este enun- ciador exibir na televisão, explorando pela tematização, figurativização e plastici- dade os eventos que causaram esta quebra. São os fatos que rompem a rotina do dia-a-dia, a regularidade cotidiana, a repetição monótona das mesmas coisas que são explorados com figurativização diversa e de modo risível.

184

Estes fatos que são apresentados nas histórias estão ligados ao “aca- so”, são os acidentes, como no episódio de Shenca, já citado, mas também o de Mariza que perde o pivô do dente da frente no dia do casamento da filha; Renata que se mete em situações “embaraçosas” por parecer fisicamente com a atriz De- nise Fraga. Outros fatos que causam ruptura têm um “estado passional” como pro- pulsor da quebra cotidiana como o episódio mencionado de Ruth, além das histórias de Quitéria que é movida pelos ciúmes que tem pelo Marido; Gislene que deseja ver um striptease masculino etc. E a “manipulação” entre sujeitos é outro fator que causa a quebra do cotidiano como no episódio citado de Nadja, mas também no de Jutta que é provocada para desfilar de biquíni na praia numa época em que as mulheres no Brasil ainda não usavam esta peça de vestuário; Zulmerina que provoca o marido para ele deixá-la cortar os cabelos etc.

Alguns desses fatos “extraordinários” levam a atitudes que provocam certa estranheza como, por exemplo, ir ao banco com o capacete de motociclista na cabeça ou ter dois namorados ao mesmo tempo ou ainda largar o carro em pleno engarrafamento na estrada e pegar carona com um motociclista desconhecido para não perder o emprego. No entanto, esta mulher não se apresenta “estranha” ou “anormal” por agir assim. Ela sabe o que faz e acha graça, ri de si mesma. E sem questionamentos, retoma normalmente ao seu cotidiano, volta a regularidade, a continuidade do seu dia-a-dia.

Esta maneira singular de agir se mostra como uma certa inventividade por parte da mulher brasileira de Retrato Falado. Quando ela se vê em certa situação que vai de encontro ao seu desejo ou ao que pensa, cria maneiras de buscar seus objetivos como Zulmerina que, para fazer o marido deixá-la cortar os cabelos, deixa de penteá-los. Ou como Senira que estuda sobre futebol para adquirir conhecimento deste esporte e, com isso, conquistar mais a atenção do marido, seu objetivo primei- ro. Zulmerina se utiliza da manipulação por provocação para convencer o marido. E consegue. Por seu lado Senira, como sujeito de estado e do fazer, adquire o conhe- cimento sobre futebol necessário para estar mais próxima do marido, o seu objeto- valor. Temos assim protagonistas que têm um saber fazer para buscar a competência necessária para a sua performance e entrar em conjunção com o seu objeto-valor.

Estas mulheres escrevem ao destinador Rede Globo contando estas rupturas de continuidade e, com suas histórias selecionadas, ganham visibilidade. Ao aparecerem na tevê, contando suas experiências femininas vividas em algum canto do país, são “retratadas” pelo quadro do Fantástico como sujeitos que vivem uma experiência diferenciada, e até mesmo imprevisível. No dia da semana carac- terizado pelo mesmo semantismo, o domingo, dia que tudo pode vir a ocorrer, é bastante propício para exibir este quadro que mostra o rompimento de uma regula- ridade, da rotina do dia-a-dia.

Em cada episódio, as histórias retomam na tevê o contexto do vivido, mas não de um vivido que é regido pela previsibilidade e sim pela quebra da con- tinuidade. A partir de determinado evento ocorrido em sua rotina – a ruptura da regularidade –, ela passa de uma mulher comum a ser uma pessoa “não ordinária, inabitual, inusitada”. Por esses fatos insólitos, fora do comum exibidos na televisão que esta mulher se torna “extraordinária, fantástica”.

Com isso, ela adquire “renome” por atingir um patamar de traços “extraordinários” por serem exibidos no Fantástico, um dos mais tradicionais pro- gramas da maior rede de televisão do país. A partir do que consideramos até o momento, a mulher de Retrato Falado passa de “anônima” a “renomada”. Do seu “anonimato” cotidiano, torna-se “renomada” ao aparecer na tevê, no Fantástico, no show da vida.

Com essas considerações, podemos relacionar o nosso quadrado se- miótico de Retrato Falado, apresentado no capítulo 2, com um outro depreendido do quadro em estudo sobre a mulher brasileira apresentada.

Não ordinária, inusitada Identificada (Reconhecida)

Desconhecida Extraordinária, Fantástica

Renomada

Não extraordinária, mediana Desidentificada VS. Ordinária, Comum

186

Após atingir o patamar de fantástica e renomada por estar neste pro- grama de televisão com circulação nacional; na continuidade de sua vida cotidiana, esta mulher passa a ser reconhecida, ser identificada pelas pessoas nas ruas. Ela não sai da euforia da complementariedade renome e identificação. Ao contar essas his- tórias de experiências vividas, o enunciador doa a competência a seu enunciatário para que ele saiba e possa também ser a mulher brasileira apresentada: passa de comum, ordinária, a inusitada no seu dia-a-dia e ainda é qualificada por saber rir da quebra de rotina no seu próprio cotidiano. Além disso, o enunciatário, no seu percurso original, torna-se competente não só por cumpri-lo de modo adequado, mas, sobretudo, por fazer de modo risível e criativo todos os papéis sociais que a envolvem no dia-a-dia.

Desta forma, consideramos que Retrato Falado também pode ser clas- sificado como um fait divers. No primeiro capítulo, trouxemos a definição desta ex- pressão pelo Dicionário de Comunicação3 que define como notícia que implica em

rompimento da ordem dos acontecimentos do cotidiano, fato extraordinário. São justamente os fatos que rompem com o cotidiano que levam estas mulheres a serem “extraordinárias”. Assim, Retrato Falado também está na ordem do “extraordinário”, o que exibe é “fora do comum”, é “fantástico”, faz parte do “show da vida”.

In document 60-2010-mka-ADA-2.pdf (1.188Mb) (sider 16-19)