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Nos capítulos precedentes, apontamos vários papéis temáticos vividos pelos atores-mulheres nos episódios analisados como o de esposa prestativa, dona- de-casa eficiente, trabalhadora dedicada etc. São papéis encontrados na análise do nosso corpus que estão ligados ao destinador Rede Globo que delega ao enunciador o fazer para produzir o discurso de Retrato Falado. E pelos regimes de interação por manipulação e ajustamento, o enunciador faz o enunciatário fazer e sentir a mulher brasileira construída no Fantástico para justamente fazê-lo assumir este papel. Este enunciador-destinador dá competências de saber e poder fazer para o enunciatário-

destinário ser esta mulher brasileira, faz ele ser. Além disso, também faz ele sentir para

ser através das experiências vividas pelas mulheres que as contam na televisão. Temos,

então, estratégias de convencimento (fazer fazer) e procedimentos de sensibilização (fazer sentir) para fazer com que haja uma adesão ao simulacro da mulher brasileira.

Esta mulher “renomada, fantástica”, com visibilidade, ao escrever para o destinador Rede Globo, agrega-se a ele, tornando-se um co-destinador. Ao escrever, ela concorda com a visão de mundo da emissora, bem como a apóia. E, ao estar na televisão, quer ser também um exemplo de mulher, daquela que sabe agir em seus papéis sociais, satisfeita com a própria vida, o próprio cotidiano.

Mesmo com sua inventividade, suas estratégias engenhosas para al- cançar os seus objetivos, esta mulher brasileira apresentada ainda mostra-se sub- missa a um “poder masculino” que poderíamos considerá-lo como um destinador masculino e este, por sua vez, assumido ou agregado pelo destinador Rede Globo. Esposa ou companheira, ela é cumpridora dos seus deveres, dos seus vários papéis sociais de esposa, dona-de-casa, trabalhadora etc. Não contesta as decisões do ma- rido em nenhum momento, nem questiona o que lhe é imposto.

Esta mulher brasileira é passiva, mantém-se fiel à sua conduta, ao que é esperado pelo destinador masculino. Não propõe uma nova ordem social em rela- ção às questões de gênero já estabelecidas; não propõe uma insurreição. A mulher brasileira construída em Retrato Falado mantém-se de acordo com as normas sociais vigentes e, na televisão, reforça todo este modo de viver, cristalizando a estereotipia desta mulher pelo seu simulacro construído. Com isso, apresentamos a “fantástica mulher brasileira” de Retrato Falado!

O quadro em questão reitera a fala de Armando Nogueira, citada no primeiro capítulo deste trabalho, em que diz: “a TV não é um instrumento revolucio- nário. A TV está a serviço da ideologia vigente”4. Esta mulher “fantástica” apresen-

tada, co-destinadora com a Rede Globo, assume e reitera esta visão de um mundo masculino que ainda impõe suas regras a serem cumpridas, apesar da enunciação de

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Retrato Falado manifestar uma estética contemporânea. São valores antigos apre-

sentados por um modo atual do fazer televisivo. A criatividade desta mulher é para burlar estas normas antigas, rompendo em alguns momentos o seu cotidiano para conseguir dar continuidade a sua vida diária. Sua inventividade não propõe manei- ras de mudar esta sua situação cotidiana sujeitada a este destinador masculino com valores de uma anterioridade, mas apenas apresenta algumas formas de driblar as normas vigentes.

Os jogos da enunciação criados pelo enunciador atuam para a per- manência deste simulacro de mulher em nossa sociedade. A sintaxe televisual pro- porciona a criação de um envolvimento com o enunciatário por procedimentos de várias ordens, estabelecendo uma certa relação de “amizade” com quem assiste ao quadro. Esta “intimidade”, que é criada pela construção do discurso risível, faz com que Retrato Falado revigore o simulacro da mulher brasileira, levando o seu enun- ciatário a aceitá-lo quase de uma forma anestesiada e em silêncio. Não há conflito, choque ou confronto com os papéis femininos apresentados.

Entendemos que a ironia ainda traz leveza a estas questões que são reproduzidas para serem apreendidas e revividas pelo telespectador a partir dos exemplos trazidos por estas mulheres através de suas atitudes. A ironia do discurso não leva o enunciador a pensar ou questionar a ordem social, apenas o faz rir. Este riso provocado é para o divertimento. A experiência vivida por estas mulheres que é contada e encenada também é conhecimento adquirido pelo telespectador através dos regimes de interação pela manipulação e pelo ajustamento – pelo inteligível e sensível com passagens abertas, intercomunicantes.

Segundo Fiorin, em seu livro Linguagem e Ideologia, “a linguagem condensa, cristaliza e reflete as práticas sociais, ou seja, é governada por formações ideológicas”5. Nesta perspectiva, com os usos de linguagem que nos debruçamos a

estudar, a da televisão, um uso sincrético do audiovisual, não é diferente. Em Retrato

Falado, a sua dimensão semântica, do nível discursivo, “sofre determinações sociais,

mas tem um papel ativo no processo de aquisição do conhecimento”6. Assim, pode-

mos dizer que o quadro estudado é um meio pelo qual é possível reproduzir idéias e práticas de uma particular visão de mundo, não só pelo destinador Rede Globo, mas também pela mulher que se torna destinadora ao querer e ser presentificada na tevê, reiterando e validando a ideologia da emissora de tevê que está ligada a um poder social masculino.

Entendemos que há agregações de vários destinadores para delegar ao enunciatário-destinatário de Retrato Falado cumprir e seguir as normas sociais vigentes e aceitas. Além da Rede Globo, da mulher e de um poder masculino, um outro destinador é a própria família que é o destinatário primeiro do Fantástico. A família esta inserida na sociedade que, por sua vez, faz com que perdurem estes papéis femininos que são apresentados no quadro em estudo. Assim, a família e a sociedade também se mostram como co-destinadores. A sociedade sustenta as for- mações ideológicas que são apresentadas na televisão e a família as reforça.

Entendemos que nesta rede de destinadores, a mulher faz um contra- to com a sociedade – e vice-versa – para que os papéis femininos sejam mantidos.

Retrato Falado vem renovar esta relação através de figuratividades e plasticidades

diversas dos mesmos estereótipos. A sociedade se mostra como um destinador que tem competência e, sobretudo, intencionalidade para falar para esta mulher desti- natária que, quando faz ver sua experiência vivida na televisão, torna-se destinadora e “ensina” a mulher destinatária o como fazer para ser a mulher brasileira, ela doa competência para este fazer ser. Retrato Falado vem reiterar e reforçar o fazer da mulher na sociedade e a sua importância dentro da sua visão de mundo.

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