2 Theory
2.3 Towards a widening of the security concept
Alguns dos temas dos programas assistidos foram “Nomes Próprios e Impróprios”, que abordava a relação do nome de cada um com a sua identidade; “Decifra-me ou te Devoro”, sobre o erotismo na música e na literatura; “Uma Carta Aberta”, sobre o sentido e os tipos de correspondências; “Trabalhando a Língua”, sobre o trabalho e os jargões profissionais; “Princesinha do Mar”, abordando questões atuais e históricas sobre o bairro carioca de Copacabana, “Com muito Axé”, sobre o ritmo musical que nasceu na Bahia.
O tema que escolhemos para uma análise crítica mais detalhada foi “Andar com Fé”, onde os produtores procuraram exemplificar a diversidade religiosa do País e como o povo brasileiro se relaciona com a sua religião. Acreditamos que esta escolha reflete de alguma forma o tema central desta dissertação sobre a variedade lingüística, variedade esta que se relaciona diretamente com a
cultura de nosso povo. Concordamos que o tema é bastante relevante para um programa que se propõe a ampliar o universo lingüístico do jovem, mas acreditamos que, baseados em todas as nossas considerações a respeito de uma proposta para um ensino diferenciado da Língua Portuguesa, ele poderia ter sido melhor aproveitado. Tentaremos relacionar os conceitos até agora por nós levantados com as considerações que o Afinando a Língua fez sobre a diversidade da religiosidade brasileira nesta edição.
O programa começa a falar das misturas de religião e do sincretismo que aproximou as religiões africanas do catolicismo. Tony Belloto, cita o fotógrafo Pierre Verger que estudou as modificações que o candomblé sofreu no Brasil, numa alusão à mistura das culturas brasileira e africana, e exibe cenas do documentário “Verger: Viajante entre Dois Mundos”, conduzido por Gilberto Gil. Em seguida, explana sobre o significado do sincretismo, que relaciona os orixás aos santos católicos. Não há, no entanto, nenhuma referência à influencia africana na linguagem brasileira.
No nosso ponto de vista, acreditamos que a falta de tal referência não faz sentido, já que o assunto principal do Afinando a Língua é o idioma e os temas que aborda deveriam ser relacionados diretamente com fatos da língua, não fazê-lo, no nosso entender, vai contra seus objetivos que, segundo Débora Garcia, coordenadora de conteúdo do Canal Futura, devem estar voltados para a discussão dos “diversos significados e variedades lingüísticas da língua que falamos no Brasil, procurando mostrar ao público também uma perspectiva histórica que contextualiza a produção literária” (GARCIA, 2005).
É importante a influência da cultura negra, vinda da África, no Brasil. A estimativa é que entre 3,5 a 4 milhões de negros desembarcaram por aqui na época da escravatura, representando, durante 300 anos, a principal força de trabalho do País (ALMANAQUE ABRIL, 2003). No livro “O povo brasileiro”, Darcy Ribeiro divide nossa população em seis classificações e uma delas é o
Brasil crioulo, “reunido ao redor dos engenhos açucareiros, nas terras de massapé do Nordeste e do recôncavo baiano” (RIBEIRO, 1995, pg. 275).
Palmares, como dezenas de outros quilombos, surgidos na área das diversas regiões onde se concentravam núcleos escravos, estruturava-se dentro dos moldes culturais neobrasileiros e não como restauração de culturas africanas. Suas casas, seus cultivos, a língua que falavam, todo o seu modo sociocultural de ser era essencialmente o mesmo de toda área crioula. No Nordeste, como por todo o país, o negro fora deculturado de suas matrizes originais e aculturado à etnia neobrasileira, que alcançou prontamente a saturação dos traços africanos que podia absorver. (RIBEIRO, 1995, pg. 296).
Esta miscigenação influenciou profundamente o português falado no Brasil – palavras como caçula, molnqun e samba, tem origem no idioma quimbundo angolano (MEDEIROS, 2005) – e o Afinando a Língua poderia ter aproveitado a questão para expandir a discussão a respeito do assunto e mostrar, além da extensão desta influência, como ela se manifesta nos dias de hoje. Também seria uma boa oportunidade para relacionar o uso da língua com a cultura em geral e não apenas abordar a questão do sincretismo religioso. Mesmo que o tema seja “Fé”, voltamos a dizer, um programa que se dedica ao ensino do idioma deveria estar sempre retomando o seu objetivo inicial, apenas desta forma existe um sentido em levantar temas variados: estes temas devem ser relacionados com o uso que se faz do idioma no Brasil.
Da mesma forma, o comentário feito por Tony Belloto sobre o videoclipe da música do Rappa Reza Vela poderia ter sido outro. Este comentário se refere à última estrofe da canção:
Depois da bença O peito amassado é hora do cerol, é hora do traçado... Quem não cobre
fica no samba atravessado Sobe balão
no samba,
O apresentador comenta que é interessante se prestar atenção às “marcas do cotidiano popular” e cita como uma destas marcas o “traçado, bebida do botequim diário”. “Traçado2“ e “botequim” são realmente características cotidianas, mas típicas do Rio de Janeiro, o que não representa que estejam presentes em outros estados, numa generalização de tendências regionais. Se o programa pretende falar para todos os brasileiros, deveria frisar que estas são características cariocas. Por outro lado, o apresentador perde a chance de comentar como o cantor fala a palavra “benção” (bnnça, na letra) o que representa uma variação lingüística que poderia ser mote para levantar a questão com outros exemplos. No nosso entender, este sim seria um comentário que poderia trazer uma noção mais ampla da língua, fato que os responsáveis pelo programa dizem ser um de seus objetivos: “aprender uma língua significa não somente usar palavras e saber combiná- las em expressões complexas, mas aprender seus significados culturais, simbólicos, interpretando e dando sentido ao que nos rodeia” (GARCIA, 2005).
O programa que analisamos segue falando sobre as questões da fé e não faz qualquer referência ao que ela pode representar em relação à Língua Portuguesa. Não há qualquer comentário nesse sentido sobre as outras letras dos videoclipes apresentados – Jorge de Capadócia (Jorge Benjor) e Se Eu Quiser Falar com Deus (Gilberto Gil) – o que nos faz questionar sobre a razão de exibi-los no programa. O roteiro se limita ao tema principal sem que se entenda exatamente como ele pode ajudar no aprendizado do idioma, a não ser pelo quadro “A propósito”, onde um estudante dá a definição de “função apelativa” que, ao nosso ver, pouco acrescenta na relação que se possa fazer entre a questão da fé e alguma influência que ela possa exercer sobre a língua. De outra forma, entendemos que a seleção de temas de um programa como o Afinando a Língua deveria “sugerir um enriquecimento e uma problematização destes conteúdos e não a sua mera reiteração[...]. Fonte de aprendizado não é
2 Hábito que os cariocas, freqüentadores de botequins, têm de misturar no mesmo copo duas bebidas alcoólicas diferentes como cachaça e vermute.
ilustração de conteúdo. É problematização de conteúdo. É um exercício crítico [...] (NAPOLITANO, 1999, p. 47).
Os temas apresentados pelo programa, que se relacionam com fatos sociais, precisariam ser contextualizados dentro do universo lingüístico dos jovens que poderiam relacionar estes fatos com questões relativas ao idioma que falam. Lembramos a máxima da lingüística que prega que não há língua sem povo que a fale, por isso, concordamos que os temas propostos pelo Afinando a Língua, por se relacionarem com a sociedade, são de fundamental importância para gerar discussões a respeito da Língua Portuguesa, apenas insistimos que eles deveriam ser melhor relacionados com o idioma para que estas discussões efetivamente se realizassem em sala de aula.
Em outro programa com o tem “Com muito Axé”, Tony Bellotto começa a falar que a palavra é um rótulo que se deu ao um estilo musical desenvolvido na Bahia nos anos 1990. Três clipes musicais são exibidos: o da música “Cara caramba caraô” (Chiclete com Banana), “A dança do bumbum (É o Tchan) e “O canto da cidade” (Daniela Mercury). O apresentador fala sobre as palavras ambíguas nas letras das músicas e volta a falar em religiosidade, aproveitando o fato de que a palavra axé tem um sentido de energia positiva (força, vida, garra) no candomblé. Fala também sobre o fato dos negros escravos africanos terem trazido o atabaque para o Brasil e que o instrumento de percussão é usado nas giras de candomblé. Mais uma vez, o programa não deixa explícito o que estes conceitos ou as influências culturais têm a ver com o idioma. Fica uma idéia de que o interesse está apenas em falar de cultura, como se ela não fosse determinante na forma como falamos o português no Brasil.
No comentário de uma das músicas - Cara caramba caraô”, do Chiclete com Banana –, o apresentador fala sobre o jogo de palavras que compõe a métrica da música e como as interjeições a complementam. Numa biblioteca, uma estudante explica o que é métrica. Metrificação é a técnica para se medir um verso que, em Português, ela se apóia na tonicidade das palavras. É possível
desenvolver uma série de assuntos ligados à métrica e como ela é usada no cancioneiro popular, questões diretamente relacionadas com a influência da cultura no idioma.
Poesia e música têm um só berço. A primeira forma de expressão da poesia foi o canto. Desde os hinos sagrados de Rig-Veda, na Índia, os salmos bíblicos, entre os hebreus, os himeneus, entre os gregos, ou as laudes romanas e nênias ibéricas. E estava intimamente associada à música (TEIXEIRA, 2006).
As quadras, uma das formas de métrica, veiculam os temas tradicionais da poesia religiosa – folia de Reis, folia do Divino, celebrações do Rosário, letra da dança de São Gonçalo bem como as letras das danças tradicionais dos tapuias, congo e moçambique. O popular cancioneiro caboclo goiano está repleto de inventivos jogo de palavras que compõem a cadência sonora das músicas e revela muito da cultura da região.
A medieval redondilha maior é o verso preferido pelo caboclo quer em suas expansões amorosas, quer nas narrativas de façanhas, de pequenos romances da sua vida pastoril, celebrando bravuras de bois e de cavalos ou fatos sociais e políticos do meio rural (TEIXEIRA, 2006).
Seria um tema perfeito para ser abordado e relacionar cultura com expressões populares do Português falado em outras regiões do Brasil, além da Bahia. Mas os produtores do programa se contentam em lançar a definição de métrica descontextualizada, o que nos parece que esta se torna inócuo em relação aos objetivos principais do Afinando a Língua.
Tony Bellotto segue apresentando o programa com tem “Com muito Axé” falando da representatividade que a música tem para o povo baiano – faz relação com o batuque do candomblé, com o toque do afoxé, com o carnaval – e conclui dizendo que o axé se mistura com o povo de Salvador e que mistura sempre vai ser coisa boa no programa. Nota-se que o que Tony Bellotto diz poucas vezes cumpre. A tal mistura, proclamada como algo positivo, pouco é relacionada com questões do idioma e se perde numa intenção pouco ou nada produtiva.
A edição do programa com o tema “Decifra-me ou te devoro” falou sobre o erotismo na literatura e exibiu os clipes das músicas “Amor e sexo”, de Rita Lee, e “A festa”, interpretada por Maria Rita. O apresentador começa com a leitura de trechos do Rig-Vnda, a mais antiga das quatro coletâneas de textos sagrados (1300-1000 a.C) escritas em védico, uma forma antiga do sânscrito, consideradas guias supremos pelos hindus, e acrescenta que o erotismo sempre esteve presente na literatura. Explica que a literatura erótica não usa termos de sexo explícito, mas instiga o leitor como no poema “Tua mão e mim”, de Marina Colassanti. Mais uma vez as informações não fazem qualquer ligação direta com o uso do idioma. Sem tirar o mérito das informações do programa, parece-nos que elas servem mais para induzir à leitura de livros, ou para ampliar os conhecimentos sobre a literatura, do que para ensinar ou abordar o uso da língua portuguesa nestes livros.
Concordamos que a leitura de bons textos é uma das formas mais eficazes para se avançar no conhecimento do idioma, apesar de nem esta informação ser citada no Afinando a Língua. Mas imaginamos que o telespectador, que assiste a um programa que pretende ensinar português, estivesse esperando alguma relação sobre a literatura erótica e a língua portuguesa. A possível expectativa acaba frustrada. Devemos ressaltar que o comentário sobre a letra de “Amor e sexo”, de Rita Lee, transcorre a respeito das comparações que são feitas entre amor (divino, cândido, contemplativo) e sexo (palavras que levam à idéia de velocidade, intensidade, urgência), o que talvez fosse útil para a formação de escritores o que, acreditamos, não seja a proposta inicial.
O programa segue na sua abordagem da literatura erótica com uma reportagem sobre os quadrinhos de Carlos Zéfiro, pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha (1921-1992) com o qual ilustrou e publicou, durante as décadas de 1950 a 1970, histórias em quadrinhos em preto e branco de cunho erótico que ficaram conhecidas por “catecismos”. Jaguar, ex-editor do jornal “O Pasquim”, em um sebo, e Ota, cartunista, numa livraria, falam do trabalho e da vida secreta de Carlos Zéfiro, que revelou a sua identidade apenas um ano antes de sua morte. Não discutimos a relevância cultural do trabalho do quadrinista, apesar de entender que este não
pode ser considerado literatura. Além disso, nada da linguagem utilizada nos quadrinhos é revelada ao telespectador, o que talvez pudesse ser uma ótima oportunidade de comparar as formas de usar o idioma nos dias de hoje e na época que os “catecismos” foram publicados.
A dica de livro desta edição do Afinando a Língua é o livro de poemas de Hilda Hilst
“Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão”, publicado em 1974. Nada se fala a respeito do livro que marcou a carreira da escritora paulista, da cidade de Jaú, como aquele em que alcançara a sua maturidade poética. Insistimos que o programa deveria sempre criar uma correspondência entre os assuntos abordados e a língua portuguesa. A literatura é uma ferramenta perfeita para tal, mas, neste sentido, aparece mal utilizada pelos produtores.
A Organização Não-governamental Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), publicou em 2004 a pesquisa “Remoto Controle”, fruto de uma análise, feita por profissionais das áreas da comunicação, sobre dez programas dirigidos ao público jovem. O Afinando a Língua não consta da lista mas é citado no livro como um programa que
De maneira inovadora, explora a credibilidade de um artista do mundo pop junto ao público jovem para surpreender e para educar. No programa, ao invés de enveredar pelo terreno árido da gramática, Bellotto promove uma sensibilização para a língua portuguesa, por meio da exibição comentada de videoclipes musicais, da leitura de textos de poesia e prosa e de entrevistas com escritores, críticos ou professores de literatura, numa abordagem transversal e inovadora. A língua não é exposta como uma propriedade exclusiva de gramáticos sisudos a ser encerrada nas obras canônicas da norma culta, mas como um fenômeno vivo, plástico, mutante, em estado de permanente recriação nas letras de música, nas conversas do dia-a-dia, na gíria de segmentos marginalizados (VIVARTA, 2004, p. 59).
Temos que discordar da visão dos coordenadores da pesquisa em alguns aspectos. Acreditamos que a simples exibição de videoclipes com os comentários superficiais feitos pelo apresentador Tony Bellotto pouco contribuem para a sensibilização da audiência em relação ao idioma. O programa, que, por sugestão do Canal Futura, deve ser usado em sala de aula poderia se
aprofundar mais nos comentários sobre as letras para, assim, dar subsídios ao professor para a reestruturação de suas aulas de Português, tornando-as mais dinâmicas. Da mesma forma, a simples leitura de textos de livros não nos parece representar uma “abordagem transversal e inovadora”, já que não relaciona os trechos escolhidos com qualquer problematização acerca do uso ou do ensino do idioma. Não encontramos nos programas analisados quaisquer referências à língua usada nas ruas pelos “segmentos marginalizados”, nem referência à “norma culta” ou qualquer exemplo explícito que mostrasse que a língua é “um fenômeno vivo, plástico, mutante”. Se estas foram as reais intenções dos realizadores do Afinando a Língua, elas ficaram na cabeça dos idealizadores e roteiristas do programa.
Acreditamos que essas possíveis intenções poderiam se realizar no Afinando a Língua se os produtores tivessem atentado e, diga-se, houvesse recursos financeiros para tal, que a televisão tem a capacidade de fazer o telespectador testemunhar situações nas quais não está presente. Esta condição poderia ser usada para ampliar o universo lingüístico das aulas de Português na escola, trazendo para a sala de aula os diversos tipos de manifestação da língua praticados nas diversas regiões de nosso País nas distintas condições culturais. A fé, como se vê no programa, é uma destas condições que influencia o idioma de diversas maneiras. A pluralidade de nossa cultura está relacionada com o tema no programa do programa que transcrevemos, assim como para outros eleitos pelos produtores do Afinando a Língua, o que poderia gerar discussões sobre a idéia dos distintos desejos e necessidades que cada grupo de cidadãos teria em relação à língua, como disse Barthes (2002, p. 25) na aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária do Colégio de França, em janeiro de 1977: “[...] toda sociedade deveria proporcionar a seus cidadãos [...] tantas linguagens quantos desejos houver: uma proposta utópica, pelo fato de que nenhuma sociedade está ainda pronta a admitir vários desejos”. Em uma palavra seria discutir a libnrdadn do uso da língua, idéia contrária à relação de dominação e de preconceito que tem se constituída a prática do idioma falado e escrito no Brasil.
[...] é bom que os homens, no interior de um mesmo idioma – para nós o francês – tenham várias línguas. Se eu fosse legislador [...] longe de impor uma unificação do francês, quer burguesa, quer popular, eu encorajaria, pelo contrário, a aprendizagem simultânea de várias línguas francesas, com funções diversas, promovidas à igualdade (BARTHES, 2002, p. 24 e 25)
A dificuldade de mudar uma legislação não se compara à de transformar a maneira como se encara o ensino do idioma, caso haja verdadeira vontade para tal, bem entendido. Nos parece que a simples explanação do conceito de diversidade lingüística em sala de aula já poderia, por si só, promover um avanço na noção de idioma, mesmo que não represente a solução para todos os problemas de ensino da língua. A televisão, no nosso caso a educativa, poderia dar um primeiro passo neste sentido.
Muitos professores de Português, aqueles que realmente gostariam de ver que seus alunos estão aprendendo, sentem que uma mudança radical é necessária, mas estão de mãos atadas, não há um novo planejamento pedagógico que dê conta de sua frustração, amarrados que estão aos currículos escolares e, algumas vezes, aos pais dos alunos que exigem um ensino tradicional do idioma, aquele mesmo que eles mesmos, pais, tiveram quando criança e pouco ajudou na efetiva formação para o conhecimento da Língua Portuguesa. A pedagogia detectou que o ensino da língua não poderia acontecer de forma descontextualizada e a orientação foi que os professores passassem a trabalhar com textos literários em sala de aula. Mas a simples apresentação dos textos, como faz o Afinando a Língua, não gera novos conhecimentos da língua. Os Parâmetros Curriculares Nacionais reconhecem que o ensino do idioma deve ir além do gramaticista, mas nada de concreto foi proposto em seu lugar. O professor acabou desamparado.
[...] não se justifica tratar o ensino gramatical desarticulado das práticas de linguagem. É o caso, por exemplo, da gramática que, ensinada de forma descontextualizada, tornou-se emblemática de um conteúdo estritamente escolar, do tipo que só serve para ir bem na prova e passar de ano [...]. Em função disso, discute-se se há ou não necessidade de ensinar gramática. Mas essa é uma falsa
questão: a questão verdadeira é o que, para que e como ensiná-la (BRASIL, 2001, p. 28).
A proposta de trazer questões cotidianas do uso do idioma, como a variação lingüística, encontra obstáculos não só no Brasil, como escreve Michael Stubbs, professor de Pedagogia do Inglês na Universidade de Londres.
A prática de sala de aula raramente segue, de modo transparente, a pesquisa sociolingüística. Existem diversos estudos, por exemplo, que mostram que os dialetos não-padrão do inglês são variedades complexas e sistemáticas. Mas esse grande volume de trabalho não conseguiu gerar princípios pedagógicos coerentes e específicos que possam dar aos professores uma orientação clara sobre o lugar do padrão e das variedades não-padrão na sala de aula (STUBBS, 2002, p. 108).