1 Introduction
1.3 Definition of concepts
Acreditamos ser pertinente começar a nossa análise pelo apresentador do programa. Tony Belloto é um músico de sucesso nacional, componente da banda Titãs, e escritor de livros. É uma escolha certa para um programa que se dirige ao público jovem, já que o apresentador cria empatia com este público, por ser um músico de uma reconhecida banda pop, e, além disso, ter o respaldo de ser um escritor (lançou os livros , “Bellini e a Esfinge”, “Bellini e o Demônio”, “BR 163 - Duas Histórias na Estrada” e “O livro do guitarrista”, este último para o público infantil) o que lhe dá o aval de possuir intimidade com o idioma. A figura do apresentador, que tem sua origem nos programas de rádio, é um dos elementos centrais da linguagem televisiva, ele é a “cara” do programa, uma fórmula encontrada para humanizar o universo televisivo.
A interpelação direta efetuada pelo apresentador é o elemento fático mais visível da televisão. A familiaridade instaurada por seu rosto, em atitude de conversa íntima, de bate-papo, naturaliza a apresentação do mundo pelas imagens (vale frisar: apresentar, mostrar ou apontar o mundo é o específico da “arte” televisiva) e estabelece o contato com o telespectador. [...] A figura (do animador ou do apresentador) que interpela tem de ser suficientemente familiar e descontraída para permitir uma relação de identificação com camadas heterogêneas do público (SODRÉ, 1984, p. 61 e 62).
Tony Belloto estabelece esta relação de identidade com o telespectador, mas, entendemos, é um representante da elite cultural brasileira, fato que pode gerar uma mensagem subliminar de que as pessoas que realmente são capazes de falar bem o idioma, e ensiná-lo a outros, estão situados numa camada da população que não representa a maioria dos brasileiros, numa afirmação de preconceito lingüístico. O apresentador fala como um carioca, o que é compreensível, já que o programa é produzido no Rio de Janeiro, mas, mais uma vez, o fato pode levar o imaginário do espectador a entender que os mais cultos, aqueles que realmente dominam a língua, estão no sul e sudeste do País, enquanto as regiões mais afastadas seriam habitadas pelos falantes menos favorecidos, aqueles que falam “errado”. Estas idéias podem ser reforçadas por outros apresentadores, mesmo os de telejornalismo que, nos telejornais exibidos em rede nacional, geralmente são do Rio de Janeiro ou de São Paulo. A comparação entre os profissionais com a mesma função em emissoras de TV é inevitável e revela os tipos de pessoas que usariam o idioma da única forma “correta”, diga-se, a norma-padrão.
O Afinando a Língua tem um quê de programa jornalístico, já que exibe reportagens e entrevistas. O jornalismo, incluindo aquele que é feito na televisão, se coloca como um defensor do idioma “correto”, de uns anos para cá tem proliferado o número de manuais de redação que, pretendem seus editores, serviriam não apenas como guia para os profissionais da área, mas também para todos aqueles que pretendem aprimorar-se no uso da língua (escrita), como se fossem mais práticos que as gramáticas. Mas, mesmo sob a orientação dos manuais de redação, os profissionais da área acabam por praticar aquilo que é chamado de gramática intuitiva, aquela que é “interna, implícita” (LUFT, 1993, p. 105) e que nos guia, mesmo na escrita, porque é ela que praticamos quando falamos. Pois, mesmo os jornalistas, redatores e roteiristas de televisão, aqueles que, presupostamente, estariam entre os que melhor dominam o idioma, não conseguem se livrar desta gramática intuitiva.
Basta ler jornais como a Folha dn S. Paulo e o Cstado dn S. Paulo, cujos manuais decretam que o verbo assistir tem que vir obrigatoriamente seguido da preposição
a. Na voz ativa, a preposição aparece: ‘Vinte mil pagantes assistiram ao jogo’,
porque assim manda o manual da redação. Mas na hora de usar a voz passiva, a gramática intuitiva brasileira do redator se manifesta, e a gente encontra milhares de exemplos do tipo ‘o jogo foi assistido por vinte mil pagantes.’ Essas pessoas, então, ficam em cima do muro: “acertam” na voz ativa, por causa do patrulhamento lingüístico mas “erram” na passiva, porque se deixam levar pelo uso normal do português brasileiro (BAGNO, 1999, p. 37, grifos do autor).
Esta gramática intuitiva está presente em todo o falante da língua e não são as regras gramaticais escritas em livros e manuais, soldados do “patrulhamento lingüístico”, que irão impedi- la de se manifestar. Voltamos a afirmar que a norma-padrão da língua é importante para determinadas situações, mas, o que defendemos é que ela não deve ser imposta como a única e “correta” forma de se expressar em Língua Portuguesa.
O ensino do idioma não precisa ser uma imposição, situação, geralmente, rejeitada pelo aluno. O apresentador Tony Belloto é uma pessoa carismática que, em nenhum momento, passa a impressão de ser um patrulhador lingüístico, parece conseguir a esperada empatia com o telespectador e esta condição deveria ser melhor utilizada para que no Afinando a Língua fossem levantadas questões de flexibilização do ensino do idioma, fato que levaria o aluno não a se sentir oprimido por um conjunto de regras gramaticais que pouco tem a ver com a sua realidade, e permitiria que ele, aluno, entendesse como poderia melhor se relacionar com o idioma que aprendeu desde criança. A questão da flexibilização do idioma não é explorada pelo programa.
Penso ser urgentíssimo promover uma mudança radical em nossas “aulas de Português”, ou como quer que as chamem: passando de uma postura normativa, purista e alienada, à visão do aluno como alguém que JÁ SABE a sua língua pois a maneja com naturalidade muito antes de ir à escola, mas precisa apenas LIBERAR mais suas capacidades nesse campo, aprender a ler e escrever, ser exposto a excelentes modelos de língua escrita e oral, e fazer tudo isso com prazer e segurança, sem medo. Uma prática sem medo, num ensino sem opressão: no mais íntimo terreno da vida humana, que é o da linguagem, onde estruturamos o mundo em nosso interior e nos ligamos a ele, isso se faz mais que necessário, é vital (LUFT, 1993, p. 12, grifos do autor).
Pensamos essa postura como a de um ensino solidário que tenderia a compreender o universo de cada aluno como um dado a ser considerado em sala de aula, sem rejeitar este universo, mas tentando ampliá-lo, enriquecendo-o, para que a escola pudesse ajudar o estudante a entender melhor o mundo em que vive. Ao contrário, brigar contra a bagagem cultural do aluno é forçá-lo a algo que, muito provavelmente, será rejeitado e que causará um total estranhamento fazendo com que as pessoas sempre acreditem que o português é uma língua impossível de se aprender. É preciso, então, respeitar a história pessoal do aluno para que ele aceite as novas idéias, já que “o campo da língua na educação exige não somente uma análise lingüística, mas uma ampla análise histórica e cultural” (STUBBS, 2002, p. 87).
Ao determinarmos que o ponto chave de nossa discussão passa pela aceitação de que seria impossível que num país como o Brasil, com uma população de quase 190 milhões de pessoas, todos falassem o idioma português de uma única forma, entendemos que deveríamos reforçar o conceito de solidariedade. Uma postura que se apresenta cada dia mais distante da nossa realidade poderia ser, de fato, um dos pontos centrais de nossa proposta, o que levaria a oferecer aos alunos um ensino da Língua Portuguesa de uma maneira mais coerente e pouco preconceituosa.
Solidariedade como uma aceitação maior das diferenças, no sentido de compreender que aquilo que nos é estranho não é exatamente nocivo. Seria uma forma de promover a pluralidade cultural, sem confundi-la com fragmentação ou, ainda pior, folclorização de condições de vida que se apresentam como verdadeiramente representativas de uma condição social em certa região do País. Quando se pensa num mundo com traços de globalização, como pretende a teoria neoliberal, não podemos esquecer que o global sempre estará permeado pelo regional. As empresas transnacionais jamais encontrariam respaldo para suas propostas de unificação de mercados se não atentassem para questões relativas à cultura específica de cada país. Assim, por exemplo, uma Volkswagem, alemã, com sedes nos
Estados Unidos ou no Japão, jamais poderia operar nestes países da mesma maneira como opera no Brasil. Geralmente, é o local que interpreta, assimila e condiciona o global.
[...] não resta dúvida de que não é possível habitar no mundo sem algum tipo de ancoragem territorial, de inserção no local, já que é no lugar, no território, que se desenrola a corporeidade da vida cotidiana e a temporalidade – a história – da ação coletiva, base da heterogeneidade humana e da reciprocidade, características fundadoras da comunicação humana, pois, mesmo atravessado pelas redes do global, o lugar segue feito do tecido das proximidades e das solidariedades. Isso exige que se esclareça que o sentido do local não é unívoco. Um é aquele que resulta da fragmentação produzida pela deslocalização que o global acarreta, e outro é a revalorização do local como âmbito onde se resiste (e se complementa) a globalização, sua auto- revalorização como direito à autogestão e à memória própria, ambos ligados à capacidade de construir relatos e imagens de identidade (MARTÍN- BARBERO, 2004, p. 58 e 59, grifo do autor).
O respeito à cultura local passa pelo respeito às variações linguísticas próprias e legítimas destes locais, sem isso, acreditamos que o ensino do idioma tem pouco a avançar no sentido de ampliar o universo lingüístico do aluno.