5.1 T HE ESSENTIAL ASPECTS THAT CHARACTERIZE THEM
5.1.4 Tove’s beautiful life thanks to the nation-state
Em função do vasto número de cordéis existentes e da impossibilidade de abarcar todos eles em nosso estudo, selecionamos, em uma primeira etapa, 100 folhetos, que foram coletados principalmente na pesquisa de campo e no Fundo Raymond Cantel. Dos 100 folhetos, selecionamos 60 para compor o que chamamos de corpus de apoio, a fim de levantar dados mais gerais que pudessem nos ajudar a corroborar algumas das hipóteses.
Através desse corpus de apoio, buscamos encontrar dados gerais que pudessem apontar esquemas argumentativos mais recorrentes e mostrar como esses esquemas se relacionam à tríade conceitual do ethos, do pathos e do logos.
A supressão do restante de 40 cordéis se deu ao longo das análises, pois percebemos que os esquemas argumentativos começaram a se repetir, o que poderia tornar a leitura cansativa, além de não gerar implicações relevantes aos propósitos da tese.
25Tradução nossa de: “Un discours critique ne produit pas un objet politique ou un objectif ou un savoir nouveaux lorsqu‟il n‟est qu‟un reflet mimétique d‟un principe politique ou d‟un engajamento théorique a priori » In : BHABHA, Homi k (1994-2007). Les lieux de la culture – une théorie postcoloniale. Paris:
A quantidade, a diversidade temática e os diferentes locais e épocas em que os cordéis selecionados foram produzidos podem gerar questionamentos acerca de suas regularidades discursivas. Contudo, os cordéis analisados, conforme veremos, além de se assemelharem formalmente, através da rima, do ritmo, da métrica e do formato gráfico, trazem temas que se ancoram em valores e crenças também muito semelhantes, o que não exclui as variáveis tempo e espaço de produção, mas as relativizam, tendo em vista os propósitos do nosso estudo.
No intuito de buscar esquemas argumentativos nesses cordéis, limitamo-nos ao estudo do folheto, relacionando-o, quando dispúnhamos de informações suficientes, ao seu contexto de produção e de recepção, procurando dar “corpo” à opinião do poeta, por meio da forma como ele tematiza/problematiza o acontecimento.
Dos 60 folhetos, 18 foram produzidos no Estado do Ceará, 16 em Pernambuco, 15 no Rio de Janeiro, 5 na Bahia, 2 em São Paulo, 1 na Paraíba e 3 não apresentaram o local de publicação.
Para uma análise mais verticalizada do fenômeno argumentativo, optamos pela estratégia metodológica do estudo por amostragem, em que privilegiamos a análise de três folhetos, que compõem o que estamos chamando de corpus de base. Esse corpus de
base foi constituído por cordéis de poetas variados, localizados em tempo e espaço
diversos. Tendo em vista que o propósito do nosso trabalho está ligado à análise de estratégias argumentativas utilizadas pelos poetas na versificação de acontecimentos noticiados ou noticiáveis e na construção da sua opinião acerca do tema proposto, acreditamos ser pertinente não nos atermos à produção de apenas um poeta ou de uma região.
Além disso, apresentar uma amostragem de cordéis pode favorecer o que para a Análise do discurso é bastante pertinente em termos de metodologia. Trata-se de um exame constrastivo entre os folhetos selecionados, pautado no mapeamento de regularidades e diferenças existentes entre os folhetos em termos da construção argumentativa. Portanto, poetas diferentes, produzindo em locais e épocas diferentes, podem, apesar disso, permitir-nos chegar a essas especificidades de ordem enunciativa e linguístico- discursiva.
Utilizaremos também os procedimentos de exploração, de descrição, de explanação do corpus e dos elementos do seu entorno, buscando responder como o poeta argumenta, construindo uma imagem de si, projetando determinados efeitos patêmicos no leitor por meio do discurso.
Para selecionar o corpus, associamos diversos critérios, sendo que o primeiro deles foi a ocorrência temática. Sem se preocupar ainda com a forma como esses temas foram trabalhados, selecionamos cordéis que compartilhavam temas também recorrentes nas mídias de informação. Dessa forma, classificamos os folhetos em blocos divididos por três temáticas, a saber:
Tabela 1: Critério 1: Ocorrências temáticas
Blocos Temas Subtemas Ocorrências
subtemáticas Ocorrências temáticas 1 Mortes Por assassinato 16 32 Por tragédia ou causa natural 16 2 Faits Divers 14 3 Manifestações Sociais 14 Total 60
Notemos que os blocos acima listados tematizam acontecimentos também veiculados pelas mídias, a fim de satisfazer o imperativo da informação, um dos seus objetivos. No entanto, o imperativo da captação obriga a mídia a recorrer à sedução, à dramatização da informação, o que a tem levado a lançar mão cada vez mais de estratégias para chamar a atenção do público, embora informar seja (ou deveria ser) dominante no contrato comunicativo estabelecido pelas mídias de informação.
Essas estratégias de captação sob forma de dramatização são muito utilizadas na temática sobre a morte e nos faits divers, tanto no cordel quanto nas mídias de informação. Ao falar do assassinato de uma pessoa, por exemplo, o cordelista costuma descrever as reações afetivas ao fato, como a comoção, a tristeza e a indignação, o que é considerado também uma tarefa necessária à atividade jornalística, pois todo
acontecimento que se produz no espaço público concerne a todos os indivíduos e apresentar essas reações afetivas pode levar o público a se reconhecer nelas e a aderir a esses afetos projetados, o que acaba fortalecendo a adesão às teses vinculadas ao discurso.
O poeta José Soares nos apresenta uma ilustração disso no folheto A morte de Kennedy
e a vingança de Ruby, quando nos mostra nos versos: (“Toda a America Latina/Sentiu
convulcivamente”) e (“Chorou todo vagomestre/Pertencente ao gênero humano”)26
, uma reação afetiva amplificada de várias instâncias frente à morte do presidente, justificando e mesmo validando o assassinato por vingança do suspeito pela morte de Kennedy, Lee Harvey Oswald, praticado por Jack Leon Ruby. Embora a “justiça feita
com as próprias mãos” seja condenável em nossa sociedade, o poeta se sente à vontade
para opinar de forma contrária, legitimando a ação vingativa e nos levando a uma
sensação de alívio e de dever cumprido, pois a “justiça” fora feita ao assassino do
presidente: (“É uma coisa que penso / E sempre digo a alguém / Que matar não é negócio / É, coisa que não convém / Porque ele matou Kennedy / Mataram ele
também”).
O segundo critério utilizado na seleção do corpus foi o diálogo intertextual explícito que os folhetos estabeleciam com o domínio midiático, fazendo alguma alusão à mídia na materialidade linguística do texto. Do total de cordéis selecionados, 41 deles fazem referência explícita à mídia, sendo que em alguns blocos temáticos a explicitação dessa relação apareceu em mais de 90% dos folhetos.
Tabela 2: Critério 2: Referência à mídia de informação
Bloco Temas Subtemas Referência à mídia / Subtemas (%) Referência à mídia / temas (%) 1 Mortes Por assassinato 94 87 Por tragédia ou causa natural 81
26 Para facilitar a referência aos folhetos, citaremos o número do folheto e o bloco e subtema ao qual
pertence. Utilizaremos “Folh.”, para folheto, “Bloco”, para bloco temático e “A” ou “B”, para o subtema, que aparece no interior do bloco temático. Ex.: (Folh.13, Bloco IB, p. 2) .
2 Faits Divers - 71 3 Manifestações
sociais
- 21
Em momento oportuno, falaremos da natureza da referência que o poeta costuma fazer às mídias de informação, que vai desde a mídia como fonte de consulta, passando pelo uso de fotos e notícias extraídas de jornais e revistas, até chegar à formulação de elogio ou crítica ao fazer da mídia.
Critério 3: Dimensão têmporo-espacial
Segundo classificação feita pela Fundação Casa de Rui Barbosa, os poetas da primeira
geração são os que deram início à produção de folhetos no Brasil entre 1900 e 1920/30.
Esses poetas ampliaram o público e estabeleceram as formas de produção e de distribuição de folhetos. A segunda geração de poetas compreende aqueles que começaram a produzir após 1930. São os poetas que cresceram ouvindo ou lendo os folhetos e passaram a produzir seus próprios poemas. Entre o período que compreende a década de 30 até os primeiros anos do século XXI, optamos por folhetos produzidos após a década de 60, período que, para nós, é marcado por uma produção diferenciada, no que tange aos cordéis midiatizados, o que nos leva a classificar os poetas selecionados por nós como de terceira geração.
Da década de 60, selecionamos alguns cordéis do poeta José Soares, primeiro a utilizar em seus folhetos a designação poeta-repórter e a se apropriar, de forma explícita, do que era publicado pela imprensa na época. Certamente, outros poetas, como Moisés Matias de Moura (CE), já faziam uso das mídias de informação, antes da década de 60, mas, como tanto o cordel quanto a própria mídia se modificaram ao longo das décadas, o que por si só tornou difícil um recorte temporal de folhetos, optamos por gerar um corpus cuja ocorrência é ascendente, ou seja, aumenta-se o número de cordéis à medida que a década vai aumentando, o que nos permitirá concentrar a ocorrência de dados em cordéis produzidos na primeira década do século XXI. No entanto, uma vez que poetas- repórteres importantes produziram entre as décadas de 60, 70 e 80, como Raimundo Santa Helena e o próprio José Soares, não pudemos deixar de incluir alguns de seus
folhetos. Vejamos o gráfico a seguir, referente ao período de publicação dos folhetos do nosso corpus:
Gráfico 1: Ano de publicação dos folhetos
0 5 10 15 20 25 30 60 70 80 90 2000 Núm e ro de folhe tos
1.4.3.1. Critérios de seleção do corpus de base
Em função da impossibilidade de analisar, detalhadamente, todos os folhetos coletados, selecionamos uma amostra de três deles: um para cada bloco temático. Essa ilustração não tem o objetivo de gerar um folheto prototípico do bloco temático, mas de possibilitar uma análise discursiva que leve em consideração elementos da enunciação desse folheto, integrando dados biográficos, trechos de entrevistas, elementos paratextuais, além da análise da materialidade linguística do texto.
Folheto 1 (Bloco I): A morte de Elvis Presley, de José Soares. Recife, 1977.
Folheto 2 (Bloco II): O Cabrito e as Feras, de Raimundo Santa Helena. Rio de Janeiro, 1984.
Folheto 3 (Bloco III): Quando o Camaleão mudou de côr contra o povo de Juazeiro, de Hamurabi Batista (pseudônimo: Francisco Matêu). Juazeiro do Norte: 1993.
1.4.4. Da divisão dos capítulos
Dividiremos o texto da tese em duas partes. A primeira parte será dividida em dois capítulos, sendo que, no Capítulo I, buscamos ressignificar o campo epistemológico e rever os domínios discursivos que foram construídos em torno do cordel, a exemplo do que foi produzido por pesquisadores representantes dos estudos folclóricos e dos estudos literários. Optamos por desconstruir alguns discursos vigentes, algumas posturas e paradigmas instituídos que influenciaram na construção prévia do ethos do
poeta, com base, de um lado, nas dicotomias que foram criadas, como as que sugerem os pares popular versus erudito, oral versus escrito; e, de outro lado, nas aproximações pejorativas que foram feitas entre a imagem do poeta e termos como analfabeto, rude, ignorante, popular, simples.
Nesse capítulo, analisaremos alguns movimentos fomentados por intelectuais, folcloristas e escritores no intuito de “resgatar” a cultura e a literatura popular, a exemplo de fragmentos de discurso proferidos pela Comissão Nacional do Folclore (1947) e da Comissão de Defesa do Folclore Nacional (1958), bem como a relação que tais comissões mantiveram com os projetos políticos de manutenção de dada identidade nacional, enquanto comissões que atuavam/am junto a políticas públicas.
No Capítulo II, procuraremos recaracterizar o cordel enquanto uma “literatura” diferente, partindo, sobretudo, das Teorias da Oralidade desenvolvidas por Milman Parry (1928), Albert Lord (1960), Eric Havelock (1963) e John Foley (1995), segundo as quais seria possível comprovar, linguisticamente, a filiação que a poesia popular possui com a poesia oral em performance.
Tentaremos associar os estudos sobre a oralidade aos estudos enunciativos e, para isso, basear-nos-emos nas pesquisas do medievalista Paul Zumthor, as quais privilegiam a dimensão enunciativa da poesia medieval, bem como no escopo teórico-metodológico de Patrick Charaudeau (1992) e Dominique Maingueneau (1996), acerca dos estudos enunciativos, desenvolvidos no interior da Análise do Discurso.
No campo dos estudos sobre o cordel, optamos por dialogar com estudos recentes de pesquisadores como Ria Lemaire, Ana Galvão, Gilmar de Carvalho, Francisca Santos, no intuito de construir uma rede de argumentos capazes de sustentar a importância em se adotar uma metodologia que busque os aspectos ligados à enunciação do texto, ou seja, aspectos históricos e contextuais que transcendem a materialidade linguística, embora possam ser também encontrados através dela.
Partiremos do ritmo poético, para comprovar a relação oral/escrito existente no folheto de cordel, associando-o à performance do poeta e à construção de seu ethos, enquanto
será pensada em termos dos estereótipos criados pelas instituições e seus representantes, tal como os descritos no capítulo 1. Tampouco, chegaremos a tratar do ethos enquanto prova persuasiva, uma vez que o intuito aqui é o de visualizar essa categoria como parte constitutiva do mecanismo enunciativo o qual a poesia de cordel engendra.
A segunda parte da tese será também dividida em dois capítulos. O primeiro deles versará sobre a evolução dos suportes na literatura de cordel, partindo das noções de
transição da oralidade para a escrita (Eric Havelock) e de apropriação dos meios
tecnológicos pelo poeta. Do ponto de vista tecnológico, focalizamos a chegada da prensa gráfica no Brasil e outros suportes como o rádio, a televisão, a internet e o jornal e sua relação com a produção do folheto de cordel.
No entanto, a discussão acerca da evolução dos suportes seguirá na dupla relação que o cordel estabelece com o jornal, seja se apropriando dele para divulgar a poesia e o poeta, seja se aproximando de próprio fazer midiático de captação e comentário da informação. Não só a poesia acompanhou a tecnologia como também o poeta e a sua construção identitária participaram dessa evolução. Se antes o poeta cantava as notícias, no intuito de informar, entreter, educar e formar opinião, hoje ele se auto-intitula poeta- repórter; pois, de posse do conteúdo jornalístico publicado ou com autonomia para captar o acontecimento no espaço público, compõe seus poemas, fazendo do cordel um espaço de discussão, tal como faz a mídia de informação, para denunciar, reivindicar direitos e reforçar valores e condutas sociais.
No segundo capítulo da segunda parte, faremos uma análise geral dos três blocos temáticos que compõem o corpus de apoio, do ponto de vista dos esquemas argumentativos utilizados, em torno das categorias retóricas do ethos, do pathos e do logos. Faremos também uma análise pormenorizada dos três folhetos selecionados para compor o corpus de base, como já mencionamos anteriormente.