5.2 A CLOSER CONSIDERATION , A CLOSER LOOK
5.2.1 Self- making in / with the system and future
2.1.1. Sobre a postura do pesquisador diante do “objeto de pesquisa”
Diante desse “resgate”, pautados na morte iminente e na necessidade de “preservação” da poesia, começamos a refletir sobre o cânone teórico da literatura de cordel e percebemos que “leitores autorizados” disseram tudo e qualquer coisa sobre essa poesia e, em função disso, apresentaram métodos e definições muitas vezes controversos e impositivos.
Os estudos em literatura de cordel foram se firmando como um campo de conhecimento regulado por um grupo restrito30 que se via responsável por “preservar” a poesia popular, em vias de extinção. No entanto, ao reproduzirem um modelo europeu de investigação e resgate, conforme nos mostra Ria Lemaire em diversos estudos, tais autores acabaram contribuindo mais para a exclusão do que para a valorização do poeta e de sua poesia.
Sobre esse processo, Foucault31, em sua conferência inaugural realizada no Collège de France, em 1970, observa bem os mecanismos de exclusão discursiva, postulando a hipótese de que em toda sociedade a produção do discurso é controlada, organizada e redistribuída por certo número de produtores, o que gera processos de segregação de
29Tradução livre e parafrástica de: “[...]la constrution de l‟ethos dans le discours non comme une image
qui se nourrit de modèles consensuels, mais au contraire comme invention d‟une image qui se refuse aux
commodités de représentations piégées et de normes aliénantes[...] » (AMOSSY, 2006, p. 95).
30 Dentre os pesquisadores desse grupo restrito, temos: Manuel Diegues Jr., Ariano Suassuna, Orígenes
Lessa, Mark Curran e Raymond Cantel.
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outros discursos que não se ajustam aos parâmetros impostos pelas instâncias detentoras de certo poder para regular e impor ações por meio de discursos.
Além dessa forma de exclusão, existem outras duas que, segundo o autor, estão ligadas ao mesmo tempo à rejeição e à partilha. Rejeição ao que não compreendemos, como é o caso do discurso do louco, ao passo que partilhamos o discurso da razão; ou ao que consideramos ter menos valia, como é o caso do texto oral face ao texto escrito. No entanto, essas duas formas de exclusão estão também ligadas ao poder e são rejeitadas à medida que não podem ser controladas. O texto oral é nômade, e o louco diz o que quer sem se preocupar com padrões e normas de conduta.
Uma terceira forma de exclusão discursiva estaria pautada na oposição entre o verdadeiro e o falso, na qual o que não pode ser demonstrado, comprovado, deve ser rejeitado e considerado como falso. Platão (século IV a. C.), na República, ao chamar os poetas da oralidade de mentirosos, contribuiu para o pensamento ocidental que gira em torno desse maniqueísmo, situado menos em uma oposição horizontal do que em uma oposição hierárquica e vertical que acaba excluindo e desvalorizando a oralidade e a poesia. Essa censura vinha da equação oralidade-literacia, apesar de que, segundo Havelock32:
A literatura grega tinha sido poética porque a poesia tinha desempenhado uma função social, a de preservar uma tradição segundo a qual os gregos viviam e a de instruí-los nela. Isto só podia significar uma tradição ensinada oralmente e memorizada.
A sociedade grega foi pouco a pouco se tornando letrada, e Platão parece ter sido o maior responsável por instituir um tipo conceitual de pensamento e de linguagem substitutos da narrativa e do pensamento orais.
A linguagem de Homero, cujos textos são considerados fundadores da literatura
ocidental, por exemplo, “é uma linguagem inventada oralmente com a finalidade de
32 HAVELOCK, Eric A. (1988-1996). A musa aprende a escrever – reflexões sobre a oralidade e a
literacia da Antiguidade ao presente. Lisboa: Gradiva, 1996, p. 18. Do mesmo autor, ver também: HAVELOCK, Eric A. Preface to Plato. Nova York: Grossett and Dulap, 1967.
sobrevivência”33, pois a poesia era “originalmente o instrumento operativo de
armazenamento de informação cultural para reutilização”34
e manutenção de uma tradição cultural, ou seja, não havia a finalidade literária que têm os textos, ligados ao que conhecemos como cânone literário.
Este estigma fomentado por Platão com relação aos poetas parece ressoar até os dias de hoje, conforme nos mostra Ana Galvão35 que, buscando resgatar aspectos enunciativos em torno do cordel, discute algumas perspectivas de pesquisa sobre o popular, em especial, sobre a cultura popular.
A autora apresenta exemplos impressionantes de como, de um lado, alguns poetas se sentiam inferiores diante do público de intelectuais que passou a se interessar por eles na década de 70; e de outro lado, os intelectuais se comportavam de forma superior, trazendo as suas certezas diante de uma produção considerada exótica, genuinamente
nacional, que precisava ser “preservada”, num contexto em que o regime econômico e
político era marcadamente autoritário. O cordel era visto como produto do meio rural ainda não contaminado pelo progresso que atingia os centros urbanos e como expressão
“mais pura da alma popular brasileira”, congelada na alma do povo nordestino pobre e
analfabeto. É o que nos mostram as duas falas apresentadas por Galvão:
A literatura de cordel é um acervo cultural produzido por semi- analfabetos e que representa uma das expressões mais puras da alma popular brasileira, não só no Nordeste, mas também em todo o Brasil.36
De todas as expressões da folkcomunicação no Brasil, a mais rica, mais variada e a que mais se aproxima da comunicação social é a dos folhetos populares (...). Os folhetos são obra de gente do interior e a essa gente é destinada a sua mensagem. Refletem não somente a formação cultural do poeta, em geral semi-letrado, mas, sobretudo, o ambiente em que se situa e o público a que se destina. São o produto e o reflexo do meio rural nordestino, onde o homem desassistido,
33 Idem, p. 76 34 Idem, p. 90. 35
GALVÃO, Ana. A cultura popular como objeto de estudo: da “beleza do morto” à compreensão de sujeitos e práticas culturais. In: XAVIER, Libânia Nacif et alli. Escola, cultura e saberes. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 2005.
36ARAÚJO, João Dias de. Imagens de Jesus Cristo na Literatura de Cordel. Revista de Cultura Vozes,
sem educação, sem orientação técnica, sem comunicação exterior, vive abandonado, largado à própria sorte.37
Esse tipo de estudo, apontado por Galvão, contribuiu para uma visão distorcida e estereotipada do poeta, de sua região e de seu público. Semianalfabeto aqui é sinônimo de indivíduo de pouca cultura e erudição, o que vai de encontro ao significado que nos apresenta o grande poeta Patativa do Assaré, em suas filosóficas reflexões concedidas a
Gilmar de Carvalho durante uma entrevista: “O analfabeto, se ele nasceu com o dom da
inteligência, ele só num fala certo, mas tudo ele sabe. Ele... ele tem raciocínio de saber o que é bom, o que é ruim, ou de saber como é a vida. E assim por diante, viu? É isso que
eu apresento no... nos meus poemas, viu? Em tudo por tudo.”38
Reforçando a ideia de que a cultura popular nordestina foi a “escolhida” para estabelecer uma identidade nacional forte e única, Idellete Muzart afirma que os Sertões, de Euclides da Cunha, obra que se apresentou como descrição científica do povo, da terra nordestina, bem como da luta que dizimou a comunidade de Canudos, influenciou as pesquisas folclóricas do século XX, por meio da visão de um “paraíso perdido”39. Segundo a autora, “o sertão aparece, de mais a mais, como a terra autenticamente brasileira, e, portanto, sua poesia afirma-se como a expressão verdadeira
de seu povo”40
. Tais visões podem justificar um pouco a motivação que os
pesquisadores tiveram para “resgatar” esse paraíso perdido, reflexo de uma nação
genuinamente brasileira, assim como os métodos utilizados e a postura adotada diante da literatura de cordel.
Oswaldo Barroso, em uma notícia publicada no jornal O Povo, em 30/07/1983, critica
fortemente os pesquisadores que discriminam o que não é uma “autêntica” literatura de cordel e que tentam “impingir seus modelos conservadoristas aos poetas populares, num trabalho que eles chamam de “preservação”, mas que na verdade é “destruição dos folhetos populares”. O articulista critica ainda um estudo introdutório, feito por
Veríssimo de Melo, publicado em uma antologia de literatura de cordel, aludindo a um
37BENJAMIN, Roberto Câmara. A religião nos folhetos populares. Revista de Cultura Vozes, Petrópolis,
v.64, n.8, out.1970. p.21-22, apud GALVÃO, p. 7. Grifos da autora.
38
CARVALHO, Gilmar de (2002a). Patativa poeta pássaro do Assaré. Fortaleza: Omni, 2002, p. 46.
39 Obras que corroboram a visão mítica do sertão: Terra do Sol (1912), Ao som da viola (1921) e
Cantadores e Violeiros do Norte, de Leonardo Mota. (1921-1930).
40 SANTOS, Idelette Muzart-Fonseca. Memória das vozes: cantoria, romanceiro & cordel. Salvador:
ciclo de estudos realizado na Universidade Federal do Ceará, em 1976. Segundo
Barroso, nesse estudo, Veríssimo afirma que muita gente “não popular” estava
escrevendo cordel, e Barroso acrescenta: “Não popular, leia-se: poetas eruditos,
universitários, intelectuais e jovens do Rio”. O poeta popular seria ou deveria ser
necessariamente analfabeto ou semianalfabeto.
A postura superior dos pesquisadores que iam a campo para encontrar o seu “objeto de pesquisa”, a fim de bem classificá-lo, descrevê-lo, armazená-lo, reforçou o complexo de
inferioridade do poeta, conforme podemos perceber na fala do poeta Edson, de Recife, em entrevista concedida a Ana Galvão41, em 1996.
Graças a Deus arrumo boas amizades. Eu tinha amizade nos Estados Unidos que eu nem conhecia, quando chegou aqui me dá abraço, aquela... umas duas, três ou quatro moça dos Estados Unidos, vai até pra minha casa comer feijão lá em casa (risos). Eu tenho o que eu não merecia nem ter (risos). Então... aquele Liêdo Maranhão, aquele Ricardo Noblat, eles foram lá pra casa e jornalista, uma ocasião veio gente de Sergipe, de Alagoas, pra minha casa.
Esse trecho revela a posição de inferioridade do poeta diante do pesquisador; revela um comportamento historicamente imposto pelos processos de colonização pelos quais o Brasil passou, bem como faz alusão a uma metodologia de pesquisa em que o pesquisador chega com os seus questionários prontos, buscando encontrar aquilo que
lhe interessa para a pesquisa, colocando o “informante” no lugar de alguém que deve
coincidir com um ethos previamente estabelecido.
Vivenciamos essa posição de inferioridade assumida pelo poeta em diversos momentos durante a pesquisa de campo que realizamos em algumas cidades do Nordeste. Quando pedíamos informações sobre como localizar um poeta, as pessoas costumavam dizer que seria fácil conseguir uma entrevista, pois os poetas adoravam quando chegava até eles algum pesquisador interessado naquilo pelo que poucos se interessavam. Muitas vezes nos sentimos como se estivéssemos prestando um favor a essas pessoas e não o contrário, o que nos causou certo mal estar.
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É certo que existem também os poetas mais conscientes de sua importância e das artimanhas dos pesquisadores para obterem aquilo que lhes interessa com o intuito de desenvolver o que estão pesquisando no momento, tal conforme afirma Patativa ao falar
de um pesquisador que o entrevistou: “Que sei bem como é, como são os pesquisadores,
a sua maneira, a sua qualidade pra poder arranjar aquilo que ele está interessado (...)”.
Alguns poetas já tinham/têm respostas prontas para “agradar” os pesquisadores e que
nem sempre condizem com a realidade do poeta e de sua produção.