6.2 Presentations given at the workshop
6.2.5 Tourism in the Ngorongoro Crater, status, impacts, challenges and goals
Ao considerar que as estratégias de achatamento da vida pública podem ser enfrentadas pelas pequenas narrativas ou táticas através da reinvenção do cotidiano, como referidas no capítulo anterior, cabe analisar de que forma essas atividades preenchem o tempo livre e as diferentes formas de desfrutá-lo no lazer e entretenimento, através de ações reconhecidas por seu próprio valor e significado.
F e te ao universo do trabalho, já subjugado pela lógica do capital que tenta programá-lo inteiramente, existe um espaço regido por outra lógica, e aberto ao exercício de certa criatividade: a vida familiar, o bairro, as diferentes formas de entretenimento e cultura popular que preenchem o tempo de lazer [...] Esta criatividade é relativa, pois seu exercício é determinado e limitado por uma série de fatores estruturais que constituem a rede de relações sociais, políticas e economias em que os trabalhadores estão imersos e que incidem em sua maneira de pensar, falar, agir e situar-se frente a outros grupos e instituições sociais [...] Nessas condições, não se pode esperar que seu universo simbólico seja um todo coerente e unitário. Pelo contrário, apresenta-se como um conjunto fragmentado de normas e valores onde coexistem tradições de origem rural, crenças religiosas, conhecimentos empíricos, valores próprios da so iedadeài dust ial. à MáGNáNI,à ,àp.à
As formas de fruição do espaço, sobretudo nos grandes centros serão, pois, marcadas pelo reforço ou diluição das identificações que passam a tecer sobre a cidade uma interessante rede associativa de pertencimentos, constituindo, segundo José Guilherme Cantor Magnani, u à pedaço :
“ oà doisà ele e tosà si osà o stituti osà doà pedaço :à u à componente de ordem espacial, a que corresponde uma determinada rede de relações sociais [...] não basta, contudo, morar perto ou frequentar com e taà assiduidadeà essesà luga es:à pa aà se à doà pedaço é preciso estar situado numa particular rede de relações que combina laços de parentesco,
vizinhança, procedência [...] enquanto o núcleo do pedaço apresenta um contorno nítido, suas bordas são fluidas e não possuem uma delimitação territorial precisa. O termo na realidade designa aquele espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público, onde se desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla que a fundada nos laços familiares, porém mais densa, significativa e estável que as relações formais e individualizadas impostas pela sociedade. Se nas pequenas cidades interioranas o trabalho, a devoção e o lazer são vividos nos limites de uma comunidade onde todos se conhecem, na grande metrópole as diferentes instituições que atendem a tais demandas não apenas são diversificadas como ademais encontram- seàdispe sas. à(MAGNANI, 2003, p. 116)
Durante a segunda metade do século XX, sobretudo com a massificação da influência de traços culturais europeus e estadunidenses, em movimentos derivados de o t a ultu a , a noção de pertencimento a um pedaço ou a u aà t i o àest atifi ou-se e criou relações bastante demarcadas de relação e domínio territorial passional, incluindo alguns sinais de intolerância e belicosidade.
Esses pedaços ampliam-se até que essas redes conectivas maiores, ancoradas em equipamentos comuns, se entrecruzam e perdem uma feição tão definida.
Algumas estruturas destinadas a um nicho específico, definido, são logo invadidas por outros públicos, com construção de novos sentidos.
Nesse sentido mais amplo, esses pedaços se modificaram nos últimos anos, o figu a doàu aà edeà aisà o ple a,à atego izadaàpeloà es oàauto àdeà a ha :
Ma has são áreas contíguas do espaço urbano, dotadas de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam – cada qual com sua especificidade, competindo ou complementando – uma atividade ou prática predominante. Essa categoria foi proposta para descrever um determinado tipo de arranjo espacial, mais estável na paisagem urbana se o pa ado,à po à e e plo,à o à aà atego iaà pedaço ,à aisà est eita e teà ligada à dinâmica do grupo que com ela se identifica. A qualquer momento
os membros de um pedaço podem eleger outro espaço como ponto de referência e lugar de encontro. A mancha, ao contrário, resultado da relação que diversos estabelecimentos e equipamentos guardam entre si, e que é o motivo da afluência de seu público, está mais ancorada na paisagem do que nos eventuais frequentadores. A identificação destes com a mancha não é da mesma natureza que a percebida entre o pedaço e seus membros. A mancha é mais aberta, acolhe um número maior e mais diversificado de usuários, e oferece a eles não um acolhimento de pertencimento, mas, a partir da oferta de determinado bem ou serviço, uma possibilidade de encontro, acenando, em vez da certeza, com o imprevisto: não se sabe ao certo o que ou quem se vai encontrar na mancha, ainda que se tenha uma ideia do tipo de bem ou serviço que lá é ofe e idoàeàdoàpad oàdeàgostoàouàpautaàdeà o su oàdosàf e ue tado es. à (MAGNANI, 2005, p. 173-205)
Essa nova caracterização das relações territoriais encontra nos objetos de estudo indícios de um insurgente movimento de transbordo e diluição, observado, por exemplo, na a haà doà teat oà daà P açaà ‘oose elt,à o à aà aç oà daà Co pa hiaà Osà “at os ,à o à espetáculos cada vez mais amplos, co à aà iaç oà doà festi alà ásà “at ia as ,à i te agi doà com a mancha da boemia e, numa escala mais ampliada, com a da gastronomia da Augusta ou da Bela Vista. O grande benefício desse movimento expansivo foi ter transformado a praça em si em um tema de maior interesse e mobilização.
áà oe iaàto ou-se assim uma das marcas desta ocupação da praça pelos artistas: mesas nas calçadas, festas, festivais, bares, movimentação madrugada adentro, comemorações... A festividade, a celebração funcionaram como elementos de ligação entre artistas e a praça; entre arte e cidade.
A dramaturgia dos grupos que passavam a se fixar ou a frequentar a região foi povoada de referências à praça e seus personagens. E aí a própria ideia de degradação do centro urbano e da Roosevelt ganhou tematização. A figura submundana projetada sobre a região forneceu um elemento de so a fundamental dentro das propostas artísticas de vários grupos. Personagens-arquétipos como libertinos, outsiders, palhaços etc. – que sintetizam ou deslizam entre forças apolíneas e dionisíacas (NIETZSCHE, 1992) ou pelos regimes diurno e noturno do imaginário (DURAND, 1997) – ganham densidade ao apresentarem mobilidade no mundo de contrastes (por exemplo, a sala de teatro e a rua submundana; os artistas e as travestis). E a própria praça condensa a figura simbólica de espaço de assi ilaç oàda uelesà a a te izadosà o oàdeslo ados. 40
Delírio
A diluição de territórios mencionada é explanada em um sentido mais amplo e com resgate de matriz histórica aà o aà áà idade ,à egist oà deà u à se i ioà ealizadoà po à Massimo Cacciari (2004).
áàpa ti àdoàte oàlati oà li a ,à o àoàse tidoàdeà sul o àouà o da , o autor explica que a expansão do Império Romano contou com o ato de de-li a à ouà de-lí io ,à o àoà sentido de borrar fronteiras, romper sulcos.
Se na polis àg ega,àoàte itório passava se constituir a partir de uma comprovação de laços de identidade, o espaço selava os laçosàe t eàse elha tes,à aà Civita à o a a,àoà
território vem antes, é pré-existente e conforma diferenças que não dependem de laços e são reguladas pelo direito.
As relações de pertencimento, da convivência entre iguais, próprio da Pólis grega davam lugar a uma aliança perma e te,àdo deàoàse tidoàdaà ‘o aàMo ilis ,àde ota doà uma cidade em permanente movimento, sem fronteiras. A cidade pautada pela civilidade (herança da Civitas romana) assume a prática do borrão ou diluição das fronteiras.
Multivíduos
Se os traços culturais que interferem na questão das territorialidades têm sido energicamente revistos ou ampliados neste início de século XXI, são, em grande parte, tocados pelos campos gerados a partir do mundo da informática.
E t o,àaà ultura e a comunicação digital, que colocam em crise esta perspectiva coletiva, conseguem afirmar o processo conectivo que significa que a individualidade, que prefiro chamar de multivíduo se multiplica, se a plia,à e plode.à U aà ultipli idadeà deà eus à oà orpo subjetivo. Essa o diç oà últiplaà fa o e eà aà p olife aç oà dosà eus à oà ueà a a aà po à desenvolver outro tipo de identidade, fluida e pluralizada, que coloca, pote ial e teàe à ise,àasàfo asàpe e sasàeàt adi io aisàdoàdualis o. à (CANEVACCI, 2009, p. 200)
Nesses novos campos, deslocados de uma fixação tópica, tornam-se ainda mais difusas e fragmentadas as noções de pertencimento, repertório simbólico, identidade e relações territoriais, o que talvez ofereça um ambiente de "saciedade controlada" dos encontros sociais, que permita cogitar a hipótese de que esse espaço virtual seja, em si mesmo, um campo disposto às trocas e relações, de forma tão ou mais eficiente que o território físico.
Curiosamente, são manejados por mentes inquietas de públicos com focos múltiplos e que têm se mostrado capazes de mobilizar forças fugazes e potentes, incluindo alguma indignação criativa que ocupou também os espaços públicos físicos das ruas e
praças.
Essa articulação iniciada nas redes sociais alcançou rapidamente grandes dimensões. No mundo, em insurreições recentes como as revoltas na Espanha, no mundo a eà eà oà O upeà Wallà “t eet .à Noà B asil,à ainda de modo incipiente, na organização de ações com rebatimento no espaço público, como protestos, ocupações ou festas.
Contágio
O que essas formas ainda em movimento podem ensinar à compreensão do espaço público como local de alteridade está delineado como hipótese por Paul Virilio, quando trata de permeabilidade e contágio.
Um campo ou espaço permeável constitui-se o elemento fundamental à articulação das possibilidades de contágio de forças, ou aquilo a que o autor de o i aàdeà e a aà os ti a àe à Oàespaçoà íti o :
todaàsupe fí ieà àu aài te fa eàe t eàdoisà eiosào deào orre uma atividade constante sob forma de troca entre as duas substâncias postas em contato. Esta nova definição científica da noção de superfície de o st aà aà o ta i aç oà e à iasà deà o etiza :à aà supe fí ie-li ite à torna-se uma membrana osmótica, um mata-borrão. (...) A limitação do espaço torna-se comutação, a separação radical transforma-se em passagem obrigatória, trânsito de uma atividade constante, atividade de trocas incessantes, transferência entre dois meios, duas substâncias. O que até então era aà f o tei aà deà u aà at ia,à oà te i al à deà u à ate ial,à torna-se agora uma via de acesso dissimulada na entidade mais i pe eptí el à VI‘ILIO,à ,àp.à àeà
O contágio entre diferenças pode ser dado pela conexão entre espaços, edificações e equipamentos existentes, em uma articulação de forma cruzada, com intercâmbio entre formas e funções pré-defi idasà eà ali ha os à deà ati idadesà disti tas.à Taisà a ti ulaç es,à ligando equipamentos pulsantes do entorno, podem cruzar um território degradado,
promovendo esse contágio por reverberação,
Ao que parece, em nossos casos, essa possibilidade de contágio existia como potência, numa possível integração de estruturas heterogêneas, como o samba e os teatros através da Praça Roosevelt, ou a galeria e a biblioteca através de Praça Dom José Gaspar, mas não foi explorada, prevalecendo a força da descontinuidade e da segregação.
Esse cruzamento conectivo poderia, ainda, promover um interessante borrão nas f o tei asà e t eà osà o eitosà est atifi ados,à taisà o oà fi o ,à s io ,à ult ,à popula ,à alte ati o à ouà a gi al ,à i o po a doà eà o tagia doà e uipa e tosà deà o aç esà distintas, sobretudo na esfera da cultura.
Frequentadores de um circuito definido poderiam exercer novas possibilidades de reconhecimentos e estranhamentos na fruição do espaço público, com abertura ao inesperado, ao fato não previsto, pautado pelas redes conectivas dos fluxos de trabalho, entretenimento, pausa ou encontro fortuito.