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Totaleffekter på skatteproveny

7 Kvasi-eksperimentell variasjon

7.2 Totaleffekter på skatteproveny

A tarefa culturalmente depositada na medicina muitas vezes está relacionada a fatores de contenção e administração da dor, do sofrimento e da morte. Desta forma, pode ocorrer a exclusão da subjetividade dos pacientes. Descartes iniciou a concepção moderna da divisão entre corpo e alma ao enfatizar a menor interferência de um no outro. Tal visão dicotomizada do corpo humano influenciou as concepções médicas até os dias atuais, diferenciando a atenção para cada parte humana.

Esslinger (1995) aponta três dicotomias que ocorrem na formação médica:

1. Dicotomia órgão-corpo (parte-todo) - o ser humano é visto em suas partes e não em sua totalidade. O corpo passa a ser dividido em pedaços da mesma maneira que as disciplinas passam a se especializar em cada uma destas partes, tratando determinadas patologias, com seus aspectos técnicos e tratamentos específicos.

2. Dicotomia corpo-mente - o órgão doente é tratado, porém, deixa-se de lado o ser doente na sua totalidade. Desta forma, trata-se o fígado, os rins, o joelho e não o homem.

3. Dicotomia doença-doente - a ênfase é dada para a rotina hospitalar e, muitas vezes, negligenciam-se as necessidades de cada paciente, o que acarreta na

39 desumanização do hospital.

Nos últimos anos, entretanto, a relação entre mente e corpo vem ganhando destaque, tanto nas pesquisas psicológicas quanto médicas, ao considerar o ser humano como uma unidade soma-psique, comprendendo-o em sua integridade. Freud, contrapondo-se ao conceito de corpo-maquínico, que sustenta o conhecimento biomédico, foi um dos percursores do conceito de corpo-sujeito (BASTOS, 2002).

A psicanálise se depara assim com a filosofia, em uma das primeiras tentativas de se resgatar o valor do corpo. Scherb (1998) considera indissociável o vínculo existente entre a noção de si mesmo e do corpo. Este autor parte da premissa de que é por meio do corpo (o próprio corpo, bem como a relação com o corpo de outras pessoas) que a personalidade se estrutura e se expressa.

Desde os primórdios da psicanálise, a problemática do corpo é colocada de modo significativo no campo teórico e prático. A importância do corpo é conhecida no campo psicanalítico desde os trabalhos com a histeria. Na publicação da “Interpretação dos Sonhos” (1900/1972), Freud delimita um dos xiboletes da psicanálise, o inconsciente, e o aponta como o principal conflito e causa da histeria.

A descoberta do insconsciente rompe com a epistemologia da época e repercute na própria construção de um conceito de corpo próprio. É a descoberta de um saber fora do campo da consciência que inaugura definitivamente um novo tempo e marca a cultura moderna. Desvenda-se a possibilidade de o corpo ser afetado pela fala e as relações entre corpo e psiquismo.

40 Freud sugere que a figura da histeria se articula no campo da representação, e não mais no campo anátomo-patológico. Defende um corpo decifrável, sobre o qual é possível intervir, e que não está somente subordinado às leis da distribuição anatômica. Para Freud, o corpo fala e emite sinais com significado. Ele rompe com a racionalidade médica e afasta o órgão de sua função puramente biológica, de um corpo despossuído da fala, e constitui uma nova problemática teórica (CUCKIERT, 2000).

No texto “O ego e o id” (1923/1980), Freud afirma que a primeira representação unificada que o indivíduo tem de si é a imagem do seu corpo. A partir da segunda tópica, o ego passa a ser em parte inconsciente, realizando operações de defesa diante de afetos percebidos como desagradáveis, embora também atue de forma consciente. Ele relata que o ego, antes de tudo, é um ego-corporal. Com esta perspectiva, faz com que a possibilidade de se ter um controle positivo sobre a realidade, o corpo e sobre o outro e a si mesmo seja questionada. Assinala ainda que, por meio da superfície do próprio corpo, o indivíduo, na constituição de sua subjetividade, pode originar sensações tanto externas como internas, sendo que o ego deriva dessas sensações corporais.

A imagem do corpo consiste nas representações cognitiva e emocional, apresentando inúmeras funções essenciais para a comunicação com os outros, com o mundo e consigo mesmo. Assim, a experiência corporal real no desenvolvimento emocional humano relaciona-se ao amadurecimento pessoal, e se associa aos cuidados maternos adequados que possam possibilitar a integração gradual do indivíduo como uma unidade (TAVARES, 2003).

É por meio do desenvolvimento sensório-motor que a criança tem a possibilidade de conhecer seu próprio corpo e, por meio deste, chegar ao domínio

41 do espaço e da adequação no tempo. O corpo é a primeira fonte de conhecimento para o ser humano, ao ser o palco de nossas vidas e a base de todas as interações. Neste sentido, o senso de identidade está relacionado à sensação do contato com o corpo, por ele ser parte integrante e singular na constituição da identidade. Esturaro (2003) assinala a relação direta entre a representação interna das nossas vivências psíquicas e a influência estabelecida com o próprio corpo em seu contato com o ambiente.

Ao postular que o vínculo da criança com a figura materna é um sistema comportamental com função biológica, Bowlby (1998) rompe com a psicanálise, defendendo que o vínculo é estabelecido não pela satisfação do desejo, mas pela busca de proximidade da figura de apego.

As experiências originárias da infância certamente são registradas no corpo. Por exemplo, a satisfação após ser alimentado, o conforto de dormir nos braços da mãe ou a sensação de desconforto da fralda suja em contato com a pele. As evidências sugerem que a qualidade do relacionamento de apego, seguro ou inseguro, influencia no modo como a criança delineia as experiências advindas do desenvolvimento do próprio corpo. A figura de apego participa da regulação do funcionamento interno do corpo da criança e, posteriormente, o tipo de apego estabelecido influenciará na forma como a pessoa percebe o seu corpo.

O sentido original do eu está fundamentado na experiência somática, cuja natureza depende largamente da qualidade dos relacionamentos de apego iniciais. Tal experiência modela o eu durante os primeiros meses e anos, e por toda a vida será enriquecido e enraizado pelas experiências corporais. Alternativamente, a experiência corporal pode ser negada, dissociada ou distorcida como um mecanismo de defesa (WALLIN, 2007).

42 Um aspecto bastante interessante é a relação da Teoria do Apego com os apectos neurológicos, em que as conexões sinápticas são determinantes na estruturação e no funcionamento do desenvolvimento cerebral associam-se com os padrões de apego da figura primária. Ao iniciar um relacionamento de apego haverá, na criança, a ativação cerebral de uma rede neural que associará a estes estímulos sentimentos de segurança ou insegurança como, por exemplo, quando há um toque materno, um olhar calmo ou ansioso da mãe (SIEGEL, 1999).

Como já descrito no capítulo I sobre hemiplegia, cada hemisfério apresenta diferenças no processamento e na representação dos estímulos. No entanto, de acordo com Wallin (2007), os relacionamentos saudáveis de apego apresentam o desenvolvimento de cada parte do cérebro de maneira integrada e de funcionamento mais adaptado para o indivíduo. Por outro lado, pessoas com o apego evitativo tendem a usar mais o hemisfério esquerdo do que o hemisfério direito, o que sugere uma tentativa de esquivar-se do contato com seus sentimentos ou percepções. Existe uma maior preocupação com a imagem visual e funcionamento do corpo externo do que com o corpo interno e a valorização do significado e importância dos seus sentimentos (WALLIN, 2007).