2. Norwegian ozone measurements in 2014
2.3 Total ozone in Ny-Ålesund
Regras da Arte insiste demasiado na dimensão estratégica do comportamento dos escritores e esquece-se que a instituição literária (ou o «campo») não contém todas as razões para eles escreverem aquilo que escrevem e como escrevem. Se todos procuram distinguir-se de todos os outros – o que é apenas uma hipótese de trabalho e não algo
que tenha ficado comprovado pela investigação – a questão central que continua por resolver é a análise das experiências que os levam a entrar na competição literária e quais os diferentes problemas existenciais que eles procuram resolver através escrita. Porque a verdade é que Bourdieu define o habitus a partir de algumas grandes propriedades sociais e de algumas disposições muito genéricas. Bourdieu fala de Flaubert como se ele não tivesse tido infância, adolescência, vida familiar, escolar e sentimental anteriores e talvez paralelas à sua vida literária. Como se não tivesse tido nenhuma experiência anterior à sua entrada no campo ou, pior, como se tivesse nascido dentro do campo literário. Então e as experiências sociais exteriores ao campo e anteriores à sua entrada no campo?
De tal maneira tende a limitar a sua existência quotidiana à sua actividade literária, que o ponto de vista de Bourdieu acaba por ser o ponto de vista teórico do crítico profissional que só conhece a sua «vida literária» e os seus textos, ignorando o que leva um escritor a escrever o que escreveu, ou seja, esquece-se do ponto de vista do próprio autor. No seu estudo sobre A Educação Sentimental, Bourdieu explica o romance a partir da percepção que Flaubert, ocupando uma dada posição no campo, podia ter do espaço de tomadas de posição temáticas e estilísticas, reduzindo assim a literatura a um jogo de acções e de reacções puramente internas. Ora, há todo um conjunto de quadros socializadores que é indispensável conhecer quando se pretende caracterizar o habitus dos escritores e a génese das vocações literárias. Nesse sentido, algumas das perguntas que o sociólogo deve fazer são estas: quais são as propriedades sociais da sua família e dos seus parentes? Que tipo de relação entre pais e filhos? Quais as suas experiências escolares, profissionais e sentimentais?
Além de concretizar pouco os efeitos das suas experiências socializadoras, Bourdieu não concede praticamente qualquer «intenção expressiva» própria aos escritores, já que os coloca na quase total dependência da lógica concorrencial ou distintiva do campo. E, nesse sentido, o seu trabalho de criação não é mais do que uma forma de responder às produções dos outros actores do campo. Bourdieu acaba por partir do princípio que o autor é apenas o desenvolvimento das potencialidades inscritas num determinado estado do campo literário.
Além disso, defende Lahire, um escritor não escreve a sua obra motivado apenas pelo estado da concorrência literária num dado momento do campo. Pensar que cada obra é, consciente ou inconscientemente, uma tomada de posição com vista a
diferenciar-se das outras tomadas de posição já existentes dá a imagem de que os escritores têm como único objectivo distinguir-se dos outros autores, que toda a sua vida se resume à obsessão de ser diferente. Ora, a literatura é também um lugar onde os escritores expõem e tentam resolver as questões existenciais que os preocupam. As obras são também a transposição literária de problemas vividos pelos autores, são um instrumento com o qual enfrentar a sua «problemática existencial».221 Flaubert, como Kakfa, escreviam para lidar com um certo número de problemas que a sua situação presente ou passada lhes colocou. Por exemplo, os textos de Kafka são a transposição literária de uma série mais ou menos articulada de problemas, entre os quais: o conflito com o pai, o sofrimento associado à criação, a relação ambivalente com o casamento e o celibato, o medo da autoridade, etc. (as teses de Lahire, partindo sobretudo desta obra sobre Kafka, serão aprofundadas no capítulo sobre o método biográfico).
A teoria dos campos de Bourdieu pode assim ser criticada por passar totalmente ao lado das diferentes etapas e das diferentes dimensões da socialização dos autores, ignorando tudo o que eles investem na sua escrita. Dito de outro modo, analisa os princípios de explicação dos textos literários nos limites restritos do campo literário, tendo apenas em conta o espaço das posições literárias, as estratégias editoriais, as lutas pelo reconhecimento literário ou pela dominação simbólica, etc. A isto chama-se, nas palavras de Lahire, «fechamento no literário» (no sentido de domínio de actividade). A sociologia do campo literário é essencialmente uma sociologia dos produtores mais que uma sociologia das produções. Mesmo quando fala das obras não passa de uma
sociologia da produção social do valor das obras (as qualidades literárias que lhe são colectivamente atribuídas e o seu grau de legitimidade literária) e quase nunca uma
sociologia da criação literária (enquanto estudo consagrado às próprias obras e à sua construção).
Segundo Lahire, a literatura constitui também um depósito de conhecimentos implícitos sobre o mundo social e sobre os mecanismos que regem o seu funcionamento.222 Tendo em conta que a literatura, para falar da sociedade, «passa sempre pelos indivíduos, pelas suas histórias singulares, pelos seus sentimentos
221 Bernard Lahire, Franz Kafka: éléments pour une théorie de la creation littéraire, Paris, Éditions La
Découverte, 2010.
222 Bernard Lahire, «Sociologie et littérature», em L’Esprit sociologique, Paris, La Découverte, 2007 (1ª
pessoais, pelas suas acções e reacções próprias»,223 ela tem ainda o interesse acrescido de permitir uma «sociologia à escala individual», que estuda a incorporação do social nas disposições dos actores. Assim, autores como Simenon, Pirandello e Kafka
[pondo] em cena esta ou aquela parte do mundo social, narrando e descrevendo relações e interacções entre personagens, intrigas, monólogos interiores, comportamentos, destinos individuais e talvez colectivos (profissionais, familiares, amistosos, sentimentais, etc.), os romancistas são sempre guiados por esquemas de interpretação do mundo social, por conhecimentos mais ou menos implícitos do social onde é impossível determinar o grau potencial de ―rentabilidade‖ científica, mas que não são, por isso, menos interessantes (não raro podem mesmo ser apaixonantes) de examinar. As visões do mundo social dos romancistas revelam-se tanto nos comentários (talvez teóricos) que poderão produzir sobre a literatura ou nos seus momentos literários mais didácticos (o autor empresta ao herói-narrador ou a esta ou àquela personagem reflexões sociologicamente muito pertinentes), como, de maneira mais discreta, nas narrações e nos encadeamentos de acções, de acontecimentos, de objectivos, ou ainda nas descrições de lugares, de objectos ou de personagens (dos seus gestos, da sua hexis corporal, das suas maneiras de falar, de pensar e de se comportar).224
Alguns escritores, segundo Lahire, conseguem mesmo descrever as suas personagens mostrando como elas são determinadas pelo seu passado (quase nunca constituído como um bloco homogéneo e coerente) e pela sua trajectória, que tanto pode reforçar as disposições adquiridas, como contradizê-las ou simplesmente não as renovar, levando assim ao seu esmorecimento, não os impelindo sempre na mesma direcção. Por exemplo, ao longo da sua obra Proust analisa as diferentes facetas, os múltiplos aspectos da personalidade humana e defende que somos compostos de pequenos «eus», diferentes mas próximos uns dos outros, mais ou menos unidos estreitamente, entre os quais tentamos encontrar equilíbrios e cujos conflitos procuramos arbitrar, consoante as situações. É isso que explica e que faz com que a nossa personalidade possa mudar consoante as circunstâncias, os lugares e as pessoas com que interagimos.225 Isso significa que a concepção do mundo social que Proust – ao contrário daquela que transparece das obras de Simenon, também elas analisadas por Lahire – não é determinista, dir-se-ia que é «multi-determinista», revelando uma grande sensibilidade para as «plasticidades disposicionais» e para as «variações subtis de comportamento e
223 Idem, p. 179.
224 Sobre a análise da obra de Simenon e de Pirandello, veja-se Bernard Lahire, L’Esprit sociologique,
Paris, La Découverte, 2007, pp. 173-174 (1ª ed. de 2005). Mais recentemente, Lahire publicou uma extensa biografia sociológica sobre o autor checo: Franz Kafka: éléments pour une théorie de la creation
littéraire, Paris, Éditions La Découverte, 2010.
225 H. F. Ellenberger, Histoire de la découverte de l’inconscient, Paris, Fayard, 1994 (citado por Bernard
de atitude consoante o contexto devido às múltiplas influências de socialização vividas pelas personagens».226
A proposta de sociologia da literatura de Lahire assenta, assim, numa análise que procura revelar os esquemas de inteligibilidade do social e os saberes implícitos, bem como as suas variações possíveis, numa obra (Agar, de Albert Memmi, ou Um, ninguém
e cem mil, de Luigi Pirandello) ou num conjunto de obras (os romances policiais de Simenon).
Os livros de Simenon, que Lahire considera um observador minucioso da sociedade (praticamente um sociólogo), apresentam-nos um ponto de vista sobre a sociedade muito próxima de uma sociologia compreensiva, não normativa, que procura identificar as lógicas internas (ou endógenas) à acção dos criminosos sem fazer sobre estes quaisquer juízos de valor. «Compreender e não julgar»: poderia ser esta a máxima do comissário Maigret, já que o seu método de investigação policial privilegia, como os do etnólogo ou do sociólogo compreensivo, o ponto de vista daqueles que pretende conhecer – desde logo, os criminosos. Só assim poderá perceber porque é que eles agiram de determinada maneira, as suas tensões e os seus conflitos internos e externos, as suas crises existenciais e as circunstâncias pessoais e sociais que os levaram a cometer um assassinato.227 Ao desentranharmos a «sociologia implícita» nos escritores, podemos simultaneamente perceber as várias concepções implícitas e as diferentes experiências do mundo social a partir das quais eles escreveram o que escreveram.