Interseções rodoviárias são dispositivos geométricos que influenciam diretamente a capacidade, a segurança e a operação dos segmentos rodoviários, onde inseridas. Analisá-las, dentro da ótica da segurança viária, contribui, portanto, com a implantação de projetos de menor impacto na ocorrência de acidentes de trânsito, em virtude da possibilidade de se retratar as associações encontradas entre as diversas variáveis envolvidas.
Por meio da presente dissertação, buscou-se desenvolver um procedimento de análise das condições de segurança oferecidas por interseções não semaforizadas de rodovias de pistas simples, implantadas em nível e em áreas rurais. Tal procedimento está baseado nas características geométricas de interseções rodoviárias e, portanto, pode ser utilizado tanto na fase de elaboração de projetos, quanto na sua fase de plena operação.
A realização de uma revisão de trabalhos técnicos e acadêmicos, desenvolvidos em território brasileiro e estrangeiros, permitiu conhecer os diferentes tipos de interseções rodoviárias em nível, bem como suas principais características geométricas. Pode-se, ainda, analisar suas influências e contribuições para a ocorrência de acidentes de trânsito, de forma a selecionar aquelas ditas prioritárias para o desenvolvimento do procedimento proposto.
As diferentes técnicas de gerenciamento da segurança viária, particularmente aquelas adotadas em interseções rodoviárias, contribuíram também para a realização do presente trabalho. Técnicas pró-ativas, como as técnicas de auditoria de segurança viária e de análises de conflitos de tráfego, serviram como base na elaboração de formulários e procedimentos a serem utilizados no levantamento de características geométricas e operacionais, quando da realização de vistorias in loco em interseções rodoviárias.
Foram selecionadas cinco interseções rodoviárias, inseridas em duas rodovias federais de características distintas. Por meio de vistorias in loco em cada uma das interseções
selecionadas, pode-se levantar aquelas características geométricas ditas prioritárias, bem como suas características operacionais, como conflitos de tráfego, volume médio diário e
velocidades operacionais. Tais características, associadas aos acidentes de trânsito ocorridos no ano de 2008 e, por conseguinte, suas respectivas taxas de severidade, permitiram detectar aquelas cujos impactos no desempenho da segurança potencial eram mais prejudiciais, atendendo aos objetivos geral e específicos do trabalho.
O reconhecimento daquelas características geométricas críticas quanto ao desempenho da segurança potencial de interseções rodoviárias, permitiu então desenvolver o procedimento proposto. As principais conclusões observadas, bem como suas limitações e recomendações para trabalhos futuros, constam das seções subsequentes.
7.1. CONCLUSÕES
A análise e tratamento dos dados coletados em vistoria in loco, permitiram reconhecer a
criticidade, quanto à segurança potencial, de algumas características geométricas utilizadas em interseções rodoviárias, ratificando aquelas inicialmente identificadas como prioritárias. O estudo mostrou que os diferentes tipos de layout utilizados em interseções rodoviárias em
nível podem influenciar na segurança viária oferecida aos seus usuários. Desta forma, pode-se verificar que aquelas interseções chamadas de rotatórias vazadas apresentam, em geral, maior insegurança potencial, quando comparadas com aquelas do tipo “T” e rotatórias modernas. Além do mais, esta última interseção foi a que apresentou a melhor condição de segurança potencial, medida pelo valor do CSPI. Contudo, o uso de projetos-tipo deficientes, quando associados a demais características adequadamente projetadas quanto à segurança viária, pode apresentar redução em sua insegurança.
Outra característica geométrica importante para a segurança em interseções é a distância de visibilidade. Esta permite ao condutor, ao se deslocar ao longo de uma interseção, ter ampla visão de todas as características a sua frente e, assim, permite a ele desenvolver manobras com segurança. O estudo de campo mostrou que deficiências na distância de visibilidade estão associadas a taxas de severidade de acidentes de trânsito, bem como a taxas de conflitos de tráfego, bem superiores às observadas nos locais onde esta deficiência não foi observada.
Dispositivos facilitadores aos movimentos de conversão à esquerda também podem influenciar diretamente no desempenho de segurança de interseções. Faixas exclusivas são aquelas que se apresentam como melhor opção. Ramos em laços, chamados neste trabalho de alças auxiliares, podem não apresentar benefícios em comparação com interseções onde há ausência de tais dispositivos facilitadores. Além do mais, uma vez que são instalados à direita da rodovia principal, impõem aos usuários, quando da realização de manobras de conversão à esquerda, buscar brecha nos dois fluxos de tráfego.
Os alinhamentos horizontal e vertical do segmento de rodovia principal onde estão implantadas as interseções rodoviárias afetam diretamente a sua segurança. A análise das cinco interseções consideradas no estudo revelou que trechos em tangentes e planos são aqueles mais favoráveis para a implantação de interseções, conforme já esperado. Trechos em curva convexa apresentaram maior deficiência, quanto à taxa de severidade dos acidentes, possivelmente por imporem restrições visuais aos condutores que por ele trafegam.
Por fim, tais características quando apresentadas em conjunto podem ser potencialmente maximizadas ou minimizadas. A aplicação do procedimento permite, então, de forma prática e simples, quantificar tais efeitos ao calcular o valor da condição de segurança potencial da interseção (CPSI). Sua utilização contribui, ainda, para a definição de classes de prioridades de intervenção, quando associada às características de segurança manifestas, reveladas pela determinação das taxas de severidade de acidentes e de conflitos.
7.2. LIMITAÇÕES DO TRABALHO
A decisão de basear o trabalho em coleta de dados junto a apenas cinco interseções decorreu de algumas dificuldades enfrentadas na fase de planejamento e do trabalho de campo. Inicialmente, verificou-se não ser possível caracterizar as interseções a serem estudadas por meio de seus respectivos projetos geométricos. Dificuldades quanto à localização de projetos de várias interseções junto ao DNIT obrigaram a adoção de medidas alternativas, como o uso de equipamentos de GPS e fotos de satélites, que, embora tenham cumprido com o seu
propósito, não se apresentam como forma mais adequada para tal, em virtude de erros associados e do tempo exigido de permanência dos pesquisadores no campo.
O ônus quanto ao deslocamento às interseções e disponibilidade de recursos humanos foi outro limitador ao desenvolvimento do trabalho. A coleta de conflitos de tráfego e levantamento dos projetos via GPS precisaram ser adequados, de acordo com o número de pessoas disponíveis, quando da viagem. Essa situação, aliada a condições climáticas desfavoráveis encontradas durante o período programado para os levantamentos, também impuseram limitações ao trabalho de campo. As ocorrências de chuvas torrenciais promoveram atrasos e redução das atividades previstas de coleta de dados.
Demais limitações decorrem do procedimento proposto em si. A principal limitação do CPSI é sua dificuldade em permitir a classificação mais específica das condições de segurança potencial entre as situações extremas. Devido ao número reduzido de interseções que foram analisadas para a determinação do procedimento proposto, não foi possível analisar faixas de variação suficientes das variáveis consideradas que permitisse associá-las a diferentes níveis de segurança. Isto é, a definição de categorias de segurança como, por exemplo, “Excelente”, “Muito Boa”, “Boa”, etc.. exigiria um banco de dados bem maior do que o utilizado no presente trabalho.
Outra limitação do procedimento, também decorrente do pequeno número de interseções estudadas, foi a impossibilidade de se realizar estudos estatísticos voltados à identificação de associações e interações entre as variáveis consideradas, e de definir pesos que caracterizassem a importância relativa dessas variáveis na determinação do CPSI.
7.3. RECOMENDAÇÕES PARA TRABALHOS FUTUROS
O procedimento de análise das condições de segurança oferecidas por interseções rodoviárias proposto foi baseado em uma amostra reduzida e pontos atribuídos às características geométricas, após análise qualitativa das suas associações com as condições operacionais apresentadas. Trata-se, portanto, de uma análise preliminar da segurança potencial oferecida por interseções. Recomenda-se, portanto, que sejam desenvolvidas pesquisas junto a
especialistas em segurança viária e projeto geométrico, conforme procedimentos adotados por Nodari (2003), a fim de aperfeiçoar os valores dos pontos atribuídos e definir pesos que reflitam a importância relativa de cada variável sobre a segurança oferecida pela interseção. Além do mais, sugere-se também elevar, em pesquisas futuras, o número de interseções estudadas, de forma a melhor caracterizar as associações entre características físico- operacionais, por meio de testes estatísticos. Estes estudos poderão revelar, também, interações entre as variáveis que devam ser consideradas no aperfeiçoamento do procedimento proposto.
Finalmente, a associação entre consulta a especialistas e ampliação da amostra de interseções permitirá definir, também, se outras características geométricas devem ser inseridas no procedimento de avaliação da segurança potencial de interseções, incluindo seus níveis e correspondentes pontuação, além do seu peso relativo às demais variáveis.