Aliado a tudo o que acontecia, o fim da I Guerra Mundial produzia um coquetel perigoso à economia dos EUA; a parte palatável da mistura era composta por um país que passava da posição de maior devedor mundial a de maior credor e responsável por mais da metade da produção industrial do globo. À dose, adicionava-se todo um processo de reconstrução dos países derrotados, que surtiu no boom da economia estadunidense, na
117
Ibid., p. 120. 118
Um termo cunhado pelo historiador Timothy L. Smith referente à mudança do foco de interesse evangélico da recuperação social pela ênfase ao evangelismo muito mais ligado ao individualismo, ocorrido durante as primeiras décadas do século XX. Muitos evangélicos, indignados com a expansão do liberalismo teológico do movimento chamado Social Gospel, abandonaram o envolvimento em ações sociais. Cf. MOBERG, D. The
great reversal: evangelism versus social concern. New York: Lippincott, 1972. p. 30. Cf. SMITH, T. L. Revivalism and social reform: American… Gloucester: Peter Smith, 1976. p. 212. Cf. HUNTER, J. D. American evangelicalism: conservative religion… New Brunswick: Rutgers University Press, 1983. p. 23-24.
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Conselho Americano das Igrejas Cristãs, fundado em 1941 sob liderança do Reverendo Carl MacIntere, assumia uma posição anticomunista vigorosa e atacava até mesmo os líderes das principais denominações protestantes por supostas alianças com os comunistas. Os extremistas se indispuseram com fundamentalistas moderados que vieram a formar a Associação Nacional de Evangélicos (NAE − National Association of
Evangelicals: 1942) e, desse modo, deram início ao movimento chamado Novo Evangelismo. Cf. WILCOX, op.
deflagração do American Way of Life120 e na figura do Self-made man121, símbolos de prosperidade, responsáveis pela euforia social e atores influentes no crescimento da ansiosa demanda nacional por produtos industrializados e de nova tecnologia – a maioria comprada a crédito – uma ilusória boa compensação à perda da exportação para os países europeus.
Entretanto, o dissabor do ingrediente amargo inevitavelmente era revelado pela retração da economia estadunidense, visto que a indústria da guerra entrara em declínio e os soldados, de volta ao lar, não eram absorvidos pelo mercado. Os inimigos alemães eram substituídos pelo alto custo de vida, pela inflação galopante, pelos conflitos raciais que desencadearam uma onda de migração de negros expulsos do sul por discriminação e violência – levando-os a tentar a sorte nos centros industriais do norte – e pela explosão de greves de trabalhadores, que na visão dos conservadores não passavam de atos revolucionários influenciados pelo mal bolchevista. Aliás, mais do que quaisquer outros, os comunistas, gradualmente, tornavam-se a verdadeira ameaça122 que tomava lugar dos alemães, não à toa, popularizada por “Ameaça Vermelha”123, uma fase em que pessoas eram presas e deportadas para a URSS124 sem nenhum critério substancial, a não ser o próprio envolvimento com idéias supostamente subversivas e com atos de incitação popular; entre as
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O modo de vida americano ficou caracterizado por um éthos nacionalista que engloba princípios de vida, liberdade e busca da felicidade. Há uma conexão entre esse conceito e o excepcionalismo americano. Ver: LIPSET, S. M. American exceptionalism: a double-edged sword, New York: Norton, 1966.
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Empreendedor advindo de camadas desprivilegiadas que por luta própria consegue prosperar. 122
Em janeiro de 1939, perguntaram aos americanos quem eles preferiam que vencesse uma hipotética guerra entre a Alemanha e a União Soviética; 83% escolheram a última. Era uma situação histórica excepcional de curta duração, determinada pela ascensão e queda da Alemanha de Hitler que forçou, por assim dizer, uma união entre EUA e URSS contra um inimigo comum pior do que um via no outro, até a Guerra Fria. Cf. HOBSBAWM, E. J.
Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 145.
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Período dividido em duas partes na história dos EUA: a primeira fase começa já no final da década de 1910 com o medo das idéias de “emigrantes-estrangeiros” de classes desfavorecidas que depois, a partir da Revolução Russa, passou ao campo político, principalmente entre os anos de 1917-20; retorna em 1948 até meados dos anos 1950, deflagrando na entrada da Guerra Fria. Em síntese, foi uma fase de verdadeiro temor pela difusão do comunismo e pela tomada da esquerda nos EUA, um tempo motriz de uma série de medidas políticas que tinha como última intenção erradicar idéias comunistas no país, mesmo que elas passassem por cima de direitos civis individuais da população. Cf. KOVEL, J. Red hunting in the Promised Land: anticommunism… New York: Basic Books, 1994. passim.
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Em 1920, o procurador-geral A. Mitchell Palmer comandou uma série de batidas em organizações radicais tidas como estrangeiras e prendeu sumariamente mais de 4000 pessoas em 33 cidades. Palmer chegou a advertir que os revolucionários pretendiam derrubar o governo dos EUA e, nesse clima, o poder legislativo de Nova York expulsou cinco partidários socialistas legalmente eleitos. Professores primários eram obrigados a jurar lealdade em algumas comunidades, estados proibiam que a bandeira vermelha bolchevista fosse hasteada e houve até casos de prisão por roubo e assassinato, como os que levaram à execução (1927) dois anarquistas filosóficos (Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti), cujas provas tiveram respaldo apenas na hostilidade pública aos estrangeiros. O medo de estrangeiros, dissidentes e não-conformistas provocou linchamentos, conflitos raciais, propaganda contra judeus, idéias alarmantes e desconfiança generalizada; eventos como esses contribuíram para o crescimento da Klu Klux Klan (1915). Cf. SELLERS, op. cit., p. 311-12.
vítimas havia personalidades importantes como Emma Goldman125. Outrossim, por volta da mesma ocasião, inserido nesse clima e alegando a defesa dos valores dos estadunidenses brancos protestantes contra outras ameaças – principalmente os negros, mas também católicos romanos, judeus e asiáticos – surgiu a segunda fundação126 da Klu Klux Klan (1915), um grupo cuja relevância não pode ser considerada tanto pelo seu volume quantitativo, já que chegou a ter no máximo quatro milhões de adeptos, mas em especial pelo aspecto que representa.
A seguir, batia à porta o período da Grande Depressão (1929-33) e, logo, o antídoto: o New Deal (1933-39), a II Guerra Mundial (1939-45) e o Macartismo (1950-56). Tudo indicava que os anos 30 representariam o limiar de tempos difíceis que levariam o cristianismo fundamentalista ao esvaziamento; mas, a despeito da erosão da base financeira, as organizações fundamentalistas continuaram ativas127, principalmente ao final da década de 30, quando houve a necessidade de reestruturação das bases, por conseqüência da perda de boa parte do controle das denominações e dos seminários. Uma série de congregações independentes, apoiada em notáveis propagadores da fé, formava alianças a fim de fortalecer e ampliar o espectro de abrangência.128 As maiores representantes dessas coalizões eram a WCFA (1919), a National Federation of Fundamentalists (1920) e a Baptist Bible Union129 (1923); mas não eram únicas, até porque um outro modelo que causava maior impacto na propagação da fé eram as faculdades e instituições130, pois preparavam milhares de novos ministros, professores, musicistas, diretores educacionais, missionários e outros divulgadores da fé. Na seqüência, com o fim da II Guerra Mundial, surgiram também algumas organizações políticas – Christian Crusade, The Christian Anti-communism Crusade e a Church League − que aderiram à campanha de perseguição aos comunistas, também conhecida como o período da “caça às bruxas”, estimulada pelo senador republicano Joseph McCarthy, que alegava que o governo federal estava infiltrado por agentes comunistas.131 A velha ameaça anticomunista
125
Operária, militante sindical e ativista anarquista, foi uma das precursoras do movimento feminista. Emma foi deportada na “Arca Soviética” em 1919 com mais cerca de 250 passageiros, entre eles Alexander Berkman, Ethel Bernstein e Peter Bianki. Cf. GOLDMAN, E. Living my life. New York: Dover, 1970. p. 716 et seq, v. 2. 126
A primeira Klu Klux Klan foi fundada pelos veteranos sulistas e escravistas do exército dos confederados, após a Guerra da Secessão, em 1866, e não durou mais do que quatro anos.
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Cf. WILCOX, op. cit., p. 33. 128
Alguns nomes: Straton em Nova York, Rader em Chicago, Riley em Minneapolis, McIntire em Filadélfia, J. Frank Norris em Fort Worth, “Fighting Bob” Shuler em Los Angeles, entre outros. Cf. MARTIN, op. cit., p. 17. 129
As duas últimas, respectivamente, Federação Nacional dos Fundamentalistas e União Bíblica Batista. 130
Algumas notáveis, que existem até os dias de hoje, como Moody Bible Institute (1886) e The Bible Institute of
Los Angeles (BIOLA: 1908).
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retornava, mas, desta vez, a aparência ganhava contornos ainda mais assustadores. Marsden consegue “desembaraçar um novelo de lã” sobre esse assunto:
Por volta dos anos 50 praticamente todos os medos políticos aglutinaram-se em direção à ameaça comunista, que continuava a atrair boa parte do público de líderes pré-milenaristas como Carl McIntire ou Billy James Hargis. Embora as atitudes políticas da maioria dos fundamentalistas fossem muito parecidas com as dos seus vizinhos republicanos não-fundamentalistas, o desenvolvimento do anticomunismo hiperpatriótico é um enigma e uma ironia na história do fundamentalismo. Como podiam os pré-milenaristas, cuja atenção deveria desviar-se da política enquanto aguardavam a vinda do Rei, abraçar esse Gospel [Evangelho] altamente politizado? É difícil explicar o fenômeno simplesmente em premissas racionais. Talvez, o enigma possa ser solucionado se entendermos o tipo de mentalidade, ou a tendência do pensamento, às vezes, associada ao fundamentalismo. Richard Hofstadtear apropriadamente descreveu essa mentalidade como ‘essencialmente maniqueísta’. O mundo, sob esse ponto de vista, é uma ‘arena para o conflito entre o bem absoluto e o mal [...]’ Existe, por trás dessa perspectiva, uma concepção da história que muitas vezes apareceu na cena política americana. ‘A história é uma conspiração, colocada em movimento por forças demoníacas de poder quase transcendente [...]’ Essa concepção, diz Hofstadtear, gerou ‘a maneira paranóide’ com freqüência encontrada no pensamento político americano.
Essa síndrome tem uma íntima afinidade com a concepção da história central da visão fundamentalista. Eles tinham para si, assim como outros cristãos, que a história consistia em uma luta básica entre Deus e Satã.132