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Para vencer as primárias (1988), George H. W. Bush contou com uma ajuda especial que lhe daria uma nova visão sobre o uso da religião em campanha para ganhar também as eleições. Doug Wead, filho de pastor da Assembléia de Deus e co-fundador de uma organização de combate à fome (Mercy Corps International), foi o grande responsável por assessorar Bush na conciliação entre religião e política. Wead notava que havia um grande vácuo, sobretudo em Nova York e Washington, no tocante ao conhecimento de quem eram os evangélicos, alegando que até os grandes jornais faziam uma enorme confusão com os termos teológicos e afirmando que a imprensa mal sabia a diferença entre um fundamentalista e um evangélico. Wead notava que certo despertar evangélico irrompia na participação política dos EUA e, por isso, começou a elaborar as falas dos discursos do presidente Bush, a preparar-lhe extensos materiais informativos, recomendar leituras − como Mere Christianity177, de C.S. Lewis e livros de Francis Schaeffer, primeiro pastor presbiteriano ordenado da Bible Presbyterian Church, escritor, filósofo e contrário à teologia moderna − e, por fim, sugerir encontros estratégicos com figuras do porte de Billy Graham e Charles Stanley178, entre tantos outros.179

Desse modo, trabalhando em cima de tópicos polêmicos que envolvem valores morais como o aborto, armas, pena capital e, até mesmo, resgatando valores imbuídos de simbolismo patriótico como o Juramento de Fidelidade, Bush ganha as eleições e conduz seu governo, sedimentado em uma plataforma conservadora, cujo discurso fala por si:

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O livro Mere Christianity foi traduzido no Brasil por duas editoras vinculas às instituições religiosas: a editora Quadrante, ligada à Opus Dei, deu à obra um título literal: Mero Cristianismo; já a ABU, editora da Aliança Bíblica Universitária do Brasil, de origem protestante, optou por: A Essência do Cristianismo Autêntico. 178

Foi pastor sênior da First Baptist Church Atlanta, duas vezes presidente da Convenção Batista Sulista. No final da década de 1970 conseguiu um programa de TV, mas ficou mais famoso através do rádio. Cf. KOLE - News Radio Fox 1340 & 1380 am. Dr. Charles Stanley. Disponível em: <http://www.newsradiofox.com/host_ bio.asp?id=10>. Acesso em: 15 out. 2005. Cf. MARSH, C. Wayward Christian soldiers. The New York Times, New York, 20 Jan. 2006. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2006/01/20/opinion/20marsh .html?ex=1295 413200&en=9609bfe3755d0c4d&ei=5088&partner=rssnyt&emc=rss>. Acesso em: 20 jan. 2006.

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Devemos exigir que os professores da escola pública orientem nossas crianças a prestar [o juramento de] Promessa de Lealdade180? Meu oponente [Michael Dukakis] diz não – e eu digo sim.

Devemos consentir que a sociedade imponha a pena capital sobre aqueles que cometem crimes de extrema crueldade e violência? Meu oponente diz não – e eu digo sim.

E devem nossas crianças ter o direito de orarem voluntariamente, ou até mesmo observar um momento de silêncio nas escolas? Meu oponente diz não – e eu digo sim.

E devem, devem homens e mulheres livres ter o direito de portarem uma arma para protegerem seus lares? Meu oponente diz não – e eu digo sim. E, acreditar na santidade da vida e proteger vidas de crianças inocentes é correto? Meu oponente diz não – e eu digo sim. Vejam, temos, nós temos de mudar, temos de mudar do aborto – para a adoção. E deixe contar-lhes uma coisa: eu e Bárbara temos uma neta adotada. E, no dia de seu batismo, choramos de alegria. Eu agradeço aos pais dela por terem escolhido a vida. Sou, sou um daqueles que acreditam que é um escândalo dar licença a um assassino181 obstinado de primeiro grau que sequer havia cumprido tempo suficiente para usufruir a liberdade condicional.

Sou aquele, sou aquele, que diz que um traficante responsável pela morte de um policial deve ser sujeito à pena capital.182

Mesmo apresentando um cardápio político bem digestivo aos sabores conservadores religiosos, Bush perde a reeleição para o candidato democrata Bill Clinton (1993-2001). O sociólogo Martin aponta que Bush não conseguia se igualar, digamos assim, ao charme persuasivo de Reagan, pois não inspirava tanta confiança nos fundamentalistas. Ademais, com o esmaecimento político de Wead, até sua saída, o governo cometeu erros políticos primários, visto que não havia por perto outra cabeça que entendesse tão bem a dinâmica das denominações religiosas. Em abril de 1990, Bush assinou uma lei (Hate Crimes Bill) que determinava penas severas a quem cometesse crimes contra pessoas de grupos específicos como, por exemplo, judeus, católicos, protestantes, afrodescendentes, latino-americanos, gays e lésbicas. Em vista disso, representantes gays começaram a freqüentar a Casa Branca,

180 Pledge of Allegiance, um simbólico ritual patriótico de juramento de fidelidade aos EUA ou a sua bandeira. O parágrafo foi primeiramente escrito pelo pastor batista Francis Bellamy, em 1892, por ocasião da comemoração dos 400 anos da descoberta da América. A criação deu-se por conta de um programa patriótico que convocou as crianças das escolas públicas a recitarem as palavras e a saudarem a bandeira durante as comemorações e, assim, continuou a ser recitado até 1942, quando ganhou reconhecimento oficial. Em 1954, a fim de distinguir os EUA da nação atéia rival (URSS), o termo “under God” foi incluído e a forma de recitação também foi normatizada, isto é, deveria ser recitado de pé, com a cabeça descoberta e com a mão direita colocada no coração. O juramento: “Eu juro fidelidade à bandeira dos Estados Unidos da América e à República que ela representa, uma nação sob Deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos.” Cf. OLIVEIRA, L. L. A América hoje: comemorando o quê? Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 7, n. 14, p. 294, 1994.

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Bush refere-se a Willie Horton, um presidiário que, após obter licença da prisão em Massachusetts, cometeu um roubo seguido de estupro em Maryland. Dukakis, favorável ao programa de licença e governador daquele Estado, foi vítima desse episódio em virtude da insistente lembrança de Bush ao fato durante a campanha eleitoral em 1988. Cf. WHITE, J. E. Bush's most valuable player. Time Magazine, New York, v.132, n. 20, p. 20-1, 14 November 1988.

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AMERICAN RHETORIC. George H. W. Bush: 1988 republican national convention... Disponível em: <http://www.americanrhetoric.com/speeches/georgehbush1988rnc.htm>. Acesso em: 20 out. 2005.

deixando os fundamentalistas e outros conservadores de cabelo em pé. Não suficiente, no mesmo ano, Bush reuniu-se com Christie Hefner, filha do editor da revista Playboy e, em outra ocasião, sancionou novas leis, Disabilities Act e Clean Air Act183, consideradas de esquerda; inclusive, por esse motivo, levou à Casa Branca membros do ACT UP, grupo de combate e conscientização da AIDS. Coincidência ou não, ainda na mesma época, logo após Wead sair, Bush falava da Nova Ordem Mundial, um nome que muitos evangélicos associavam às profecias ligadas ao anticristo e à coleção de discursos de Hitler cujo título é Minha Nova Ordem. Nem mesmo o alavanque momentâneo da popularidade de Bush produzido em seguida, por conta da Guerra do Golfo, conseguiu segurá-lo por um novo mandato.184

Clinton, auxiliado pelo estrategista político James Carvile, lançou o bordão: “It’s the economy, stupid”185, insistindo naquilo que há muito incomodava o povo, a economia. Com essa plataforma política, soube aproveitar muito bem o momento por que os EUA passavam e, consecutivamente, atraiu mais votos para o seu lado, superando até mesmo a forte inclinação popular pró-família, enfatizada pelo concorrente. Era o fim de uma era de doze anos de domínio republicano.

Porém, mesmo tendo conclamado um retorno de valores religiosos ao debate público, Clinton, que já “entrava engasgado na goela” da DC, não conseguiu convencer seus oponentes, bem como parte de seus eleitores, ao implementar políticas como o veto de uma lei que tentava banir abortos de gravidezes em estágio avançado; a nomeação de feministas a postos de seu governo; e a polêmica concessão à comunidade gay de alistamento nas forças armadas sempre que eles mantivessem em sigilo a condição sexual.186 Essa política não agradou nem a direita, que a via como uma desconsideração aos militares, e tampouco a esquerda, que acusava Clinton de não cumprir o prometido aos gays em campanha eleitoral. Até a menina dos olhos de Clinton, a reforma do sistema de saúde, recebia fortes críticas tanto dos conservadores como de parte da esquerda, pois ambos observavam uma grande burocracia em seu plano.187E, por último, em 1998, o escândalo sexual entre Clinton e a estagiária Mônica Lewinsky foi a última gota vertida sobre o copo político democrata que não teve outro destino, senão o transbordamento. O caso trouxe a lembrança do Watergate, uma ferida que nem sequer havia cicatrizado na memória do povo, haja vista que ficou conhecido por

183

Respectivamente: Lei dos Deficientes e Lei do Ar Limpo. 184

Cf. MARTIN, op. cit., p. 310 et seq. 185

É a economia, ignorante. 186

Cf. Ibid., p. 82-89. 187

Monicagate. Porém, entre o Watergate e o Monicagate, havia uma diferença que transcendia o tempo de 24 anos de amadurecimento político, além do teor da falta moral de cada um.

Clinton foi alvo de um processo de impedimento (impeachment) em 1999 por perjúrio e obstrução da justiça para tentar ocultar seu relacionamento sexual com Lewinsky, mas acabou sendo absolvido pelo Senado. Entrementes, até chegar a esse ponto, foi acusado pela oposição de tentar desviar a atenção do público com os bombardeios no Iraque um dia antes do impedimento ser votado na Câmara. Outra curiosidade política aconteceu pouco antes de um mês do impedimento ser julgado no Senado (7/1/1999), quando o republicano Robert Livingston, designado a assumir a liderança da Câmara, renunciou ao seu cargo havia menos de um mês, por razão de seu envolvimento em caso extraconjugal.188 Oportunamente, no discurso de sua renúncia, disse que o presidente Clinton deveria servir-se de seu exemplo. Era, portanto, o levante das cortinas políticas para Bush Jr. entrar em cena.