Assim como antigamente, quando o conhecimento sobre novas terras era guardado a “sete chaves”, sendo muitas cartas de navegar tomadas como secretas com a
intenção de ocultar as riquezas descobertas da concorrência internacional, muitos conhecimentos hoje são omitidos nas salas de aula, não sendo explorados nas escolas.
O temor do naufrágio pedagógico, que paralisa o sujeito na busca pelo desconhecido, interrompe as oportunidades de experienciar o novo. O professor de hoje não deseja ser o navegador que lança seus marinheiros em alto-mar, na busca de conhecimentos e na
Além do currículo oficial, que aponta os conteúdos que a escola seguirá ao longo do ano letivo, também existem conhecimentos implícitos, não-ditos, relacionados a aspectos da vida quotidiana que são importantes para o desenvolvimento dos estudantes e que se supõe que a escola também deveria ensinar. Assim, perpassa o currículo formal um currículo oculto, que se refere a conhecimentos não acadêmicos, tais como comportamentos, hábitos e atitudes, saberes do dia-a-dia que propiciam a socialização e a vivência de novas experiências pelos estudantes. São aprendizagens diferentes das orquestradas pelo currículo formal, ou seja, não são explicitamente visadas, mas são de grande valia para todo o processo educativo. Torres Santomé (1998), um importante estudioso do assunto, analisa a relação entre o currículo oficial e oculto, assim afirma que: “Es preciso que en la investigación sobre el curriculum que se desarrolla en las aulas se utilicen metodologías más etnográficas y participantes, junto a marcos de análisis más amplios, en los que se tengan en cuenta las interrelaciones entre el sistema educativo y lo que acontece en otras esferas de la sociedad, de esta manera podremos captar más fácilmente las conexiones entre el curriculum explícito y oculto de la institución escolar y las producciones económicas, culturales y políticas.” (p. 10)
Todavia, observa-se atualmente que esses conhecimentos da vida prática, que já foram muito valorizados, não estão sendo reconhecidos pelas instituições de ensino, muitas vezes são relegados a último plano, privilegiando-se apenas o conhecimento científico e o currículo oficial.
descoberta de novos caminhos do saber. Ao contrário, com receio da imensidão comunicacional que se expande a cada dia, quer tolher-lhes as experiências, silenciando-os em cartilhas que mostram a única direção correta a ser seguida. Não existirão experiências a serem narradas...
A educação, desde os seus primórdios, sempre foi pensada com o fim de atender as necessidades da sociedade de sua época. A relação Educação e Sociedade, em diferentes momentos históricos, determinou os caminhos que a escola deveria seguir, muitas vezes trilhados segundo os interesses econômicos e políticos da elite dominante.
Isso se deve ao fato de a educação constituir-se em um agente responsável pela formação integral do educando, por conseguinte, a educação está em todos os lugares e tem como objetivo o ensino de todos os saberes. Dessa forma, a escola não é o único lócus no qual a educação realiza-se, bem como o professor não é seu único ator. Existem inúmeras formas de conceber- se a educação, sendo que cada uma tem a função de atender aos anseios da sociedade em que ocorre, uma vez que é formada pelos saberes que compõem a cultura da sociedade que a determina.
Os modelos de educação, portanto, necessitam ser modificados conforme a sociedade transforma-se com o passar do tempo. Todavia, essas mudanças educacionais ocorrem muitas vezes lentamente, pois com frequência vemos que as escolas reproduzem ideologias que atendiam a um tipo anterior de sociedade. Assistimos, assim, a crise do papel da educação: será que a educação que temos atualmente está em consonância com a sociedade em que vivemos?
Nossa sociedade, nas últimas décadas, sofreu profundas e rápidas transformações com a popularização das “A escola de ontem dificilmente
encontra lugar no mundo moderno de hoje. Há crise nos currículos, na maneira de fixar os temas, já que os saberes estão se multiplicando tão rapidamente. Há crise no professorado que se vê diante de exigências para as quais não foram formados. Há crise na linguagem do ‘escriturocentrismo’ para as linguagens audiovisuais e, também, nos recursos técnicos, que mostram um distanciamento muito grande dos recursos que muitos alunos têm em casa, em comparação com os equipamentos da escola. Também há crises nos modelos de valores, de sociabilidade e de gestão.” (PARENTE, 2010, p. 40-41)
tecnologias, contudo, percebemos que a educação não está acompanhando essas transformações sociais. A escola, de fato, nunca andou no mesmo ritmo das mudanças sócio-históricas e culturais da sociedade e este descompasso torna-se mais evidente a cada dia. Assim, se as próprias estruturas sociais estão sendo modificadas em virtude da presença das tecnologias em nossas atividades cotidianas, a forma de criar e relacionar os conhecimentos e de se pensar a educação também estão sujeitas a mudanças. Apesar disso, podemos observar que,
infelizmente, em que pesem as mudanças sociais, tecnológicas e políticas ocorridas nesta passagem de século e de milênio, não observamos no Brasil, avanços significativos no que diz respeito à mídia-educação e os principais obstáculos a seu desenvolvimento continuam ativos. (BELLONI, 2009, p. 11)
Frente a essas transformações que estão ocorrendo na sociedade, as novas formas de linguagem que surgem em meio aos contextos social e cultural têm transformado a dinâmica das relações sociais e, consequentemente, influenciam o processo educacional. Desse modo, muitos se questionam sobre a importância das tecnologias para a educação e sua influência na educação formal, já que vêm modificando as maneiras tradicionais de comunicar, ler, pensar e, sobretudo, produzir conhecimento.
O que percebemos atualmente é que as relações de ensino- aprendizagem escolares desconsideram os aspectos culturais, o diverso, as experiências e, principalmente, a linguagem própria dos grupos de estudantes. “Presa a ritos e padrões, fechou-se para as transformações sociais que ocorrem no contexto onde está inserida, de forma que hoje se observa uma distância muito grande entre o mundo da escola e o mundo fora dela.” (BONILLA, 2009, p. 33-34)
Além do mais, um dos grandes problemas com o qual nos deparamos atualmente é uma gama de educadores que não foram preparados para elaborar uma ação educativa na qual as tecnologias sejam integradas e
debater sobre essa temática e sua influência na sociedade. No mundo contemporâneo é inadmissível que esse tipo de conhecimento, que faz parte do nosso contexto social e cultural, não faça parte das nossas salas de aula, local onde na maioria das vezes está presente apenas a linguagem do professor e dos livros didáticos.
Assim, este estudo justifica-se pela necessidade de refletir-se sobre dois aspectos fundamentais para que as possibilidades proporcionadas pelas tecnologias sejam exploradas na educação: o quem irá utilizá-las (os professores) e o como serão utilizadas (abordagem de ensino a ser empregada). A emergência das transformações sociais, que afetam os diversos âmbitos da atividade humana e perpassam as salas de aula, exige concepções e práticas educativas que contribuam significativamente para uma educação que atenda os anseios das sociedades modernas.
Transformações na educação mais cedo ou mais tarde acontecerão – em que tempo? Isso em grande parte depende de nós, agentes responsáveis por “pensar” e “fazer” a educação –, e iremos observar a educação de hoje do mesmo ponto de vista que observamos, hoje, a Educação Colonial, a Educação Tradicional, a Educação Tecnicista, que procuravam atender às necessidades, às preocupações e às inquietações dasociedade na época em que foram pensadas.
A educação deve ser reflexivamente revolucionária para que possa discutir a emergência dessas novas características culturais e sociais, conhecer suas origens e redefini-las, se necessário, para atingir os fins a que se propõe.
Precisamos, portanto, analisar a educação tendo em vista sua complexidade, considerando que esta atravessou reformas e revisões a cada período histórico em busca de melhorias para o processo ensino- aprendizagem. Assim, a nosso ver, a educação baseada em uma abordagem tradicional, como vemos hoje em muitas escolas, não se adéqua à sociedade contemporânea, época em que se discute questões como identidade, diversidade, interdisciplinaridade, inclusão, mídias, dentre outras.
Para que uma transformação na educação ocorra, incitada pela nossa sociedade tecnológica, é preciso haver a integração de todas as instâncias responsáveis pela educação em um mesmo sentido pela busca dessa reforma educativa, desde as instâncias governamentais, responsáveis pelas políticas públicas de educação, até os professores, responsáveis finais pelas práticas escolares.
A responsabilidade por essa transformação em geral recaem sobre os professores, os que efetivamente realizam o processo educativo. Sim, é verdade que os professores necessitam perceber a relevância das tecnologias presentes em nossa sociedade, de forma a ampliar sua visão de mundo, quebrando as barreiras das salas de aulas. Entretanto, as diferentes tecnologias e suas linguagens adentram as escolas sem que os professores tivessem sido preparados para recebê-las e utilizá-las em sua prática pedagógica, sem a adoção de medidas que assegurem a adequada presença das tecnologias nas escolas. É por esse motivo que a resistência ainda existe, apesar de muito já se ter caminhado e avançado nesse campo. Percebemos, portanto, que “a chave para a transformação não se encontra apenas na figura do professor. O professor, sozinho, não consegue vencer as barreiras postas pelo instituído.” (BONILLA, 2009, p. 38)