Nossa vida é feita por caminhos e descaminhos. Às vezes precisamos nos perder para achar nosso rumo. E muitas vezes não temos mapas para nos guiar, então, é necessário fazermos nossos próprios mapas.
A história dos descobrimentos demonstra o esforço milenar para conhecer o lugar onde vivemos, são testemunhos de aventura que revelam o desejo do homem de conhecer sempre mais, de desbravar novos mares e novos mundos.
Na jornada acadêmica não poderia ser diferente, sempre estamos determinados a abrir uma rota ainda não trilhada. Por vezes enveredamo-nos por tortuosos caminhos, entretanto, assim como nas antigas navegações, nas quais as experiências adquiridas nas viagens realizadas aperfeiçoavam as ciências náuticas, a vida acadêmica também possui seus descaminhos que contribuem para a construção do conhecimento.
Este estudo trilhou vários caminhos, seguiu por diferentes direções, porém as experiências adquiridas ao longo desse percurso, apesar de terem demandado tempo, possibilitaram que fossem abertos novos caminhos e apontaram o rumo pelo qual optamos seguir.
Sim, perdemo-nos em meio aos descaminhos do processo de elaboração da tese, contudo, foi necessário para que pudéssemos explorar inúmeras possibilidades de estudo do campo Educação, Tecnologia e Comunicação. Ao longo de nossa jornada, tínhamos em mente nosso ponto de partida: refletir sobre a elaboração e desenvolvimento de ações e práticas educativas com as tecnologias.
A partir desse ponto, percorremos diversos campos do saber, o que nos possibilitou explorar diferentes formas de abordagem do tema. Nessa jornada de estudos, de idas e vindas, dialogamos com professores e estudantes, e nesse intercâmbio de experiências começamos a encontrar nosso caminho.
Observamos que a necessidade e a importância de preparação dos professores para explorar as tecnologias na educação também são percebidas por estudantes que estão cursando a formação inicial para a docência. Em uma breve pesquisa realizada com 18 estudantes4 da graduação que cursaram a disciplina Tópicos Especiais em Tecnologia Educacional5, no 2° semestre de 2010, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília – UnB, verificamos que os futuros docentes compreendiam bem o anseio dos estudantes, das escolas em que iriam lecionar ou que já lecionavam, em utilizar as tecnologias. Os próprios graduandos entrevistados relataram que nos dias atuais é muito fácil que os professores em formação já tenham conhecimentos mínimos sobre as tecnologias, diferentemente de alguns professores que já estão nas escolas, pois estes não tiveram contato com as tecnologias em sua formação inicial para a docência, sendo necessário que lhes seja oferecida uma formação complementar.
Todavia, os participantes também relataram que saber utilizar as tecnologias em atividades cotidianas não quer dizer que os professores saibam extrair desses meios suas qualidades para uso educacional. Durante a pesquisa, metade dos estudantes afirmou que já havia participado de alguma disciplina, congresso, palestra ou outra atividade que discutisse temas sobre Comunicação, Educação e Tecnologias, mas quando questionados sobre a abordagem metodológica que seria utilizada na disciplina Tópicos Especiais em Tecnologia Educacional, apenas 4 estudantes afirmaram que já haviam estudado sobre o tema.
Nessa disciplina, trabalhamos com a abordagem Hipertextual das narrativas
4 Total de estudantes frequentes que participaram da pesquisa, sendo 06 (seis) homens e 12 (doze) mulheres, com faixa etária entre 17 e 32 anos. Os participantes cursavam os seguintes cursos de graduação: Biblioteconomia, Letras, Matemática, Pedagogia. Semestre que os estudantes pesquisados cursavam: 2° ao 9° semestre. 5 Com o apoio da professora da disciplina, Dr.a Ângela A. Correia Dias, participei de todas as aulas e fiz uma espécie de Estágio Docente, com o objetivo de realizar uma pesquisa piloto ao longo do semestre. Assim, tive a oportunidade de rever o rumo proposto inicialmente para a tese, a fim de tentar abarcar melhor as dúvidas e angústias apresentadas pelos participantes ao depararem- se com a temática Educação, Tecnologias e Comunicação.
midiáticas. Inicialmente, tínhamos a ideia de fazer um contraponto com os Mapas Conceituais6, trabalhando em paralelo essas duas formas de
organização do conhecimento no curso de formação dos professores. No entanto, percebemos que os estudantes não se interessaram muito por essa questão comparativa e depositaram suas maiores dúvidas em como explorar as tecnologias na prática docente. Dessa forma, passamos a focar na reflexão de como poderia ser a formação de professores, para a realização de práticas educativas com as tecnologias, e a abordagem metodológica de ensino, voltada para o processo educativo mediado pelas tecnologias.
Esse interesse dos estudantes deve-se ao fato de 07 participantes já atuarem na área educacional, sendo que 02 entrevistados cursavam Matemática e 05 entrevistados cursavam Pedagogia. A seguir, podemos ver as características desses professores:
• Tipo de estabelecimento em que lecionam: - Público: 2 estudantes
- Privado: 3 estudantes
- Público e Privado: 2 estudantes • Tempo de atuação que possuem:
- Menos de 1 ano: 2 estudantes - 1 ano: 2 estudantes
- 2 anos: 1 estudante - 3 anos: 2 estudantes • Etapa de Ensino em que atuam:
- Educação Infantil: 2 estudantes - Ensino Fundamental: 2 estudantes - Ensino Médio: 3 estudantes
- Educação de Jovens e Adultos: 1 estudante - Outros: Educação Alternativa: 1 estudante
6 “O ‘mapa conceitual’ é uma técnica criada por Joseph D. Novak, que o apresenta como ‘estratégia’, ‘método’ e ‘recurso esquemático’.” Trata- se de uma “projeção prática da teoria da aprendizagem de Ausubel.” (PEÑA, 2005, p. 39- 40) O mapa conceitual apresenta-se como uma estrutura de proposições, por isso começamos a analisá-lo como uma foto, um recorte de um certo lugar e um dado momento de visualização do hipertexto, uma vez que os mapas conceituais são representações do conhecimento de modo estático, enquanto o hipertexto está em constante movimento.
Propomos como trabalho final da disciplina a elaboração de uma reflexão sobre as possibilidades das tecnologias para a educação, tendo como ponto de partida as leituras, as discussões e as atividades realizadas ao longo do semestre. Cada estudante pôde escolher uma temática de sua preferência no campo da educação, entretanto, orientamos que escolhessem temas de sua área de atuação, ou de estudo em pesquisas, ou de seu trabalho final de curso. A proposta era que refletissem sobre as potencialidades das tecnologias para o campo de estudo escolhido à luz da teoria estudada. Solicitamos que se posicionassem criticamente quanto à prática docente e à abordagem da temática escolhida.
Surgiram trabalhos muito interessantes, os estudantes demonstraram grande interesse na realização da atividade, o que transpareceu na diversidade das temáticas apresentadas. Em seus trabalhos finais, os estudantes souberam explorar bem os conhecimentos que aprenderam. Recebemos desde trabalhos com leiautes diferenciados até planos de aula, nos quais os estudantes apresentavam modos de como trabalhar a temática escolhida mediada pelas tecnologias. Outros estudantes analisaram a própria postura docente frente aos avanços das Tecnologias de Informação e Comunicação. Também recebemos trabalhos voltados para a Educação a Distância e para temas do dia-a-dia escolar, como a adoção de ações de prevenção da violência nas escolas por meio das tecnologias.
Os participantes também ressaltaram a necessidade de participarem de um trabalho mais prático com as mídias em sua formação. Em uma autoanálise e autocrítica, percebemos por meio das falas dos estudantes que as disciplinas, incluindo a que ofertamos, são pautadas apenas em explicações, debates e atividades teóricas, faltando talvez maior articulação entre a teoria e a prática educativa.
Consequentemente, a partir desses apontamentos, reformulamos os rumos desta tese com o objetivo de abordar as duas grandes problemáticas apresentadas na pesquisa pelos professores em formação, e que, ao mesmo tempo, já estão atuando nas salas de aula: a necessidade de uma formação
docente interconectada com as transformações sociais incitadas pelas tecnologias e a necessidade de reformulação das práticas de ensino- aprendizagem, a fim de que tenhamos uma abordagem educativa que explore, de forma crítica, as potencialidades comunicacionais das tecnologias para a educação.