Passados 28 anos da criação do Partido dos Trabalhadores, os intelectuais estão reclusos, submersos e “silenciosos”. O “mal” que se abate sobre os que são partidários do petismo é o mesmo que se manifesta em outras organizações políticas de diferentes filiações ideológicas. Não é nova e, no Brasil, vem sendo discutida, pelo menos, desde o início dos anos 2000.
Vários fatores são apontados como justificativa para o recolhimento dos intelectuais. Entre eles, o domínio da indústria cultural pela mídia, o pragmatismo e ceticismo em relação à política, a submissão do trabalho à demanda política e o neoliberalismo. Parafraseando Fredric Jameson, o sociólogo Francisco de Oliveira afirma que, neste capitalismo cultural, “os intelectuais são descartáveis”. “Nos cursos oferecidos hoje pelas universidades, em que lugar está Anísio Teixeira? Onde se ensina, nas ciências sociais, o pensamento de Florestan Fernandes? Estes intelectuais não estão sendo varridos, na velha metáfora, ‘para baixo do tapete’; estão sendo expulsos do pensamento universitário” (OLIVEIRA, 2003, p. 64-65).
Oliveira observa que, no Brasil, a relação entre intelectuais, conhecimento e espaço público foi diluída. Os intelectuais estão sendo substituídos por comunicadores, que oferecem informação no lugar de conhecimento. A informação, por sua vez, é utilizada como mercadoria, que recusa a diferença, o diverso e o plural. Ela é lançada ao público inúmeras vezes, mas não colabora para ampliar o conhecimento sobre o assunto.
Trata-se de um “movimento mimético, que repete, repete, repete e não aprofunda em nada o conhecimento”, pois faltam interlocução e interatividade na comunicação. O sociólogo considera que o tema deveria preocupar os que militam “nas ciências do homem, nas ciências sociais, na educação” porque estas áreas são as mais atingidas pela massificação da indústria cultural (op.cit. p. 64).
As presenças da indústria cultural e da mídia na formação da cultura nacional cresceram ao longo do século XX. Neste período, os intelectuais aderiram à hegemonia da
cultura intimista. Isto é: utilizando uma expressão de Thomas Mann, Carlos Nelson Coutinho tachou de “intimismo à sombra do poder” o fato de os intelectuais terem certa liberdade para buscar seus caminhos, desde que não contestem o poder, suas relações e a estrutura da sociedade.
Os anos 1990, época em que o neoliberalismo ganhou força e fôlego, são apontados como marco da despolitização intelectual. Coutinho avalia que a hegemonia neoliberal inibiu o crescimento de uma arte nacional-popular que surgiu nos anos 1960, mostrou-se viva no período de ditadura militar e reapareceu no final dos anos 1970 e em parte da década de 1980. Os intelectuais estreitaram suas relações com o poder, o que levou à alienação e à falta de compromisso político com a cultura brasileira.
O autor considera que, atualmente, os intelectuais se recolheram nas universidades e abandonaram sua “responsabilidade social”. Mas ainda há os que travam um combate solitário: “[Estes] têm tudo para se reagregar e voltar a desempenhar um papel muito bem definido por Gramsci: o intelectual deve se empenhar na organização da sociedade e lutar pela hegemonia política e ideológica do bloco de classes com o qual se identifica” (COUTINHO, 2004. p. 330).
A metamorfose petista também começou nos anos 1990. Nesta década, o partido criou uma importante estrutura administrativa, profissionalizou-se, redefiniu suas metas e objetivos estratégicos, ficou mais flexível e pragmático. Para Florestan Fernandes, o PT avançou mais na direção dos partidos burgueses do que nos que seguiram modelos proletários e socialistas.
Na relação entre candidatos socialistas não deve prevalecer a disputa pelo voto. Dentro do PT, está crescendo uma técnica eleitoral competitiva. O objetivo pessoal de vencer eleitoralmente prepondera sobre a ideologia, a política, a cooperação entre companheiros. O companheirismo deve ser a regra fundamental entre pessoas que participam de tendências socialistas. O individualismo e a própria competição são símbolos fortes da sociedade capitalista. O que deve estar em primeiro lugar é a vitória do PT e não a eleição de determinado candidato. Mas é claro que quando um partido socialista escolhe a via parlamentar ele escolhe também a via eleitoral. E ambas as coisas deterioram um pouco o processo de identificação com o socialismo, porque a pessoa acaba sendo apanhada pelo umbigo por relações de classe burguesas (apud VENCESLAU, 1991).
A transformação também ocorreu no plano ideológico. Ao priorizar as campanhas eleitorais, o partido deu uma guinada para o centro, ampliou o leque de alianças e incluiu nelas partidos e personagens políticos que eram considerados adversários históricos. Todos
estes fatores, e mais a perda de influência política na legenda, deixaram muitos intelectuais insatisfeitos.
Nos anos 2000, questionava-se o pensamento único e a inércia que se abatiam sobre os intelectuais. Some-se a isto o fato de que os ecos da queda do Muro de Berlim, em 1989, e do fracasso do regime socialista no leste europeu ainda eram ouvidos nas disputas eleitorais. Havia muita dúvida, até mesmo dentro do PT, em relação ao futuro do socialismo. Os petistas resolveram, então, “despertar a criatividade e reanimar o ímpeto” da esquerda, que, naquele momento, havia cedido aos “aos vícios do acomodamento e ao apego à rotina”. Queriam, especialmente, discutir o socialismo petista: o significado, como implantá-lo e a estratégia para transformar o país 7.
Por solicitação de Lula, na época presidente de honra do PT, Antonio Candido, Paul Singer, Francisco de Oliveira e Paulo Vannuchi planejaram os seminários “Socialismo e Democracia”. Foram realizados seis eventos em 2000 e dois outros no ano seguinte. A organização ficou a cargo da Fundação Perseu Abramo, Instituto da Cidadania e Secretaria Nacional de Formação do partido.
As mesas eram compostas por expositores e comentadores que pertenciam a diferentes correntes de pensamento: Marilena Chauí, Carlos Nelson Coutinho e Marco Aurélio Garcia (Socialismo no ano 2000); Paul Singer e João Machado (Economia socialista); Leandro Konder, Frei Betto e Lula (O indivíduo no socialismo); Tarso Genro, Edmilson Rodrigues e José Dirceu (Instituições Políticas no socialismo); Francisco de Oliveira, João Pedro Stedile e José Genoino (Classes sociais em mudança e a luta pelo socialismo); Maria da Conceição Tavares, Eduardo Jorge e Emir Sader (Globalização e Socialismo), entre outros. Cerca de 100 pessoas participaram de cada um dos seminários. Eles eram do PT, da CUT, parlamentares, lideranças de movimentos populares, representantes de ONGs, intelectuais, estudantes e convidados.
No dia 08 de maio de 2000, Lula não estava no plenário onde acontecia o debate sobre “O indivíduo no socialismo”, mas deixou nas mãos de Paulo Vannuchi, na época seu assessor, duas perguntas e uma afirmação. A afirmação era a seguinte: “É preciso pensar o socialismo como uma sociedade em que as pessoas possam ter suas ambições, e não como um voto de pobreza” (KONDER, 2000, p. 37).
7 As informações estão contidas na apresentação de Luiz Inácio Lula da Silva nos livros da série Socialismo em
Sua “fala” deixou claro que parte do PT não estava disposta a aceitar um modelo que fosse próximo do que foi implantado em Cuba, China ou na extinta União Soviética, marcado por rupturas e contradições. Especialmente, nas “vésperas” da eleição presidencial, quando o partido tinha chances de vitória, Lula queria um modelo de socialismo que, entre outras coisas, garantisse o direito dos cidadãos de crescer individualmente.
Na plenária havia um certo consenso em torno da importância de o PT forjar um novo modelo a ser seguido:
Diante da total falência e da inoperância dos “sovietes”, parece imprudente partir dessa instituição política da democracia direta para pensar um novo Estado (GENRO, 2001, p. 9).
O caminho que se apresenta como o mais adequado aos nossos ideais passa por um processo complicado e por uma política que, sem pretender desde logo eliminar o mercado, seja capaz de lhe impor limites e influir sobre ele, tratando de proteger a sociedade (KONDER, 2000, p. 13).
A nação, a ordem democrática ou o socialismo só podem ser construídos no acumulo das experiências adquiridas na luta pela ampliação e pela participação das representações populares na administração do poder político e social em todos os níveis (TAVARES, 2001, p. 25).
O partido precisava de um novo discurso, pois a oposição tentava mostrar que o fracasso social, político e econômico das nações do Leste Europeu seriam replicados no Brasil, caso o PT vencesse as eleições. O partido queria uma alternativa que não provocasse rupturas nem revoluções. Isto ficou claro nas defesas de José Dirceu, na época presidente nacional do partido, e do filósofo Leandro Konder. Diante da inexistência de um socialismo implantado por vias eleitorais, outros “companheiros” manifestaram suas dúvidas:
Quem quiser construir instituições democráticas socialista num espaço nacional terá que controlar o capital na forma como ele existe, como capital financeiro, capital estocado, capital para investimento, capital para especulação (...). E terá que controlar de maneira democrática, porque, de outra forma, a sociedade não vai aceitar (JOSÉ DIRCEU, 2001, p. 54). As experiências já realizadas e os problemas que nelas se manifestaram indicam que não é recomendável identificar o socialismo com uma “explosão” revolucionária que se disponha a suprimir o mercado (KONDER, 2000, p.12).
Revolução não é sinônimo de luta armada e violências; como não necessariamente “reformismo” é sinônimo de pacifismo (...) devemos pensar a possibilidade de ruptura com a sociedade atual. Mas não temos o direito de achar que seja possível definir data para “tomar de assalto” o Palácio do Planalto (RODRIGUES, apud GENRO 2001, p.47).
Dirceu (2001, p. 31-32) acrescentou que o PT já tinha seu próprio modelo de socialismo. Na plenária, ele leu o texto aprovado nas “Resoluções” do I Congresso. Abaixo, segue um trecho:
Para o PT, o socialismo é sinônimo de radicalização da democracia. Isto quer dizer que a concepção de socialismo do PT é substancialmente distinta de tudo que, enquanto concepção, vimos concretizado em todos os países do chamado socialismo real. Mais do que mera afirmação retórica de uma idéia, esse compromisso democrático pretende concretizar-se em todas as dimensões do Partido. Dizer isso implica recusar todo e qualquer tipo de ditadura, inclusive a ditadura do proletariado, que não pode ser outra coisa senão a ditadura do partido único. (...) A concepção de socialismo do PT nega tanto a ideologia do livre mercado, que conduz à concentração de riqueza e do poder e produz a marginalidade social, como a ideologia do estatismo, típica do socialismo real. (...) o PT recusa a perspectiva voluntarista de pretender abolir o mercado, como espaço social de troca, por decreto. O mercado, sob controle do planejamento democrático estratégico e orientado socialmente, é compatível com nossa concepção de construção do socialismo.
Os seminários eram recheados de teorias e “abstração”, como reconheceu Konder. Nas intervenções, os militantes demonstraram insatisfação em relação ao excesso de teorias e, também, com a possibilidade de o PT se tornar um partido “sem pés”, distante da militância e dos movimentos sociais. No espaço reservado para o debate, houve críticas e defesas.
As duas exposições [Leandro Konder e Frei Betto] foram brilhantes, mas parece tudo tão distante que fiquei pensando: será que essa palestra me ajuda a lutar mais pelo socialismo? (CHARF, apud KONDER 2000, p. 42).
(...) queria dizer que também precisamos destes momentos que pontuam a nossa ação por meio de uma reflexão, de uma abstração teórica. A teoria não tem uso imediato e, para ser boa, não deve ter uso imediato, porque tem outro tipo de uso, um uso estratégico (KONDER, 2000, p. 43).
Após 1989 (...) o PT se encantou com a possibilidade de ganhar as eleições e esqueceu de fazer o trabalho de base. Deixamos totalmente este trabalho de
lado, os debates comunitários, debates como estes que estão sendo feitos aqui, enfim, o partido perdeu sua força (CÉSAR, apud GENRO 2001, p. 38). Essa visão de um partido idílico, cujos dirigentes voltam-se para as bases, como ele propõe, não é uma visão de partido moderno (...). O partido do socialismo, do novo projeto socialista (…) é voltada para o Estado, a política, as instituições, a totalidade econômico-social (GENRO, 2001, p.43).
Não voltaremos a ser o PT de 1989, porque não existe o Brasil de 1989, nem a ascensão social do Brasil de 1989, ou as condições para o próprio PT repetir aquilo (DIRCEU, apud GENRO 2001, p. 54).
A importância de se realizar seminários como “Socialismo e Democracia” é indiscutível. As transformações ocorridas na sociedade mostram que é preciso repensar o papel do intelectual contemporâneo, sua função pública e formas que viabilizem seu resgate da “torre de marfim”. No ambiente intelectual brasileiro existe uma movimentação em torno deste assunto.
Em 2005, o ciclo de debates “Silêncio dos Intelectuais” tinha este objetivo. Os seminários, planejados por Adauto Novaes e Marilena Chauí, entre outros, foi pensado ainda em 2004, num momento em que um grupo de intelectuais brasileiros se preparava para participar de um seminário, nos Estados Unidos, sobre o enclausuramento dos intelectuais nas universidades, e outros iniciavam os preparativos para a comemoração do centenário de Sartre, símbolo do engajamento político dos intelectuais 8.
As conferências, bem como a definição dos palestrantes e composição das mesas, foram organizadas em 2004. Mas, por coincidência, o ciclo de debates iniciou em agosto de 2005, quando fervilhavam as discussões públicas nas comissões parlamentares de inquérito (CPIs) em torno da denúncia do deputado federal Roberto Jefferson (PTB) de que o governo petista teria organizado um esquema de pagamento mensal a parlamentares para garantir maioria no Congresso Nacional.
Essa coincidência teve três efeitos: 1) Divulgação, pela mídia, de que os seminários iriam discutir o silêncio dos intelectuais petistas diante do caso “mensalão” 9, 2) Defesa do
8 Alguns detalhes sobre o planejamento do ciclo de debates Silêncio dos Intelectuais estão disponíveis na integra
no site <http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u72595.shtml>.
9 Sobre as críticas ao silêncio dos intelectuais petistas, ver editorial “O silêncio dos inocentes”, publicado na
recolhimento dos intelectuais, por petistas, sob alegação de que falar sobre tudo, a todo momento, é irresponsabilidade e 3) Desabafo de intelectuais petistas pelo fato de o grupo ter sido escanteado pelo governo Lula e perdido influência política dentro do PT.
A abertura do primeiro ciclo foi feita por Marilena Chauí. A filósofa, que vinha enfrentado cobrança da mídia por não ter se pronunciado sobre a crise de 2005 (mensalão, caso Waldomiro, “valerioduto” etc), respondeu aos ataques desferidos por meio da exposição “Intelectual engajado, figura em extinção?”. O texto foi embasado em Merleau-Ponty, filósofo que faz um contraponto a Jean-Paul Sartre na questão sobre recolhimento e engajamento intelectual.
Chauí (2007) argumentou que o silêncio não deve ser necessariamente encarado como um defeito, pois calar pode significar, apenas, que alguém não tem o que dizer sobre um determinado assunto. E afirmou ainda: “manifestar-se sobre tudo e ter opinião sobre tudo, mudar de atitude conforme mudam os ventos, abandonar a obra já escrita, desdizendo-a e desdizendo-se, é irresponsabilidade, não é liberdade. Isso significa que, muitas vezes, o verdadeiro engajamento exige que fiquemos em silêncio”.
Uma semana depois, foi a vez de Francisco de Oliveira fazer uma exposição no seminário. Suas divergências em relação à mutação do PT foram, mais uma vez, levadas a público. Na palestra “No silêncio do pensamento único: intelectuais, marxismo e política”, o sociólogo apontou transformações do PT, afirmou que o partido sucumbiu diante do capitalismo e lamentou o fato de a legenda ter optado por usar os intelectuais apenas como “ornamento”, como fazia o antigo PCB. A última fala do seu discurso – “um ‘amor sem uso’ fenece” – soou como o lamento por ter deixado o partido que ajudou a construir.
Ser engajado e, ao mesmo tempo, crítico é uma aventura conflitante. O engajamento político inibe a capacidade crítica e cala a voz de inúmeros intelectuais, que não conseguem se lançar contra o grupo dominante ao qual pertencem. Como observou Coutinho, há exceções e Francisco de Oliveira é uma delas. O sociólogo trava um combate, às vezes solitário, em defesa do que acredita. Marilena Chauí, por sua vez, pertence à categoria do que Gramsci chamou de grandes intelectuais, responsáveis pela elaboração de novas teorias e ciências. Talvez pela notoriedade conquistada, ela tenha sido alvo das cobranças da mídia durante a crise de 2005 por ter, supostamente, silenciado diante das denúncias.
Em seu próprio tempo, Chauí falou. Ela disse considerar que a crise política de 2005 poderia ter sido evitada, se o governo Lula tivesse feito uma devassa na administração de
Fernando Henrique Cardoso e optado por uma ruptura com o poder econômico, em vez iniciar o seu governo fazendo uma transição no “bolo de noiva”. [nome do local onde se instalou a equipe de transição do governo Lula]. Para a filósofa, parte do problema deve ser atribuído à base petista, à militância e aos dirigentes dos núcleos, que deixaram acontecer a crise.
Nós não tivemos uma verdadeira discussão, uma verdadeira luta e um verdadeiro conflito dentro do partido, para que isso não fosse vitorioso. A gente foi se acomodando e deixando acontecer e achando que coisas importantes poderiam ser feitas à margem da estrutura partidária. Sem levarmos em conta que ao fazer isso estávamos mais uma vez repetindo duas histórias péssimas: a história dos partidos comunistas e a história dos partidos políticos do Brasil, em que o partido é uma máquina que funciona para determinados fins e a política verdadeira, transformadora, se dá fora dele (CHAUÍ, 2007).