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O Partido dos Trabalhadores já elegeu candidatos para comandar as principais capitais, administrar importantes estados e governar, por duas vezes, o Brasil. Mas o bom desempenho nas urnas não pode ser atribuído à sua capacidade de se comunicar com a militância ou com a

sociedade. O PT, como a própria direção admite no seu site, comunica-se mal e precisa adotar medidas para construção de uma política de comunicação compatível com a sua força e expressão política.

O PT nunca desenvolveu uma política de comunicação capaz de estimular e disseminar o debate, unificar a ação, promover a troca de informações entre as instâncias partidárias e dar as diretrizes gerais para a disputa de projetos na sociedade. No plano externo, o PT não construiu seus próprios meios de comunicação nem se articulou de maneira efetiva com aqueles de caráter alternativo, ficando refém do contato com a sociedade por meio das grandes empresas da mídia comercial. Essa falta de articulação está na base de muitos dos problemas enfrentados pelo PT (PARTIDO..., 2008).

O Governo Lula também padece desse mal. Desde que assumiu o Palácio do Planalto, em 2003, ele já enfrentou diferentes turbulências e, em vários momentos, a equipe que gerenciou as crises não obteve um resultado satisfatório. É possível recordar, por exemplo, de um caso emblemático que marcou o segundo ano do governo Lula. Em maio de 2004, o jornalista Larry Rohter, do The New York Times (NYT), ficou famoso ao escrever a reportagem “Hábito de beber do presidente vira preocupação nacional”. No texto, ele dizia que o presidente tinha dificuldades para exercer o cargo por causa de problemas com o álcool. A matéria foi destaque nos jornais do Brasil e do mundo.

O governo reagiu à reportagem, cancelou o visto do americano e o impediu, temporariamente, de permanecer no Brasil. Larry Rohter só não foi expulso porque, naquele momento, não estava no país. O jornal The New York Times recorreu da decisão e o caso foi parar no Superior Tribunal de Justiça. O STJ considerou que a questão poderia ser resolvida com uma retratação (STJ...2008).

Na época, a mídia atribuiu ao então secretário de Comunicação do governo, Luiz Gushiken, o desfecho ruim desta história para o governo. Gushiken, além de ter apoiado o cancelamento do visto de Rohter, ficou incumbido de negociar com o jornal uma retratação. Como o Gushiken não conseguiu avançar, as negociações com o jornal americano saíram da alçada da Comunicação e passaram para as mãos do ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos.

Os jornais brasileiros, mesmo discordando do texto do americano, chamaram de autoritária e prepotente a forma como o governo Lula tentou resolveu a questão. Abaixo,

seguem trechos dos textos publicados nas colunas de Jânio de Freitas (Folha de São Paulo) e Rolf Kuntz (O Estado de São Paulo).

Larry Rohter e o "NYT" foram vítimas da prepotência, quando o governo deveria optar pelo legítimo recurso à Justiça (...)Também não é novidade: é a falta de inteligência de uma decisão tomada ao fim de três dias de apreciações, da noite de sábado ao fim da tarde de terça, quando foi retirado o visto de trabalho do correspondente. Até aquele momento, quem estava mal, com o texto caracterizando Lula como bêbedo, eram Rohter e ‘The New York Times’, (...) A partir do momento em que decidiu pela expulsão do correspondente, o governo fez a inversão: Rohter e o ‘NYT’ tornaram-se, perante a opinião pública internacional, as vítimas (FREITAS, 2008).

Só uma incompetência fora do comum transformaria uma reportagem sem novidades num problema de Estado e numa encrenca política de repercussão internacional. (...) o presidente Lula tem mostrado lucidez suficiente para resistir às pressões da turma do calote e do vamos-de-qualquer-jeito, mas insuficiente para se livrar dos assessores e ministros mais desastrados. Tem sido incapaz de perceber que o companheirismo não pode substituir a competência indispensável a um gabinete presidencial. Não é novidade que alguns interlocutores do presidente são pessoas autoritárias e despreparadas para aceitar críticas, perguntas incômodas e o exercício normal do jornalismo (KUNTZ, 2008).

Para o PT, a mídia faz uma cobertura ofensiva. Isto também pode ser percebido em outros momentos, a exemplo da crise de 2005 e nas eleições de 2006. O formato adotado pela mídia na cobertura do Planalto e dos ministérios seria apenas a “face mais visível do grande poder que possuem hoje os grupos empresariais que os controlam e da importância da mídia na disputa de hegemonia na sociedade, dado seu alcance na formação de valores e opiniões” (PARTIDO..., 2008).

É fato que a comunicação do partido tem dificuldade para minimizar os impactos da cobertura da mídia convencional, pois faltam, entre outras coisas, investimentos e pessoal qualificado alocados nesta área. A situação ficou ainda mais complicada depois da crise político-financeira de 2005. As denúncias de Roberto Jefferson sobre o “mensalão” deixaram os cofres do partido vazios e os credores à porta do PT. Resultado: o jornal PT Notícias deixou de circular, houve demissão na Secretaria Nacional de Comunicação e o partido foi levado a acompanhar a tendência de investir na divulgação pela internet (PARTIDO..., 2008).

Até 2007, a comunicação do PT continuava desestruturada, como revelam os dados abaixo:

Quinze dos 27 diretórios estaduais tinham páginas eletrônicas. Elas foram construídas a partir de iniciativas isoladas, sem apoio ou acompanhamento do Diretório Nacional e sem planejamento estratégico comum;

Três dos 27 diretórios tinham secretários de comunicação dedicados integralmente à área;

Em 12 diretórios não tinha nenhum funcionário para ajudar nos trabalhos da Comunicação e, em 13, havia um único funcionário. Somente Minas Gerais e São Paulo dispunham de dois profissionais;

Em seis estados, os jornalistas trabalhavam em tempo integral e, em dois, a jornadas era parcial. Em outros seis diretórios havia colaboradores eventuais e em 12 não há profissionais da área na Comunicação. No Piauí, cujo governador é do PT, o trabalho era feito por uma empresa terceirizada (PARTIDO..., 2008).

Para o tamanho do PT, a mídia partidária é reduzida. Até março de 2008, não havia produção de boletim impresso em 22 dos 27 diretórios. Existe uma revista mensal em São Paulo, um boletim mensal em Santa Catarina, um trimestral na Bahia e um semestral no Pará. Eventualmente, o Piauí produz um boletim impresso. A divulgação de noticias, quando acontece, é feita por meio eletrônico. Mesmo assim, somente doze regionais possuíam sites atualizados e apenas três enviam boletins eletrônicos (PARTIDO..., 2008).

Pelos dados coletados é possível afirmar que a comunicação do PT é disforme e desarticulada. Certamente, a pluralidade de ideologias dentro do partido dificulta a homogeneização das ações e o estabelecimento de diretrizes de comunicação. Mas a fragmentação no nível em que revelaram as pesquisas é um solo fértil ao ruído e dificulta o gerenciamento de crises, como ocorreu em 2005, pois falta a “correia de transmissão” para levar as mensagens-chave do partido à militância e à sociedade.

Vale lembrar que algumas tendências possuem seu próprio meio de comunicação por meio da qual se comunicam com a militância. Segundo informações levantadas na FPA e na comunicação do PT, não há dados compilados sobre eles 10.

10 Pelas informações coletadas na Fundação Perseu Abramo, a tendência O Trabalho possui jornal e boletim

eletrônico com o mesmo nome, além da revista A Verdade. A Democracia Socialista possui um boletim eletrônico e edita o jornal Em Tempo. A Articulação de Esquerda tem um jornal com o mesmo nome e a Luta de Classe (antigo Trabalho e Maioria, dissidência de O Trabalho) elabora um jornal e revista com o mesmo nome. Há, ainda, o jornal Frente Operária Posadista, cuja tendência tem o mesmo nome. Já a corrente Campo Majoritário não tem uma mídia própria.

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