Em relação aos tectos, ir-se-ão abordar sobretudo as duas principais tipologias, que consistem em tectos de fasquiado de madeira trapezoidal e tectos executados em estafe. Apesar destes processos construtivos terem sido utilizados em períodos temporais diferentes, e de os estucadores entrevistados apenas terem conhecido e trabalhado extensamente o estafe, estas duas tipologias coincidem também com as analisadas no estudo de caso desta dissertação, apresentado a partir da secção 6.
Analisando a informação recolhida nas entrevistas, conclui-se que a execução dos revestimentos dos tectos pertenciam somente às equipas de estucadores quando deste tipo de suportes se tratava. Se o suporte fosse uma laje com base em betão armado (moldado em obra ou mesmo aligeirada com vigotas), a primeira camada de salpisco já pertencia aos pedreiros.
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4.2.1 Tectos de fasquiado de madeira trapezoidal
A madeira é um material bastante abundante na natureza, surgindo por quase todo o planeta, nas mais variadas formas e dimensões. Desde modo, deste a antiguidade que a sua utilização enquanto material de construção prevaleceu. A sua imensa versatilidade, baixo custo e facilidade em trabalhar constituem a enorme mais-valia do seu uso. Em Portugal, nos edifícios construídos até cerca de 1930, os pavimentos eram executados maioritariamente com recurso à madeira. Por sua vez, os revestimentos de piso e de tecto, eram igualmente feitos com este material, não só como material de acabamento, mas em alternativa como material secundário e inerente a construção dos revestimentos com base em gesso.
No que concerne em particular aos tectos em estuque sobre fasquiado de madeira trapezoidal, o processo iniciava-se com a colocação do fasquiado perpendicularmente à estrutura de madeira, ou seja, um conjunto de fasquias ou estreitas ripas de madeira eram pregadas directamente às vigas do pavimento, paralelas entre si, distanciadas de um a três centímetros. Este espaçamento tinha como finalidade prender a argamassa (Figura 4.2 – (a)). As bases das fasquias possuíam 10-18 milímetros de largura e 12 milímetros de altura. Existia o cuidado de se colocar sempre a base maior voltada para o exterior, para promover uma maior conexão entre as ripas e a argamassa. O tipo de madeira empregue no ripado era correntemente o pinho bravo, mas poderia também ser casquinha ou abeto (Segurado, n.d.). Segundo Silveira et al., (2007), em construções de maior qualidade a madeira do ripado era de pinheiro escocês e era feita uma estrutura independente a um nível inferior ao da estrutura de pavimento.
(a) (b)
Figura 4.2 - Pavimento de madeira: (a) tecto de fasquiado de madeira trapezoidal; (b) argamassa de enchimento por trás do plano superior das fasquias (vista em corte).
Os tectos desta tipologia são muito semelhantes às paredes de tabique, tanto em termos de concepção, como de materiais e forma de execução. Assim, a primeira camada a ser aplicada toma o mesmo nome - camada de enchimento - embora, segundo Segurado, (n.d.), no caso dos tectos se devesse empregar uma argamassa de cal e areia um pouco mais forte, ao traço de 1:1, ou ainda com maior proporção de cal, para maior aderência ao ripado.
No que concerne ao processo de aplicação, esta argamassa seria feita com uma colher de pedreiro, seguidamente depositada sobre uma talocha e depois colocada contra o ripado, exercendo pressão num sentido perpendicular, obrigando deste modo a argamassa a penetrar nos intervalos e a cobrir as fasquias em pelo menos de 2 cm, como se pode constatar na Figura 4.2 - (b) e Figura 4.3. Por sua vez, a argamassa deve exceder a face inferior do ripado em cerca de um centímetro. Finalmente, a camada de enchimento era endireitada com a talocha, com a colher tapavam-se algumas falhas e era, depois, alisada com uma régua (Segurado, n.d.; Silveira et al., 2007).
As etapas que compreendem as fases seguintes são exactamente as mesmas que as descritas nos tópicos 3 e 4 da subsecção 4.1, nomeadamente as camadas de acabamento, ou seja, o esboço e o estuque.
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Na Figura 4.3 apresenta-se um esquema representativo desta tipologia de tectos, onde se encontram definidas as diferentes camadas e respectivas espessuras que constituem esta solução construtiva.
Figura 4.3 - Tecto de ripado trapezoidal de madeira - corte transversal
4.2.2 Tectos de estafe
O designado estafe é essencialmente um composto constituído por gesso, fibras vegetais de sisal e fasquias de madeira. Segundo Segurado, (n.d.), o bom estucador precisa inevitavelmente de saber fazê-lo. Data de 1856 a patente desta invenção, pelo francês Desachy, embora o seu emprego tenha sido observado nos túmulos dos egípcios, datando de pelo menos de 1500 anos antes de Cristo. Por conseguinte, entende-se que a sua utilização no século XIX apenas foi um reaparecimento de um processo abandonado (Füller, n.d.; Segurado, n.d.). Para a construção dos tectos do edifício principal da exposição de Paris de 1878 foi utilizado estafe em painéis que totalizavam 12 m2 e na exposição de Paris de 1889 este material foi utilizado
massivamente (Füller, n.d.; Segurado, n.d.). O estafe possui como grandes qualidades a sua enorme flexibilidade e a baixa massa; assim, tem maior resistência quando comparado com o gesso “não armado” e permite economizar muito material. Em suma, o estafe pode ser considerado a versão de um gesso armado. Seguidamente apresentam-se as etapas do modo de fabrico das placas de estafe, segundo o antigo e único fabricante actual nacional deste material, a empresa Sival (Sival, n.d.).
1. “Numa mesa própria, com tampo de um material não absorvente (metal, pedra, etc.), previamente lubrificado, estende-se o sisal desfiado, para que este fique bem distribuído.”;
2. “Juntam-se as fasquias de madeira, para reforço, tendo o cuidado de as colocar junto à moldura que delimita a placa, e ao centro, transversalmente.” (Figura 4.4 - (a));
3. “Em seguida, vaza-se sobre a mesa uma calda de gesso fluida, acabada de preparar.”;
4. “Espalha-se a calda de gesso pelo molde, até cobrir completamente a mesa. Simultaneamente, faz- se mergulhar o sisal nessa calda e empurram-se as fasquias de madeira para o fundo, envolvendo as da periferia com o sisal que ficou sobre a moldura.”;
5. “Com uma régua, regulariza-se a superfície do gesso, acertando-a pela moldura.” (Figura 4.4 - (b)); 6. “Quando o gesso começa a fazer presa, produzem-se vincos ondulantes na sua superfície usando uma espátula com dentes de serra largos. Este procedimento tem como objectivo melhorar a aderência das massas posteriormente usadas em obra, no acabamento.” (Figura 4.4 - (c));
7. “Após a presa do gesso, retiram-se as placas da mesa e colocam-se em enxugos, ao ar livre, até ficarem completamente secas.”.
Todos os estucadores entrevistados fizeram largo uso deste processo de construção, em especial os mais idosos. As placas de estafe eram compradas nas fábricas que se encontravam a laborar na época, particularmente as empresas Sival e Serafim Ramos. Uma mais-valia relativamente a este material consistia na possibilidade de fabrico pelos próprios estucadores, sempre que tal era necessário, devido à sua facilidade e baixa complexidade de produção.
27 (a)
(c)
(b)
Figura 4.4 - Placas de estafe (Sival, n.d.)
O estafe pode ser pregado ou pendurado, dependendo das condições do tecto a revestir. Na Figura 4.5 apresenta-se um esquema que permite compreender as diferenças entre estes dois métodos.
Figura 4.5 - Esquema das soluções construtivas em estafe
Para a pregagem do estafe eram utilizados pregos de zinco com cabeça chata, porque o zinco, apesar de não ter a mesma resistência de outros materiais, como por exemplo o aço, evitava o efeito nefasto relacionado com a corrosão. A pregagem situava-se sempre nas zonas das ripas de madeira que as placas continham. Em relação à suspensão das placas, ou da estrutura de madeira, esta era conseguida com recurso aos chamados, na gíria da profissão, “chouriços”. Estes elementos tinham como função suportar e fixar as placas, para que o tecto ficasse plano e de nível. Eram constituídos por fios de arame zincado envolvidos em linhadas de sisal impregnadas em gesso, ou seja, os movimentos descendentes eram suportados pelo arame, enquanto os movimentos ascendentes eram suportados pelo sisal e o gesso solidificado. Com este método os tectos ficavam completamente estáticos. A partir desta informação consegue-se compreender que os tectos falsos em gesso cartonado, bastante utilizados actualmente, não são mais do que uma evolução do que antigamente se fazia com os recursos disponíveis.
Após as placas se encontrarem devidamente fixadas (pregadas ou suspensas), iniciava-se a próxima fase. Esta compreendia o refechamento de juntas com estopas de sisal impregnadas em aguadas de gesso:
Estafe
Pregado Placas de menores dimensões (1,0x0,5x0,01 m)
Directamente às vigas estruturais do pavimento de madeira
Pregagem à sub estrutura de madeira, feita a nível inferior ao do
pavimento (Figura 4.6 - (a))
Pendurado Placas de maiores dimensões (1,5x1,0x0,02 m)
Sustentação de delicada estrutura de madeira (neste caso, apenas é pendurada a estrutura de madeira, e
o estafe passa a ser pregado) Sustentação solitária das placas
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começava-se pela preparação de estopas de sisal desfiado, seguidamente impregnavam-se as estopas num recipiente com água e gesso e por fim colocavam-se, com alguma intensidade, contra as juntas, num sentido paralelo a estas, com a ajuda da colher da massa (Figura 4.6 - (b)).
(a)
(b)
Figura 4.6 - (a) Estafe pregado em estrutura de madeira secundária; (b) estopa de sisal para casar na junta (a título representativo).
Quando todo o tecto estava preparado, dava-se início à aplicação das camadas de acabamento referidas no tópico 4 da secção 4.1. Neste caso em concreto, também a camada de esboço era alvo de mudanças, contendo sempre na sua constituição o gesso. O esboço era, assim, constituído por uma argamassa de cal, gesso e areia ao traço volumétrico de 20 litros de cal e areia, para cerca de 2 litros de gesso, consoante as condições do trabalho. As condições de trabalho variavam consoante era Verão ou Inverno; podia “levar” menos ou mais gesso também consoante a hora de trabalho ao longo do dia. Se faltasse pouco tempo para o almoço levava mais gesso que era para “puxar” mais rápido, para os mestres irem almoçar; se era mais espesso ou mais delgado a quantidade de gesso também variava. Seguidamente, era sarrafado e desempenado com recurso a réguas e talochas, e depois era estucado de igual forma como se de outro tecto se tratasse.
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