O fim da sociedade do trabalho vem sendo anunciado insistentemente por vários teóricos que estudam as relações sociais na contemporaneidade. A chamada terceira revolução industrial, vista por muitos como oriunda do desenvolvimento inigualável da microeletrônica e da robótica, com seu respectivo uso no processo de produção, possibilitando a automação quase completa de setores extensos da grande indústria, aponta a possibilidade de essa discussão ser menos estéril do que de soslaio pode parecer. Somado a isso, o ohnismo77, como um conjunto de inovações organizacionais aplicadas à produção, comparada em importância ao que o taylor-fordismo fez na segunda revolução industrial78, vem endossar a tese de profundas transformações no campo produtivo (CORIAT, 1999).
Em nível de organização comercial do planeta, a formação de blocos econômicos mundiais e a financeirização e internacionalização do capital na chamada mundialização (CHESNAIS, 1996) ou globalização (BAUMAN, 1999) dão sua contribuição para a embaçadela que parece atingir a todos, levando a falsa impressão de que estamos vivendo num presente contínuo, induzindo a percepção de que o contemporâneo, inclusive, não responde à rapidez e fugacidade do tempo que é vivido. Por sua vez, o Estado, com seus dirigentes sensíveis demais aos interesses do capital, longe de tentar desvendar o que acontece no mundo do trabalho e suas conseqüências nefastas à classe trabalhadora, que é majoritária numericamente na sociedade, dá sua contribuição para aprofundar o estado de espírito de final de Era, propiciando as reformas trabalhistas, sindicais, universitárias, entre outras, para
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O termo ohnismo vem do mentor do modelo, Taichiro Ohno, engenheiro-chefe da Toyota, que empreendeu uma reengenharia no modo de produzir mercadorias, para superar a crise da empresa capitalista japonesa e aumentar a produção, aproveitando o máximo da capacidade produtiva dos trabalhadores. O primeiro é a autonomação e a auto-ativação, que provocam, de um lado, a desespecialização e a polivalência operária e, de outro, a intensificação do trabalho, que constituem as duas faces de um mesmo e único movimento; e o segundo são o just-in-time e o método kanban que visam eliminar os estoques e aumentar o controle de qualidade, diminuindo o desperdício e operar por demanda. (Ver CORIAT, 1999).
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desobrigá-lo, enxugando a participação estatal na vida da sociedade e deixando que o mercado regule as relações sociais79.
Como se pode ver, a questão não surge do nada nem se produz por maldosos intelectuais pró-capitalistas que desejam que todos fiquem reféns da gana acumulativa do capital, apesar de essa gana acumulativa ter um papel central em parte dos teóricos que vêem a questão como catástrofe. De um lado, essas transformações no campo produtivo, que assolam a sociedade contemporânea, desde a década de 70, ferem de morte a noção fordista de organização capitalista, tendo conseqüências maiúsculas no campo econômico e social. É esse o lastro real da crise. De outro, a produção de discurso limiar ou de fim dos tempos cumpre um papel ideológico importante na justificação de ações que, por sua vez, tornam os discursos válidos e transformam o desejo de crise em crise. Dito de outra forma, o discurso sobre a crise valida a própria crise. Em síntese, pode-se adiantar que, se algumas proposições são fatos, outras são interpretações parciais, interessadas em homogeneizar o quadro, justificar políticas e forjar um novo, que mantenha a (velha) estrutura capitalista hegemônica.
Aproveitando-se de alguns desses fatos, como catástrofe ou como redenção ou, às vezes, como os dois ao mesmo tempo, o fim da centralidade do trabalho na vida humana tornou-se discurso fácil, repetido à exaustão em painéis, encontros, colóquios, seminários acadêmicos, eventos governamentais que traçam as políticas públicas (de saúde, de educação, de infra-estrutura, de ação social, de emprego) e até na grande imprensa, numa mistura sensacionalista e conformista do tipo “salve-se no primeiro emprego que encontrar”, ressuscitando a máxima do “qualquer emprego é melhor do que nenhum80” ou, no caso de não encontrá-lo, agarra-se em algo que o mantenha vivo. E haja exemplos de superação nos telejornais e nos programas tipo pequenas empresas, grandes negócios.
O quadro fica muito propício para que os pensadores neoliberais, principalmente os economistas atrelados ao capital e os sociólogos devedores do Estado, que favorece a manutenção de um status quo inalcançável à maior parte dos outros trabalhadores, encontrem terreno fértil para plantar o desespero na maioria da população, que necessita do trabalho
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Como exemplo de reforma como adaptação ao livre mercado: o presidente da Fiesp, Paulo Skaf diz se referindo a Reforma sindical: “quando falamos em reforma, estamos querendo dizer menos Estado, mais
mercado; menos intervenção, mais livre negociação. O que queremos com a reforma é menos intervenção do Estado”. Jornal Nacional 16/03/2005.
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como única forma de tirar seu sustento, levando-a a que aceite mais passivamente sua sina de explorado e vilipendiado do capital.
Mas, por bem, nem só de pensadores neoliberais vive a crítica ao trabalho. Não é regra geral o postulado acima. Nem todos os teóricos que fazem da crítica ao trabalho sua barricada estão a serviço da reprodução do capitalismo. Na verdade, essa discussão pretende passar ao largo de tais teóricos. A discussão quer pautar-se no campo da esquerda, com os teóricos marxistas (revisionistas, na busca, muitas vezes necessária, de transcender Marx), que foram tomando gosto pela crítica ao trabalho como ontológico do ser social, vencidos pela angústia da busca pela superação do trabalho, enquanto exploração e/ou pelo marasmo fantasmagórico do contemporâneo transvertido nos fatos já mencionados.
Admitir, então, como largada da discussão, algumas das constatações como fato não significa dizer que não possam ser precipitadas/equivocadas algumas conclusões a que chegaram os inimigos do trabalho81. Incorporando várias nuances do contexto apontado, eles, grosso modo, atacam o trabalho em duas vertentes: 1. como única forma de produzir bens, consideram que a automação está prestes a se expandir a um nível absoluto, tornando a força de trabalho humana desnecessária ao próprio sistema capitalista; 2. de passagem, questionam o trabalho enquanto categoria ontológica. Em outras palavras, a crítica à centralidade do trabalho ultrapassa a crítica ao caráter de trabalho assalariado (emprego), forma como o trabalho se apresenta no sistema capitalista, isto é, a crítica chega à categoria trabalho, questionando seu sentido ontológico, como defendeu Marx.
Porém, em princípio, nota-se certa confusão na definição da categoria trabalho. Propositadamente, buscando confundir e/ou não enfrentar algumas questões que a empreitada exige, ou, simplesmente, por negligência teórica, nem sempre se estabelece de qual trabalho (ou relações de trabalho) se está falando, em qual sentido e em qual época histórica está pautada a crítica. Às vezes o trabalho é pego no geral, às vezes, é simplesmente a relação de emprego que é criticada.
Diante do que já foi exposto, com efeito, dois pontos básicos devem ser levados em consideração: primeiro, reafirmar o trabalho enquanto categoria ontológica; segundo,
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perceber os limites da crítica à superação do trabalho abstrato, pontuando suas contradições e suas conseqüências na luta pela superação do capitalismo.
Como ponto de partida, convém se ver que a crítica à centralidade do trabalho não é uma novidade recente. Apesar de não haver fôlego nesse momento para uma busca arqueológica das bases históricas do objeto estudado, vale dar uma passada histórica por algumas teorias que denunciam o trabalho, anunciam sua morte e apontam para a catástrofe ou para o paraíso.
A primeira delas – escolhida por sua posição histórica privilegiada, tanto pela época como por ter saído do quintal de Marx – surgida num momento de grande efervescência da classe trabalhadora, no final do século XIX, volta e meia, é relembrada, renovada, reaplicada ao sabor das tensões sociais do presente. A segunda tem como pano de fundo o maio de 68 francês e sua anarco-rebeldia contra o capitalismo. As outras duas já saem do contexto das profundas transformações no mundo do trabalho que, apesar de suas particularidades, são as que mais influenciam a discussão contemporânea.
Sendo assim, a discussão tem como itinerário inicial o século XIX estendendo-se até o final do século XX. A escolha, pessoal e arriscada, como toda escolha, planea construir relações entre o tempo e a crítica, fugindo das tentações anacrônicas de relacionar imediatamente uma coisa à outra, mas buscando sentidos entre as diferentes construções da crítica ao trabalho.