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144 Veja-se a referência a Act. 4, 32-37: “Esta Regra e Ordem de vida foy instituída, e ordenada por nosso

redemptor Jesu Christo, ho qual com seus apostolos e discipulos a teue e guardou e depoys da vinda do spirito sancto os apostolos a guardaram e todos aquelles que se conuertiam aa fé vendiam todo o que tinhão e offerecião aos apostolos ho preço e erao lhes todas as cousas comuuas e nehum tinha propio como se diz aos quatro capitulos dos autos dos apostolos” (Statutos e constituyções, fl. 11); sobre Jean Gerson: “Diz ho egregio doutor Joam de jarsão parisiensi que pera toda perfeiçam e guarda dos preceytos e conselho do euangelho que abasta a vida comua: dizese do doutro sancto agostinho que como quer que foi feito sacerdote que logo ordenou hu mosteiro de clerigos estabelecido sob a regra dos sanctos apostolos” (ibidem, fl. 11).

145 Esta parece ter sido uma das tendências mais marcantes da vivência religiosa do século XV, que se

reflectiu também nas formas de santidade que caracterizaram o final do período medieval. Veja-se, entre outros exemplos, os percursos biográficos de Nuno Álvares Pereira, infantes D. Fernando e D. Joana, Constança de Noronha, Brites Leitão, Beatriz e Amadeu da Silva: cfr. Maria de Lurdes Rosa, “A santidade no Portugal medieval: narrativas e trajectos de vida”, Lusitania Sacra, 2ª s., XIII-XIV (2001-2002), pp. pp. 429-450; os exemplos de Gonçalo da Silveira e Frei João de Ataíde estão na mesma linha, se bem que não tivessem alcançado as honras da santidade reconhecida pela Igreja (cfr. Maria de Lurdes Rosa, “Entre a corte e o ermo: reformismo e radicalismo religiosos (fins do século XIV-século XV)”, in História Religiosa de Portugal, vol. 1, Formação e limites da cristandade, pp. 498-505.

Depois de algum tempo realizando estas reuniões na igreja de S. Julião de Lisboa, João Vicente – que entretanto recebera a ordenação de presbítero – fez transferir o local dos encontros para as imediações da igreja de Santa Maria dos Olivais, no termo de Lisboa146. Este novo passo da congregação foi precedido de um momento de crise e de hesitação por parte de João Vicente, fundador principal, o qual, vacilando nas suas intenções iniciais, se dispôs a enveredar pela via religiosa, manifestando o desejo de ingressar no convento de S. Domingos de Benfica147.

Se os encontros em S. Julião preparavam já a fundação de uma nova família religiosa, o ingresso de João Vicente na ordem dominicana comprometeria definitivamente tal propósito. Talvez fosse por isso que o Novo Memorial recordava que João Vicente fora dissuadido da sua intenção por influência do seu companheiro Lourenço Anes. A mudança do local das reuniões para a igreja de Santa Maria dos Olivais tornou-se um factor de progresso em ordem à fundação da nova família religiosa, pois levou ao início da vida comunitária. Com efeito, a mudança possibilitou as condições materiais necessárias a essa realização. A paróquia de Santa Maria dos Olivais, no termo da cidade, era de criação recente e teria, talvez, mais possibilidades de sustentar a comunidade do que as freguesias citadinas, confinadas a uma estreita delimitação148. Esta circunstância terá permitido que João Vicente e os seus clérigos começassem a “abitar e edificar casetas e avião sua soportação de esmollas e outrosi cada hũ aquillo que lhe pertemcia de suas erãças oferecia e era todo destrebuido em comu~”149. Assinale-se uma nova referência, quase literal, aos textos dos Actos dos Apóstolos já acima citados. Iniciava-se, desta forma, a primeira experiência de vida comunitária que se configurou de imediato em moldes regulares. Vida em comum, partilha dos bens, aceitação de esmolas, testemunho do exemplo, eram, efectivamente, características básicas, no século XV, da vida religiosa, sobretudo de forma canónica. Os ideais de reforma do clero secular concretizavam-se, paradoxalmente, numa forma de vida à maneira regular. Não era aliás a primeira vez que isto acontecia na história da Igreja. Já anteriormente se tinha comprovado como a formação de comunidades de cónegos fora um instrumento ao serviço do clero reformado e a sua difusão no decorrer

146 Não é possível datar com precisão a mudança para os Olivais. Terá ocorrido em 1421 ou 1422. 147 Cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 87.

148 A paróquia dos Olivais fora criada nas terras do termo de Lisboa em 1397 pelo arcebispo de Lisboa D.

João Anes, com sede na igreja de Santa Maria dos Olivais (cfr. Maria Júlia Jorge, “Olivais (Sítio de)”, in Dicionário da História de Lisboa, pp. 667-670).

do século XII contribuiu significativamente para o desenvolvimento da reforma gregoriana150. As soluções propostas para a reforma dos seculares passavam invariavelmente pela associação e vida comum como forma de facilitar e garantir o cumprimento das obrigações de estado. Isolados tornava-se mais fácil sucumbir aos apelos mundanos. Não surpreende portanto que João Vicente e os seus companheiros procurassem uma forma de vida em comunidade, semelhante à dos religiosos, apesar de manterem o estado de clérigos seculares, associados a uma igreja paroquial e não tendo adoptado, por enquanto, nenhuma regra canonicamente aprovada,

O Novo Memorial não diz muito da forma como preenchiam o tempo nesta etapa dos Olivais151. Talvez mantivessem ainda as suas ocupações habituais, visto que, por ora, não residiam longe da cidade. Foi durante este período que Paulo de Portalegre, seguido depois pela cronística, situou o momento em que o arcebispo D. Fernando da Guerra recorreu aos serviços médicos de João Vicente152. Foi também por esta altura que João Rodrigues se associou ao grupo153.

A permanência nos Olivais prolongou-se por dois anos, provavelmente entre 1421 e 1423, após os quais um diferendo com o pároco obrigou a comunidade a procurar um novo local para se instalar154. A transferência para o Porto deve assim situar-se nos anos de 1422-23. João Vicente e os seus companheiros, com a ajuda de D. Vasco, bispo do Porto155, puderam estabelecer-se junto da igreja de Santa Maria de Campanhã156, no

150 Veja-se: Jean Chatillon, Le mouvement canonial au Moyen Age: réforme de lÉglise, spiritualité et

culture, Paris, Brepols, 1992; Des clercs au service de la reforme. Études et documents sur les chanoines réguliers de la province de Rouen, dir. Mathieu Arnoux, Tumhout, Brepols, 2000 e Les chanoines réguliers: émergence et expansion (XIe-XIIIe siècles): actes du sixième colloque international du CERCOR, Le Puy en Velay, 29 juin-1er juillet 2006, dir. Michel Parisse, Saint-Etienne, Publications de l‟Université de Saint-Etienne, 2009.

151 Em contrapartida, a crónica seiscentista estende-se em pormenores: tinham tudo em comum e pediam

esmola pelas portas para se sustentarem e repartirem pelos pobres; gastavam muito tempo na oração comunitária e em exercícios de penitência, entoavam na Igreja, a várias horas, o ofício divino, a que assistiam muitos leigos atraídos pela sua devoção. Pregavam e confessavam na cidade e nos arredores, especialmente Martim Lourenço e João Vicente, a quem era requerido com frequência que se deslocassem à corte (cfr. Francisco deSanta Maria, O Ceo Aberto na Terra, pp. 213-214). Muito provavelmente, o autor acentuou o formalismo desta disciplina em virtude do normal processo de institucionalização cerca de 200 anos depois da fundação.

152 Cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 89 e Francisco deSanta Maria, O Ceo Aberto na Terra, p.

217.

153 Cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 89. 154 Ibidem, p. 89.

155 D. Vasco sucedeu a D. Fernando da Guerra à frente da diocese do Porto e foi substituído nesse cargo

por D. Antão Martins de Chaves. A informação sumária que D. Rodrigo da Cunha oferece sobre o episcopado de D. Vasco foi retirada exclusivamente do capítulo VI do texto dos Statutos e constituyções dos cónegos de S. João Evangelista e refere a ajuda prestada por D. Vasco para a instalação dos cónegos na igreja de Campanhã. Com a transferência do bispo para Évora em 1423, os cónegos foram obrigados a abandonar esse local (cfr. Rodrigo da Cunha, Catálogo dos bispos do Porto. Adicionado, Porto, 1742, II

termo da cidade, um lugar mais apartado da agitação urbana, à semelhança do que tinham encontrado na freguesia dos Olivais. Aí se instalaram e retomaram as suas ocupações relativamente às quais, uma vez mais, não abundam as fontes. O Novo Memorial sintetiza em poucas linhas o que terá sido a sua actuação nessa temporada. Graças à “emxemplar e cõposta” vida de Mestre João Vicente, bem como aos “simgulares cõselhos de sua fisica” e à “fervente e mui doce pregação” de Martim Lourenço, foram evidentes os frutos que ocasionaram na cidade. “Muitos costumes geraes e mui bõs emxertarão e muitas pesoas emcaminharão ao serviço de Deos”. O apoio do bispo terá sido determinante não só no início da estadia no Porto, ao facilitar- lhes um lugar para se instalarem, como também na ajuda directa ao sustento da comunidade. Era ele que “hos mãtinha ou provia principalmẽte, como quer que doutras partes recebiã muitas esmollas”157. O período em que permanecem no Porto é aquele que o autor do Novo Memorial associou mais directamente à actividade da pregação, onde fizeram “mui espeso e evidente fruito e tall emxemplo e edificação semearão alli que ainda agora dura e se diz em aquela cidade que Mestre Joahann per sua vida e Marti Lourenço per pregação faziã milagres em aqueles dias”158.

Os historiadores que se debruçaram sobre a pregação medieval incluíram os cónegos lóios no elenco dos pregadores do século XV159, embora essas afirmações sejam, por via de regra, fundamentadas quase exclusivamente na crónica seiscentista de Francisco de Santa Maria que, como sabemos, carece de precisão em muitas passagens. parte, pp. 165-6). Deduz-se que não haveria muito mais a assinalar na breve passagem de D. Vasco pela diocese do Porto (ca. 1416-1423) e que a ausência de fontes não permitiu a D. Rodrigo da Cunha fornecer outros detalhes. O Novo Memorial acrescenta que D. Vasco fora regedor de justiça antes de ser nomeado bispo (p. 89). Mons. J. Augusto Ferreira, na sua obra sobre a cidade do Porto, não acrescenta nenhuma informação relevante sobre a figura de D. Vasco, para além de confirmar as datas da sua eleição e transferência para a diocese de Évora. Recorre à crónica O Ceo Aberto na Terra, para assinalar a relação de D. Vasco com a estadia de João Vicente e dos três companheiros na cidade do Porto durante o seu curto episcopado (cfr. Mons. J. Augusto Ferreira, Memorias Archeologico-historicas da Cidade do Porto (Fastos Episcopaes e Políticos), vol. 2, Braga, Livraria Cruz, 1924, pp. 20-23). Também Jorge de S. Paulo indica que João Vicente chegou ao Porto em 1423 (cfr. Epílogo e compendio, fl. 139).

156 Campanhã era uma freguesia do termo velho da cidade do Porto que estava integrada no couto do bispo

(cfr. Armindo de Sousa, “Tempos Medievais”, in História do Porto, dir. Luís A. de Oliveira Ramos, 3ª ed., Porto, Porto Editora, 2000, p. 158).

157 Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 90. 158 Ibidem, p. 90.

159 Nomeadamente: João Francisco Marques, “A pregação medieval portuguesa”, in Os reinos ibéricos na

Idade Média, coord. Luís Adão da Fonseca, Luís Carlos Amaral, Maria Fernanda Ferreira Santos, vol. II, pp. 617-618; José Marques, “A pregação em Portugal na Idade Média. Alguns aspectos”, Via Spiritus, Ano 9, Eremitismo na época Moderna: modos e lugares, 2002, pp. 317-347; Patrícia Anne Odber Baubeta, Igreja, pecado e sátira social na Idade Média Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995 [ed. inglesa 1992], p. 130 e “A pregação e a sociedade medieval portuguesa”, in Missionação Portuguesa e Encontro de Culturas. Actas, vol. I, Cristandade Portuguesa até ao século XV. Evangelização Interna, Ilhas Atlânticas e África Ocidental, Braga, 1993, pp. 279-299.

De qualquer forma, o testemunho mais fidedigno do Novo Memorial de Paulo de Portalegre permite confirmar, em parte, o que a crónica refere, embora não distinga entre o período inicial da congregação e o que se seguiu à sua aprovação canónica.

Com a nomeação de D. Vasco para a diocese de Évora em 1423, a comunidade recém instalada no Norte perdeu o seu benfeitor e teve de abandonar a igreja de Campanhã, o que pode indiciar algum desentendimento entre os futuros lóios e o clero local. O bispo tentou que o acompanhassem na sua nova diocese mas não os conseguiu aliciar, nem mesmo com promessas de continuar a apoiá-los nessa cidade160.

A necessidade de obter uma sede definitiva tornava-se cada vez mais premente. Sempre que a comunidade se transferia, algum dos elementos que a integrava desistia dos seus propósitos. Quando se mudaram de Lisboa para o Porto, João Anes optou pela vida eremítica no oratório de Mendoliva161. Agora, desejando prosseguir os seus estudos, ausentavam-se Martim Alho e Afonso Nogueira, o primeiro abandonando definitivamente o projecto, o segundo afastando-se temporariamente162. Martim Lourenço também conheceu neste momento uma certa hesitação e optou por regressar a Lisboa, se bem que, segundo o Novo Memorial, tivesse em mente continuar, por sua conta, a trabalhar nos assuntos da congregação163.

As dificuldades que surgiram no Porto, e que levaram à interrupção da vida comunitária, coincidiram com a estadia em Portugal do abade Gomes para realizar a reforma dos mosteiros beneditinos, ocorrida entre 1424 e 1426. Martim Lourenço e Afonso Nogueira, que regressaram por estas datas a Lisboa, tiveram muito provavelmente oportunidade de o contactar. Por sua vez, Mestre João Vicente, acompanhado de João Rodrigues, dirigiu-se a Braga na esperança de aí encontrar uma solução mais estável para a comunidade, pensando recorrer para isso ao poderosíssimo arcebispo D. Fernando da Guerra164. Acentuava-se, entretanto, o clima de tensão nas relações entre a coroa e a Igreja e, enquanto uns elementos do grupo se aproximavam da corte e acompanhavam as iniciativas de reforma desenvolvidas a partir desse âmbito, outros, pelo contrário, recorriam a D. Fernando, principal adversário da coroa e representante por excelência do clero tradicional ferido pelas recentes “leis jacobinas”.

160 Cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 90. 161 Ibidem, p. 88.

162 Ibidem, pp. 91-92. 163 Ibidem, p. 91. 164 Ibidem, p. 91.

Mas não era só a falta de uma sede definitiva que impedia o desenvolvimento da congregação. A vida comunitária não se podia manter sem um enquadramento canónico mais definido. Até ao momento, o seu carácter informal aliava-se a uma absoluta precariedade. Para garantir a estabilidade, era impossível permanecer à margem da normalização. Outras experiências religiosas desta época sofreram dificuldades semelhantes165. João Vicente compreendera que a sobrevivência da comunidade dependia da sua institucionalização e do apoio da hierarquia. Deve ter tomado consciência de que sem a protecção de um bispo nunca conseguiria concretizar os seus ideais; e que lhe era igualmente necessário obter uma sede material, fontes de rendimentos e um título jurídico.

165 Entre nós o exemplo mais claro talvez seja o percurso seguido pelos eremitas da Serra de Ossa,

forçados a assumirem um enquadramento institucional para o qual, inicialmente, não estariam vocacionados (cfr. João Luís Fontes, “Ordem de São Paulo Primeiro Eremita”, in Bernardo Vasconcelos e Sousa (dir.), Ordens Religiosas em Portugal: Das Origens a Trento, pp. 129-132).

C A P Í T U L O I I I – F U N D A Ç Ã O