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4. Estat de l’art

4.3. Tipus de jocs

Os caminhos literários sempre estiveram entrecruzados pelos caminhos transitados por Ester Nunes Bibas, considerando-se que o exercício da leitura e da escrita poética aconteceu

ainda nos tempos de criança, graças á interferência do dinamismo literário desde os anos oitocentistas no município da Vigia, cidade de origem desta escritora e como resultante da atuação e do destaque de homens de letras, poetas e escritores no cenário vigiense.

A existência de uma elite intelectual na cidade de Vigia se faz presente desde o século XIX, e esteve associada ao processo de colonização portuguesa desta cidade, considerada como a mais antiga no estado do Pará, fundada em 06/01/1616, data anterior à fundação da cidade de Belém; assim como, ao trabalho das Ordens religiosas neste território. De maneira expressiva, a atuação da Companhia de Jesus, pela contribuição na formação religiosa, cultural e educacional prestada aos habitantes nativos, os habitantes da aldeia de Uruitá, os índios Tupinambás e seus descendentes.

Os jesuítas criaram estratégias formativas, ainda que, num contexto rudimentar de educação, possibilitaram nesta comunidade ribeirinha a constituição de leitores. Assim, uma ação educativa importante para o desenvolvimento cultural e político desta comunidade. Vigia se tornou vila em 25 de agosto de 1697 e eleva-se a condição de município, nos meados do século XVIII, em 1734, com destaque na Costa Oriental do estado do Pará.

A grande contribuição deixada pelos jesuítas se refere ao desenvolvimento da educação escolar, pautada em valores de civilidade às populações indígenas, vistas então, sob a condição de “selvageria”. Neste sentido, a ordem jesuítica desenvolveu um trabalho evangelizador e colonizador, “capaz de uniformizar o ensino para além da catequização. Os religiosos construíram suas ações na educação de forma geral, buscando uma unificação no que diz respeito, principalmente, ao ensino religioso e a um nivelamento do ensino das primeiras letras” (ARAUJO, 2011, p. 33).

Um legado deixado pelos jesuítas e de outras irmandades em Belém em aldeias, vilas e cidades pela criação de colégios rudimentares para o ensino escolar e religioso. Segundo Clóvis Meira e José Ildone (1990), os religiosos tiveram a preocupação de reunir, ensinar o alfabeto, as primeiras letras, a escrita, num trabalho que foi se ampliando com a criação de seminários, colégios e bibliotecas com acervos para leitura, destinados para os alunos e para a comunidade em geral. Um empreendimento, ainda que, de forma rudimentar no início, mas que com o passar dos anos se transformou em importante legado para o desenvolvimento cultural de Belém e da cidade de Vigia. Observando-se, nesse processo formador, o disseminar de uma cultura letrada, a partir do acesso a livros de diferentes saberes, que se aliavam as certezas religiosas trazidas pelo catolicismo na Amazônia. Uma atuação que, de forma mais localizada, fez surgir na Vigia, uma elite letrada, no decorrer dos séculos XVIII e XIX.

O cenário cultural, literário e intelectual vai demarcar a história da cidade de Vigia no decorrer dos anos oitocentistas e que se intensifica pelo clima trazido pelos ideários republicanos e da Belle Époque, vivenciados pela cidade de Belém e Manaus. Momento de mudança de hábitos, costumes e o empenho em busca de uma educação e de formação cultural como vetores para o alcance da modernidade e dacivilidade.

Neste cenário de grandes mudanças, os intelectuais e escritores ganham visibilidade pela divulgação e circulação de suas ideias, escritos e livros, tornam-se participantes de clubes, sociedades literárias e pontos de encontros de escritores que passam a discutir, a trocar ideias e a se posicionarem diante do contexto de “efervescência” da vida social e cultural na região. Vigia “foi impulsionada a um desenvolvimento pautado em bases urbanísticas, sociais e culturais, requerendo para si o mesmo clima de euforia, de civilidade e de modernização presentes nas grandes cidades” (ARAUJO, 2011).

No contexto vigiense surge a Sociedade Literária e Beneficente Cinco de Agosto em 01 de Outubro de 1871, sendo instalada em 05 de julho 1872. Seus fundadores eram políticos, escritores, jornalistas, professores, oradores, e nesse empreendimento, tencionavam proporcionar um ponto de encontro da elite intelectualizada e nesse desejo, trazer para a cidade de Vigia os “ares de intelectualidade”; pois, a finalidade primeira dessa associação se voltava para a publicação de obras literárias, textos referentes à política, à região ou de cunho científico. Entretanto esta sociedade literária promoveu ações educativas, culturais e de ajuda beneficiente à comunidade local.

Inicialmente, esta sociedade associava apenas homens letrados e de renome junto a comunidade local, que publicaram suas produções literárias, textos referentes a política, a religião ou no âmbito cientifico.

Entre os nomes que figuram na liderança o movimento para a fundação da sociedade, destacam-se os de Francisco Ferreira de Vilhena Alves, Márcio Ribeiro, Lauriano Gil de Sousa, Manoel Felipe da Costa, Francisco de Moura Palha. Gerôncio Alves de Melo, Abrahão Athayde, Quintino de Araújo Nunes e Seu

irmão Bertoldo Nunes (tios de Ester Nunes), os padres Mâncio Caetano Ribeiro,

Argentino Maria de Oliveira Pantoja, Manoel Evaristo Ferreira e [...] outros, apagados pela história e pelo tempo (ARAÚJO, 2011, p. 39).

A Sociedade Literária e Beneficente Cinco de Agosto objetivava distribuir a educação, o esclarecimento e benefícios ao povo, aos associados e seus dependentes, como, por exemplo, a destinação de recursos, em casos de enfermidade, e financiamento de despesas fúnebres, em decorrência de falecimento; apoiar a cultura e motivar o amor aos valores locais. Outra atividade essencial era promover, em parceria com a paróquia, o Círio de Nazaré,

colaborando para a expansão da fé católica. A parte educacional seria exercida através da implantação de uma Escola Primária e de um Externato (estabelecimento de ensino onde só há alunos externos, ou seja, que não são residentes), para levar instrução gratuita à população local.

A Sociedade “Cinco de Agosto”, criada há 144 anos, promoveu visibilidade e atribuiu autoridade e status institucional aos intelectuais vigienses:

Àqueles que pertenciam a ela. reunidos em torno dela, esses homens desejavam introduzir e ampliar seus padrões culturais, buscando até mesmo elaborar para si uma identidade enquanto grupo que compartilhava os mesmos prazeres intelectuais, integrando-os em torno de uma instituição. Em outras palavras, as Sociedades Literárias, entre as quais a “Cinco de Agosto”, acabaram criando uma forma de sociabilidade e expressão para uma elite heterogênea, que tinha em Paris seu maior espelho (SOEIRO, 2011, não paginado).

O trecho, transcrito pelo atual presidente da então, Associação Cinco de Agosto, Igor Soeiro (2011) na passagem dos 140 anos de fundação da Sociedade Literária e Beneficente “Cinco de Agosto” revela a participação e o reconhecimento de homens letrados da cidade de Vigia, enquanto uma elite intelectual ilustrada pelos valores e saberes civilizatórios parisienses.

Ester Nunes Bibas, a partir do ambiente cultural e literário da cidade de Vigia e a participação de familiares na liderança da Sociedade Literária e Beneficente Cinco de Agosto, desde a infância manteve proximidades com o mundo letrado e do exercício da escrita e em 1902, se torna sócia desta Sociedade Literária vigiense. Acontecimento registrado no livro de sócios desta sociedade. Informação localizada por Paula Maíra Cordeiro, em pesquisa realizada em 2016.

Aos 14 anos ainda se é muito nova para conviver em espaços restritos aos intelectuais da época. As mulheres (nesse momento) também não possuíam muito espaço nesses locais, compostos em sua maioria, por homens, em virtude da sociedade patriarcal, fortemente presente ainda no século XX (CORDEIRO, 2016, p. 12).

O que demonstra um reconhecimento a respeito da precoce intelectualidade de Ester Nunes no mundo da escrita literária. Ainda que, contando com o apoio e a influência familiar, Ester se insere no mundo das letras, como campo inicial para registrar seus pensamentos, sentimentos expressos em suas escrituras, publicadas na sociedade Literária Cinco de Agosto e em jornais locais, como O Vigiense, Folha do Norte, Estado do Pará, A província do Pará. E publica a obra literária “Rimas do Coração” em1958.

Os escritos literários de Ester Nunes Bibas revelam o “lugar social” de onde a autora fala, e se deixa perceber como mulher, sua localização em relação ao pertencimento social, em relação à classe, etnia, escolaridade e a questão de gênero, enquanto mecanismos demarcadores culturais que demarcavam as representações de ser mulher. Nos quais, a escritora transita em suas bordas e fronteiras.