• No results found

T ILTAKSPLAN

7 Tiltaksplan

1.2.1. Utilização da secção celulósica em betão leve

Inicialmente as fibras de cânhamo eram utilizadas como reforço de blocos de argila, actualmente têm sido aplicadas no reforço de produtos à base de cimento, desde betões, argamassas, blocos e placas. No betão não estrutural à base de fibras de celulose de cânhamo, estas fibras são activadas alcalinamente por cal em água, sofrem um processo de mineralização, referido como petrificação.

Rute Maria Gonçalves Eires

28

As fibras de cânhamo não são apenas absorventes, elas são também invulgarmente ricas em sílica, um composto químico naturalmente presentes na areia e na pedra. O elevado teor mineral torna as fibras de cânhamo numa das mais interessantes aplicações: construção. As fibras de cânhamo misturadas com cal sofrem um processo de mineralização, por vezes referido como “petrificação” (transformando-se em pedra).

[54]

Este tipo de construção tem vindo a ser estudado e aplicado em vários países, sobretudo em França, Reino Unido e Alemanha. Conhecem-se inúmeras composições baseadas na utilização da cal, estas constam de diferentes tipos de cal, aérea ou hidráulica e diversos aditivos empregues em percentagens distintas. Entre estes aditivos encontram-se o gesso, materiais pozolânicos, cinzas volantes, pó de pedra, cimento e o agregado fino convencional, a areia. Existem, no entanto, aditivos que permanecem em segredo pelos investigadores e fabricantes por razões comerciais.

Figura 8 – a e b Construção e revestimento de paredes com betão leve de cânhamo industrial [34]

A construção em cânhamo é realizada de diversos modos como por exemplo na realização de paredes interiores e exteriores, substituindo de uma só vez, a convencional parede de tijolo, incluindo a barreira ao vapor, o isolamento térmico ou acústico e revestimentos como o gesso cartonado. Esta pode ser realizada mediante uma aplicação in situ com cofragem que permita uma compactação por camadas ou por utilização de blocos pré- fabricados à semelhança do betão leve cimentíceo. É conhecida também a sua aplicação na reabilitação de pavimentos cobrindo o pavimento antigo ou na regularização de pisos pela sua já referida leveza. Como acabamento, apenas necessita de uma pintura, tal como a

Rute Maria Gonçalves Eires

29

construção convencional, mas é recomendada a pintura de cal com ou sem pigmentação ou a aplicação de verniz no caso de paredes interiores, permitindo o transparecer da textura original do material. Note-se que é aconselhável a aplicação de recobrimentos que mantenham a capacidade de passagem ao vapor de água que é uma característica deste processo de construção.

O que torna esta construção excepcional em relação à convencional, além de ser de origem biológica e de carácter ecológico, é precisamente a capacidade de permitir a respiração natural do edifício, prevenindo a ocorrência de condensações. Assim como a sua capacidade de absorção e resistência à água, sem impermeabilização. O referido isolamento térmico e acústico é proporcionado pelo elevado teor em sílica e porosidade de todo o material. A sua flexibilidade e capacidade de ajuste aos movimentos, próprios de qualquer construção, evitam o aparecimento de fracturas. A sua leveza torna este tipo de material benéfico sobretudo para reabilitações e situações onde seja necessário isolamento sem elevar o peso próprio da construção. Para além de não ser inflamável nem libertar fumos tóxicos e ser resistente a insectos, fungos e bactérias. Esta característica bactericida é uma mais valia em relação a outras construções, mesmo as não convencionais, como a construção em terra crua ou em fardos de palha.

Desempenho mecânico e físico

Segundo estudos do “Building Research Establishment”, BRE [65], foram verificados os seguintes comportamentos na construção em cânhamo e cal hidráulica com revestimento de argamassa e pintura, ambas de cal:

ƒ Desempenho mecânico – As resistências à compressão deste sistema construtivo encontram-se, em média, entre 0,2 e 0,5Mpa (ver quadro 5).

ƒ Desempenho térmico – O estudo de monitorização térmica em quatro casas com paredes deste material, durante os meses de Dezembro a Abril, verificou-se que estas se mantinham, de forma constante, com mais um ou dois graus acima em comparação com as casas de tijolo convencionais.

Rute Maria Gonçalves Eires

30

ƒ Desempenho acústico – As paredes de cânhamo apresentam uma redução de 6dB em relação à construção convencional.

ƒ Resistência ao fogo – Foi verificado que não existe degradação do material até 4 horas de exposição a temperaturas superiores a 1800ºC.

ƒ Absorção de água – Com a simulação da acção de uma pluviosidade de 210ml/hr sobre uma secção de parede de 20cm de espessura verificou-se que passadas 24 horas apenas tinha absorvido de 2 a 4 cm. Do mesmo modo após 96 horas apenas se registou 5 a 7 cm de absorção.

Quadro 5 – Propriedade físicas da construção em cânhamo [20]

Propriedade Símbolo Unidade Telhado Paredes Chão Revestimento

Porosidade ns [%] 53 46 43 20

Teor de água Wnorm [%] 6.9 6 5.7 4.2

Massa Volúmica ρnorm [kg/m3] 285 445 530 990

Coeficiente de resistência para a difusão de vapor de

água

μ [-] 6 6-12 6-12 12

Coeficiente de

conductividade térmica λnorm [W/m°C] 0.13 0.17 0.19 0.34

Resistência à compressão Rc [MPa] 0.2 0.4 0.5

Deformação na rotura εc [%] 14 6 5.5

Modulo de elasticidade E [MPa] 3 24 26

Coeficiente de absorção acústica 500 Hz α500 [-] 0.82 0.65 Coeficiente médio de absorção NRC [-] 0.76 0.66 Inflamabilidade M1 Material não inflamável M0-M1 M0-M1 M0 Material não combustível

Resistência ao gelo-degelo [ciclos] 20 20

Avaliação do ciclo de vida, ACV

A utilização deste tipo de construção minimiza a libertação de CO2 e de materiais tóxicos,

Rute Maria Gonçalves Eires

31

crescimento significativo da produção agrícola pelo cultivo anual da planta, sendo uma ecologia alternativa à desflorestação existente actualmente. Como não são utilizados agregados convencionais ou estes passam a ser considerados aditivos introduzidos em menores quantidades, passa a ser minorada a extracção mineral cujo impacto é bem conhecido. A energia consumida está presente durante a plantação, colheita e na extracção das fibras exteriores que são de reduzidos gastos energéticos e não necessita de processos químicos. Durante a fase de transporte também a energia e os custos são menores uma vez que o material é dotado de uma alta leveza. Além disso, perante uma necessidade de demolição, a natureza orgânica do material permite a sua biodegradação minorando o impacto ambiental em relação à construção convencional [18].

1.2.2. Utilização de fibras como isolamento

As fibras exteriores do cânhamo são utilizadas como isolamento térmico e acústico em edifícios pelo seu coeficiente térmico muito baixo, cerca de 0,047 a 0,058W/m.ºC, dependendo do grau de compactação. Este material resulta unicamente da união aleatória de fibras de cânhamo, ligeiramente comprimidas, formando placas flexíveis, sem qualquer tipo de ligante, apenas estão sujeitas a um tratamento anti-fogo.

Figura 9 – a e b Isolamento e c compósito de fibras de cânhamo industrial [37]

Mediante compostos de fibras de cânhamo com resinas naturais ou sintéticas é possível obter desde MDF (Médium Density Fiberboard) a bio-plásticos, obtendo placas, ou até mesmo vigas e varões semelhantes ao aço, e produtos moldados como mobiliário. Estes compósitos são fabricados recorrendo a sistemas de compressão adequados e uma cura térmica a elevadas temperaturas [59].

Rute Maria Gonçalves Eires

32

2. A cortiça e o granulado obtido da sua transformação